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A impossível adesão da Ucrânia à UE em 2027, o elogio de Bugalho a Costa e uma corda para Temido. Um debate natalício a três

Perante a hipótese de Kiev entrar na UE em 2027, Temido, Bugalho e Tânger, em debate a 3 na Rádio Observador, convergem numa condição: Ucrânia só deve aderir quando cumprir os critérios de adesão.

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Numa Estrasburgo fria, mas iluminada pelas feiras e enfeites de Natal, o Observador juntou, num estúdio quente do Parlamento Europeu, os cabeças de lista dos três partidos mais votados nas últimas europeias. Marta Temido, Sebastião Bugalho e Tânger Corrêa concordam que dificilmente a Ucrânia entrará na União Europeia em 2027 e que tem de haver um reforço do investimento em Defesa na UE, mesmo que isso tenha custos para outras áreas.

Num debate a três transmitido na Rádio Observador, os eurodeputados falaram ainda das relações com a Administração Trump e da forma como isso força mudanças na própria União Europeia. Os três fizeram também um balanço do mandato de António Costa com Sebastião Bugalho a ser, surpreendentemente, o mais simpático para o presidente do Conselho Europeu. Mais até do que Marta Temido.

Na mesa, estiveram ainda as eleições Presidenciais, com a ex-ministra do PS a voltar a reforçar que não apoia ninguém, mas a garantir que votará num candidato, ou candidata, de esquerda. Bugalho arrisca que Temido vai votar em Catarina Martins. A socialista, que não declarou apoio a António José Seguro, não negou. Marta Temido cita ainda Mário Lino e Gouveia e Melo sobre a hipótese de vir a ser líder do PS, que rejeita: “Jamais. Como diria uma outra figura da vida pública, enforquem-me.”

Veja o debate a três, na íntegra, em vídeo:

Ucrânia não deve entrar em 2027, mas quando cumprir critérios

Os rumores de que a adesão da Ucrânia à União Europeia em 2027 estaria previsto numa das propostas de plano de paz para a Ucrânia é um cenário considerado irrealista pelos eurodeputados que encabeçaram as três listas mais votadas nas últimas europeias. Marta Temido, do PS, Sebastião Bugalho, da AD e Tânger Corrêa, do Chega, revelaram estar de acordo: a Ucrânia só deve entrar quando cumprir os critérios de adesão, iguais para todos os países candidatos.

Esses requisitos, batizados de “Critérios de Copenhaga”, estabelecem que a adesão de um novo país à União Europeia implica o cumprimento de critérios, como instituições estáveis e eleições livres, uma economia de mercado funcional e a capacidade de acolher a lei europeia — exigências que dificilmente serão cumpridas pela Ucrânia numa adesão em 2027.

Observador: Uma adesão da Ucrânia à União Europeia em 2027 é viável?
Marta Temido: A resposta para mim é muito simples, a Ucrânia deverá entrar na União Europeia quando cumprir os critérios.

"A Ucrânia deverá entrar na União Europeia quando cumprir os critérios"
Marta Temido

Observador: Portanto, não necessariamente em 2027?
Marta Temido:
Esperemos que isso se cumpra o mais depressa possível. Não sei quem pôs o prazo de 2027 em cima da mesa, em concreto. Não creio que tenha sido a União Europeia. A última vez, a última pessoa que ouvi falar de prazos foi o anterior presidente do Conselho sobre a adesão de alguns Estados que estão à espera há mais tempo e que penso que se terá enganado. Portanto, não me parece prudente nós estarmos a falar de prazos, embora gostássemos que uma determinada realidade se materializasse, para critérios que nós não sabemos se vão ser cumpridos. E a comissária para o alargamento tem sido muito clara relativamente a esse tema: embora todos estejamos conscientes de que o alargamento é um dos principais instrumentos de paz, o critério não pode o de segurança nem o critério geopolítico.

Observador: Sebastião Bugalho, concorda com esta ideia?
Sebastião Bugalho: Não há alargamento sem regras do alargamento. Os critérios de Copenhaga são para serem cumpridos independentemente da simpatia que tenhamos pelos países candidatos. O alargamento é um imperativo estratégico. Neste momento, o Livro Branco para a Segurança Europeia já inclui questões de Estado de Direito, de segurança e migração. Todas essas áreas são áreas em que estamos interlaçados com os países candidatos. A Ucrânia tem mais de 300 pessoas por dia a trabalhar para a sua adesão. Eu já estive num edifício em Kiev, onde essas pessoas trabalham. (…) Antes de a Ucrânia ser Estado-membro da União Europeia, que é uma coisa que desejamos que seja, a Ucrânia tem de ter paz e tem de ter uma normalidade democrática.

