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A sala de Lady Gaga, o coração de Taylor Swift e a classe dos Stones: vi o concerto One World e quero mais (mas por outras razões, claro)

A ideia era juntar as maiores estrelas pop do planeta para ajudar quem luta contra a Covid-19. Se não viu, Hugo van der Ding conta-lhe como foi. Se viu, ele conta na mesma.

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A noite prometia. O One World Together at Home iria juntar as maiores estrelas do planeta, cada uma em sua casa, para um direto de várias horas, cantando, dançando, e essas coisas que as maiores estrelas do planeta fazem no lar. A transmissão completa , online, durou oito horas, mas as estrelas maiores estavam guardadas para uma emissão que passou nas televisões de todo o mundo, incluindo a portuguesa. Eu estava lá. Em frente à televisão, entenda-se.

Era uma oportunidade de ouro para fazer um intervalo nas risadas que damos com as casas e as roupas dos nossos amigos, agora à vista de toda a gente nos diretos nas redes sociais. E assim, todos juntos, poderíamos rir das casas dos nossos artistas preferidos, como já fazemos — de roupão no sofá — com os vestidos nas passadeiras vermelhas.

Para essas coisas, claro, estou sempre na primeira fila. Enquanto houver um sofá, uma planta, um quadro ou um piano para fazer pouco, a Humanidade ainda não desapareceu.

A intenção não podia ser mais meritória: homenagear todos os que trabalham na linha da frente da luta contra a Covid-19. Bom, e não só na linha da frente. Também os que estão na segunda linha, e os da terceira linha, e até aqueles da quarta linha, que às vezes lhes calha o lugar precisamente atrás de uma pessoa mais alta e quase não conseguem ver nada do que se passa lá à frente. Todas estas pessoas não podiam merecer mais ser celebradas. E mereceram os 118 milhões de euros angariados para quem mais deles precisa nesta luta.

Também à minha pequena escala me preparei para homenageá-las a todas, assistindo ao show que prometia juntar nomes tão diversos como Andrea Bocelli, Céline Dion ou David Beckham. O crème de la crème do azeite, respetivamente, nas áreas do canto lírico, da música ligeira e do futebol.

[a emissão de duas horas, na íntegra, para ver ou rever:]

A noite começou com os apresentadores, claro. Cada um na sua cave, os parodiantes Jimmy Fallon, Jimmy Kimmel e Stephen Colbert deram as boas-vindas aos milhões de pessoas, um pouco por todo o mundo, que os estavam a ver. Foi, claro, muito engraçado. São três pessoas cheias de graça. Estão para a comédia como Nossa Senhora está para o Céu, também Ela cheia de graça.

Ligou-se depois para a casa de Lady Gaga, a curadora do espetáculo, a pessoa que andou a chatear toda a gente para entrar nesta maratona. Não sei se o fez por mail, por telefone ou pelo Messenger. Se foi por mail, suponho que aquilo foi tudo mais à base do copy/paste. Ia mudando os nomes. Querido Paul, Querido Elton, Querida Beyoncé. Claro que isto dos mails copy/paste se percebe logo e dá vontade de nem sequer responder, mas os valores da causa devem ter falado mais alto. Se foi pelo telefone, a pobre Gaga deve ter ficado sem minutos no pacote, salvo seja, tamanho foi o número dos que não quiseram deixar de dar uma perninha no evento. E claro, enorme é também o número de quem não participou. “Lady Gaga?”, imaginamos Madonna a exclamar, olhando para o ecrã do telefone. “O que é que esta cabra me quer?”, interroga-se Barbra Streisand. “Quem é que deu o meu número a esta @#&%?”, zanga-se Mariah Carey, atirando o iPhone para dentro da piscina.

Mas, já diz o povo, só faz falta quem está, e estava imensa gente.

Stevie Wonder, indiferente ao cenário, estava cheio de pinta, de fato de treino e pano na cabeça. E belíssima foi a sua homenagem ao amigo Bill Withers, que morreu há menos de um mês, e de quem cantou o clássico “Lean on Me”. Só uma besta quadrada não se comoveria.

