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▲Trump minimizou publicamente o fim do tratado com Putin: "Se expirar, expirou"

AFP via Getty Images

▲Trump minimizou publicamente o fim do tratado com Putin: "Se expirar, expirou"

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Acordo nuclear entre EUA e Rússia terminou. Cinco respostas para entender o que muda no equilíbrio global

New Start chegou ao fim, eliminando os limites ao uso de armas nucleares. O mundo entra numa era de incerteza e risco nuclear global. Moscovo avisa que será mais perigoso. O que muda?

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A partir desta quinta-feira, o mundo entra numa nova fase, sem qualquer acordo que limite o uso de armas nucleares de duas das maiores potências atómicas. O fim do tratado New Start, entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia, marca uma rutura histórica com mais de cinco décadas de contenção nuclear iniciadas ainda durante a Guerra Fria.

Num contexto internacional complicado — com a guerra na Ucrânia, a deterioração das relações entre grandes estados e o crescimento acelerado dos arsenais nucleares — o fim deste tratado elimina os últimos “travões” legais à expansão do armamento estratégico. Para a ONU, para antigos negociadores e para especialistas em segurança internacional, trata-se de um momento particularmente perigoso.

Acordo nuclear termina esta quinta-feira. Estados Unidos e Rússia podem usar arsenal sem limites pela primeira vez desde a Guerra Fria

O que está exatamente em causa? Porque chegou ao fim? Há razões para não ter sido renovado? Quais são os riscos que estão em cima da mesa? Cinco pontos para perceber o que está em causa.

Que tratado é este, o que limitava e o que garantia?

O New Start (New Strategic Arms Reduction Treaty, nome original) é um tratado que servia para “reduzir e limitar as armas estratégicas ofensivas” e foi assinado em 2010 pelos Estados Unidos e pela Rússia. Entrou em vigor em 2011, sob as presidências de Barack Obama e Dmitry Medvedev e foi pensado para ser a peça central da arquitetura de estabilidade nuclear global.

Segundo o documento oficial do Departamento do Estado norte-americano, o New Start impunha limites verificáveis aos arsenais estratégicos das duas potências responsáveis por quase 90% das armas nucleares existentes no mundo. Cada país ficava limitado a um máximo de 1.550 ogivas nucleares e 700 sistemas de mísseis balísticos terrestres, marítimos ou aéreos.

O tratado estabelecia, também, um sistema complexo de verificação e transparência, como inspeções no local, trocas regulares de dados, notificações sobre movimentos e testes, partilha de informações técnicas e um mecanismo permanente de diálogo bilateral.

O New Start garantia, ainda, aos Estados Unidos “uma janela vital” sobre as forças nucleares russas, permitindo avaliar intenções e capacidades e reduzir o risco de erros de cálculo. Até 2023, foram realizadas 328 inspeções presenciais e trocadas mais de 25 mil mensagens entre os dois países.

Esta aliança sucedeu uma longa série de acordos iniciados em 1991, altura do fim da Guerra Fria, e era amplamente visto como a coluna vertebral da estabilidade nuclear internacional.

Porque é que Moscovo e Washington não renovaram este acordo?

O New Start já tinha sido prolongado uma vez, em 2021, por mais cinco anos, durante as presidências de Joe Biden e Vladimir Putin. Contudo, o líder russo anunciou a suspensão da participação de Moscovo no acordo em 2023, justificando a decisão com o apoio militar de Washington à Ucrânia. As inspeções e mecanismos de verificação ficaram congelados, embora a Rússia e os Estados Unidos tenham afirmado continuar a respeitar os limites impostos.

Em setembro de 2025, Putin propôs manter voluntariamente os limites do tratado por mais um ano. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a dizer que a proposta era uma “boa ideia”, mas Moscovo garante nunca ter recebido uma resposta formal. Para o vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, o mundo entrou numa “nova realidade” para a qual a Rússia diz estar preparada.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo acusou os Estados Unidos de ignorarem deliberadamente esta iniciativa e classificou a postura norte-americana como “errada e lamentável“, sublinhando, ainda assim, que a Rússia pretende agir de forma “ponderada e responsável” após o fim do tratado.

