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Um dos postos de testagem em Bratislava, no dia 31 de outubro

AFP via Getty Images

Um dos postos de testagem em Bratislava, no dia 31 de outubro

AFP via Getty Images

A estratégia da Eslováquia: testou 97% da população e retirou os infetados das ruas para dar "vida mais normal" aos negativos /premium

Rastreio em massa permitiu à Eslováquia detetar mais de 51 mil casos e retirá-los das ruas. Pessoas com teste negativo podem circular com maior liberdade. Conselheiros britânicos ficaram "pasmados".

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Desde 31 de outubro que Ana Rafaela Guimarães não sai de casa sem o certificado azul que recebeu nesse dia e que comprova que testou negativo ao novo coronavírus. Sabe que a qualquer momento lhe pode ser pedido pela polícia eslovaca ou ver-se impedida de entrar num restaurante, num supermercado ou no local de trabalho se não o tiver consigo — isto, na teoria; na prática, não tem sido sempre assim. “Estava à espera que o certificado me fosse pedido em todo o lado e, na verdade, até agora só me foi pedido na empresa onde trabalho“, conta ao Observador, adiantando que nos restaurantes e centros comerciais apenas medem a temperatura.

A verdade é que, se toda a gente cumprisse as regras, não haveria sequer necessidade de fiscalização: a Eslováquia testou quase toda a população e as pessoas que deram positivo à Covid-19 foram obrigadas a ficar em confinamento nas suas casas com as suas famílias. Além disso, porque o rastreio era voluntário, também as pessoas que recusaram ser testadas tiveram de cumprir uma quarentena obrigatória de duas semanas. Isto significa que, num cenário em que todos os infetados e todos os que não quiseram ser testados cumpriram as regras, apenas as pessoas com resultado negativo circulam no exterior. Por essa lógica, a infeção tornar-se-ia impossível e as ruas da Eslováquia estariam livres da pandemia.

Exemplo de certificado entregue às pessoas que fizeram o teste na Eslováquia (DR)

A portuguesa de 27 anos foi um dos 3.625.332 milhões de pessoas testadas — cerca de dois terços da população — no fim de semana de 31 e 1 de novembro, segundo dados oficiais. Testou negativo à Covid-19 e agora pode andar livremente na rua, sempre acompanhada do certificado que lhe foi dado. “Nem vale a pena andar com fotocópia ou fotografia. Temos de andar mesmo com ele”, aponta Ana Rafaela Guimarães em conversa com o Observador.

Eslováquia testou metade da população num dia. Este domingo testam o resto

Na primeira ronda em que participou, 38.359 pessoas testaram positivo ao novo coronavírus — pouco mais de 1% da população total e 15 vezes mais do que o sistema de testagem eslovaco identificaria num dia. No fim de semana de 7 e 8 de novembro houve uma nova ronda de testes em massa, apenas nas regiões mais afetadas — as chamadas regiões vermelhas: foram testadas 2.044.855 de pessoas, das quais 13.509 estavam infetadas. Feitas as contas, 97% da população elegível foi testada, segundo dados da Behavioral Insights Team (BIT), uma consultora dedicada às ciências comportamentais ligada ao governo britânico, que analisou esta testagem em massa na Eslováquia para, dali, retirar possíveis lições.

"Estava a espera que o certificado me fosse pedido em todo o lado e na verdade até agora só me foi pedido na empresa onde trabalho"
Ana Rafaela Guimarães, portuguesa a viver na Eslováquia

As duas rondas permitiram à Eslováquia detetar mais de 51 mil casos positivos e retirá-los das ruas. Lembrando que esta sua ideia foi vista inicialmente como “uma estupidez total”, o primeiro-ministro Igor Matovič assegura que foi possível reduzir o número de casos positivos em mais de 50% de semana para semana, mesmo depois de, feita a primeira ronda, a mobilidade da população ter aumentado significativamente.

