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“A tecnologia ao serviço da cidade e dos cidadãos e não o contrário”

A tecnologia é um instrumento de que se deve tirar partido, mas colocando-o ao serviço das pessoas. É o que Catarina Ferreira da Silva, investigadora do ISCTE, defende para cidades mais resilientes.

Até ao dia 27 de maio, data em que o Observador organiza a Cimeira das Cidades, ouvimos alguns especialistas nas áreas de habitação, tecnologia, ambiente e mobilidade, a quem pedimos ideias para as urbes do futuro. A entrada no evento é gratuita, mediante inscrição, que pode ser feita AQUI

A tecnologia é hoje omnipresente na vida das cidades e das pessoas. Facilita e dificulta, condiciona e liberta, junta e afasta, complementa e substitui. As potencialidades são imensas para fazer das cidades do futuro habitats sustentáveis, justos, equilibrados e aprazíveis, mas também comporta riscos. É preciso então refletir seriamente e decidir sobre a forma como são usadas e aplicadas.

É isso que subjaz à ideia para as cidades do século XXI defendida por Catarina Ferreira da Silva, professora associada com agregação do ISCTE, diretora do Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura (ISTAR-ISCTE) e membro do painel de especialistas do Observatório e Fórum Europeu de Blockchain, na rede INATBA (International Association for Trusted Blockchain Applications).

“Apesar de o foco do meu trabalho serem as tecnologias, a minha área são os sistemas de informação e as pessoas estão sempre no centro. Parto do princípio que as tecnologias não servem para nada se não tivermos em conta a sua usabilidade no melhor interesse, neste caso, de quem vive na cidade, de quem lá trabalha ou de quem a visita. As cidades só existem porque existem pessoas”, diz.

Uma cidade inteligente tem de ser uma cidade mais justa e sustentável

O discurso dominante em torno das cidades inteligentes tem privilegiado a componente tecnológica, mas Catarina Ferreira da Silva sublinha a importância de uma visão mais abrangente, em que a sustentabilidade não se esgota na redução de emissões ou na digitalização de serviços, mas inclui também a coesão social, o acesso equitativo à habitação e à mobilidade e a preservação da autonomia das cidades e dos cidadãos.

“A ideia chave para as cidades do século XXI no que diz respeito à tecnologia é entendê-la como uma ferramenta da qual devemos tirar partido, que pode facilitar a nossa vida, mas não nos pode controlar, isto é, não pode ser o ser humano ao serviço da tecnologia, mas o contrário. Há que pôr a tecnologia no seu devido lugar e usá-la para melhorar a gestão das cidades e dos recursos”, diz a investigadora, exemplificando a utilidade desta na gestão do lixo, da poluição, da energia ou dos transportes.

“Com sensores inteligentes nos contentores do lixo orgânico ou nos ecopontos usados para a reciclagem, é possível identificar quando estão cheios e devem ser recolhidos”, o que otimiza a gestão de resíduos, tornando mais eficaz a limpeza urbana e evitando a acumulação em torno dos caixotes, que atrai roedores, é uma ameaça à saúde pública e não é bonita de se ver.

“Se eu puder gerar menos lixo, menos poluição, menos perda energética e otimizar o sistema de transportes de acordo com as necessidades detetadas, dou às pessoas melhor ambiente e mais tempo de qualidade, logo estarei a usar a tecnologia como deve ser utilizada. Não se trata de exaltar os benefícios das tecnologias por si só, mas de perceber como podem ser úteis para a sustentabilidade no sentido não apenas ambiental, mas humano.”

Para Catarina Ferreira da Silva, as cidades, para serem inteligentes, têm de ser justas e temos vindo a afastar-nos desse objetivo. O último relatório do Institute for Management Development (IMD), que vai na sua quinta edição, mostra que Lisboa tem feito uma trajetória descendente neste ranking internacional de cidades inteligentes, ocupando o 115º lugar (em 146 cidades avaliadas), em 2025, quando em 2020 estava em 75º.

“É possível recolher e tratar dados num software — baseado em inteligência artificial ou outras novas tecnologias — para criar recompensas aos cidadãos que usam o transporte púbico em vez do carro, que fazem reciclagem, etc. Há diferentes cenários que poderíamos considerar, e isso é positivo."
Catarina Ferreira da Silva

A dificuldade de encontrar habitação acessível em Lisboa é a maior preocupação avançada, com 86,6% dos inquiridos a dizer que esta deve ser a prioridade da capital e 90,5% a sublinhar a dificuldade de encontrar uma casa cuja renda corresponda, no máximo, a 30% do rendimento mensal, que é o conceito base da habitação acessível.

“O facto de Lisboa se ter tornado uma das cidades mais caras para habitar é só por si um elemento de insustentabilidade, porque acentua as desigualdades económicas”, considera Catarina Ferreira da Silva, que, antes de voltar a falar das tecnologias, quer sublinhar que sem resolver este problema, “cuja solução depende sobretudo de decisões políticas, não adianta muito falar de tecnologia”.

“Quando, devido ao aumento exponencial dos preços, fruto da especulação imobiliária e da pressão turística, a população residente é empurrada para a periferia, a cidade torna-se menos sustentável: tempo perdido em deslocações, cansaço acumulado, diminuição da produtividade, perda de qualidade de vida, aumento da pressão sobre os transportes públicos, maior poluição. Portanto, se queremos cidades verdadeiramente inteligentes, é fundamental encontrar respostas para a habitação.”

