15 horas de polémica das golas inflamáveis. As duas versões da Protecção Civil e a irritação do ministro com os media /premium

26 Julho 2019482

Proteção Civil disse primeiro que golas eram apenas para sensibilização, mas depois também que serviam para retiradas rápidas. Já o ministro atacou os media. A polémica entre acusações e dúvidas.

A notícia teve impacto imediato: na manhã desta sexta-feira soube-se que a Proteção Civil distribuiu às populações mais de 70 mil golas de proteção de fumo para o rosto e pescoço que são inflamáveis e podem constituir perigo caso sejam utilizadas pela população num cenário de incêndio. Estas golas são compostas por 100% de poliester e estão a ser distribuídas desde o verão do ano passado em várias aldeias em zonas de risco, no âmbito dos programas “Aldeia Segura” e “Pessoas Seguras”.

Para esta missão tinham sido “designados 700 oficiais de segurança da aldeia” que iriam ficar responsáveis (tal como outros membros das autoridades) pela distribuição de kits, segundo a Proteção Civil. Foi o que aconteceu. O problema é que os kits tinham as tais golas inflamáveis, ou seja, se fossem utilizadas num cenário extremo, uma fagulha seria suficiente para que em segundos ficassem com o rosto a arder.

A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) não quis que as máscaras fossem feitas com um material mais resistente às chamas por ser mais caro. Foi o que o responsável da empresa fornecedora das golas referiu ao Observador. A justificação da ANEPC era de que as golas eram distribuídas numa lógica de “sensibilização” para o programa.

Logo após a divulgação da notícia, seguiram-se reações de todos os lados: a Proteção Civil tentou esclarecer o objetivo destes kits, mas a confusão e a dúvida instalaram-se. O ministro Eduardo Cabrita disse que a comunicação social era “alarmista”. PSD e CDS acusaram o Governo e os bombeiros e exigiram um “inquérito rigoroso” à situação. As autarquias dividiram-se: umas anunciaram a substituição destes kits e dizem não terem considerado que estas golas seriam utilizadas para proteção, outras afirmam ter tido conhecimento de que tudo tinha um objetivo de sensibilização. São 15 horas de polémica com muitas contradições.

As dúvidas: apenas para sensibilizar ou também para proteger?

Inicialmente, quando questionada pelo Observador sobre se as golas tinham sido apresentadas à população como parte de um kit de proteção contra incêndios, a ANEPC negou essa função, referindo que “estes materiais não assumem características de equipamento de proteção individual, nem se destinam a proporcionar proteção acrescida em caso de resposta a incêndios rurais, consubstanciando-se em material de sensibilização” para “a prevenção de comportamentos de risco e para a adoção de medidas de autoproteção”.

Nessa mesma resposta, referiu ainda que esta se tratava da “primeira grande campanha nacional orientada para a proteção da população relativamente ao risco de incêndio rural, bem como à sensibilização para as boas-práticas a adotar neste âmbito [dos incêndios]”.

Após a polémica se instalar, Patrícia Gaspar, a segunda comandante nacional da Autoridade Nacional de Proteção Civil, quis “passar uma mensagem de tranquilidade” e voltou a salientar que todo o equipamento distribuído à população “em nenhum momento” foi “identificado como equipamento de proteção individual ou como equipamento que pudesse ser usado numa situação de confronto com incêndio florestal”. Mas também acrescentou que estas golas podem ser utilizadas em situações de retiradas rápidas. 

Afinal em que é que ficamos, sensibilizam e protegem, ou só sensibilizam?

“Numa situação limite, em que o incêndio esteja a chegar a uma determinada aldeia, estas pessoas devem ter noção que este equipamento é fundamental para uma proteção que se pretende que seja rápida, enquanto se dirigem de um determinado local da sua habitação para um transporte ou para um refúgio”, disses. Mais tarde,em entrevista à SIC Notícias, Patrícia Gaspar voltou a referir uma função que pode ir além do objetivo de “sensibilização” indicado: o lenço poder ser usado “para conferir proteção ligeira às vias respiratórias nas situações pontuais” em que um “incidente se esteja a aproximar”.

“Protege, confere proteção imediata no momento em que a pessoa sai de sua casa, entra num transporte, ou nos poucos metros que faz entre casa na aldeia e local de abrigo“, explicou Patrícia Gaspar, acrescentando que este programa “é das coisas que de melhor se tem feito na prevenção contra incêndios florestais”.

No início da mesma entrevista, Patrícia Gaspar, que foi a voz e o rosto da Proteção Civil para conduzir os briefings diários sobre os incêndios de 2017, tinha insistido questão da sensibilização, explicando que a distribuição dos kits foi feita pelos comandos distritais e que estes tinham indicação para acompanhar essa entrega com “uma explicação, uma ação de sensibilização”. E que há vídeos que as pessoas devem ver para saber o que fazer.

