“Sou um sortudo”. É assim que se define o passageiro que foi sugado durante um voo da Ryanair a 10 de julho, e que teve alta hospitalar há cinco dias. É a segunda pessoa do mundo a sobreviver a um episódio deste tipo.

Ao jornal britânico The Guardian, Ljubisa Karović revelou que não tem muitas recordações do incidente, mas lembra-se do som do estrondo da janela a partir-se, enquanto estava a dormir. É esse ruído que ainda o persegue todas as noites. “É o ruído que precede o caos, o ruído que está sempre presente quando fecho os olhos para dormir”, lamenta.

O passageiro, de cidadania sérvia, encontra-se a repousar numa casa alugada em Katerini, na Grécia, com um colar cervical a segurar a cabeça e marcas de hematomas e queimaduras no braço direito, que se estendem até à axila e ao peito.

“Não me lembro de muita coisa e a minha cabeça e pescoço ainda doem, mas estou vivo”, sublinha, afirmando que o cinto de segurança lhe pode ter salvo a vida. O advogado, Vasilis Tsiaras, afirma que, dadas as circunstâncias, Karović “sobreviveu por acaso”.

“A 15.000 pés [4.572 metros] de altitude, ele acabou com a sua cabeça e o braço direito fora da aeronave que voava a uma velocidade de mais de 600 km/h. Imaginem isto! Ele olhou para a morte, para o outro mundo e voltou”, sublinha o advogado.

O incidente ocorreu a 10 de julho, durante um voo de Salónica para Memmingen, na Alemanha, onde o cidadão sérvio ia comemorar o aniversário do irmão. Durante o voo, a janela partiu-se e Karović foi sugado, tendo ficado com a cabeça e os ombros fora do avião. Foram os restantes passageiros que o ajudaram a puxar de volta, tendo um deles tapado a janela com uma mala.

Karović desmaiou quando estava fora do avião e mais duas vezes dentro da aeronave, tendo ficado com o rosto “brevemente inchado e deformado por causa da pressão”. “A minha mulher lembra-se disso”, refere.

Ao todo, o momento terá durado entre minuto e meio e dois minutos, segundo a mulher, Svetlana. “Corri para lá também. Nenhum dos comissários de bordo ajudou. Foram os passageiros”, denuncia a mulher, que ainda se recorda do vidro a partir-se, de objetos a voar dentro do avião e das máscaras de oxigénio a caírem.

O advogado defende a denúncia, sublinhando que “em nenhum momento a tripulação se ofereceu para ajudar“, quer durante o momento em que o passageiro foi sugado, quer quando Karović desmaiou. Segundo Tsiaras, os comissários de bordo ficaram em estado de choque “com medo de que o avião fosse cair”. Além disso, apesar de a companhia aérea ter afirmado na segunda-feira que estava em contacto com a família, a Ryanair apenas falou com o filho, que reservou a viagem. Nem Karović, nem a mulher, foram contactados.

No entanto, não contestam a atuação do piloto que “seguiu os protocolos de segurança e lidou muito bem com a situação”, refere Tsiaras.

A Ryanair rejeita as acusações, garantindo ao The Guardian que a tripulação prestou assistência ao passageiro, “transferiu-o para um lugar alternativo (ao lado da sua mulher) e disponibilizou um médico a bordo para ficar com eles até que a aeronave pousasse em segurança em Salónica”, onde recebeu assistência médica de emergência.

Ljubisa Karović considera ter direito a uma indemnização pelos danos causados. A recuperação será lenta e terá de usar colar cervical durante, pelo menos, seis semanas.

“Há imagens que voltam, o barulho da explosão, o caos, mas eu quero recuperar-me”, afirma, tendo aconselhado toda a gente a usar cinto de segurança. “Não quero que ninguém sofra o que eu sofri”, conclui.

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