A sala que Lady Gaga escolheu para a primeira atuação da noite era branca, limpa e arejada. Grandes janelas, rasgadas para um jardim. No chão, um linóleo às cores. E um piano, claro. Mas, do lado esquerdo de Gaga, uma porta que dá claramente para a rua. Mas isto é o quê? É uma entrada? É uma sala logo assim a dar para a rua? Fiquei tão hipnotizado com aquilo que quase não reparei no top preto da cantora e nas elegantes calças brancas com risquinhas pretas. Cantou “Smile”, tema imortalizado no clássico “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin. Foi bonito.

Bonita foi também a homenagem que se seguiu, aos professores e educadores em geral que, por estes dias, se desmultiplicam para compensar as escolas fechadas pelos quatro cantos do mundo. Para que, no futuro, as nossas crianças não sejam ainda mais ignorantes. Para que, no futuro, não haja adultos que dizem “os quatro cantos do mundo”, posto que a Terra é redonda. E coisas assim. Vénia para todos eles.

E vénia também para o maravilhoso Stevie Wonder, o Esteves Maravilha, o senhor que se seguiu. Eu, e creio que toda a gente, amo Stevie. Stevie é vida. E estava, claro, ansioso por ver a sua casa por dentro. Ainda antes de vê-la, já tinha pensado cá para mim: “Hugo, não caias na tentação de escrever que a casa parece decorada por um cego”. Mas a verdade é que parece mesmo. Ou antes, terá sido mesmo. Faz sentido. Mal por mal, mais vale ter sido ele a decorar a casa e ficar assim uma mistura aleatória de muitas coisas do que estar a pagar uma fortuna a alguém para depois nem sequer poder ver o resultado final. O resultado, pelo menos no que vimos, é uma espécie de sala de espera de um consultório de um médico mais ou menos caro dos anos 90. Um ginecologista bom, ou um oftalmologista médio, por aí.

Já o próprio Stevie, indiferente ao cenário, estava cheio de pinta, de fato de treino e pano na cabeça. E belíssima foi a sua homenagem ao amigo Bill Withers, que morreu há menos de um mês, e de quem cantou o clássico “Lean on Me”. Só uma besta quadrada não se comoveria.

Seguiu-se um espaço — haveria vários — de especialistas a explicar umas coisas sobre o vírus. Desta vez, foi um médico. Como, aliás, deve ser. A vossa tia Chica faz um arroz doce ótimo, mas deveria deixar as suas “opiniões” sobre a Covid para quem sabe do que está a falar. Esta frase ficou um pouco sexista. Vou então substituir por outro cliché preconceituoso: aquele vosso tio maricas, o Armando, percebe muito de unhas e cabelos, mas deveria deixar as suas “opiniões” sobre a Covid para quem sabe do que está a falar

Do piano de Sir Elton ao “Carnaval” de Maluma

E continua o desfile de realeza da música, desta vez com Paul McCartney, o ex-Beatle e ex-cantor em geral, interpretou “Lady Madonna”, num estúdio que tem em casa, enquanto desfilavam imagens comoventes de profissionais de saúde a trabalhar. Achei o estúdio muito feio, e ainda me doeu mais saber que fica num castelo algures na Escócia. Esperava uma coisa mais pomposa. Mas, já se sabe, podes tirar o miúdo de Liverpool, mas não podes tirar Liverpool do miúdo.

Ligámos depois à casa de Kacey Musgraves, de cabelo impecável e jardim bem cuidado. Cantou “Rainbow”, enquanto víamos dezenas daqueles desenhos com os arco-íris que os miúdos têm feito por estes dias. Vai ficar tudo bem, dizem-nos as bocas das crianças. Esperemos que, mais uma vez, a verdade esteja lá esteja, na sua boca.

Seguiu-se Usher, com a primeira (e quase única) estante de livros da noite. Na América é tudo mais à base de pianos e de cozinhas abertas, os livros não é muito com eles, como cá. Fez uma bonita homenagem aos milhares de pessoas que, pondo em risco a sua própria vida, têm sido o apoio e o amparo dos que já não tinham nada, mesmo antes da pandemia.

