As sanções e a política energética decidida em Bruxelas têm conduzido a uma redução das compras que no segundo semestre do ano passado abasteceram apenas 12% das importações totais da União Europeia (UE). Esta segunda-feira foi dado mais um passo para reduzir a zero as compras europeias de gás à Rússia.
A proibição total de importações a partir de 2027, aprovada pela UE contra os votos da Hungria, República Checa e abstenção da Bulgária, vai abrir ainda mais as portas europeias ao gás natural americano, num contexto de tensão nas relações geopolíticas entre os dois blocos e num cenário de guerra comercial.
Desde a invasão russa da Ucrânia e a disrupção do Nordstream (gasoduto que abastecia a Alemanha) em 2022 que a Europa tem vindo a procurar novos fornecedores, mas também a recorrer a vias alternativas de abastecimento para substituir os elevados fluxos que chegavam através de gasoduto. Começou uma corrida ao gás natural liquefeito (GNL) que é transportado em grandes navios tanque por vezes munidos de unidades de liquefação a bordo. Esta via é mais cara e exige terminais que nem todos os países têm com capacidade suficiente, mas permite diversificar fornecedores e receber cargas de todas as partes do mundo.
Europa tem soluções para trocar gás russo por GNL, mas fica mais caro e é pior para o ambiente
Os produtores americanos são os que mais têm ganhado com este apetite da Europa onde o preço do gás é muito mais alto (no mercado spot chega a ser o triplo) do que é negociado no mercado doméstico).
Além de serem já o principal fornecedor de gás natural liquefeito à Europa, os Estados Unidos são também o principal vendedor a clientes europeus em contratos de longo prazo associados a campos de gás que têm aprovados já os investimentos.
Os Estados Unidos protagonizaram as maiores entregas de gás para a Europa com um acréscimo de 60% em 2025 e um relatório da Agência Internacional de Energia conclui que “o forte abastecimento de GNL americano desempenhou um papel chave em encher as reservas de gás europeias ao longo do ano para o inverno de 2025/2026”.
No final do ano passado, o GNL já representava 46% das importações europeias, uma percentagem que está a crescer em força desde 2023 — só no segundo semestre de 2025 saltou 10%. Este reforço na quota de mercado “resultou principalmente da interrupção das importações de gás russo recebidas pelo gasoduto da Ucrânia e a sua substituição com importações de GNL”, assinala um relatório da Comissão Europeia sobre o mercado do gás na segunda metade do ano.
No ano passado, a Noruega foi o maior fornecedor de gás à União Europeia, mas o seu peso — de 30% no segundo semestre — está a cair. Em sentido contrário, os Estados Unidos estão a ganhar força nos abastecimentos com uma quota de 27% nos volumes importados pelos países da União Europeia. Esta tendência acontece à medida que GNL fortalece a sua posição versus o gás de gasoduto que vinha da Rússia.
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Mais de metade do gás natural liquefeito comprado pela Europa veio dos Estados Unidos
Na segunda metade do ano passado, os Estados Unidos “continuam a ser o maior fornecedor de GNL à UE, representando na 58% dos volumes totais comprados no segundo semestre”, assinala o observatório da Direção-Geral de Energia da Comissão Europeia. Houve um salto de 14% face ao mesmo período do ano passado e de 5% face à primeira metade do ano. A Rússia ainda ocupa o segundo lugar nestes fornecimentos — quer através do gasoduto que atravessa a Turquia, quer via GNL enviado para portos europeus, entre os quais Sines, mas vai desaparecer do mapa de fornecedores até outono de 2027.
Outros fornecedores são o norte de África — em particular a Argélia –, o Azerbaijão e o Qatar, mas não têm a capacidade financeira de alavancar a sua produção que os Estados Unidos conseguem ter a partir dos grandes campos petrolíferos como o Permian e com recurso ao shale gas (gás de xisto).
O país lidera uma nova onda de investimento da liquefação de gás natural que permitirá aos americanos consolidar a sua posição como o maior fornecedor de GNL do mundo. México e Canadá também estão a ganhar peso na geografia do GNL, assinala um relatório recente da Agência Internacional de Energia sobre o mercado de gás. Em paralelo, verifica-se um forte crescimento dos contratos de compra de gás liquefeito a longo prazo que no ano passado atingiram um valor recorde. Estes contratos permitem uma partilha de risco entre produtor e cliente têm em média 15 anos e há cada vez mais contratos flexíveis em que o destino final do gás muda em função do preço.
Os Estados Unidos representam 50% das vendas através destes contratos que do outro lado têm clientes europeus que asseguraram por esta via 70% dos volumes vendidos pelos Estados Unidos.
“Esta tendência pode indicar que a intenção da Europa de passar a depender menos do mercado spot e reforçar os contratos de longo prazo flexíveis”, refere um relatório da Agência Internacional de Energia sobre o mercado do gás natural divulgado na semana passada.
Segundo o mesmo documento, as importações europeias de GNL vão continuar a crescer em 2026 para alcançar um novo recorde. Esta procura é, em primeiro lugar, alimentada pela necessidade de injetar mais gás nas reservas e pelas exportações com destino à Ucrânia.
