A procuradora responsável por coordenar a Operação Pacoba — que resultou no desmantelamento de uma alegada rede de tráfico de droga — emitiu um despacho no final de 2024 a ordenar que os produtos químicos apreendidos fossem destruídos. No entanto, a ordem não foi cumprida pela Polícia Judiciária (PJ), por razões que ainda não são claras, e os químicos acabaram nas instalações da empresa de construção civil de João Carvalho, o homem no centro da polémica a envolver o ministro da Administração Interna, Luís Neves, sendo apenas recuperados há cerca de semana e meia pela PJ.

De acordo com o Expresso, a procuradora ordenou à PJ em dezembro de 2024, no rescaldo da Operação Pacoba, que destruísse os 12.400 litros de acetato de etila e hexano — ambos solventes inflamáveis usados para fabricar droga sintética — presentes dentro de 62 bidões apreendidos.

Quando o MP ordena a destruição de material apreendido, essa responsabilidade recai sob a PJ, que recorre a empresas especializadas para esse efeito, consoante a natureza do material apreendido. No entanto, adianta o semanário, a PJ não consumou essa ordem e, como noticiou o Observador no dia 18 de julho, os bidões foram encontrados a 14 de julho nas instalações da Construbarcelos, a empresa do amigo do ministro da Administração Interna, Luís Neves.

Químicos para produzir droga da “Operação Pacoba” estavam dentro da empresa do amigo de Luís Neves

Estes precursores químicos foram apreendidos em conjunto com o atrelado que os continha. No entanto, no decurso da recuperação do atrelado, a PJ verificou que os bidões já não se encontravam no interior da galera e, sim, dentro das instalações da Construbarcelos. Entretanto, o Expresso avança que o material já foi levado para um espaço na cadeia de Tires na dependência da Judiciária.

Até agora, não foram dadas explicações para os 12.400 litros não terem sido destruídos, nem para o facto de terem sido transportados das instalações da Marinha — no Seixal, onde se encontravam —, para a Construbarcelos, alegadamente por funcionários da PJ.

A descoberta do atrelado na posse de João Carvalho, o empresário detentor da Construbarcelos, levou a PJ a instaurar um inquérito para “apurar as circunstâncias da alegada movimentação, que poderia confirmar a prática de ilícitos criminosos”. O inquérito foi validado pelo Ministério Público e a investigação é feita pelo DIAP Regional de Lisboa.

Entretanto, alguns dados recolhidos pela polícia criminal sugerem que a movimentação do atrelado e do material que nele constava foi autorizada por Luís Neves, que à data do caso era o diretor nacional da PJ. Segundo apurou o Observador, a movimentação do atrelado terá ocorrido na sequência da disponibilidade demonstrada por João Carvalho para destruir parte destes químicos apreendidos, mas não foi até agora esclarecido como é que o empresário terá tido conhecimento dessa necessidade da PJ.

Também o Expresso avança que a investigação acredita que a ordem do transporte terá partido de Neves, apesar de a PJ não ter encontrado, para já, qualquer ordem escrita a autorizar o transporte. Entretanto, Luísa Proença, ex-diretora nacional adjunta da Polícia Judiciária que acompanhou Luís Neves desde 2018 até ao início de 2026, garantiu à imprensa esta segunda-feira que “nunca foi informada” sobre o atrelado ou o seu desaparecimento, revelando que só teve conhecimento do caso pela televisão.

“Nunca fui informada”. Ex-diretora nacional da PJ garante não ter conhecimento de atrelado apreendido que acabou na sede da Construbarcelos

A investigação transmitida no Jornal da Noite da TVI desta segunda-feira realça que Luís Neves não precisava da autorização ou de avisar a ex-diretora nacional adjunta para movimentar itens apreendidos, sugerindo também que só o diretor nacional poderia ter autorizado a movimentação do atrelado.

Estes desenvolvimentos colocam ainda mais pressão sobre Luís Neves, que na última semana tem prometido dar todos os esclarecimentos “ponto por ponto”, mas sem adiantar em que data acontecerão, dizendo estar “absolutamente tranquilo” em relação às polémicas que o envolvem.

As controvérsias estão relacionadas com uma investigação do semanário Nascer do Sol, que a 10 de julho noticiou que o ministro da Administração Interna tinha contratado a Construbarcelos para remodelar um imóvel que detém em Odemira, tratando-se da mesma empresa que celebrou 17 contratos com a PJ no valor de cerca de 2,2 milhões de euros quando Neves ainda era diretor nacional deste órgão de polícia criminal.

Como já foi referido, no decurso deste caso foi descoberto nas instalações da Construbarcelos um atrelado apreendido na Operação Pacoba — investigação criminal que vai agora para julgamento e que resultou em acusações dos crimes de tráfico de droga, associação criminosa e branqueamento de capitais a 19 arguidos.

A descoberta do atrelado pela PJ levou à abertura de um inquérito sobre o caso, sendo que, a Procuradoria-geral da República (PGR) confirmou também “a existência de um inquérito relacionado com bens apreendidos à ordem do processo designado ‘Operação Pacoba’”. Luís Neves será um dos focos da investigação e poderá ser visado pelos crimes de descaminho ou abuso de poder, indícios que a PJ recolheu nas primeiras diligências e que transmitiu ao Ministério Público.