“Os votos não têm dono”. “Se só sobrarmos nós no Parlamento a fazer oposição, sobraremos”. “Somos o único partido da direita que assume que deve estar à direita”. Nos discursos políticos que se ouviram este sábado no palco do Congresso do CDS não faltaram provas de que a relação do CDS com o PSD já teve melhores dias. Desde Assunção Cristas, que chegou a Lamego, às 10h da manhã, a afirmar logo à cabeça que o CDS quer ir a eleições em listas separadas do PSD (primeira cotovelada, ou, como quem diz, “chega para lá”), a Nuno Melo, que arrancou um dos maiores aplausos do dia quando falou da relação entre os dois partidos, passando por Filipe Anacoreta Correia, que confessou não ter gostado de ver Rui Rio dizer que estava à mesma distância do PS que está do PSD. Tudo apontava para o mesmo sentido. O PSD é um partido “amigo”, mas…

Anacoreta Correia não disse o nome de Rui Rio. Os únicos que o fizeram foram Luís Pedro Mota Soares e Nuno Melo, e a sala gelou. Um minuto antes, Melo tinha mandado um “grande abraço” a Passos Coelho, com quem o CDS esteve “no Governo num dos momentos mais difíceis” — e a sala aplaudiu. Os tempos mudaram, e, antes que Rui Rio chegasse a Lamego (vai encabeçar a delegação do PSD que vai assistir, este domingo, ao encerramento do congresso), os recados foram reservados para o dia anterior. O lema oficial do congresso centrista é “o futuro está aqui” e o mote não oficial é “ambição máxima”. Cristas quer jogar na primeira liga, e Telmo Correia diz mais: não é só jogar, quer mesmo o título. Ou seja, o CDS não quer só concorrer para ser a alternativa ao PS, como quer mesmo ser “a primeira escolha” dos portugueses. O que implica, na franja do eleitorado que se sobrepõe, não escolher o PSD.

Assunção Cristas deu o tom. “Queremos ser o primeiro partido no espaço do centro e da direita, sem hesitações, sem complexos”, disse no palco do Congresso, lembrando o resultado que conseguiu em Lisboa nas autárquicas, onde ficou confortavelmente à frente da candidata do PSD (cotovelada 2, ou, como quem diz, sai da frente que eu quero passar). Isso permite-lhe afirmar que “é possível chegar a outro patamar! Sim, é possível disputar a Primeira Liga”. Assunção Cristas quer ser primeira-ministra. E o resto do partido, como explicou Nuno Melo à entrada do Congresso, “tem a obrigação de acreditar que é possível”. Pelo meio, enquanto descrevia o trabalho que o CDS tem feito no Parlamento, Cristas não evitava as bicadas ao ex-parceiro de coligação, ao dizer que o CDS procurava “jogar por antecipação quando os outros ainda estão a pensar” nos dossiês. Os outros. (Cotovelada 4).

No final da sua intervenção, em que leu um discurso escrito de 16 páginas, Cristas não resistiu ao toque final: no papel lia-se “todos ficarão a saber, de forma clara e inequívoca, que o CDS é a alternativa”, e, no calor da oratória e já a sobrepor-se aos ruidosos aplausos, ainda acrescentaria mais uma palavra-chave: “Todos ficarão a saber que o CDS é a única alternativa”. (E sai mais uma cotovelada para o partido do lado: cotovelada 5)

Mas isto foi só o início (e já vamos em cinco). Nuno Melo, como já é habitual, fez uma das intervenções mais aplaudidas da noite. Sobretudo quando, tocando no nome de Rui Rio, disse que, embora “não estejamos aqui para disputar o espaço político do PSD”, mas sim para “crescer”, a verdade é que “os votos não têm dono” (cotovelada 6). E acrescentou, de forma ainda mais explícita: “Nós não estamos tão próximos do PS como do PSD. Somos oposição ao PS, não somos oposição ao PSD. Não estamos equidistantes do PSD e do PS, estamos distantes deste PS. O PS continua a ser o nosso adversário político”, afirmou. Mas depois vinha o “mas”: “Se só sobrarmos nós no Parlamento a fazer oposição, sobraremos”. Cotovelada sete.

Número oito. No congresso do PSD, Luís Montenegro disse que com a estratégia de Rui Rio tinha saído a sorte grande a António Costa e a terminação a Assunção Cristas. Diogo Feio, presidente do gabinete de estudos do CDS, pegou na metáfora e disse que no CDS “não se joga na lotaria para ganhar a sorte grande ou a terminação”. E acrescentou: “Aqui trabalhamos”. O dirigente centrista afirmou que o CDS apresentou 60 iniciativas legislativas, mas a grande parte foi chumbada pela “geringonça” a “mando de António Costa”. Mas ainda acrescentou a nona cotovelada a Rui Rio. Diogo Feio deixou um aviso a António Costa, mas com uma indireta para o PSD: “Nós discutimos reformas, mas no Parlamento, aos olhos de todos portugueses“. Costa tem discutido reformas com o novo presidente do PSD, Rui Rio, numa negociação direta fora da Assembleia da República.

