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▲Militar russo anda pela "estrada da morte" em Sudzha

AFP via Getty Images

▲Militar russo anda pela "estrada da morte" em Sudzha

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A "estrada da morte", a fuga a pé e os ataques com drones. A retirada "caótica" da Ucrânia em Kursk

Rússia surpreendeu Ucrânia na cidade russa de Sudzha e obrigou as tropas ucranianas a retirarem de forma "caótica". Kiev ainda controla cerca de 30 km² em Kursk — e pretende manter bastiões.

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“Saímos de Kursk a pé, andámos 40 quilómetros, havia drones russos a perseguir-nos. Eu não consigo explicar o que vivi, ainda tenho pesadelos.” Este é o relato que Boroda (nome de código), soldado ucraniano pertencente à 79.ª Brigada de Assalto Aéreo, faz ao jornal El País sobre a retirada da Ucrânia nas redondezas da cidade de Sudhza, pertencente a Kursk, região russa onde as tropas de Kiev iniciaram uma ofensiva em agosto de 2024.

Oito meses após a Ucrânia surpreender o mundo e começar uma ambiciosa incursão em Kursk, a Rússia ganhou vantagem e está a expulsar as tropas ucranianas daquela província russa. Os militares de Kiev ainda controlam alguns bastiões perto da fronteira, mas dificilmente vão conseguir reverter a situação. A retirada total parece cada vez mais um cenário provável — neste momento, a Ucrânia controla 30 quilómetros quadrados dentro da Rússia, de acordo com o The Telegraph.

A Rússia foi ganhando cada vez mais força em Kursk, desviando para a região as suas tropas de elite e o seu armamento mais poderoso. No fundo, não deixava de ser uma humilhação para o Kremlin que a Ucrânia continuasse a obter tanto sucesso no controlo de território russo, expondo as fragilidades de segurança interna do país. Era urgente, deste modo, expulsar os ucranianos de solo russo. Para isso, Moscovo recorreu a tropas norte-coreanas. E dos Estados Unidos da América (EUA) tiveram recentemente uma preciosa ajuda, que motivou a retirada à pressa e uma debandada das tropas ucranianas no início de março.

Depois da discussão na Sala Oval, o Presidente norte-americano, Donald Trump, suspendeu a entrega de ajuda militar e a partilha de informações confidenciais com a Ucrânia. Assim, as autoridades de Kiev deixaram de contar com a ajuda de Washington e isso prejudicou o destino das tropas ucraniana em Kursk, num momento em que Moscovo já estava a avançar rapidamente na região. “Não podíamos permitir que mísseis caros fossem disparados para alvos errados”, explicou Andriy, um dos dirigentes das secretas ucranianas responsáveis pela ofensiva em solo russo, em declarações ao New York Times.

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Sem informações e apanhadas de surpresa, as tropas ucranianas fugiram em debandada de Sudzha. Vários soldados contam que atravessaram o que ficou conhecida como a “estrada da morte”: a autoestrada R200 que liga Sudzha a Sumy, a maior cidade ucraniana nas proximidades de Kursk. “Foi como um filme de terror. As estradas estavam cheias de centenas de carros, veículos blindados e veículos todo-o-terreno destruídos. Havia muitos feridos e mortos”, contou Dmytro, outro soldado ucraniano, citado pela BBC.

O ataque que surgiu de gasoduto e os ataques com drones. Rússia surpreendeu Ucrânia em Sudzha

A Ucrânia chegou a controlar, em agosto de 2024, cerca de 500 quilómetros quadrados na província de Kursk. Contudo, foi perdendo terreno para os russos, especialmente a partir de dezembro do ano passado. Com a entrada de soldados norte-coreanos no teatro das operações em meados de janeiro, ainda se tornou mais complicado para Kiev, apesar de os primeiros recrutas da Coreia do Norte estarem impreparados para um cenário de guerra moderna.

Entre todas as conquistas, a cidade de Sudzha, com cerca de cinco mil habitantes, era uma das mais importantes estrategicamente para a Ucrânia. O país tentou defender a localidade, mas, no início de março, as tropas ucranianas foram apanhadas num ataque surpresa. Cerca de 800 militares russos caminharam através de um gasoduto abandonado e emergiram nos subúrbios de Sudzha a 8 de março. Foi o início de uma ofensiva intensa por parte da Rússia.