Quem recusar ser testado fica obrigado a cumprir quarentena. Certificado é obrigatório até para ir trabalhar

A primeira vaga da pandemia da Covid-19 praticamente não tinha atingido a Eslováquia — na altura, o número de novos casos diários raramente ultrapassou uma centena. Mas a segunda vaga veio em força: no mês de outubro, os novos casos diários subiram exponencialmente e o país, com cerca de 5,5 milhões de habitantes — cerca de metade da população portuguesa —, atingiu a 29 de outubro o recorde de 3.363 novas infeções diárias. Ainda é cedo para tirar conclusões, mas é certo que o número de novos casos tem vindo a diminuir ligeiramente desde então.

Gráfico disponibilizado pelo governo eslovaco que mostra que foi atingido o pico a 29 de outubro e que tem havido uma ligeira descida desde então (da direita para a esquerda)

Ainda antes desse dia, a 17 de outubro, o primeiro-ministro eslovaco anunciava que nas duas semanas seguintes o país ia fazer testes a toda a população: apenas crianças com menos de 10 anos e pessoas com mais de 65, que passam a maior parte do tempo em casa, pessoas com deficiências ou com cancro, pessoas imunodeprimidas e outros grupos considerados de risco ficariam de fora. Era, para ele, a melhor forma de evitar um novo confinamento e o caminho certo a seguir dado o aumento de casos e a capacidade de resposta dos serviços de saúde. “Será uma operação inédita na Eslováquia“, dizia.

Só que ser ou não testado estava completamente nas mãos das pessoas: o rastreio era completamente voluntário. E, por isso, o governo tentou encontrar uma forma de diminuir o número de pessoas que recusassem fazer o teste. Desde logo, o rastreio foi completamente gratuito. Depois, quem optasse por não participar teria de ficar em quarentena, proibido inclusivamente de se deslocar até ao local de trabalho, já que, lá chegados, seriam obrigados a mostrar um certificado. Isto significava logo à partida que a maioria da população teria de se submeter ao rastreio para poder ir trabalhar. E qualquer restaurante, loja ou supermercado podia exigir o mesmo comprovativo. Mais: quem fosse apanhado na rua sem certificado poderia ser multado em 1.650 euros.

"Graças a todos os testes conseguimos reduzir o número de pessoas infetadas na sociedade em até 55%"
Igor Matovič, primeiro-ministro eslovaco

Logo no fim de semana seguinte foi realizado um teste piloto em Orava e Bardejov, duas regiões no norte do país que têm o maior número de casos da Covid-19. Cerca de 141 mil pessoas, 91% dos elegíveis, fizeram o teste: dessas, quase 5.600 testaram positivo e ficaram todas em quarentena. O teste piloto deixou o primeiro-ministro “extremamente satisfeito”. “A comparência foi drasticamente maior do que nas eleições — o que significa que as pessoas confiam neste projeto”, afirmou.

Algumas horas na fila, poucos minutos à espera do resultado. “Tive a sensação de que houve muita gente que quis ir”

As expectativas estavam altas para o fim de semana de 31 de outubro e 1 de novembro. Mais de 40 mil pessoas, entre 15 mil profissionais de saúde, mais de oito mil soldados e ainda polícias, administrativos e voluntários, foram colocadas em mais de cinco mil locais diferentes do país para fazer os testes — uma distribuição semelhante ao número de mesas de voto para as eleições.

Apesar do receio de não haver adesão da população, os resultados corresponderam às expectativas. João Maria Couceiro, outro português a viver em Bratislava, acordou bem cedo no primeiro dia de testes em massa. “Levantei-me às sete da manhã a achar que estava a fazer um golpe de génio, mas, quando cheguei lá, estava uma fila monumental. Só fui testado por volta das 11h30“, conta ao Observador, notando que as filas não se mantiveram ao longo do dia, mas sim formaram-se àquela hora porque foi a hora de maior afluência.

Foram colocados em mais de cinco mil locais diferentes do país para testar as pessoas

Foi testado num dos quatro postos instalados no centro histórico da capital. O processo ocorria em três fases. A primeira fase era a de registo: as pessoas forneciam os seus dados de identificação e eram-lhes dadas senhas com uma letra e um número pelas quais depois seriam chamadas para receber o resultado. A segunda fase era a do teste em si. E a terceira era a de receber o resultado. “Era uma espécie de comboio com três pontos. Passando do primeiro, íamos para o segundo e depois ficaríamos à espera de, no terceiro, receber o resultado do teste”, resumiu ao Observador o jovem de 25 anos, lembrando que as pessoas estavam “sempre separadas por 20 a 30 metros” umas das outras e nunca sentiu qualquer perigo de contágio.

