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Ambulância
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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

70 ambulâncias ficam retidas diariamente nos hospitais. Internamentos estão cheios e Governo não agiu para resolver casos sociais, diz APAH

Ambulâncias ficam retidas, sobretudo na região de Lisboa, impedido socorro a outras ocorrências. Casos sociais dificultam gestão dos internamentos: "Governo podia ter feito mais", dizem gestores.

Cerca de 70 ambulâncias têm ficado retidas diariamente nos hospitais do SNS, o que atrasa o socorro à população, denuncia ao Observador o presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH). Segundo Rui Lázaro, a situação é mais crítica na região de Lisboa e Vale do Tejo (sobretudo na Península de Setúbal) mas também no Algarve. Com o aumento da afluência às urgências em época gripal e a falta de capacidade de internamentos dos hospitais, as ambulâncias — e as respetivas macas — ficam retidas, impedindo que sejam mobilizadas para novas ocorrências.

“Temos cerca de 70 ambulâncias retidas todos os dias“, sublinha Rui Lázaro, acrescentando que os hospitais das regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Algarve são os que mais dificuldade têm em triar e observar os doentes que chegam transportados pelos bombeiros, o que faz com que as ambulâncias fiquem paradas durante horas, nalguns casos.

Na Península de Setúbal, a situação mais difícil é a do Hospital Garcia de Orta, em Almada, onde ficam retidas cerca de 20 ambulâncias por dia, particularmente no período da tarde, sublinha Rui Lázaro, o que trava as ambulâncias de várias corporações de bombeiros da margem sul. Em resposta ao Observador, a ULS Almada-Seixal (que integra aquela unidade hospitalar) responde que, “em períodos de maior afluência à urgência, e para dar resposta aos utentes”, o serviço de Urgência tem “9 macas suplementares”, que “são cedidas pelos bombeiros por se tratarem de macas de reserva”.

Também o Hospital de São José, em Lisboa, enfrenta dificuldades, com vários doentes a aguardarem em macas dos bombeiros.

Rui Lázaro diz que as dificuldades na resposta a doentes urgentes (de que são exemplos os casos de um idoso que morreu no Seixal, de uma idosa que morreu em Sesimbra, e de um homem que morreu em Tavira esta semana) são motivadas pela retenção de macas nos hospitais e pela insuficiência de ambulâncias — particularmente na Península de Setúbal.

"Alertámos a senhora ministra da Saúde de que era previsível que ficassem macas retidas e pedimos que o INEM colocasse macas nos hospitais"
Rui Lázaro, presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar

Técnicos de emergência dizem ter proposto entrega de macas aos hospitais — medida que não avançou

O presidente do STEPH garante que, em dezembro, avisou a ministra da Saúde e o INEM de que iria ser necessário colocar mais macas nos hospitais mas lamenta que nada tenha sido feito. “Alertámos a senhora ministra da Saúde de que era previsível que ficassem macas retidas e pedimos que o INEM colocasse macas nos hospitais. O INEM tem dezenas de ambulâncias em oficina, mais de uma centena, e podia colocar as macas dessas ambulâncias nos hospitais. Transmiti essa proposta ao presidente do INEM e à senhora ministra a 9 de dezembro“, disse o responsável, lamentando que a proposta não tenha sido concretizada.

Rui Lázaro admite que, numa situação de absoluta necessidade, o INEM poderia mobilizar meios do norte do país para a zona de Lisboa e Vale do Tejo de forma a responder à falta de ambulâncias de socorro, nomeadamente na Península de Setúbal.

A gestão das macas nos serviços de urgência dos hospitais é um tema sensível todos os invernos, com o aumento da afluência às urgências a causar dificuldades na transferência de doentes das macas dos meios de socorro para as macas dos hospitais. Em situações de grande afluência, os hospitais esgotam as macas disponíveis, pelo que os doentes ficam nas macas das ambulâncias a aguardar atendimento ou vaga de internamento. Em 2024, na preparação para o último inverno, o Governo emitiu orientações às Unidades Locais de Saúde sobre a gestão e compra de macas, de forma a garantir uma boa articulação nas urgências.