Ao mesmo tempo que os russos avançavam no terreno, vários drones russos sobrevoavam o espaço aéreo de Kursk e destruíam veículos ucranianos. A 9 de março, Volodymyr, um soldado, revelou à BBC que sentia “pânico” e achava que a linha da frente “ia colapsar”. “Havia drones 24 horas por dia. Num minuto, via-se entre dois a três drones. É demasiado”, dizia o militar ucraniano, que relatava também como os russos tentavam cortar a estrada R200.

“Tínhamos toda a nossa cadeia de abastecimento militar perto da autoestrada Sudzha-Sumy. E todos sabíamos que [os russos] ia tentar cortá-la. Mas isto foi uma surpresa para os nossos comandantes”, afirmou Volodymyr. A situação em fevereiro de 2025 já eram complicada, uma vez que a autoestrada estava constantemente sob fogo russo. Mas a 9 de março a situação piorou exponencialmente.

Um dirigente ucraniano explicou ao El País que “o movimento russo” que começou a 8 de março foi efetivamente uma “surpresa” para a Ucrânia. “Apenas recebíamos informações da ofensiva quando estavam à nossa frente. A informação chegava muito tarde”, lamentou. Certo é que nessa altura os EUA já tinham suspendido a partilha de dados confidenciais sobre a linha da frente — e essa ausência pode ter sido determinante para a falta de clareza da Ucrânia.

"Apenas recebíamos informações da ofensiva quando estavam à nossa frente. A informação chegava muito tarde."
Dirigente ucraniano ao El País sobre falta de informações

Mesmo assim, vários militares criticaram a falta de inação da liderança ucraniana, considerando que deveria ter ordenado a retirada mais cedo. Em declarações ao Financial Times, o analista militar Michael Kofman referiu que a intensificação da ofensiva russa em Sudzha ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Há alguns meses, sublinhou o especialista, que “as forças russas estavam a pressionar constantemente e a destruir as rotas de abastecimento”. 

A 10 de março, a Ucrânia ainda enviou mais militares, ao mesmo tempo que ordenava a retirada de algumas tropas. De pouco valeu. Um dia depois, a situação era “catastrófica”, segundo a versão do soldado ucraniano Anton à BBC. “A logística já não funcionava — já não era possível entregar armas, munições, comida e água”, recorda. O cenário era “catastrófico”, define o militar. Todos os veículos que circulassem na estrada R200 eram destruídos. “Os drones aterravam perto de rotas importantes e esperavam por um alvo para o atacar”, expôs ao New York Times Cap, um membro de uma tropa de elite ucraniana em Kursk.

Tendo em conta as condições hostis na única estrada que os ucranianos usavam para se deslocaram para o seu território, muitos decidiram ir a pé e caminhar dezenas de quilómetros desde Sudzha até solo ucraniano. Foi o caso de Anton, que saiu da cidade russa no dia 11 de março à noite, juntamente com outros militares. “Quase morremos por diversas vezes. Os drones estavam nos céus durante todo o tempo.”

Dmytro revelou ainda à BBC que soube que houve militares a andar “quinze a vinte quilómetros” para fugirem da catástrofe em Sudzha. Boroda indicou que andou 40 km e referiu ao New York Times que “demorou dois dias” até a sua unidade chegar à fronteira ucraniana, admitindo que foi uma situação altamente exaustiva.

Para Boroda, a retirada ucraniana foi um “misto de organização e caos”. “Vários fatores influenciaram a natureza da retirada: a fadiga, ordens más ou boas de comandantes individuais, problemas de comunicação ou coordenação”. À BBC, outro soldado ucraniano chamado Artem tem uma opinião mais crítica: “Foi caótico. Muitas unidades fugiram sem ordem”, considera, acreditando que na base do problema “esteve o facto de a ordem para a retirada ter chegado demasiado tarde”.  