Observador: Portanto, também afasta esse prazo?
Sebastião Bugalho: 
O nosso objetivo deve ser a paz, primeiro. E depois a adesão. Apesar de, neste momento, a Ucrânia trabalhar todos os dias para a adesão e ter muito mérito nesse sentido.

Observador: Tânger Corrêa absteve-se em duas resoluções sobre um papel mais interventivo da União Europeia na questão da Ucrânia e disse em 2022 que não era anti nem pró ninguém. Que apenas era um diplomata profissional e acusou a União Europeia de ter uma postura beligerante. Três anos depois, mantém esta visão?
Tânger Corrêa: Isto foi o que vocês, Rádio Observador, fizeram para me tramar na campanha, pura e simplesmente. Agora, é evidente que ao longo destes três anos muita coisa mudou. Primeiro, a adesão da Ucrânia em 2027, esqueça! Nós temos a Macedónia do Norte, há 20 anos a tentar entrar na União Europeia. E é um país que está relativamente próximo de nós. A Sérvia está, há não sei quantos anos, à espera para entrar na União Europeia. Eu sei porque eu fui dos primeiros, quando era embaixador em Belgrado, a dar um futuro positivo aos sérvios na altura. (…) Fui diplomata desde o princípio da União Europeia, não acredito nisso. Talvez mais tarde. Não digo que não queiramos, como diz a Marta Temido, mas temos que cumprir os critérios de Copenhaga.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A Defesa Europeia perante a incerteza do parceiro EUA

Os eurodeputados concordam que deve existir um maior investimento em Defesa na União Europeia perante a incerteza do aliado EUA. Apesar de concordarem sobre a dependência que existe em relação a Washington, divergem sobre as capacidades de uma resposta europeia a Moscovo, com o eurodeputado do Chega a ser muito cético quanto à atual robustez dos exércitos dos Estados-membros.

Observador: A UE está perante o maior investimento em defesa da sua história. O que é que falta à União Europeia para ter uma posição mais equilibrada perante, neste caso, a Rússia? Passa por mais consenso entre os Estados-membros? Mais investimento?
Marta Temido: É evidente que a questão da defesa tem várias dimensões. Há uma dimensão de curto prazo e há uma dimensão de médio-longo prazo. No curto prazo, aquilo que a presidente Von der Leyen colocava em cima da mesa no plenário [desta semana], prendia-se com a questão do apoio militar e económico à Ucrânia e essa dimensão tem que ter um tipo de resposta que o Conselho Europeu dará [que entretanto se realizou]. Uma dimensão diferente é aquela que nós precisamos de garantir com a nossa resposta sustentada ao nível militar, ao nível de uma eventual segurança comum. E portanto são duas dimensões de uma mesma necessidade. É evidente que o mundo mudou muito em pouco tempo e é evidente que aquilo que esperávamos ter ao abrigo da NATO, do artigo 5º, não está já a garantir-nos a tranquilidade que nós precisamos. E, portanto, temos que ver o mundo pela realidade que ele tem, com a crueza que ele tem. Como todos sabem, os discursos militaristas não nos são caros, não gostamos dessa escolha, mas também não somos irrealistas, somos lúcidos, sabemos onde estamos e claramente há escolhas que têm de ser feitas num contexto de um orçamento e claramente no quadro de um próximo mecanismo financeiro plurianual que são difíceis. 