Ideia semelhante seria depois recuperada pelo líder parlamentar Nuno Magalhães. “Não nos enganemos no adversário, o adversário é o PS: e o PS de António Costa, não por sectarismo mas porque o PS de António Costa radicalizou-se. E se o PS quer libertar-se da extrema esquerda, então que chame alguém que não o CDS”, disse, referindo-se à aproximação que o PSD de Rui Rio está a fazer ao PS de António Costa, deixando o CDS como o único partido que não dá a mão aos socialistas. Cotovelada número 10.

A bengala da conveniência e as relações sérias e duradouras

Esse vai ser o argumento de campanha do CDS: ser o único “partido não-socialista” do xadrez político nacional. Foi o que disse Pedro Mota Soares, lembrando que o CDS é neste momento “o único partido em Portugal que diz às pessoas que jamais irá contribuir para viabilizar um Governo do PS” (e já vamos em 11 cotoveladas). E se Mota Soares começou assim o seu discurso, acabou a contar a história de um jornalista que o questionou à entrada do Congresso sobre se “achava que Assunção Cristas era melhor do que Rui Rio”. Mota Soares respondeu: “Sim. Acho que é melhor. E é melhor, muito, muito, muito, muito, muito melhor que António Costa”. Fica a graduação na palavra “muito”, e mais uma cotovelada: 12.

Que o CDS não quer ir a eleições coligado com o PSD já se sabia, mas depois do congresso deste fim de semana os centristas vão poder dizê-lo sem parcimónia. Não só Cristas voltou a defender as listas autónomas como voltou a antecipar-se ao PSD ao avançar já com o nome do cabeça de lista às Europeias: o atual eurodeputado Nuno Melo. O PSD de Rui Rio, que teve congresso no mês passado, preferiu guardar essa decisão para mais tarde, permanecendo a incógnita sobre se vai manter Paulo Rangel ou apostar num outro rosto.

Coube ao deputado e porta-voz do CDS João Almeida fazer a defesa da ideia de que o CDS quer ir para o Governo com o PSD, mas só se for com “mais força”. Caso contrário, “não vale a pena lá voltar”. João Almeida disse, no entanto, que não se pode dispensar ninguém e que sabe onde se “constrói a alternativa ao Governo das esquerdas”. Embora tenha honra do Governo em que esteve com o PSD, o CDS sabe que “não vale a pena lá voltar com esta proporção de forças”. Naqueles mais de quatro anos, o partido gostava “de ter feito muito mais”. O porta-voz do CDS mostrou mesmo a convicção de que, se tivesse “mais força naquele Governo, a coligação PSD/CDS não só tinha ganho as eleições como tinha a maioria absoluta para continuar a governar” (cotovelada número 13). Se antes, com Passos na liderança, era difícil dizê-lo, agora já não há limitações.

Um dos recados mais duros para o PSD, contudo, apareceu vindo de Filipe Anacoreta Correia, antigo crítico da liderança de Paulo Portas e atualmente membro da comissão executiva de Cristas, que foi muito aplaudido. “Há quem diga que o CDS se devia articular com o PSD, mas eu confesso, a título pessoal, que não gostei de ver o PSD a posicionar-nos à mesma distância do PS (mais uma: 14). O PSD tem de perceber que não seremos nunca a sua bengala de conveniência. O CDS gosta de relações sérias e duradouras, não de conveniência”, disse, acrescentando também que o CDS “não será a bengala de António Costa”. Da bengala à muleta e até à segway, foram vários os congressistas que recorreram à mesma metáfora para recusar que o CDS seja o apêndice do PSD. O espírito, pelo menos, é de que esse tempo acabou.

Assunção Cristas foi ministra do governo de coligação, Mota Soares foi ministro do governo de coligação, Adolfo Mesquita Nunes foi secretário de Estado do mesmo governo, mas todos alinharam na ideia de que os tempos de casamento acabaram. Exceção feita a António Pires de Lima, ex-ministro da Economia, que foi talvez o único que falou do PSD sem nenhum “mas”. Dizendo que a economia “não aguenta duas legislaturas movidas a geringonça” e que, por isso, era importante que o CDS “desse um novo primeiro-ministro a Portugal”, o ex-ministro pediu cautela e foco: “Devemos lutar por esse objetivo, mas não nos devemos desfocar. O nosso adversário não é o PSD, um partido amigo e com quem queremos voltar a governar. É o PS. E o objetivo é que não seja um Governo socialista a governar Portugal”. Mas as críticas ouviram-se e ficaram registadas.