EUA são o segundo maior fornecedor português desde 2019
As compras de gás natural de Portugal seguem também a direção dos Estados Unidos, mas este movimento até começou mais cedo cá. Estando longe da rede de gasodutos que abastece a Europa a partir da Rússia ou até da Noruega, o gás natural começou a chegar através da rede de gasodutos que abastecia a Espanha a partir da Argélia. Tendo terminado o contrato com a Sonatrach, e também devido a fricções entre Espanha e a Argélia, o abastecimento de Portugal está quase totalmente dependente do GNL que chega do terminal de Sines e cada vez mais concentrados em dois grandes fornecedores:
A Nigéria, que é um fornecedor histórico, através de um contrato assinado na viragem do milénio, e os Estados Unidos que desde 2019 são o segundo maior vendedor de GNL a Portugal. Esta posição tem-se consolidado nos últimos anos com os contratos feitos com a EDP, mas sobretudo com a Galp que tem ativos três contratos de longo prazo com produtores americanos, não obstante alguns sobressaltos que nada têm que ver a geopolítica.
Fornecedor americano que falhou entregas à Galp
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A Galp mantém um conflito em arbitragem com um dos maiores fornecedores de gás dos Estados Unidos, que acusa de incumprimento contratual por falha de entregas. O contrato foi assinado com a Venture Global em 2018, mas a primeira dez cargas de gás natural liquefeito (GNL) só foi entregue no ano passado. A Venture Globals é acusada por várias empresas europeias de ter falhado as entregas contratadas para vender o GNL no mercado spot, aproveitando os preços recorde provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Uma decisão recente deu razão à queixa da BP contra a Venture Global, mas também já houve decisões favoráveis à empresa americana. A Galp tem contratos a 20 anos para o fornecimento de GNL a partir dos Estados Unidos com três empresas: a Venture Global, a NextDecade e a Cheniere.
O gás russo tem sido uma presença regular, mas menos importante, nas importações de gás e tem vindo a “perder gás” desde 2022. O GNL que desembarca em Sines com origem na Rússia tem como cliente final uma empresa espanhola, a Naturgy. Espanha é aliás um dos últimos clientes europeus do gás natural russo.
Consumo de gás cresce alimentado pelo setor elétrico
O consumo de gás nos países europeus do espaço da OCDE — inclui Reino Unido e Noruega — cresceu 3% em 2025, o que é o maior crescimento anual desde 2021. Este aumento da procura está concentrado no primeiro trimestre do ano, o que é explicado pelo inverno e pela procura por aquecimento, mas também pela produção elétrica.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a produção de eletricidade foi o principal motor do acréscimo do consumo de gás, o que é atribuído a uma performance mais fraca por parte da energia eólica e hídrica na Europa. O apagão ibérico e uma a gestão mais cautelosa da rede elétrica em Espanha também contribuíram para um maior recurso à eletricidade produzida a partir de gás natural de modo a limitar os riscos que um excesso de injeção renovável nas redes pode provocar se não forem ativados dispositivos de compensação. É sobretudo devido à procura do setor elétrico que o consumo de gás em Portugal também cresceu no ano passado, 7% face a 2024, invertendo a tendência de anos recentes.
▲ O setor da refinação está a consumidor menos gás natural na Europa
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Já o consumo de gás pela indústria na Europa continua a encolher. Caiu 3% em 2025 e é esperada uma nova queda de 2% em 2026. Um dos setores que está no centro da menor procura de gás é o da refinação, além dos fertilizantes.
Tendo pouca produção de gás natural própria, a União Europeia conta com os gases renováveis, nomeadamente o hidrogénio verde, para combater as alterações climáticas e, ao mesmo tempo, aumentar a independência energética. Entre as refinarias que está mais avançada neste processo é a da Galp em Sines onde na semana passada foi instalado o último módulo de uma unidade de 100 megawatts (MW) que deverá começar a produzir hidrogénio até ao final do ano.
Galp conclui instalação para hidrogénio verde em Sines que deve arrancar no segundo semestre
Para haver gases renováveis e hidrogénio verde, a Europa precisa de muita eletricidade produzida a partir de fontes renováveis. A exploração do sol e o vento para produzir eletricidade são os únicos trunfos do continente para se libertar da tradicional dependência energética que está associada ao uso de combustíveis fósseis. Há quem veja uma relação entre a forte aversão de Donald Trump aos grandes parques eólicos no mar, que permitiriam dar outra escala a este tipo de produção, e o interesse americano em vender gás e petróleo aos países europeus.
A proibição das compras de gás à Rússia começa a aplicar-se dentro de seis semanas e contempla um período de transição para os contratos existentes após o qual os 27 Estados-membros terão de verificar onde é produzido o gás que importarem.
Segundo um comunicado do Conselho, o incumprimento das novas regras pode resultar em sanções máximas de, pelo menos, 2,5 milhões de euros para pessoas singulares e, pelo menos, 40 milhões de euros para empresas, ou seja, pelo menos 3,5% do volume de negócios anual total da empresa a nível mundial, ou 300% do volume de negócios estimado da transação.
Até 1 de março de 2026, os países da UE devem preparar planos nacionais para diversificar o abastecimento de gás e identificar potenciais desafios na substituição do gás russo. Para tal, as empresas serão obrigadas a notificar as autoridades e a Comissão Europeia sobre quaisquer contratos de gás russo ainda em vigor. Os Estados-membros que ainda importam petróleo russo também terão de apresentar planos de diversificação, uma vez que o executivo comunitário planeia apresentar uma proposta semelhante visando o petróleo.