Observador: Sebastião, faço a mesma pergunta, o que é que falta fazer à União Europeia?
Sebastião Bugalho: Há muito por fazer e aquilo que se conseguiu em 2024 essencialmente foi uma resposta que materializou uma porta. Não poderemos dizer que já abrimos a porta e que já materializamos a União de Defesa na sua plenitude ou sequer que aproveitámos, por exemplo, a possibilidade levantada pela Comissão e pelo Conselho este ano dos 800 mil milhões de euros para investimento em Defesa. Para isso é preciso os Estados-membros estarem disponíveis para se endividar através desses 800 mil milhões de euros. Julgo que o momento pivotal de 2025 terá sido a cimeira da NATO, que como sabe estabeleceu o objetivo de 5% de despesa em defesa separada em 3,5, mais 1,5% de infraestrutura, até 2035.  (…) E também vou dar uma palavra sobre o próximo quadro financeiro, que a Marta Temido referiu e bem, porque será de facto o momento onde as coisas começarão a ficar um pouco mais nítidas. Porque, na cimeira da NATO, nós comprometemos com os 5%, mas os EUA – que têm um discurso que nos responsabiliza pela nossa segurança de uma forma muito diferente em comparação com os últimos 80 anos – mas há uma coisa que eles não nos disseram e não nos dizendo permitiram-nos algo, que é que ninguém nos disse que desses 5% do investimento em Defesa terá de ser no próprio Estado-membro. Ninguém nos disse que não poderia ser um apoio à Ucrânia (…) É verdade que nós temos mais prioridades para o mesmo dinheiro, porque ninguém quer ouvir falar em impostos europeus, nenhum Estado-membro está disponível para aumentar as suas contribuições nacionais e o aumento dos recursos próprios é escasso e não é suficiente para as novas prioridades. Esse é que é o problema.

"A curto prazo não temos hipótese nenhuma. Não há tropas na Europa. Os franceses têm munições para 48 horas. Portanto, não vale a pena estarmos a fazer grandes castelos no ar quando nós não temos sequer a pedra para os construir"
Tânger Corrêa

Observador: Tânger Corrêa, a mesma questão.
Tânger Corrêa: Eu não discordo do que Marta Temido e Sebastião Bugalho disseram, só que acho que estamos a passar ao lado de uma coisa fundamental, que é: uma Europa com uma Defesa comum é completamente impossível (…) A senhora Von der Leyen veio falar no armamento europeu, quando ela foi a grande destruidora do exército alemão. Ela foi a responsável da destruição do exército alemão.  Sabe quanto tempo é que demora o exército alemão a reconstruir-se daqui para o frente? 13, 14 anos. Portanto, a curto prazo não temos hipótese nenhuma. Não há tropas na Europa. Os franceses têm munições para 48 horas. Portanto, não vale a pena estarmos a fazer grandes castelos no ar quando nós não temos sequer a pedra para os construir. 

O debate evolui para a forma como os cidadãos europeus podem, ou não, compreender elevados gastos em Defesa, em detrimento de outras áreas essenciais da vida comum. Os eurodeputados consideram que as populações já estão sensibilizadas e apoiam essa via, embora isso seja mais evidente para Estados-membros onde a ameaça é maior, nomeadamente os Estados bálticos e do Leste Europeu.

Marta Temido lembra, por exemplo, um estudo da plataforma francesa Le Grand Continent, que indica que 55% dos europeus consideram que o risco de um conflito na Europa nos próximos anos é altamente provável e 70% são favoráveis a uma defesa comum europeia. O debate continua.

Observador: Como é que explicamos aos cidadãos europeus que, apesar de haver uma ameaça, apesar de ser necessário investir na Defesa, teremos, provavelmente, de cortar noutras áreas para garantir que a resposta é dada?
Marta Temido:
Penso que os cidadãos europeus estão bastante conscientes disso. É interessante porque há um estudo que foi agora publicado de uma entidade que se chama Grand Continent e que me parece ser um grupo de comunicação com várias linhas francês, relativamente recente, o Grupo 2019. O estudo é de agora e refere-se a março deste ano e que avaliou alguns países, não todos, sobre o que é que os europeus pensam sobre defesa. E 55%, estávamos em março, ainda só estávamos em março, portanto estávamos no início da administração Trump, consideravam que o risco de conflito no território europeu era muito elevado nos próximos anos. 70% eram favoráveis a uma defesa comum europeia e 54% favoráveis ao apoio militar à Ucrânia. É evidente que estamos a falar aqui de países muito diferentes – e Portugal não estava incluído. Depois também se percebe que os países mais próximos da frente, digamos assim, estão mais disponíveis para se proteger e para investir em Defesa do que outros países. (…) Nós temos na União Europeia, creio eu, o melhor, mas também o menos bom. É um bloco, mas é um bloco que demora a tomar decisões e em que aquilo que são as suas fissuras, as suas dificuldades de entendimento, são bastante exploradas designadamente pelos nossos inimigos.

