Ainda há uma ideia incorreta que, por vezes, prevalece sobre como funciona a indústria farmacêutica. Imagina-se de um lado a Academia, a investigação científica e o que acontece entre bibliotecas e laboratórios; do outro, uma indústria que procura satisfazer as necessidades da população, encontrando formas de melhorar a saúde das pessoas e resolver os novos desafios que surgem com os novos tempos.

O Grupo Tecnimede demonstra, uma vez mais, que Academia e Indústria não têm de ser – nem devem ser – mundos separados quando o objetivo é trabalhar em prol da sociedade e encontrar soluções que resolvam problemas concretos. Academia e Indústria devem, pelo contrário, trabalhar em conjunto e em complementaridade, unindo esforços para entregar respostas efetivas e aplicações práticas para a investigação científica.

Nesse sentido, o Prémio Jorge Ruas é a demonstração perfeita de como esses aparentemente “dois mundos” não são nem devem ser dois. São antes duas faces de uma só moeda, convivendo na mesma missão: resolver problemas de saúde concretos.

Welcome to the Pharma Revolution

A Open Innovation Competition 2026 – Jorge Ruas Award, cujo evento final se realizou a 27 de maio, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, revelou 10 projetos de investigação com grande potencial. A segunda edição do prémio que homenageia Jorge Ruas – eminente pneumologista e empreendedor, fundador da Tecnimede – recebeu um grande número de candidaturas, tanto nacionais como internacionais.

Os 10 finalistas, depois de superarem as várias fases de análise do júri, subiram ao palco do Auditório José Mariano Gago para uma apresentação final dos seus projetos, em busca do prestígio e do prémio financeiro, no valor de 100 mil euros.

Para as primeiras palavras da tarde, subiu ao palanque Maria do Carmo Neves, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Tecnimede, que abordou os “caminhos da inovação” e falou da “missão fundamental da Tecnimede”, que passa por “transformar visão em coragem para fazer”. As palavras de Maria do Carmo Neves, que aflorou ainda a Inteligência Artificial como recurso precioso para a investigação científica, sublinharam a “coragem para perseguir o que parece impossível”, ao mesmo tempo que focou a “aplicabilidade industrial”.

Sempre presente no seu discurso, esteve a herança do Dr. Jorge Ruas, inspiração para a iniciativa e para o presente (e para o futuro) do Grupo Tecnimede. No fim do discurso, as palavras de Maria do Carmo Neves foram contundentes: “Não façam ciência só para produzir conhecimento, façam-na para resolver problemas reais.”

Atestando a importância da Open Innovation Competition 2026 – Jorge Ruas Award, a sessão de abertura contou com a presença e o discurso do Presidente da República, António José Seguro. O Presidente usou da palavra para abordar a aproximação entre tecnologia e indústria, falou da importância do surgimento de projetos com capacidade para entrar no mercado e ter sucesso, farmacológica e financeiramente falando.

O investimento e a viabilidade financeira foram, aliás, temas constantes, mostrando que a ciência aplicada à saúde não é uma abstração: precisa de ser exequível e de ter uma aplicação prática. A par da alusão à simbiose entre ciência e indústria, houve ainda um alerta para, nas palavras do Presidente, “os desafios que aí vêm” com o envelhecimento demográfico e, por fim, um elogio à Inteligência Artificial como ferramenta capaz de ajudar a otimizar a investigação e o progresso científico, aliviando o trabalho e aligeirando o peso do investimento.

E esse foi o prelúdio perfeito para a keynote talk de Yann Gaston-Mathé, Diretor-geral e fundador da Iktos. Numa edição que teve como mote “Welcome to the Pharma Revolution”, uma alusão clara à chegada da Inteligência Artificial, que é usada em prol da investigação e da indústria farmacêutica, Gaston-Mathé contou um pouco da história de como a IA tem sido usada na descoberta e no desenvolvimento de medicamentos já desde os anos 2000. Considerando a atualidade, o Diretor-geral da Iktos mencionou a extraordinária importância da IA num momento em que, com a individualização dos diagnósticos, há “um número incalculável de dados” para cruzar e analisar por cada paciente.

No momento das questões ao orador, a pergunta mais relevante veio da apresentadora da cerimónia, Luísa Barbosa: com a introdução da IA, não estaremos a inibir o acaso e a aleatoriedade, historicamente tão importantes nas descobertas e progresso científicos? Yann Gaston-Mathé, contudo, não hesitou: a IA é capaz de gerar modelos suficientes para que tal não seja um problema. Ficou, no fim, uma ideia associada a uma missão da Iktos, plataforma que procura a automatização do trabalho laboratorial: a repetição é fácil automatizar, mas a criatividade não.

E o vencedor é…

Passemos aos projetos e aos premiados. O júri afirmou-o sem reticências: foi uma escolha difícil, dado o valor e a qualidade dos projetos a concurso. O presidente do júri, Prof. Dr. Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra, assumiu em declarações ao Observador, no final da sessão, que existiam “pelo menos, três projetos” com qualidade suficiente para merecer o prémio, acrescentando que “infelizmente, só um pode ganhar”, e ressalvando que o júri estava “confortável com a escolha” do projeto vencedor.

E o projeto vencedor é… SafeAlleleSCA, uma plataforma inovadora de terapia génica para ataxias espinocerebelosas dominantes. A terapêutica proposta “permite silenciar seletivamente o alelo mutado, preservando a função normal do gene e ultrapassando limitações de segurança das abordagens atuais”. O programa principal foca-se na Ataxia Espinocerebelosa Tipo 3, também conhecida como Doença de Machado-Joseph, “com eficácia pré-clínica robusta em murganhos e ampla distribuição no sistema nervoso central em primatas não humanos”.

O SafeAlleleSCA superou outras propostas, bastante diversas, que iam desde intervenções, tal como o projeto vencedor, no combate a doenças neurodegenerativas (SilenSCAs), à inovação no tratamento de úlceras e feridas crónicas (PepilSkin), passando pelo recurso à microgravidade para replicar os efeitos do envelhecimento em doenças como o Parkinson (Exobiosphere) ou pelo uso de nanopartículas lípidas modificadas na prevenção e tratamento da diabetes (Gilded), entre outras ideias igualmente arrojadas, inovadoras e de inquestionável valor para a saúde.

Recorrendo, uma vez mais, às palavras do presidente do júri, cujo painel era composto por eminentes figuras nacionais e internacionais da academia e da indústria farmacêutica, “mesmo os [projetos] que não ganharam” podem vir a ter um futuro brilhante, uma vez que são projetos muito promissores. Assim consigam desenvolver-se equilibrando o brilho científico com a aplicabilidade real, ao serviço dos problemas concretos da saúde.