Em nenhum momento este equipamento foi identificado como equipamento de proteção individual ou como equipamento que pudesse ser usado numa situação de confronto com incêndio florestal“, disse ainda, sublinhando que nos locais onde há fumo “é fundamental” que as pessoas tenham golas para cobrir as vias respiratórias.

O presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (ASPROCIVIL), explicou em entrevista à Rádio Observador que a polémica se deve a “uma questão de dificuldade de comunicação, uma comunicação incompleta ou uma comunicação pouco consistente”. Para Ricardo Ribeiro, este kit — que também inclui um apito, uma lanterna, uma bússola e coletes refletores — “não é um kit de autoproteção”, mas sim “um kit de evacuação”.O kit de evacuação deve deixar claro que aquele kit não é para estar exposto à chama e à temperatura”, explicou ainda.

O responsável da ASPROCIVIL disse ainda que a existência destas golas serve para o oficial de segurança trabalhar com elas “do ponto de vista informativo e informativo com as suas populações, nas suas aldeias”, tendo também “como objetivo concreto o de explicar a utilização de um pano húmido que tanto faz ser de poliéster ou de algodão, porque não é suposto estar exposto às chamas”. Ricardo Ribeiro sublinhou ainda a importância do projeto “Aldeia Seguras” e defende que este caso “não deve por em causa” o programa.

Eduardo Cabrita: notícia é “irresponsável” e “alarmista”

Quando o ministro da Administração Interna foi abordado pelos jornalistas em Mafra, preferiu não esclarecer a decisão de distribuição das golas inflamáveis em zonas de risco de incêndio. Para o ministro, a polémica é “absolutamente lamentável e inadmissível”, e a forma como a comunicação social noticiou o assunto é que é “irresponsável” e até mesmo “alarmista”.

Eduardo Cabrita referiu ainda que “é fundamental esclarecer que este não é material de combate a incêndios”, mas preferiu não responder a uma pergunta sobre o motivodo kit ter sido distribuído na mesma, adiantando que a Autoridade Nacional de Proteção Civil “dará todas as indicações e esclarecimentos daquilo que são matérias da sua competência”.

Quando falava aos jornalistas, Eduardo Cabrita bateu mesmo com o dedo no microfone dos jornalista da SIC para explicar que as chamadas “bolas de vento” que cobrem estes objetos também são “inflamáveis”. Aliás, Cabrita terá comparado depois, já com os micros desligados, os jornalistas com “cobras”.

Sintra substitui golas e Soure pede para não serem usadas

Face às notícias, a Câmara Municipal de Sintra informou à agência Lusa que “desconhecia” as informações sobre a composição dos materiais que compõem o kit destes programas e que o presidente Basílio Horta decidiu recolher estes materiais, nomeadamente coletes e golas. Os materiais recolhidos serão substituídos por “equipamento que garanta a segurança dos voluntários”, acrescentou a autarquia.

Mário Nunes assegurou que na altura da implementação do programa no município “foi dito que era material de proteção contra a inalação de fumo” e não material de merchandising e que foram distribuídas cerca de 50 golas.

Também o presidente da Câmara de Soure, Mário Jorge Nunes, mandou retirar as golas antifumo distribuídas em 12 aldeias do concelho do distrito de Coimbra quando soube que não tinham esta função de proteção. “Já comuniquei a todos os oficiais de segurança das aldeias, a começar por aquela que simbolicamente é muito importante para nós, que é Brunhós, para que as pessoas sejam aconselhadas a não usar as [golas] que estejam distribuídas e usarem-nas para outros fins e não para esse [de proteção]”, disse aos jornalistas o autarca de Soure, citado pela Lusa.

Mário Nunes assegurou que na altura da implementação do programa no município “foi dito que era material de proteção contra a inalação de fumo” e não material de merchandising e que foram distribuídas cerca de 50 golas. Também o autarca da freguesia de Cogula, em Trancoso, esclareceu ao jornal Público que “foi explicado às pessoas que deveriam ter o kit em casa e para o usarem em caso de emergência” e que o que foi dito aos moradores era que este se tratava de “um kit de emergência para um caso de incêndio e que ensinaram a colocar a gola” na ação de formação realizada em junho.

…mas há autarquias que já consideravam que as golas eram para sensibilização

Do outro lado, há também autarquias que continuam com os kits e dizem terem sido informadas sobre a sua função meramente de sensibilização. O presidente da Câmara de Monchique referiu à Lusa que a autarquia sempre considerou estes kits como de informação e sensibilização para casos de fogo e não para proteção em situações de fogo. “Sinceramente, não considerámos que fossem para ser utilizados em caso de emergência, mas sim como informação sobre como as pessoas deveriam atuar em situações de fogo”, explicou Rui André.