O Kremlin foi, porém, mais longe e alertou que o mundo ficará “mais perigoso” sem um acordo que limite e controle os arsenais nucleares russo e norte-americano, que juntos representam mais de 90% das armas nucleares existentes. O porta-voz presidencial, Dmitri Peskov, reconheceu que a negociação de um novo tratado será um processo longo e difícil, num contexto internacional marcado pela guerra na Ucrânia e pela deterioração das relações entre Moscovo e Washington.

epa12383007 Russian President Vladimir Putin (C), accompanied by Commander-in-Chief of the Russian Ground Forces Andrey Mordvichev (L), Defense Minister Andrei Belousov (2-R) and Nizhny Novgorod Region Governor Gleb Nikitin (R), inspects Russian weapons and equipment during his visit to the Russian-Belarusian joint military drills 'Zapad 2025' (West 2025) at the Mulino training ground, Nizhny Novgorod region, Russia, 16 September 2025.  EPA/MIKHAIL METZEL/SPUTNIK/KREMLIN POOL MANDATORY CREDIT

▲ O Kremlin alertou que o mundo ficará “mais perigoso” sem um acordo nuclear entre EUA e Rússia

MIKHAIL METZEL/SPUTNIK/KREMLIN POOL/EPA

Do lado norte-americano, a posição tem sido ambígua. O secretário de Estado Marco Rubio defendeu que qualquer futuro acordo de controlo de armamento deverá incluir a China, argumentando que não é possível alcançar um verdadeiro regime de controlo nuclear no século XXI sem envolver Pequim, cujo arsenal é descrito como “significativo e em rápida expansão”.

Por sua vez, Trump minimizou publicamente o fim do tratado — “Se expirar, expirou” — e referiu que qualquer novo acordo deve incluir a China, cujo arsenal é muito menor, mas está a crescer rapidamente. Pequim rejeita, porém, essa ideia, considerando que “nem é justo nem razoável” negociar em pé de igualdade com países que têm arsenais muito superiores.

O que muda a partir de agora?

Na prática, deixam de existir limites legais no número de armas nucleares estratégicas que os EUA e a Rússia podem implantar, sendo que os dois países dispõem de milhares de ogivas em reserva e de capacidade industrial para aumentar rapidamente os arsenais.

Terminam também todos os mecanismos formais de verificação: inspeções no terreno, trocas de dados, notificações e o diálogo estruturado entre militares e diplomatas. A informação passará a depender sobretudo de satélites e de serviços secretos — instrumentos considerados menos transparentes e mais sujeitos a erro.

"O fim do tratado representa o colapso de um processo de controlo estratégico que levou décadas a construir".
Mike Albertson, antigo negociador norte-americano do New Start

Este colapso insere-se num padrão mais complexo: nos últimos anos desapareceram também o Tratado INF, o Open Skies e o Tratado das Forças Convencionais na Europa. Para o antigo responsável militar europeu Tony Radakin, o desenho da segurança global “está a desfazer-se”.

O militar destacou, citado pela BBC, que “o colapso destes importantes tratados de controlo de armas é um dos aspetos mais perigosos da nossa segurança global atual”, assim como “a crescente proeminência das armas nucleares”.

Também para Mike Albertson, antigo negociador do New Start e hoje vice-diretor do Center for Global Security Research do Laboratório Lawrence Livermore, o tratado fazia parte de um processo iniciado nos anos 1960, no qual Washington e Moscovo trabalharam em conjunto para primeiro limitar e depois reduzir arsenais nucleares. “O fim do tratado representa o colapso de um processo de controlo estratégico que levou décadas a construir”, disse, citado pela NBC News, alertando para o regresso a uma lógica semelhante à do início da Guerra Fria.

Há riscos associados à não renovação do acordo?