A marreta Abby Caddaby da Rua Sésamo, deu-nos também umas dicas sobre como nos abraçarmos uns aos outros, sem abraçar. Fiquei a imaginar a Lady Gaga ao telefone com um boneco de peluche. E ri. Mas se calhar foi dos nervos.

Com casa e num canto da sua sala, Shawn Mendes e a namorada, Camila Cabello, cantaram ao piano “Wonderful World”, que comove sempre. A própria sala também me comoveu. É sempre tão comovente ver alguém a tentar criar um espaço acolhedor e a não conseguir.

Viajámos então para a sala de Victoria e David Beckham, cada um sentado na sua poltrona. Nesta espécie de gala virtual, nem toda a gente cantou, mas fiquei na expectativa de ver se atirariam para um momento musical. Mas depois, lembrei-me que nem um nem outro sabe cantar. Preferiram falar, apresentado a estrela seguinte:

O próprio do Sir Elton John. Cantou no jardim de casa, ou melhor, num quadrado pequeno com sebes à volta e onde se via o portão da rua e a porta da garagem. Ainda assim, cabia lá um piano de cauda, o único da noite, pareceu-me. Sir Elton cantou o seu imortal “I’m Still Standing”, com alguma ironia, uma vez que estava a cantar sentado. O humor inglês é todo feito destas subtilezas. Para o público americano, a blague deve ter voado por cima da cabeça. Como devem ter passado despercebido os bonecos do bicho da Covid no padrão do casaco.

O ator Henry Golding, com uma parede branca por trás, falou então da importância das vacinas. A da Covid, que ainda não existe, mas também daquelas que já existem e que alguns trogloditas acham que faz mal aos filhos. Explicou a importância de continuar a vacinar as crianças, para evitar uma pandemia de outras doenças depois de esta acabar.

Eis que chega depois Maluma, com “Carnaval”. Cantou virado de lado, para se ver a tatuagem de um mocho que tem no braço. Atrás de si, a vista falsa de um paraíso, não sei precisar onde.

Chris Martin, dos Coldplay, fez um direto de Instagram com um barrete na cabeça. Quem ainda não fez um direto de Instagram com um barrete na cabeça durante esta quarentena, que atire a primeira pedra.

A seguir, Ellen DeGeneres mostrou-nos a melhor casa da noite, a sua. O jardim é irrepreensível, e a sala toda a atirar ao moderno. Assim, vale a pena ter dinheiro. Ouviu, Senhor Paul McCartney? Bom, no seu momento, Ellen homenageou todas as pessoas que tentam levar alguma alegria ao confinamento dos outros, cantando ópera nas varandas, tocando trompete na marquise, fazendo bolinhas de sabão no telhado e assim. Enfim, uma homenagem a todos nós e às porcarias que andamos a fazer à janela para depois mostrarmos nas redes sociais.

Seguiu-se um outro momento a cargo de um jornalista. Das principais cadeias de televisão americanas, vieram estes apontamentos de reportagem, como eles dizem, quase sempre tocantes, quase sempre curtos. Neste apontamento, uma famosíssima jornalista mostrou-nos como vivem as muitas pessoas que começam já a passar fome, ou que não têm casa. E falou nas outras pessoas, naquelas que saem de casa para ajudar quem nem sequer isso tem.

Ainda no seguimento da peça, Amy Poehler mostrou-nos uma casa de acolhimento para jovens sem-abrigo na cidade de Nova Iorque.

Beyoncé apareceu. E Guterres também

Com casa e num canto da sua sala, Shawn Mendes e a namorada, Camila Cabello, cantaram ao piano “Wonderful World”, que comove sempre. A própria sala também me comoveu. É sempre tão comovente ver alguém a tentar criar um espaço acolhedor e a não conseguir.