Covid-19: Governo da Eslováquia quer fazer testes rápidos a toda a população

Um único posto tinha vários locais para fazer um teste. E cada um desses locais conseguiu realizar cerca de 35 testes rápidos por hora, mil ao longo dos dois dias, segundo dados da BIT. Entre seis a oito pessoas estavam alocadas em cada um desses locais: um soldado, um polícia, dois voluntários para tarefas administrativas e dois a quatro profissionais de saúde, incluindo estudantes de medicina.

"Era uma espécie de comboio com três pontos. Passando do primeiro, íamos para o segundo e depois ficaríamos à espera de, no terceiro, receber o resultado do teste"
João Maria Couceiro, português a viver na Eslováquia

Muitos locais foram adaptados para pôr este plano em prática. Ana Rafaela Guimarães, por exemplo, fez o teste numa escola. “O sítio onde esperámos pelo resultado era o recreio exterior. Tinha o jogo da macaca e alguns desenhos no chão”, contou ao Observador. Chegou lá por volta das 8h00 da manhã e encontrou “uma fila enorme”. Saiu por volta das 11h00 com o certificado no bolso. “Tive a sensação de que houve muita gente que quis ir. Foi muito tempo à espera para fazer o teste. Mas passados 15 ou 20 minutos tivemos o resultado“, detalhou. Ao contrário dos testes de diagnóstico molecular (PCR), os de antígenio para a Covid-19, conhecidos por testes rápidos, não precisam de ser processados ​​em laboratório, por isso o resultado é obtido pouco depois. A portuguesa de 27 anos já tinha feito um PCR quando chegou à Eslováquia em setembro e confessa que sentiu “uma diferença”: o de antigénio foi “muito mais incomodativo”.

Foi também a uma escola que Dário Loução, português de 27 anos, começou por ir, mas esse posto estava “completamente cheio” e não se sentiu “100% seguro”. Optou, por isso, por ir a outro posto montado numa praça ao ar livre. Não se queixa da demora: entre ir de um posto ao outro, nem duas horas passaram. Nem se queixa de falta de cuidados: apesar da grande afluência, a distância de segurança era sempre mantida entre as pessoas. Ana Rafaela Guimarães confessa que chegou a pensar na possibilidade de as pessoas, enquanto esperavam pelo resultado dos testes, poderem infetar-se umas às outras, caso houvesse uma infeção entre eles. “Mas tínhamos de manter a segurança e estávamos sempre de máscara”, afirmou. Pelo sim pelo não, a família de Sara Duarte Peralta optou por fazer o teste num laboratório privado. “Receámos as filas e, com duas crianças, não quisemos correr o risco“, explicou a portuguesa.

Um dos postos, com três locais para fazer o testes, no centro de Bratislava

Mas há um aspeto que faz alguma “confusão” aos três portugueses com quem o Observador falou: o facto de continuarem a mostrar um certificado com quase duas semanas. “Posso ter-me infetado durante esse tempo. Não temos qualquer indicação“, lembra Dário Loução. A lógica do plano é que, com todos os positivos em casa, dificilmente os negativos podem infetar-se. O problema é que ninguém garante que os infetados estejam, de facto, a cumprir todas as regras — havendo sempre a possibilidade, mesmo que reduzida, de infetarem alguém. Até porque nem sempre é pedido esse certificado às pessoas. “Já tive de mostrar quando fui ao supermercado. Ou quando fui a um ou outro café. Mas já tive situações em que não tive de mostrar”, declara João Couceiro.

Para limitar esse risco, as regras de contenção da pandemia mantiveram-se. Os que estão autorizados a circular, mesmo estado negativos, têm de continuar a usar máscara no interior dos estabelecimentos e a cumprir todas as medidas já antes em curso, como distâncias de segurança ou medição de temperatura para aceder aos espaços.