O fim do New Start significa que, pela primeira vez desde o século XX, não existe qualquer acordo nuclear vinculativo entre Washington e Moscovo. Para as Nações Unidas, trata-se de um “momento grave para a paz e segurança internacionais”.

“Enfrentamos um mundo sem quaisquer limites vinculativos aos arsenais estratégicos dos dois Estados que têm a esmagadora maioria das armas nucleares globais”, alertou António Guterres, secretário-geral da ONU, sublinhando que o risco de utilização de armas nucleares é hoje “o mais elevado em décadas”.

epa12485580 U.N. Secretary-General Antonio Guterres attends the 15th ASEAN-United Nations (UN) Summit as part of the Association of Southeast Asian Nations (ASEAN) Summit at the Kuala Lumpur Convention Centre (KLCC) in Kuala Lumpur, Malaysia, 27 October 2025. The 47th ASEAN Summit and Related Summits are being held in the Malaysian capital from 26 to 28 October 2025.  EPA/Chalinee Thirasupa / POOL

▲ António Guterres afirma que estamos num "momento grave para a paz e segurança internacionais"

Chalinee Thirasupa / POOL/EPA

O Papa Leão XIV, autoridade que raramente se pronuncia sobre questões nucleares e respetivos tratados, tsambém comentou esta quarta-feira a iminente expiração do New Start, apelando para que se “impeça uma nova corrida ao armamento”.

“Exorto-vos a não abandonar este instrumento sem assegurar a sua continuação concreta e eficaz”, acrescentou o líder da Igreja Católica, considerando “mais urgente que nunca substituir a lógica do medo e da desconfiança por uma ética partilhada”.

Dmitry Medvedev, o antigo Presidente russo que assinou o tratado com Barack Obama, deixou um aviso claro: “Quando há acordo, há confiança. Quando não há acordo, significa que essa confiança se esgotou”, disse, citado pelo Guardian.

Obama, por seu turno, escreveu nas redes sociais que o fim do tratado “eliminaria décadas de diplomacia sem qualquer propósito e poderá desencadear outra corrida ao armamento que tornaria o mundo menos seguro”.

A Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN), aliança de organizações não-governamentais distinguida em 2017 com o prémio Nobel da Paz, criticou esta quarta-feira os dois países, instando-os a comprometerem-se publicamente em respeitar os limites do tratado Novo START “durante a negociação de um novo quadro jurídico”.

“Sem o tratado Novo Start, existe um risco real de que a nova corrida ao armamento entre os EUA e a Rússia acelere – mais ogivas, sistemas de lançamento e exercícios nucleares – e de que outras potências nucleares se sintam impelidas a seguir-lhes o exemplo”, alertou a diretora executiva da ICAN, Melissa Parke, num comunicado.

Há forma de voltar atrás? Os EUA e a Rússia podem fazer um novo acordo?

Apesar de o cenário não ser favorável, a porta não está completamente fechada. Os EUA afirmam que querem manter abertura para negociações e Moscovo diz estar disponível para dialogar.

Alguns especialistas rejeitam alarmismo imediato. É o caso de Nikolai Sokov, antigo negociador soviético e russo e hoje investigador no Vienna Center for Disarmament and Non-Proliferation, que considera que uma corrida descontrolada não acontecerá “amanhã”, mas alerta para um horizonte de médio prazo. “O perigo real pode surgir daqui a cinco ou sete anos, com armas mais sofisticadas, mais precisas e mais difíceis de intercetar”, disse.

Um acordo transitório será a melhor solução, mesmo sem novos limites rígidos. Mike Albertson admite um acordo “com limites mais elevados ou até sem limites fixos, mas com verificação“. Ainda assim, o consenso entre analistas é claro: negociar um novo tratado levará anos e exigirá níveis de confiança política que hoje não existem.

Para Sokov, o essencial é simples: “Quanto mais cedo começarmos a falar, maior a probabilidade de voltarmos a regular a corrida ao armamento antes que se torne irreversível”.

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