Num despacho emitido pela Secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, e publicado em Diário da República em novembro de 2024, pode ler-se que “as ULS devem garantir uma adequada articulação do serviço de urgência externa com a emergência pré-hospitalar, uma vez que esta constitui uma extensão da rede de urgência na comunidade e a sua permanente operacionalidade é fundamental para uma resposta rápida e atempada”. No despacho, Ana Povo salienta que os serviços de urgência devem dispor “de macas em número suficiente para garantir o handover [transferência] imediato das equipas pré-hospitalares, tendo em conta o histórico de necessidades” e que “a aquisição de macas pelas ULS, em caso de necessidade, deve considerar quer os doentes em serviço de urgência externa, quer os doentes que possam estar a aguardar por internamento em enfermaria”.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, durante a sessão de encerramento da 8.ª Convenção Nacional da Saúde (CNS), que serviu para a apresentação do Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde (RADIS), em Lisboa, 12 de novembro de 2025. FILIPE AMORIM/LUSA

▲ Gestores hospitalares acusam ministras da Saúde (Ana Paula Martins) e da Segurança Social (Maria do Rosário Palma Ramalho) de não terem solucionado problema dos casos sociais nos hospitais

FILIPE AMORIM/LUSA

Ministério da Saúde criticado por não dar orientações claras aos hospitais sobre macas este inverno

No entanto, na preparação para o inverno de 2025/2026, não há quaisquer orientações explícitas sobre o assunto. No despacho emitido também por Ana Povo, e publicado em outubro do ano passado, não se vislumbram orientações aos hospitais sobre a gestão das macas, havendo apenas uma alínea em que se refere que as ULS “devem observar, com as necessárias adaptações, e sem prejuízo das especificidades acima assinaladas, as medidas estabelecidas” no despacho de 2024.

No entanto, gestores hospitalares e trabalhadores do INEM criticam a falta de clareza das orientações do Governo. “Não houve repetição do despacho nem compra das macas este ano pelos hospitais“, diz o presidente da Comissão de Trabalhadores do INEM, Rui Gonçalves. Já Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), sublinha que, desde o inverno passado, os hospitais compraram macas, que, neste momento, não são suficientes dada a afluência de doentes. No portal de contratação pública Base, é possível identificar alguns contratos de compra de macas, mas em número reduzido e apenas em alguns pontos do país.

Rui Gonçalves critica a falta de ação da tutela, que relaciona com a atual situação nas urgências. “O Ministério não publicou o despacho e as ULS não fizeram o trabalho de casa”, diz o responsável, sublinhando que, este ano, a “situação está pior”. Xavier Barreto, da APAH, explica que, apesar de não serem determinantes, as orientações da tutela são importantes para a organização dos hospitais em períodos de maior pressão, como o inverno. “São um reforço, e, por isso, era positivo que essas orientações estivessem explícitas também no documento deste ano“, diz Xavier Barreto, lamentando essa omissão.

O Observador questionou a assessoria da Secretária de Estado da Saúde sobre por que razão não foram emitidas orientações explícitas aos hospitais sobre gestão e compra de macas para este inverno, ao contrário do sucedido em 2024, mas não obteve resposta. Também questionada sobre a gestão das macas, a Direção Executiva do SNS não enviou qualquer resposta.

A montante do problema da retenção das macas nos serviços de urgência está um outro: o da permanência nos hospitais do SNS de mais de duas mil pessoas com alta clínica mas que não têm resposta social que lhes permita deixar as unidades hospitalares. Ao ocuparem as camas de internamento — que deveriam servir para internar os doentes agudos que se acumulam muitas vezes nos serviços de Observação anexos às urgências — os casos sociais acabam por criar um problema em todo o sistema de socorro de emergência, ‘entupindo’ os hospitais e contribuindo para a retenção de macas e ambulâncias.

Segundo o último balanço, feito em março de 2025 pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, existem cerca de 2.300 pessoas internadas com alta clínica nos hospitais. Mas o presidente da APAH, Xavier Barreto, garante que a situação piorou no último ano. “Já haverá mais 2.800 casos sociais, isso foi admitido mesmo pelo diretor-executivo do SNS, Álvaro Almeida“, diz o responsável, lamentando que o Governo não tenha ouvido as preocupações da APAH, que alertava para a necessidade de retirar essas pessoas dos hospitais antes de o inverno começar.

Casos sociais nos hospitais. “Até agora nada aconteceu e o Governo podia ter feito mais”

Com mais um inverno a aproximar-se, a APAH voltou a apelar ao Governo que, antecipadamente, tomasse medidas para retirar os casos sociais dos hospitais.

Vários hospitais têm taxas de ocupação superiores a 100%. Gestores acusam Governo de falta de planeamento na gestão dos casos sociais

“A questão dos casos sociais agravou-se. Até agora nada aconteceu e o Governo podia ter feito mais“, defende Xavier Barreto, acrescentando que poderia “ter sido feita uma melhor preparação das camas”, que permitisse às ULS enfrentar a fase mais crítica do período gripal com uma melhor capacidade de resposta. “Temos cada vez mais doentes internados, os hospitais estão sobrelotados, as camas estão todas ocupadas. E as pessoas acabam por ficar em serviços de urgência”, critica, lamentando que nem o Ministério da Saúde nem o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social tenham agido com antecedência para libertar camas nos hospitais.

