Em apenas nove dias, a Marinha ucraniana atacou 116 navios com ligações a Moscovo. Além da frente de batalha e no combate nos céus, a Ucrânia apostou, nos últimos dias, numa nova estratégia: atacar as embarcações russas que navegam no Mar de Azov, que, em teoria, é controlado pela Rússia. As forças ucranianas estão a obrigar a Rússia a alterar as rotas marítimas, diminuindo pelo meio o poderio naval do Kremlin.

Esta sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, acusou a Ucrânia de “puro terrorismo” ao levar a cabo estes ataques. “O que o regime ucraniano está a fazer já nem sequer pode ser qualificado como pirataria, porque os piratas saqueiam e ficam com o saque. Mas aqui o objetivo é apenas causar danos e intimidar”, afirmou o chefe da diplomacia russo, em declarações divulgadas pela agência de notícias russa TASS.

O ministro russo descreveu as ações ucranianas como “puro terrorismo” e garantiu que Moscovo está a trabalhar “para neutralizar as ameaças que a Ucrânia representa para a livre navegação nos mares de Azov e Negro”. “O Presidente Vladimir Putin está a trabalhar para pôr fim a tudo isto”, garantiu Sergei Lavrov, no final de uma reunião com o homólogo do Chade, Abdoulaye Sabre Fadoul.

Em declarações à Reuters, fonte militar da Ucrânia assegurou que as Forças Armadas do país apenas “atacam alvos militares ou alvos que contribuam para fortalecer a capacidade de combate da Rússia”. Kiev garantiu que as embarcações civis não são atacadas e ataca as declarações russas: “Ao falar em ataques a civis, a Rússia está a procurar um pretexto para justificar os seus ataques cínicos contra a infraestrutura civil ucraniana”.

Esta terça-feira, a Ucrânia confirmou que as unidades de drones do exército ucraniano atingiram mais cinco petroleiros russos, quatro navios de carga e um rebocador no mar de Azov na última noite. O comandante das Unidades de Drones das Forças Armadas ucraniano, Robert Brovdi, disse que, em nove dias, foram atacadas 116 embarcações da chamada “frota fantasma”.

Robert Brovdi referiu que as embarcações alvo da campanha no mar de Azov — um mar interior separado do mar Negro pela península da Crimeia, ocupada pela Rússia — são de pequena a média dimensão. A Rússia utiliza estas embarcações para transportar petróleo bruto destinado à exportação até navios-tanque de maiores dimensões, que não conseguem entrar nos portos do mar de Azov devido à dimensão.

O responsável ucraniano observou que são necessários entre 12 e 15 destes pequenos navios-tanque, atualmente atacados pela Ucrânia no mar de Azov, para encher um dos grandes navios que recebem as transferências de petróleo no mar Negro. Além de reduzirem a capacidade da Rússia de realizar operações de transferência de crude para exportação no mar Negro, acrescentou Robert Brovdi, os ataques privam a Rússia dos petroleiros necessários para transportar combustível por via marítima para a Crimeia.

A península já sofre de uma grave escassez de recursos estratégicos após ataques ucranianos anteriores à infraestrutura logística e energética russa. Robert Brovdi indicou que os ataques aos navios-tanque estão a obrigar a Rússia a aumentar o transporte de combustível por ferrovia e rodovia, meios de transporte também vulneráveis aos ataques de drones ucranianos.

Ao mesmo tempo, a navegação está restrita nos últimos dias, segundo apurou a Reuters. As embarcações que navegam no Mar de Azov não conseguem sair nem através do Estreito de Kerch, nem pelo canal Azov-Don, que conecta o mar ao Rio Don. Oficialmente, a Rússia não confirmou estas informações.

Num comunicado divulgado esta terça-feira, o Ministério da Agricultura da Rússia apenas confirmou que as rotas que passam pelo Mar de Azov podem ser desviadas. “Dada a significativa capacidade da Rússia para realizar o transbordo de cargas agrícolas em várias regiões, a logística de abastecimento será redirecionada, se necessário”, indicou a tutela.

Nos últimos três meses, a Ucrânia intensificou substancialmente os ataques com drones de curto e médio alcance, atingindo dezenas de alvos militares e estratégicos russos todas as noites, tanto na Crimeia como nas zonas ocupadas do sul do território continental ucraniano.