A inteligência artificial vai roubar empregos? “Se o que fazes é muito calculável, pode acontecer” /premium

29 Janeiro 2019153

Jim Stolze é especialista em inteligência artificial e, em entrevista, dá pistas para saber se está em risco de perder o seu emprego para um robô. Mas também diz que ela pode ajudar a salvar vidas.

Jim Stolze é especialista em inteligência artificial (IA) e está pela primeira vez a Portugal para ser um dos principais oradores em dois eventos distintos: o Building the Future, organizado pela Microsoft, e o Future of Healthcare, organizado pela SingularityU. A IA é o tema que o traz, mas a vida deste holandês envolve startups e desafios inesperados, como quando em 2008 ficou 40 dias offline.

O período em que viveu desligado começou com “uma ideia louca”, mas depois levou-o a escrever livros, a dar conferências e a ser tema de notícias. Em entrevista por videochamada a partir do Amesterdam Science Park, onde trabalha, Stolze conta que não voltaria a fazer o desafio. Como afirma, a internet cria felicidade, da mesma forma que a IA o vai fazer, além de ajudar a salvar vidas humanas. Segundo Stolze, a tecnologia pode ser encarada de forma otimista, mas convém pensar no que vai fazer aos empregos.

Além de ser fundador do TEDx Amesterdão, o holandês fala de como teve a ideia de criar uma agência de talentos para juntar empresas com algoritmos de machine learning. Sim, como aquelas que procuram os atores certos para determinados papéis, mas aqui os protagonistas que são contratados são “não-humanos”.

Diz que a inteligência artificial vai salvar vidas. Contudo, a tecnologia não vai fazer com que as pessoas percam o emprego?
A IA é a próxima tecnologia, tal como vimos outras no passado. Eletricidade, máquinas, o computador, o telemóvel… A IA é o próximo passo. Sim, o trabalho vai mudar, mas creio que há estatísticas injustas que estão a ser utilizadas. Há um relatório de Oxford, de 2013, que diz que 47% de todos os empregos vão desaparecer por causa dos robôs, mas os mesmos investigadores voltaram a fazer o mesmo estudo e corrigiram o número e ficaram-se pelos 28%. Ninguém escreveu sobre isso. Em 2018, a OCDE fez o mesmo estudo e o valor a que chegou foi de 14%.

O que isto significa é que ninguém sabe ao certo. Há várias definições utilizadas para o que é o trabalho. Há estudos que dizem que a IA vai criar emprego porque vai estimular a economia. Não sou pessimista sobre as pessoas poderem perder empregos. Contudo, digo uma coisa: se o teu trabalho consiste em algo que é muito calculável, algo que se pode algoritomizar — algo como “se fizer isto, depois faço isto, então acontece isto” –, essa é a tua chamada de atenção, pode acontecer. É o que tem de te fazer pensar: pode uma máquina fazer o meu trabalho ou há mais coisas neste emprego que uma máquina nunca vai fazer? Quanto mais um empregado pensar sobre isso, melhor profissional é. As máquinas são muito boas com matemática, mas são muito más com pessoas, por exemplo.

Como é que a inteligência artificial vai salvar vidas?
Não acho que a IA vá salvar vidas, acho que os médicos vão salvar vidas e que vão salvar cada vez mais porque podem utilizar a IA.

Quando se fala em IA, pensa-se no Exterminador Implacável e na Skynet. Como é que a IA pode ajudar os humanos? 
Isso é verdade. A maioria das vezes em que se pensa em inteligência artificial pensa-se num conceito diferente. A IA é uma busca para se tentar que as máquinas um dia pareçam ser inteligentes. Esse é o plano a longo prazo. É algo que, se calhar, vamos ver muito no futuro: verdadeira inteligência no computadores. Contudo, atualmente, o que está a ser utilizado é o machine learning. É uma maneira de fazer com que as máquinas pareçam inteligentes ensinando-lhes coisas. Elas aprendem porque lhe são mostrados exemplos, que é o que chamamos de dados. A máquina utiliza métodos estatísticos — matemática — para perceber o que os dados que recebe podem ter em comum. Ou seja, procura pontos de conexão e padrões. Com isto, tenta encontrar os padrões exatos para os tentar classificar em categorias. Para isso, precisamos de dados, de poder de processamento e da matemática.

"A IA é uma busca para se tentar que as máquinas um dia pareçam ser inteligentes"

Com estes dados, por exemplo, exames raio-x podem ser digitalizados. Pessoas que tenham certas doenças podem ter de fazer um raio-x e o médico vê o que parece estar mal. Quando se digitaliza essa imagem, juntamente com os comentários de um especialista, está a treinar-se a máquina para pensar como um médico. Depois, estas podem olhar para mil raios-x de uma só vez e dizer o que está mal. O resultado é dar aos médicos um par de olhos extra para serem mais eficientes.

Esta tecnologia já está a ser utilizada em hospitais e na indústria da saúde?
Sim. Há um caso conhecido na Índia. Como não há oftalmologistas suficientes, as pessoas que têm retinopatia diabética podem ficar cegas se não forem vistas a tempo. Na Índia, 40% das pessoas que têm esta doença ficam cegas porque não há oftalmologistas suficientes. O que os médicos fizeram foi criar uma base de dados com 127 mil imagens raios-x e fotografias de retinas com oftalmologistas a dizer “esta pessoa precisa de cirurgia, esta não”. O algoritmo ficou tão preciso que em 95% dos casos acerta. Já com um médico, a probabilidade costuma ser de 91%. Atualmente, na Índia, é possível fazer o upload de uma imagem da retina e saber se é preciso ou não fazer cirurgia.