Observador Sebastião Bugalho, já percebi que concorda com Marta Temido. Como é que nós tomamos esta decisão e, essencialmente, como é que explicamos aos europeus que é preciso fazer estas escolhas?
Sebastião Bugalho: Eu concordo porque, agora, na intervenção que a Marta Temido está a fazer, o diagnóstico e o contexto da intervenção que está a fazer é factual, nem sequer é opinativo. É verdade que a geometria política do nosso bloco europeu é difícil e obriga, muitas vezes, a alguma ginástica, nomeadamente no âmbito do Conselho. Ainda a semana passada, justamente, teve que acionar o Artigo 122 para garantir que a Hungria e que a Eslováquia, e talvez a partir de agora a República Checa, com a mudança do Governo que tiveram, não tinham, semestralmente, que se pronunciar e poder bloquear os trabalhos do Conselho no que toca à imobilização dos ativos russos. Muitas vezes, as preocupações dos países que são mais céticos do apoio à Ucrânia — nos quais eu não me revejo manifestamente nem politicamente nem na questão em concreto do apoio à Ucrânia — muitas vezes têm preocupações que fazem algum sentido, nomeadamente a questão do cheque em branco do ponto de vista do apoio financeiro que damos. Neste momento, metade do Orçamento do Estado ucraniano vem diretamente de fundos europeus. Obviamente que tudo o que é escrutínio ao uso desse dinheiro deve ser feito e que esse dinheiro deve ser usado com transparência e, obviamente, nós não devemos ser menos exigentes do que somos connosco próprios, apesar de estarmos totalmente solidários com o esforço de guerra ucraniano. 

Observador: Tânger Corrêa, a mesma pergunta: conseguimos explicar aos europeus que é preciso fazer escolhas e pergunto-lhe se acha que os números de apoio na altura de ter mesmo de os dar não vão variar?
Tânger Corrêa:Variam com certeza. Variam de país para país, ou seja Portugal é dos países que mais apoia a Ucrânia na União Europeia. Isso é um dado adquirido e que não vale a pena sequer discutir outros países que apoiam menos ou cada vez menos, porque aquilo que aparece neste momento com o grande paradigma com o grande objetivo é a paz. Ou seja: tudo o que aparecer como prolongar a guerra, independentemente de concessões territoriais ou não, porque é isso que está em cima da mesa é negativo para a obtenção da paz. E o que os europeus querem é paz. O apoio à Ucrânia, como diz o deputado Sebastião Bugalho, tem que ser claro, tem que ser perfeitamente transparente, o que não tem sido. Vemos as armas que são enviadas para a Ucrânia para serem entregues ao exército ucraniano depois aparecerem nas organizações de droga do México, inclusive nos tiroteios em Bruxelas, aparecerem noutros sítios.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os eurodeputados falam ainda sobre a Estratégia de Segurança Nacional apresentada pela Casa Branca, que tece duras críticas à Europa, Marta Temido sugere um exercício: “Ponhamo-nos no lugar de um cidadão comum”. A socialista argumenta que “a União Europeia, naquilo que é a sua essência, representa uma ameaça para quem queira dominar o mundo”, defendendo que o arrefecimento das relações Europa-Washington surge porque “há interesses económicos e comerciais envolvidos”.

“É evidente que a Administração Trump não gosta da União Europeia e é tudo menos um parceiro fiável, aliás, parece-me cada vez mais posicionar-se na linha de um parceiro hostil"
Marta Temido, eurodeputada do PS

“É evidente que a Administração Trump não gosta da União Europeia e é tudo menos um parceiro fiável, aliás, parece-me que cada vez mais posicionar-se na linha de um parceiro hostil”, defende Temido, que reconhece que os laços com a outra margem do Atlântico estão “temporariamente rompidos”, sustentando que “os ciclos políticos também não são eternos, nem de um lado nem do outro”, num claro apelo a que a Europa ultrapasse o desatino com a Casa Branca.

Bugalho concorda com a deputada socialista, ao dizer que os “Estados Unidos da América não têm o mesmo interesse na nossa segurança e na nossa prosperidade como tiveram tradicionalmente nos últimos 80 anos”. Ainda assim, no que toca à abordagem que a UE deve adotar, o social-democrata pede equilíbrio: “Seria tão irresponsável ignorar o que o documento diz sobre a Europa, como seria igualmente irresponsável torná-lo uma ruptura definitiva”.