Pás! E assim de estrondo, aparece a cara de Beyoncé, de boné na cabeça e um pôr-do-sol californiano atrás, daqueles com o céu em brasa. Que irá ela cantar? Talvez uma versão de “Drunk in Love” adaptada à quarentena chamada “Drunk at Home”? Pois nada. Não cantou nada. “Ai filha, se quiseres digo qualquer coisa, mas para cantar não me convides”, terá respondido a Lady Gaga. Num discurso bonito, Beyoncé lembrou todos aqueles que não podem estar com as suas famílias (não falou dos que não querem), e apelou a que fiquemos todos em casa. E depois falou diretamente para a comunidade afroamericana, desproporcionalmente afetada por esta pandemia, pelas razões que já sabemos. Protejam-se, disse ela. E, quando isto tudo acabar, não descansem enquanto não acabar esta desigualdade, digo eu.

O apresentador Stephen Colbert falou com uma enfermeira de Nova Iorque, num emocionante relato de quem faz a ponte entre as famílias e os doentes. “Quando não puderem segurar na mão da vossa mãe doente, segurarei eu”, disse ela. Ainda mal refeitos da força daquelas palavras, ouvimos Lizzo cantar “A Change is Gonna Come”. O seu jardim também não era nada mau.

Falou depois um dos maiores nomes da noite, talvez o maior: Tedros Adhanom Ghebreyesus, secretário-geral da Organização Mundial de Saúde. São imensas letras.  Deixou uma mensagem de esperança: não seremos derrotados. E lembrou que esta é também uma oportunidade para pôr de lado as nossas diferenças, tendo como cenário as bandeiras de todo o mundo. Muito simbólico.

Sem nos deixar sequer respirar, Eddie Vedder, dos Pearl Jam, cantou “River Cross”, com a casa cheia de velas. Não adorei.

O rapper LL Cool J, pôs o foco nas pessoas essenciais mas tantas vezes esquecidas: quem continua a trabalhar nos supermercados, quem continua a entregar as coisas que comemos, os camionistas, quem recolhe o nosso lixo. Sugestão para LL Cool J: tirar da parede o retrato da Aung San Suu Kyi, antigo ídolo da liberdade e agora reconhecida abusadora dos direitos humanos. É só procurar no Google, filho.

O apresentador Stephen Colbert falou com uma enfermeira de Nova Iorque, num emocionante relato de quem faz a ponte entre as famílias e os doentes. “Quando não puderem segurar na mão da vossa mãe doente, segurarei eu”, disse ela.

Ainda mal refeitos da força daquelas palavras, ouvimos Lizzo cantar “A Change is Gonna Come”. O seu jardim também não era nada mau.

Saltamos agora para a Índia. Shah Rukh Khan, a estrela de Bollywood, falou de como a pandemia está a afetar aquele país, mostrando algumas imagens duras. E apelou ao uso de máscaras. Fui a correr pôr uma, que sou muito sugestionável. Mas fiz um buraco para poder continuar a fumar, claro.

Alicia Keys, de brincos enormes e com um roupeiro por trás, fez uma bela homenagem aos cientistas que procuram incansavelmente uma vacina contra este vírus. Mas não cantou. Que pena! Adoro aquela música péssima dela, o “No One”. Fica para a próxima.

António Guterres também não cantou, mas falou muito bem. O cenário parecia o do Telejornal dos anos 80, mas não é surpresa, a ONU tem sempre cenários péssimos, tirando a Assembleia Geral. Mas também não iam por o homem a falar sozinho de lá, coitado.

E eis que chegámos ao momento mais alto da noite: numa surpresa de última hora, pois que temos os próprios dos Rolling Stones cantando o seu “You Can’t Always Get What you Want”, num ecrã dividido em quatro. Foi maravilhoso, eles são maravilhosos e até o mundo, por uns minutos, foi todo maravilhoso.

Num muito bem coordenado vídeo, as primeiras-damas Laura Bush e Michelle Obama, a primeira sentada numa cadeira de verga e a segunda de camisola azul e caracóis, agradeceram a todos os que se dedicam a ajudar os outros, em geral e em particular.