Bons exemplos

Mobilidade, ambiente, planeamento urbanístico, gestão urbana: a tecnologia é transversal a tudo e a sua aplicação pode e deve não só contribuir para mitigar os problemas existentes nas cidades, como torná-las um melhor habitat.

“O sistema de transportes é tecnologia”, lembra a investigadora. Transportes públicos com redundância, maior frequência nas horas de ponta e integração com modos suaves como bicicletas e trotinetas (desde que com regras de utilização e vias dedicadas) são essenciais para diminuir o tráfego automóvel e, assim, a poluição e o stress urbano.

"A tecnologia de nada serve se não tivermos em conta a sua usabilidade no melhor interesse, neste caso, de quem vive na cidade, de quem lá trabalha ou de quem a visita", diz Catarina Ferreira da Silva

Outro exemplo tem que ver com a gestão e produção da energia. Além de defender o uso da tecnologia para criar um modelo mais descentralizado, Catarina Ferreira da Silva considera que devia dar-se uso aos muitos telhados e terraços das cidades para transformação da energia solar em eletricidade.

“Estamos a recorrer a solos agrícolas, que poderiam ser usados para cultivo, para fins agroflorestais ou para pastagem, para colocar painéis fotovoltaicos, quando temos nas cidades milhares de telhados e terraços sem qualquer utilização. Penso que é uma má utilização do solo”, lamenta, “até por uma questão de soberania alimentar, sobre a qual é também preciso refletir”.

Bons e maus usos da tecnologia

Outro papel crucial da tecnologia está na produção de dados que apoiem a decisão política. Sistemas que monitorizem em tempo real a qualidade do ar, o ruído ou os fluxos de tráfego podem ajudar a desenvolver políticas públicas mais céleres e eficazes.

“Com sensores de poluição do ar, por exemplo, podemos recolher dados para saber quais as fontes desta poluição e fornecer mapas com os picos horários e, assim, ajudar os decisores políticos a diminui-la. Se eu souber que os carros, muito tempo parados numa fila, produzem muita poluição em determinadas vias da cidade a determinadas horas, posso reduzir essa poluição com redundância em transportes públicos alternativos com duplicação de carruagens e maior frequência naquelas horas”, explica a especialista do Observatório e Fórum Europeu de Blockchain.

“É também possível recolher e tratar dados num software, por exemplo, baseado em inteligência artificial ou outras novas tecnologias, como blockchain, para criar recompensas aos cidadãos que contribuem para a sustentabilidade da cidade: porque usa o transporte púbico em vez do carro, porque faz reciclagem, etc., há diferentes cenários que poderíamos considerar, e isso é positivo, mas estou a dar-lhe este exemplo para ressalvar que há outro lado, a que temos de estar muito atentos. Qualquer tecnologia pode ser bem ou mal utilizada. A mesma tecnologia que pode ser usada para premiar e estimular os comportamentos corretos, pode servir para vigiar, punir e restringir liberdades. Precisamos de guardrails éticos e legais muito claros, mecanismos que salvaguardem que não é feita uma utilização nociva da tecnologia.”

Cidades inteligentes são cidades resilientes

Feito o alerta, a diretora do Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura, não tem dúvidas de que caminharmos para um mundo cada vez mais tecnológico e que esse caminho não tem volta, sobretudo nas cidades.

E por isso, voltando à ideia de Catarina Ferreira da Silva para as cidades do século XXI, é fundamental pôr a tecnologia ao serviço das pessoas, o que num tempo marcado pela incerteza, as alterações climáticas e os fenómenos atmosféricos extremos, implica prioritariamente pô-la ao serviço da criação de cidades mais robustas, resilientes e capazes de enfrentar esses fenómenos.

“Se eu puder gerar menos lixo, menos poluição, menos perda energética e otimizar o sistema de transportes de acordo com as necessidades detetadas, dou às pessoas melhor ambiente e mais tempo de qualidade, logo estarei a usar a tecnologia como deve ser utilizada. Trata-se de perceber como esta pode ser útil para a sustentabilidade no sentido não apenas ambiental, mas humano.”
Catarina Ferreira da Silva

Além de obras estruturais para reforçar o hardware dos territórios urbanos, é, para a investigadora, importante a criação de sistemas de informação à população no espaço público, como totens distribuídos pela cidade que possam emitir avisos da proteção civil à população, quando for necessário – picos de temperatura e como as pessoas podem proteger-se; chuva intensa, risco de inundações e procedimentos para minimizar os estragos e os acidentes; o que fazer em caso de terramoto, etc.

“Tem de estar no pensamento de quem decide e administra as cidades a necessidade de dispor de um conjunto de tecnologias que possam torná-las mais resilientes a diferentes tipos de riscos, sejam eles naturais ou criados pelos humanos” diz Catarina Ferreira da Silva, explicando que tendo consciência dos riscos que existem — inundações, terramotos, calor excessivo, poluição, apagões, falhas nas comunicações, etc – os responsáveis devem criar as condições, tirando partido das tecnologias disponíveis, para os prevenir, tornar as cidades mais aptas a enfrentá-los e a lidar com a situação, se acontecer, de forma a voltar o mais rapidamente possível ao estado de equilíbrio.

O futuro das cidades é tecnológico, sim, mas tem de ter as pessoas no centro. Ou então não será futuro.

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