O autarca do PSD acrescentou ainda que o material distribuído pela ANEPC vinha acompanhado de informação da Proteção Civil “sobre como as pessoas deveriam atuar em caso de incêndio, como aliás veio a acontecer alguns meses depois no incêndio de agosto de 2018”. “A autarquia, juntamente com as juntas de freguesia, colocou sinalética nos aglomerados populacionais, com indicações para onde as pessoas se devem dirigir e como atuar”, explicou ainda.

PSD acusa Eduardo Cabrita de atuar como “um ministro da propaganda”

O deputado do PSD Duarte Marques apontou críticas à atitude de Eduardo Cabrita. Em declarações à Rádio Observador, acusou o ministro da Administração Interna de atuar como “um ministro da propaganda e da peixeirada” e exigiu que o Governo recolhesse “de imediato” as golas de material inflamável que foram distribuídas.

“A reação do Governo é tão inacreditável como a situação em si. O senhor ministro culpa os autarcas por fazerem o seu trabalho, fica incomodado com perguntas dos jornalistas, quando a irresponsabilidade do que aconteceu é entregar material inflamável a pessoas supostamente para as proteger”, atirou ainda o deputado do PSD Duarte Marques à agência Lusa.

Mas as críticas não ficam por aqui. Duarte Marques, eleito por Santarém, sublinha ainda que “o Governo gastou quase 200 mil euros numa manobra de marketing“, defendendo que esse dinheiro seria “muito melhor aplicado” se fosse para fornecer meios aos bombeiros e compensar as verbas em atraso que ainda têm por receber. “Temos um ministro da propaganda, que devia ser ministro da Administração Interna, que é um perigo para os portugueses, porque este material é altamente inflamável, não pode ser usado pelas pessoas no fogo”, reforçou.

CDS: Governo está a gastar dinheiro com equipamento “que não serve exatamente para proteger as populações”

Para Assunção Cristas, o Governo está a gastar dinheiro “a entregar uma coisa às populações que, afinal, não serve exatamente para o objetivo de proteger as populações numa situação de incêndio”. A líder do CDS, em entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, revela ter ficado estupefacta com as notícias que foram divulgadas esta sexta-feira.

“Ficamos estupefactos com notícias sobre kit de proteção em que afinal se calhar não eram de proteção, era só para sensibilizar as populações da necessidade de terem esses kit. E, portanto, um governo que gasta dinheiro a entregar uma coisa às populações que afinal não serve exatamente para o objetivo em que aparentemente as pessoas acreditariam, que era protegê-las dos fumos numa situação de incêndios”, referiu Assunção Cristas.

Também o grupo parlamentar os centristas decidiu questionar esta sexta-feira o Ministério da Administração Interna relativamente a estes kits, querendo saber quando vão ser substituídos. A pergunta é assinada pelos deputados Nuno Magalhães, Telmo Correia e Vânia Dias da Silva, eleitos que querem saber se os equipamentos em causa se “destinam a merchandising” ou à proteção das populações em caso de incêndio”, bem como “que medidas tem o Governo previstas para substituir estes equipamentos” e em que “prazo se processarão essas substituições”.

"Ficamos estupefactos com notícias sobre kit de proteção em que afinal se calhar não eram de proteção, era só para sensibilizar as populações da necessidade de terem esses kit. E, portanto, um governo que gasta dinheiro a entregar uma coisa às populações que afinal não serve exatamente para o objetivo em que aparentemente as pessoas acreditariam, que era protegê-las dos fumos numa situação de incêndios"
Assunção Cristas em entrevista à TSF e ao Diário de Notícias

Liga dos Bombeiros está “baralhada com declarações” e exige “inquérito rigoroso”

Depois das explicações dadas pela Proteção Civil sobre o verdadeiro objetivo destas golas, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) disse à Rádio Observador estar “muito baralhado com todas as declarações que estão a ser feitas por elementos da Proteção Civil”, acrescentando que estas diferentes posições da autoridade criam “instabilidade na mente das pessoas”.

Já à agência Lusa, Jaime Marta Soares disse exigir um “inquérito rigoroso” e um pedido de desculpas, uma vez que a “situação é inadmissível” e revela “tremenda negligência e irresponsabilidade”. “Quando se faz um kit para prevenção e defesa das populações (…) e se entrega um equipamento que pode levar à morte isso é profundamente criticável e inaceitável”, frisou, acrescentando numa entrevista à TVI que a Autoridade Nacional de Proteção Civil “não tem que arranjar este tipo de desculpas” e que deve antes “assumir que errou, mandar recolher e substituir o material”.

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