Em mais outro momento de deixar um nó na garganta, enfermeiras de um hospital de Nova Iorque cantaram uma música dedicada a uma colega que morreu no cumprimento do seu trabalho.

Ligação à casa de Bill e Melinda Gates, os milionários mais mal-vestidos de sempre, ela com um fio de prata ao pescoço e uma camisola de gola alta, e ele de camisa aos quadrados e pullover, tudo com péssimo ar, a lembrar o PREC. Mas a verdade é que já deram pilhas de massa para o desenvolvimento de uma vacina, enquanto eu ando aqui a mandar postas para o ar.

Que precisamos uns dos outros foi também a mensagem de Jennifer Lopez, que cantou “People”, o clássico de Barbra. Estava ao ar livre, ao pé de uma palmeira com umas luzes de Natal à volta do tronco. Coisas imperdoáveis noutras pessoas, mas que em Jennifer Lopez são tão naturais como beber água.

Sanele Mandela, um médico da África do Sul (creio não ter relação com Nelson), falou sobre as dificuldades da luta contra a Covid nesse país, num sistema de saúde que já é habitualmente um caos. Não fui eu que disse, foi ele. Seguiram-se imagens de África ao som de Burna Boy.

E bam! A Rolling Stone da televisão: Oprah Winfrey, com a segunda melhor casa da noite, continuou a falar do país que traz no coração: a África do Sul, onde tem, como se sabe, importante obra humanitária. Foi mais uma homenagem aos profissionais de saúde de todo o mundo. Na boca da Oprah soa tudo sempre melhor. Não deu prémios a ninguém, mas a mensagem passou na mesma.

Que precisamos uns dos outros foi também a mensagem de Jennifer Lopez, que cantou “People”, o clássico de Barbra. Estava ao ar livre, ao pé de uma palmeira com umas luzes de Natal à volta do tronco. Coisas imperdoáveis noutras pessoas, mas que em Jennifer Lopez são tão naturais como beber água.

A atriz e comediante Awkwafina (que tem nome de perfume ordinário, mas imensa graça) falou sobre um dos temas mais tristes deste período, a distância que temos entre nós e as pessoas de quem mais gostamos. Arrepiei-me.

Somos então levados a uma viagem pela Europa, e em especial por Itália, o lugar onde o mundo ocidental acordou para este pesadelo. Em que deixámos sobranceiramente de pensar “Ó menina, eu sei lá se são os chineses se é o…” e percebemos o que significa o “global” em “mundo global”. No meio disto, as palavras tristes mas animadoras de uma médica que tem ainda na cara as marcas do equipamento de proteção.

J Balvin ensinou-nos a lavar as mãos, a tossir para o cotovelo, a não tocar a cara, a manter distancia das outras pessoas, a estar atento aos sintomas e que as alcachofras se comem com a mão e não com talheres, usando a própria folha como uma colher. Esta parte não aconteceu, mas agora já ficam a saber.

Sublinhando Balvin, o incrível Sponge Bob Square Pants demonstrou uma boa lavagem de mãos.

Podem voltar todos. Céline Dion também, claro

Outro nome enorme, a atriz indiana Priyanka Chopra Jonas, que também tem imensas letras, falou de um assunto enorme: a situação avassaladora nos campos de refugiados em geral e durante esta pandemia, onde falta até o mais básico. Mais um murro no estômago, que põe em perspetiva a chatice de estarmos fechados em casa.

Para nos lembrar do importante, John Legend e Sam Smith (em casas separadas) cantaram “Stand By Me”. As salas eram boazinhas, mais a de Legend que a de Smith, o que é um bocado irónico, passe o cliché.

Mais imagens arrepiantes, as de cidades de todo o mundo agora completamente vazias, ao som de um “Wake me up when September ends” na voz de Billie Joe Armstrong. Em casa, toda a gente pensou: “Ai sim, acordem-me em Setembro”.