Neste documento divulgado pela Casa Branca, pode ler-se um apelo a que os europeus optem por colocar no poder forças políticas mais conservadoras para contornar o “declínio civilizacional” da União Europeia. Para este posicionamento de Donald Trump, Sebastião Bugalho encontra uma razão: “Se a Europa tivesse mais governos dessa família política, não havia reformas de integração europeia que tornavam o mercado europeu mais competitivo”. “Qual é que é a única forma de pôr o mercado interno europeu a funcionar? Não é certamente com governos que sejam contra a União Europeia”, defende Bugalho, que conclui que é essa a razão pela qual “os americanos querem que sejam os eurocéticos a governar a Europa, para que continuem eles — americanos — a crescer”.

Em sentido oposto, e em linha com o presidente do seu grupo político no Parlamento Europeu, Jordan Bardella, António Tânger Corrêa concorda com o diagnóstico feito na Estratégia de Segurança Nacional norte-americana, “mas não com a execução”. O vice-presidente do Chega  acompanha as críticas feitas pela Casa Branca à União Europeia, defendendo que “somos um continente sem exército, somos um continente sem objetivos, somos um continente sem políticas”. “Se eu fosse americano, concordava com Donald Trump” confessa António Tânger Correa, enquanto tece críticas à Europa, que diz ter deixado de ser a “génese da civilização”.

“Se eu fosse americano, concordava com Donald Trump"
António Tânger Corrêa, eurodeputado do Chega

Balanço de um ano de António Costa no Conselho Europeu. Bugalho é o mais elogioso, Tânger o mais cético 

Sebastião Bugalho não tem dúvidas quanto ao sucesso do primeiro ano de António Costa à frente do Conselho Europeu, do qual faz uma “avaliação francamente positiva”. Chega a ser mais elogioso que a própria camarada de partido do presidente do Conselho Europeu, Marta Temido. Já Tânger Corrêa considera que Costa, pela natureza do cargo que desempenha, conta pouco ou nada.

Cumpre agora um ano de mandato António Costa. Eu pergunto-lhe que balanço é que faz  deste mandato do presidente do Conselho Europeu?
Marta Temido:  
Eu não faço balanços em nome de outras pessoas. Penso que tem sido um ano com muitos desafios. Nós lemos por obrigação e por gosto aquilo que são as cartas que o presidente do Conselho escreve na preparação de cada um dos Conselhos Europeus e nas entrelinhas lê-se muita coisa. Olhe, lê-se agora, nesta última carta deste último Conselho, no apelo que o Conselho Europeu tomasse uma decisão, fosse coerente e que se saísse daquele impasse entre os empréstimos partilhados e a utilização dos ativos russos. Houve já vários momentos em que o presidente do Conselho utilizou essa suposição para fazer passar mensagens.

Observador: Sebastião Bugalho, também concorda que António Costa está a ter uma posição determinante, especialmente na questão da Ucrânia? 
Sebastião Bugalho:  Mais do que isso. Eu julgo que o primeiro ano de mandato de António Costa foi um bom primeiro mandato. Fez todo o sentido que o Governo de Portugal, que não é da família política dele, o tivesse apoiado. Certamente que não desmereceu esse apoio neste primeiro ano de mandato. E a avaliação que faço é francamente positiva, como deve imaginar. Concordo com muito poucas coisas que o doutor António Costa fez com o primeiro-ministro, mas concordo com muitas coisas que ele tem feito com o Conselho Europeu.

"O primeiro ano de mandato de António Costa foi um bom primeiro mandato. Fez todo o sentido que o Governo de Portugal, que não é da família política dele, o tivesse apoiado. Certamente que não desmereceu esse apoio neste primeiro ano de mandato. E a avaliação que faço é francamente positiva, como deve imaginar."

Observador: Concorda, Tânger Corrêa?
Tânger Corrêa:
Concordo parcialmente com o doutor Bugalho, dizendo que não concordo com o que ele fez com o primeiro-ministro. E é preciso ver qual é a importância que ele tem no Conselho Europeu, que é pouca ou nenhuma.