"A questão dos casos sociais agravou-se. Até agora nada aconteceu e o Governo podia ter feito mais"
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

O Observador questionou os dois ministérios, liderados por Ana Paula Martins e Maria do Rosário Palma Ramalho, respetivamente, sobre o que foi feito ou que soluções estão a ser equacionadas para mitigar o problema, mas não obteve resposta. Esta quinta-feira, num debate quinzenal na Assembleia da República, o primeiro-ministro anunciou a criação de 400 e 500 camas em unidades intermédias para tirar do sistema hospitalar os casos sociais.

Homem de 68 anos morre em Tavira depois de mais de uma hora a aguardar socorro

A discussão em torno da emergência pré-hospitalar e da capacidade dos hospitais em receber doentes urgentes reacendeu-se esta semana depois da morte de três pessoas que perderam a vida enquanto esperavam por socorro. Na terça-feira, um homem morreu no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro do INEM, confirmou o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, admitindo que o novo sistema de triagem possa ter influenciado o desfecho.

Já esta quarta-feira, uma idosa morreu em Sesimbra (Quinta do Conde) depois de esperar por assistência médica que demorou 44 minutos a chegar. Foi assistida por uma ambulância dos bombeiros de Carcavelos, uma zona que fica a mais de 40 quilómetros de distância. Mais recentemente, a Lusa noticiou que um homem de 68 anos morreu na quarta-feira em Tavira, depois de ter estado mais de uma hora a aguardar por meios de socorro.

"Todas as situações que eventualmente possam configurar uma situação de falha de socorro, terão de ser devidamente averiguadas"
Luís Cabral, presidente do INEM

IGAS e Ministério Público já investigam mortes após demora no socorro

Como é habitual nestas situações, e como de resto já tinha acontecido com os casos conhecidos durante a greve do INEM de 2024, a Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) anunciou a abertura de inquéritos aos casos das mortes em Tavira e em Sesimbra, bem como no Seixal. Também o Ministério Público já determinou a abertura do inquérito para analisar o caso do idoso que morreu no Seixal, inquérito que será acompanhado da “realização da autópsia médico-legal”.

Questionado à saída de uma reunião com o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), António Nunes, o presidente do INEM, Luís Cabral, garantiu transparência e que “não haverá qualquer ocultação” sobre os casos de mortes enquanto as vítimas aguardavam por socorro, e que todas as situações de eventuais falhas de socorro serão averiguadas.

“Terei que analisar ambos os casos e, no seu devido tempo, o INEM irá emitir os seus comunicados sobre esta matéria. (…) Todas as situações que eventualmente possam configurar uma situação de falha de socorro, terão de ser devidamente averiguadas”, disse o responsável, acrescentando que, tal como da última vez em que houve esta falha do INEM, as averiguações foram feitas e “foi-se concluindo em algumas alturas que não havia uma responsabilidade direta do INEM nestas situações”. “Nós seremos sempre transparentes em todo este processo, seremos muito claros em relação àquilo que se passou, em relação àquilo que são os tempos e que foram as diferentes ambulâncias e viaturas com médico envolvidas. Não haverá aqui qualquer ocultação por parte do INEM relativamente a essa matéria”, assegurou.

Já o presidente da LBP, António Nunes, garantiu que “os meios são suficientes se forem muito bem geridos”, algo que, sugeriu, não está a acontecer. “Nós estamos numa altura de crise. Os hospitais têm muitos doentes por causa da gripe”, disse. “Portanto, no imediato, o nosso plano de contingência é garantir ao máximo que toda a nossa capacidade é levada ao limite. Isto é, tentar que nos hospitais se faça um ‘forcing’ para que a triagem seja mais rápida, que as macas sejam devolvidas, que as ambulâncias comuniquem imediatamente ao INEM que estão disponíveis, que o INEM possa gerir esses meios. E é isso que nós estamos a fazer e vamos fazer”, realçou ainda António Nunes.

O responsável salientou que o grupo técnico de acompanhamento permanente – entre a LBP e o INEM – vai “na próxima semana fazer uma reunião para fazer um documento explicativo que seja enviado aos corpos de bombeiros”. Esse documento será produzido e será público, adiantou.

Em cima da mesa da LBP está ainda uma eventual taxa, a cobrar aos hospitais, pelo tempo em que as macas das ambulâncias ficam retidas. A medida está a ser analisada, adiantou ao Público o vice-presidente da LBP Eduardo Correia, que alerta que deixar as ambulâncias paradas durante horas é “insustentável” para as corporações. Já esta quinta-feira, ao JN, este responsável adiantou que o prejuízo para as corporações é de, no mínimo, 20 euros por hora. Em 2024, os bombeiros já tinham ameaçado cobrar um taxa entre os 50 e os 150 euros aos hospitais, medida que acabou por não avançar depois de ter sido alcançado um acordo numa reunião a LBP, o INEM e a Direção-Executiva do SNS.

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