O Rodrigo Guedes de Carvalho da noite acabou por ser Kerry Washington: falou da importância de ficarmos em casa, por oposição a quem tem mesmo de estar no terreno. E também da importância de estarmos bons da cabeça apesar de sozinhos, tentando estar perto, mesmo ao longe, das pessoas de quem mais gostamos. Falou de psiquiatras e psicólogos, e deu lugar a uma profissional que apelou a que tenhamos atenção com os sinais de alerta dos nossos amigos que não estão tão bem. Deu conselhos sobre os sintomas não só da Covid, mas também, não menos importante, da saúde mental.

E houve mais momentos inspiradores: Idris e Sabrina Elba falaram da mulher italiana de 102 que teve e sobreviveu à Covid, depois de já ter resistido a gripe espanhola. E, provavelmente, à pandemia que foi a Laura Pausini nos anos 90, mas disso ninguém fala.

Taylor Swift que, lembremos, já doou uma pilha de massa à OMS, cantou “Soon You’ll Get Better”, com o melhor papel de parede, todo em flores, mas mais do género moca de LSD do que padrão campestre. Com a cara refletida no piano, Taylor deu-nos dos melhores planos da noite. Com um único telefone, fez a festa.

Voltamos à lágrima: Stephen Colbert falou do pai, um médico epidemiologista. Que conselho lhe daria agora o pai?, pergunta-se o comediante. E responde: que ouvíssemos mais os cientistas e menos certos e determinados atrasados mentais.

Chegados à altura em que, inevitavelmente em todas as coisas, começamos a pensar quando é que isto acaba, a sensação do momento, Billie Eilish e o irmão Finneas cantaram “Sunny”, sem esquecer de mostrar o jardim.

Pharrell Williams falou dos professores que continuaram a dar aulas à distância (ainda que não se tenha referido diretamente à Telescola da RTP), e das crianças em geral, que também não é fácil, coitadas e coitados dos pais.

Sem sair do registo, Taylor Swift que, lembremos, já doou uma pilha de massa à OMS, cantou “Soon You’ll Get Better”, com o melhor papel de parede, todo em flores, mas mais do género moca de LSD do que padrão campestre. Com a cara refletida no piano, Taylor deu-nos dos melhores planos da noite. Com um único telefone, fez a festa.

Lupita Nyong’o chegou para falar outra vez de África, lembrando que “África” são 54 países, cada um com as suas especificidades, ao contrário do que parece achar o resto do mundo. Fica a correção.

Mesmo quase a terminar, o Ferrão da Rua Sésamo, sem a Alexandra Lencastre, veio dizer o mesmo que me disse o meu tio Luís há umas semanas: “Ah, distanciamento social! Sonhei com isto toda a minha vida!”

Geralmente, nestas coisas, guarda-se o melhor para o fim. Aqui, para serem originais, reservaram o pior: uma viagem pelas casas de Céline Dion, de John Legend, do pianista Lang Lang, de Andrea Bocelli e de Lady Gaga, para cantarem a aborrecida e azeiteira música da cantora canadiana e do operático italiano “The Prayer”. Já se sabia que Bocelli faria uma aparição, e eu estava ansioso para saber se se manteria o padrão das salas decoradas por cegos. Mas não. A sala era péssima, sim, mas ninguém, nestas coisas, vence Céline Dion. Tudo mais bimbo que um pão de forma de pacote, credo.

Mas como maior cego é aquele que não quer ver, fica o essencial: o desfile de estrelas, também elas isoladas, como estamos quase todos, dando um bocadinho do seu tempo para homenagear os que têm dado todo o seu. Será uma emissão histórica, como históricos são os tempos que vivemos. Outros melhores virão. Que os possamos celebrar também com a Lady Gaga, o Stevie Wonder, o Paul McCartney, o Elton John, a Kacey Musgraves, o Usher, o Maluma, o Chris Martin, o Shawn Mendes, a Camila Cabello, o Eddie Vedder, a Lizzo, os Rolling Stones, o Burna Boy, a Jennifer Lopez, o John Legend, o Sam Smith, o Billie Joe Armstrong, a Billie Eilish, o Finneas, a Taylor Swift e o Andrea Bocelli.

E pronto, está bem, com a Céline Dion.

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