Sebastião Bugalho: Em comparação com o anterior, é certamente maior, 

Tânger Corrêa: O Presidente do Conselho, como tal, não tem, não é por ser António Costa.

Observador: Em que sentido é que o diz?
Tânger Corrêa: No sentido institucional. Ou seja, ao contrário da Von der Leyen, presidente da Comissão que tem poderes imensos, mais do que devia ter, claramente, António Costa, como Presidente do Conselho, é mais um moderador, digamos, uma pessoa que faz… Não estou a querer dar na cabeça do doutor António Costa, mas institucionalmente a posição do Presidente do Conselho é uma posição que não tem grande relevância do ponto de vista factual ou de execução.

Marta Temido: Sabe, é como os embaixadores? É que não podem, de facto, aparecer, porque não podem ficar com os louros da negociação. 

Tânger Corrêa: Isso é verdade.

Marta Temido:  Mas a negociação só existe porque existem os embaixadores.

Tânger Corrêa: .Agora está-me a querer apanhar a doutora Marta Temido…

Presidenciais. Temido garante que vota à esquerda, Bugalho desconfia que é em Catarina Martins

Os eurodeputados estabelecem qual é o perfil de Presidente da República que queriam ver em Belém a partir de 2026 onde concordam genericamente. Já sobre a escolha concreta, Sebastião Bugalho está decidido a votar em Mendes, e até faz parte da Comissão Política. Tânger Corrêa também jura fidelidade a André Ventura. Marta Temido continua sem se comprometer publicamente com um apoio (sugerindo que não segue a indicação do partido, de voto em Seguro), mas, provocada por Bugalho, acaba por garantir que não votará em Marques Mendes. O eurodeputado do PSD acredita ter desvendado em quem Temido vai colocar a cruzinha.

Observador: O que é que não pode ao próximo Presidente da República?
Marta Temido: O que é que não pode faltar? Lucidez, experiência, capacidade de fazer pontos e cumprimento absoluto daquilo que é a Constituição. 

Sebastião Bugalho: Está quase a eleger o Marques Mendes.

Observador: Já disse várias coisas. Já disse também que não servia totalmente no candidato António José Seguro. Que outro candidato na tal constelação que falou é que lhe parece ser adequado?
Marta Temido: A minha opção pública foi não apoiar publicamente nenhum candidato. É evidente que, como também já disse, vou votar. E nesse momento tomarei a minha decisão. Creio que aquilo que as sondagens mostram nos últimos dias é que para muitos portugueses, para mim também, os debates têm sido muito importantes. E tem sido muito interessante conhecer melhor os candidatos.

Observador: Sebastião Bugalho, é relativamente declarado o seu apoio a Luís Marques Mendes. Neste contexto internacional, Marques Mendes tem capacidade para ser o melhor candidato em cima da mesa para ser o próximo Presidente da República?
Sebastião Bugalho:
Nenhum país se vai conseguir defender dos desafios internacionais que iremos enfrentar nos próximos anos sem estabilidade interna. Um Presidente que seja inimigo da estabilidade interna será o Presidente inimigo do seu próprio país face a esses desafios. Portanto, tenho muito receio de candidatos que não conheçam a Constituição, que não conheçam o sistema político português, que não respeitem ou não conheçam as instituições que compõem a nossa República. Portanto, eu aí, espero que a senhora deputada não se ofenda, eu concordo que a experiência, o respeito e o conhecimento da Constituição, a moderação são características essenciais. E é por isso que eu apoio o Luís Marques Mendes.

Observador: Tânger Corrêa?
Tânger Corrêa:
A característica essencial para um Presidente da República é ter sentido de Estado.

Observador: E em que candidato é que reconhece o maior sentido de Estado?
Tânger Corrêa: Obviamente que o Sr. Presidente André Ventura. Apoio André Ventura. Obviamente. Mas é evidente que André Ventura tem uma atitude digamos que revolucionária.

A propósito das Presidenciais, os eurodeputados dizem ainda compreender o facto de dois colegas eurodeputados serem simultaneamente candidatos presidenciais.