Ainda assim, todos eles concordaram com esta iniciativa.  “Acho ótimo porque quanto mais informados estivermos, melhor”, disse Ana Rafaela Guimarães ao Observador. No final da tarde de domingo, Igor Matovič recorreu ao Facebook para agradecer a todos aqueles que participaram do projeto: “Vocês conseguiram e sem vocês este pequeno grande milagre não teria tido sucesso.”

Na segunda ronda, de 7 e 8 de novembro, já nenhum deles foi testado porque não se encontrava numa região vermelha. Aqui, o governo mudou as regras e quem recusasse fazer o teste, estando numa zona vermelha, já não teria de ficar de quarentena obrigatória, mas teria de cumprir o recolher obrigatório até dia 14 de novembro, que os permite apenas sair de casa da 1h00 às 5h00 da manhã — exceto para comprar comida ou medicamentos, cuidar de uma pessoa dependente, passear um animal de estimação ou levar os filhos à escola.

Projeto deixou conselheiros britânicos pasmados. “O mundo tem mais a aprender com a Eslováquia” e a Família Real pode ajudar

Embora a China tenha sido pioneira em testes em massa de populações de cidades como Wuhan, Qingdao e Kashgar, a Eslováquia é o primeiro país da União Europeia a testar toda a sua população tão rapidamente — é certo que o Luxemburgo já o tinha feito, mas numa dimensão diferente, já que tem pouco mais de 600 mil habitantes. Daí que este projeto tenha chamado a atenção, especialmente do Reino Unido, que enviou quatro conselheiros para observar e retirar possíveis lições. Um desses conselheiros é Kristina Londakova: “Como uma eslovaca que vive no estrangeiro há 10 anos, estou orgulhosa e pasmada com esta conquista”, escreveu. Num relatório publicado no site da consultora BIT, não esteve com meias palavras e defendeu que “o mundo tem mais a aprender com a Eslováquia do que ao contrário”.

"Como uma eslovaca que vive no estrangeiro há 10 anos, estou orgulhosa e pasmada com esta conquista"
Kristina Londakova, conselheira política do Reino Unido

A consultora enumerou três principais lições para se atingir o “sucesso” da Eslováquia. Desde logo, usar “tecnologia de ponta para os testes, mas também papel e caneta para a organização”. “Este equilíbrio entre tecnologias antigas e novas ajudou o governo a realizar esta operação rapidamente, evitando grandes falhas técnicas”, lê-se no artigo. Depois, há que planear toda a logística ao detalhe: “Os testes em massa invariavelmente requererem dezenas de milhares de funcionários a trabalhar longas horas”. As contas da BIT apontam para que sejam necessários cerca de mil locais e oito mil funcionários por 1 milhão de habitantes. 

Por fim, é preciso um “forte incentivo” para população fazer o teste. “Por exemplo, permitindo que as pessoas recuperem algumas liberdades se o teste for negativo”, lê-se. Mas também passar a mensagem de que esta iniciativa poderá servir para “salvar o Natal”. A própria Família Real Britânica poderia atuar como mensageira nessa campanha, lê-se no relatório publicado.

À semelhança do que aconteceu na Eslováquia, as pessoas com teste negativo devem receber certificados. Mas a consultora sugere ainda que as pessoas com teste negativo usem também pulseiras para mostrar mais facilmente que estão livres da doença.

Em Liverpool, mais de 44 mil pessoas já foram testadas

Os conselhos foram bem recebidos e já mais de 67 zonas em toda a Inglaterra estão a preparar um rastreio desta natureza, escreve a BBC. Ainda antes destas sugestões, já a cidade de Liverpool se tinha antecipado e decidido seguir o exemplo da Eslováquia: no primeiro fim de semana de setembro, começou a testar toda a sua população. Até meio da semana passada, mais de 44 mil pessoas já tinham sido testadas, numa cidade com cerca de meio milhão, anunciou o presidente no Twitter. Dessas, 220 testaram positivo. Por ser um teste piloto e não haver uma obrigatoriedade, não há medidas previstas para as pessoas que o recusem fazer: apenas os casos negativos terão de cumprir quarentena como qualquer outro.

A consultora acredita que esta testagem em massa pode ser uma forma de permitir que pelo menos as pessoas que testaram negativo ao novo coronavírus possam voltar a ter “uma vida mais normal”.

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