"Retirada foi um misto de organização e de caos. Vários fatores influenciaram a natureza da retirada: a fadiga, ordens más ou boas de comandantes individuais, problemas de comunicação ou coordenação."
Boroda (nome de código), soldado ucraniano pertencente à 79ª Brigada de Assalto Aéreo

Apesar da retirada caótica, as tropas ucranianas não estiveram em nenhum momento “cercadas” em Kursk, como o Presidente norte-americano, Donald Trump, sugeriu na Truth Social, numa publicação na rede social em que também pediu ao seu homólogo russo, Vladimir Putin, para que tivesse um “gesto de boa vontade” para com a Ucrânia e poupasse as vidas de soldados leais a Kiev em solo russo.

O cerco em Kursk é “uma mentira”, caracterizou ao The Telegraph um operador de drones ucranianos que esteve a combater em solo russo: “A retirada foi geralmente organizada, mas ocasionalmente caótica. Não há ameaça de cerco e não há nenhuma evidência que indicie o contrário”.

Apesar das publicações nas redes sociais feitas por Donald Trump, os serviços secretos norte-americanos partilharam informações com a Casa Branca de que não existia qualquer cerco em Kursk, apurou a Reuters. De acordo com a análise das secretas de vários países europeus e dos Estados Unidos, as tropas ucranianas estão sob intensa pressão na província russa, mas não estão cercadas. 

A ofensiva em Kursk valeu a pena?

Perante esta debandada em Sudhza, vários militares ucranianos questionam agora se valeu a pena Kiev começar uma ofensiva no país vizinho. O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, defendeu que a operação militar — desde o início arriscada — “cumpriu a sua missão”, isto é, obrigou a Rússia a concentrar-se noutro ponto da linha da frente, diminuindo a intensidade da ofensiva no Donbass.

“A pressão em direção da província de Kharkiv diminuiu e começaram a retirar tropas da frente leste”, analisou Volodymyr Zelensky. Os efeitos para o moral ucraniano também foram importantes; numa altura em que a Rússia estava na ofensiva, a Ucrânia mostrou capacidade para surpreender Moscovo. Ao Economist, uma fonte do Estado-Maior-General das Forças Armadas ucraniano sublinhou que Kiev revelou que o “rei vai nu”: “Durante muito tempo, a Rússia foi vista por um caleidoscópio de mentiras” sobre a sua invencibilidade — e a Ucrânia expôs as debilidades internas de uma “potência nuclear”.

Nem todos concordam que a operação militar foi uma boa ideia. Ao Washington Post, Oleksandr, responsável ucraniano por operações de recolha de informações confidenciais, apontou que está aliviado por a incursão estar praticamente no fim. “Ambas as Forças Armadas estão cansadas”, justificou o militar, enfatizando que foram os norte-coreanos a “fazer a diferença” em Kursk.

epa11966319 Ukrainian President Volodymyr Zelensky speaks at a press conference in Kyiv, Ukraine, 15 March 2025. President Zelensky informed journalists about the situation in Ukraine and the frontline, as well as the negotiations about a ceasefire.  EPA/STRINGER

▲ Volodymyr Zelensky considera que a ofensiva em Kursk "cumpriu a sua missão"

STRINGER/EPA

Controlando atualmente apenas algumas parcelas de territórios, a Ucrânia vai resistindo em Kursk. Os ucranianos pretendem manter algumas posições dentro de solo russo, ainda que vá sendo cada vez mais difícil, para alcançar um objetivo: evitar que os russos abram uma nova linha da frente, desta feita na província de Sumy, na fronteira com a Rússia.

Com os avanços russos em Kursk cada vez mais perto da fronteira com a Ucrânia, a situação está “cada vez mais tensa” em Sumy, admite ao The Telegraph uma moradora na região, Liza Sherstyuk. “Os habitantes da cidade estão muito ansiosos, são abatidos drones todos os dias. As forças inimigas estão perto da fronteira”, assinala. Por agora, a Rússia não aparenta querer avançar em Sumy — mas ninguém sabe ao certo os planos do Kremlin.

Numa altura do conflito em que se falava sobre um impasse na linha da frente, a Ucrânia avançou com uma ofensiva em solo russo, obrigando Moscovo a redirecionar parte do seu esforço de guerra para Kursk nos últimos meses. Porém, com o virar de costas do seu principal aliado — mesmo que tenha sido temporário e que os EUA já tenham retomado a partilha de informações confidenciais — a Ucrâna sofreu indiscutivelmente um golpe para as aspirações ucranianas dentro de solo russo.

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