Observador: Nestas eleições, não é inédito, já aconteceu, acontece frequentemente, mas há dois eurodeputados na corrida presidencial, Catarina Martins e João Cotrim Figueiredo, Os eleitores não saem, de certa forma, defraudados?
Marta Temido: Penso que é frequente eurodeputados serem candidatos a lugares nos seus próprios países e isso, de alguma forma, mostra o prestígio também do Parlamento Europeu. Não me pergunte sobre escolhas pessoais e escolhas partidárias, que eu isso não tenho capacidade para fazer. Preferia juntar uma resposta às respostas anteriores, como se fosse assim, mas que é muito relevante. É que eu estou de acordo com aquilo que os meus colegas disseram em relação às características dos candidatos, mas há uma que para mim é evidente, se calhar por isso não a referi, que é ser de esquerda.

Sebastião Bugalho: Foi o quase a apoio à Catarina Martins. Quase, quase, quase.

Observador: E Sebastião Bugalho, como é que vê esta situação?
Sebastião Bugalho:
O meu apoio é óbvio, já expliquei porquê, mas se tenho razões de crítica às candidaturas de João Cotrim Figueiredo e de Catarina Martins, não é certamente para eles serem eurodeputados. Não vou fazer nenhum tipo de juízo de valor sobre isso.

Observador: Tânger Corrêa?
Tânger Corrêa:
Acho muito bem. Só acho pena que não tenham sido mais tempo eurodeputados para aprenderem mais. Porque é fundamental saberem o que é que se passa aqui para poderem ser bons candidatos. De resto, não tenho objeção nenhuma.

Sebastião Bugalho: E é por isso que o embaixador António Tângera Corrêa… Será que o candidato à presidência da República em 2031 depois de cumprir todo o seu mandato.

Política Interna. Temido cita Mário Lino e almirante sobre liderar o PS: “Jamais. Enforquem-me”. Tânger nega zanga com Ventura

Antes do debate acabar ainda houve tempo para os eurodeputados falarem sobre política interna, em particular a relação que têm com os respetivos líderes. Marta Temido falou sobre a hipótese de um dia ser líder do PS, o que rejeitou liminarmente. Sebastião Bugalho continua a jurar lealdade total a Luís Montenegro. E Tânger Corrêa desmente relação tumultuosa com André Ventura.

Marta Temido, sabemos que tinha muito à vontade com o ex-secretário-geral do Partido Socialista, Pedro Nuno Santos. Como é que é a relação com José Luís Carneiro?
Marta Temido:
Vocês sabem que tinha muito à vontade é porque presumiram. É sensivelmente a mesma. Fomos colegas de governo. Fui colega de governo de Pedro Nuno Santos e fui colega de governo de José Luís Caneiro.

Sebastião Bugalho, articula-se frequentemente com o presidente do seu partido, Luís Montenegro? O que é que tem no horizonte para depois de um mandato no Parlamento Europeu?
Sebastião Bugalho:
Quando fui convidado para o Parlamento Europeu, coloquei o meu mandato nas mãos de quem me convidou. Portanto, o meu mandato pode acabar amanhã, pode ser renovado em 2029, pode terminar em 2029, que é uma escolha que depende exclusivamente e somente de uma pessoa, Luís Montenegro. 

Observador. Marta Temido, tenho de lhe fazer outra questão: é apontada frequentemente como uma possível sucessora de José Luís Carneiro na liderança do Partido Socialista. Exclui candidatar-se à liderança do Partido Socialista? 
Marta Temido: Conhece aquela expressão “jamais”?. Em definitivo, não. Como diria uma outra figura da vida pública, “enforquem-me”.

Observador: Tânger Corrêa, como é que tem sido essa articulação com o seu partido, em particular com o líder André Ventura? Circularam algumas notícias de que a relação entre os dois estaria um pouco mais afastada.
Tânger Corrêa:
Está afastada por 2.000 km, 2.500 km. 

Observador: Para além da geografia. 
Tânger Corrêa:
Mantenho contacto permanente com o André. Eu sou o primeiro vice-presidente do partido. Não sou uma figura qualquer no partido. Sou o número 2 do partido. Obviamente que há uma relação de confiança. E nós, quando temos que falar, falamos. Quando eu tenho dúvidas, falo. Quando ele tem dúvidas, fala. Temos uma excelente relação. Por acaso, sei que correu essa notícia.

Observador:  Exclui que haja aqui uma tensão.
Tânger Corrêa: São tricas de quem está por fora.

Os três eurodeputados despediram-se cordialmente, tom que mantiveram ao longo de todo o debate, com desejos mútuos de Feliz Natal.

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