A reunião do Conselho do BCE, na qual os governadores votaram pela manutenção das taxas de juro, terminou 15 minutos depois de terem sido conhecidos os ataques a dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, reivindicados pelos houthis. “É alarmante”, declarou Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), e vai ter consequências.
E, por isso, manter as taxas de juro do BCE inalteradas não levou em linha de conta esse acontecimento. À medida que Christine Lagarde ia explicando a decisão do BCE, em conferência de imprensa, o brent tocava nos 100 dólares. Mas o BCE não vê, para já, efeitos de segunda ordem no choque de energia. Ainda não os vê. Mas assegura que ficará atento.
Face aos desenvolvimentos da guerra no Médio Oriente é um dado quase adquirido pelos analistas que, em setembro, o Banco Central Europeu não terá outra alternativa que não seja a de voltar a subir as taxas de juro diretoras, depois da pausa de julho. Até porque, como sinalizou Lagarde, deixaram de estar equilibrados os riscos de alta e de baixa para as perspetivas de inflação e crescimento económico, como declarou em Sintra. Os riscos são, agora, no sentido ascendente para a inflação e descendente para o crescimento. “Uma clara mudança para uma postura mais restritiva”, salienta, em comentário após a conferência do BCE, o ING.
Não havendo um compromisso predefinido quanto ao caminho a seguir nas taxas de juro, e depois de uma decisão unânime de manter as taxas — numa reunião, no entanto, em que houve governadores a questionarem se o BCE não deveria já aumentá-las novamente –, a 10 de setembro em Berlim deverá ser declarada nova subida dos atuais 2,25% da taxa de depósitos.
Como tem dito, o BCE está dependente dos dados e terá uma abordagem “reunião a reunião”. Há até sinais benignos, declarou Lagarde, sistematizando: a taxa de inflação em junho desacelerou face a maio, a atividade económica recuperou, a indústria está a aguentar-se, o setor dos serviços digitais está a recuperar pela inteligência artificial. Só que “a incerteza é alta e o impacto total do choque de energia ainda está por acontecer”. E pode até intensificar-se.
Muito reside no conflito do Médio Oriente. Se for resolvido de forma consistente — depois da reunião de junho, nos encontros de Sintra a expectativa era a de que o conflito estivesse resolvido –, ou se o mercado se ajustar mais rapidamente, a economia até pode crescer mais do que o antecipado. A inflação, que é a que o BCE quer estabilizar na casa dos 2%, a médio prazo, também pode descer por essa via ou se os impactos forem menos severos ou ainda se a volatilidade e os riscos financeiros atingirem a procura. Só que também há riscos a pressionar a subida de preços, além do Médio Oriente. Lagarde aponta o clima como um desses fatores, recordando a onda de calor que se sente na Europa, e que pode vir a ter impacto nos preços dos alimentos.
Na reunião desta quinta-feira o BCE esteve a olhar “para os dados disponíveis e a olhar para o que tem acontecido desde junho” e sem mudar as taxas resolver voltar a esse momento, já que os desenvolvimentos voltaram a ser negativos. “Aplicamos o mesmo método”, realçou a presidente do BCE, sistematizando que a entidade olha para a “densidade, durabilidade e propagação dos choques de oferta. Foi o que nos conduziu à decisão de aguentar as taxas”.
Ninguém pressionou a subida de juros, mas se na reunião anterior foi óbvia a decisão de subir, agora não foi assim tão óbvia a decisão de manter. Houve governadores a questionar se não deviam subir-se novamente as taxas.
“Tivemos uma boa visão dos dados e dos desenvolvimentos e todos decidimos unanimemente que devíamos esperar”, até porque a reunião de setembro acontecerá já depois do anúncio de uma bateria de dados da zona euro, nomeadamente inflação, PIB, confiança dos consumidores, compra das empresas, entre outras. “Uma lista longa”, mas “dá-nos a indicação do volume de dados que teremos e a abrangência das indicações que queremos absorver de forma a aplicar reativamente na decisão”.
Mas, para já, Christine Lagarde assegura que ainda não estão a ser detetados “efeitos de segunda ordem” pela subida dos preços da energia, como o impacto na subida salarial, pelo contrário. Há efeitos diretos e indiretos (como no preço dos transportes), mas não de segunda vertente. “Estamos a escrutinar a emergência dos efeitos de segunda ordem e não estamos a vê-los”, assegura, não dando mais indicações.
Questionada, em conferência de imprensa, mais uma vez sobre a sua permanência à frente do BCE até ao fim do mandato, em outubro de 2027, Christine Lagarde deixou apenas a certeza de que “não me verão pelas costas antes de 2027”. E, citando-se a si própria, asseverou: “enquanto houver nuvens no horizonte o capitão fica no barco e este capitão vai ficar no barco enquanto houver nuvens no horizonte”. Mas mesmo que saia antes, sinalizou o ING, “o impacto na política monetária será muito limitado. De facto, Lagarde não é vista pelos mercados como a cabeça do BCE, que determina as decisões de política por si própria, mas antes uma moderadora que conduz as discussões e as decisões de política”.