“Pessoas que têm acesso à internet são mais felizes do que pessoas que não têm”

O que faz com a SingularityU?
Em Amesterdão foi a primeira vez que a SingularityU saiu dos Estados Unidos e fui um dos fundadores. É um think tank na Califórnia. Foi fundada pela Google, pela NASA e outras entidades inovadoras. A tecnologia no nosso futuro é tão importante que não a devemos deixar apenas para as empresas em Silicon Valley. Precisamos que toda a gente no mundo pense sobre estes temas. Eles estavam à procura de sítios para expandir e, sorte a nossa, os Países Baixos foram escolhidos como o primeiro sítio para a expansão. Agora, em Portugal, também há uma equipa local, uma subsidiária. Em diferentes partes do mundo temos presenças locais da SingularityU.

Primeiro fui ao programa executivo nos EUA do think tank, em 2015, começámos por envolver mais pessoas e fiquei como um dos quatro diretores da Holanda. Em 2/3 anos tem sido um projeto muito bem sucedido, estamos muito felizes.

"A tecnologia no nosso futuro é tão importante que não a devemos deixar apenas para as empresas em Silicon Valley"

Há também uma subsidiária em Portugal. Trabalham em conjunto?
É essa a vantagem da SingularityU. Trabalhamos proximamente em todos os sítios. Conheço o Ricardo Marvão, conheço as equipas em Milão. A SingularityU não tem propósitos comerciais. Queremos inspirar, educar e capacitar os líderes do futuro para fazerem o máximo com a tecnologia. Para que a utilizem para o bem da humanidade. Trocamos ideias e partilhamos conhecimento.

Há 10 anos fez uma experiência em que esteve offline por um mês. Como foi?
Foi em dezembro de 2008. Passei 40 dias offline. Sem internet. Começou como uma ideia louca e depois fi-lo e consegui. Escrevi um livro sobre isso, fui convidado para uma TED Conference para falar sobre isso e para a CNN… As pessoas queriam saber mais sobre o holandês maluco que esteve offline. Pensei que mais pessoas iram querer fazer o mesmo. Muitos depois estiveram offline. Tentaram, mas ninguém passou da segunda semana, porque essa é a semana mais difícil. É quando tens todos os teus amigos a dizer: “Volta ao mundo online, precisas do teu telemóvel”. Poucas pessoas foram capazes de fazer a experiência. Não sei se conseguiria fazer novamente, em 2019.

Como refere no seu livro, no início é fácil, mas para o final vai ficando cada vez mais difícil. Há uma altura em que começa a sentir que está a perder coisas e isso é quase intolerável, certo?
Sim. É o FOMO (Fear of Missing Out, em português, “medo de não saber o que está a acontecer”). Toda a gente estava a partilhar informação, coisas que leram online ou que viram num vídeo, mas eu não sabia disso. Foi como se estivesse a acontecer uma festa para a qual não fui convidado. Fiz alguma investigação e, a nível europeu, parece que há dados que mostram que pessoas que têm acesso à internet são significativamente mais felizes do que pessoas que não têm. Para mim, isso foi revelador. Acho que se vai passar o mesmo com a IA. Muitas pessoas dizem que é perigosa, vai causar danos, talvez. Mas também vemos muitos benefícios e, no fim, acho que os benefícios vão superar as desvantagens.

Ainda tem FOMO hoje em dia, estando ainda mais conectado à internet do que estava em 2008?
Uma coisa que aprendi da experiência foi que a internet é fantástica, é como um fórum global. Precisamos dela. Mas muito de uma coisa nunca é bom para ninguém. Depois da experiência, criei algumas diretivas para mim e ainda as utilizo. Não sou viciado em redes sociais nem na internet, de todo. Acho que a utilizo da forma certa.

Dez anos depois, ainda advoga que a internet é uma coisa boa, depois de casos como a Cambridge Analytica e tantos outros que põem em descrédito o mundo online?
Acho que sim. No fim, a tecnologia é uma coisa que faz as coisas acontecerem mais rapidamente. As boas coisas acontecem mais rapidamente, mas a coisas más também. E, agora, devido à internet, vivemos numa era de transparência radical. Por isso, tudo o que está aí vai, eventualmente, ser conhecido. Seja a mentira ou a verdade, agora vemos grandes instituições a tentar manipular informação ao utilizar a internet. Como temos transparência, no fim, vamos sempre saber de casos como o da Cambridge Analytica.

A agência de talentos para “não-humanos”

Como é que teve a ideia de criar uma agência de talentos para IA?
Muitas empresas têm recolhido dados ao longo dos últimos 10 anos, o nome que se dá é big data. Estas empresas têm muitos dados, mas pouca informação. No outro lado, temos mentes brilhantes que sabem de matemática, machine learning e IA, mas não têm dados. Vi empresas com muitos dados de um lado, e do outro lado vi talento. Quis juntá-los e a melhor forma foi fazer uma agência de inteligência artificial.

"Vi empresas com muitos dados de um lado, e do outro lado vi talento. Quis juntá-los e, a melhor forma, foi fazer uma agência de inteligência artificial"

É como uma agência de talentos, como as que existem para atores, por exemplo, mas para IA?
Sim, basicamente. Somos uma agência para não-humanos. É possível contratar algoritmos connosco. Sistemas de IA. Não temos pessoas na folha de pagamentos.

E não tem medo que a IA venha a fazer o trabalho que agora está a fazer?
[riso] Espero que sim, que venha a existir uma.

Foi fundador do TEDx Amesterdão, mas saiu do evento. Porquê?
Organizei o evento entre 2009 e 2016 e depois escolhi dedicar o meu tempo à IA. Despedi-me e a equipa ficou a organizar tudo sozinha. Já fizeram dois eventos muito bons e até fui o orador no evento em 2017. Falei sobre IA, foi como uma conferência de despedida do TEDx.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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