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O rumor já corria na colónia penal IK-17 em Shklov, uma cidade no leste da Bielorrússia. Em junho de 2025, Sergei Tikhanovsky, que foi em tempos o principal rosto da oposição ao Presidente Alexander Lukashenko, já tinha sido libertado, algo inimaginável para muitos dissidentes do regime. O marido de Svetlana Tikhanovskaya — a mulher que enfrentou nas urnas o chefe de Estado bielorrusso e que continua a assumir-se como líder da oposição no exílio — foi uma prova de que poderia haver mudanças. Para muitos presos políticos, essa notícia foi recebida com expectativa, incluindo para o jornalista Yauhen Merkis, que estava desde setembro de 2023 naquela colónia penal. “Falava-se que seriam 1.300 a ser libertados. Não foi isso que aconteceu, como vemos agora em novembro. Mas tive sorte em ser libertado a 11 de setembro”, relata ao Observador.
Tal como Yauhen Merkis, mais 37 prisioneiros políticos bielorrussos (e outros reclusos de outras nacionalidades) foram libertados no dia 11 de setembro de 2025. O acordo tinha sido feito entre o regime bielorrusso — liderado com mão de ferro há mais de 30 anos por Alexander Lukashenko — e a presidência norte-americana. Os Estados Unidos da América (EUA) enviaram a Minsk em setembro o vice-enviado especial, John Cole, de forma a negociar com o chefe de Estado da Bielorrússia. Correu bem. Mas houve um preço a pagar: a administração Trump levantou algumas das sanções ao país, que é atualmente o maior aliado da Rússia de Vladimir Putin, no setor da aviação.
Ao Observador, Yauhen Merkis recordou que apenas lhe disseram no dia 10 de setembro que teria de pegar nas suas coisas. Não sabia que ia ser libertado: “Seria eu transportado para outra unidade? Estavam apenas a fazer buscas e depois deixavam-me voltar? Ou iam talvez transferir-me para outra prisão, porque um novo caso contra mim ia ser aberto?” Estas “situações estranhas” foram, aliás, o quotidiano do jornalista, que chegou a estar duas vezes numa solitária, naquela colónia penal.
▲ Colónia penal IK-17 em Shklov
O jornalista originário de Gomel, a segunda maior cidade da Bielorrússia a poucos quilómetros da fronteira com a Ucrânia e a Rússia, apenas percebeu às 6 da manhã de dia 11 de setembro que sairia da colónia penal e que seria libertado. Juntamente com outros reclusos, entrou numa pequena carrinha. “Percebemos que primeiro íamos para Minsk. E depois entendemos que a direção era a Lituânia. A cerca de cinco quilómetros da fronteira, conduziram-nos até um estaleiro. Havia lá dois grandes autocarros. Conduziram-nos até à fronteira. Passámos a fronteira da Bielorrússia sem documentos, nem parámos na fronteira.”
Já na Lituânia, ainda perto da fronteira com a Bielorrússia, entrou alguém no autocarro: John Cole, o vice-enviado especial da presidência norte-americana: “Ele disse-nos que estávamos finalmente livres e que tinha havido negociações com os Estados Unidos. Ele referiu que tinha pena por termos sofrido tanto, mas que agora estava tudo bem”. Depois, Yauhen Merkis foi transportado até à embaixada norte-americana em Vilnius, a capital lituana, onde vive atualmente e desde onde conversou esta quinta-feira por videochamada com o Observador.
Após uma fase em que os Estados Unidos isolaram diplomaticamente a Bielorrússia e aplicaram sanções pesadas contra o país, a administração norte-americana decidiu voltar a interagir com o regime de Alexander Lukashenko. Numa reunião em setembro, John Cole até teve direito a shots de vodka, que bebeu com o Presidente bielorrusso, com quem teve uma conversa amena e pouco formal. “Foi divertida. Bebi dois shots, não vomitei, mas não fui ao terceiro”, relatou o vice-enviado especial ao Politico, confidenciando que até foi feito um brinde a Donald Trump.
▲ John Cole, o empresário que a administração Trump enviou para Minsk
Anadolu via Getty Images
Como consequência desta aproximação, Yauhen Merkis foi libertado, ainda que também o próprio desvalorize. Se não tivesse sido libertado e não fosse acusado de mais nenhum crime (algo que é típico do “sistema soviético”), sairia da colónia penal a 21 de março de 2026. “Houve até presos que seriam libertados numa semana [em relação a 11 de setembro]. Mesmo nesta situação, o regime mostrou que não está interessado efetivamente em libertar aqueles que estão a sofrer. Mas tive sorte.”
Praticamente dependente da Rússia, o que ganha a Bielorrússia ao aproximar-se dos Estados Unidos? E o que pode eventualmente ganhar Washington em explorar uma relação amigável com Alexander Lukashenko? Ouvidos pelo Observador, quatro especialistas coincidem na ideia de que é Minsk quem ganha mais — mas Donald Trump prefere adotar uma certa cordialidade com o chefe de Estado bielorrusso para tentar chegar mais perto de Vladimir Putin, especialmente para terminar a guerra na Ucrânia.
As fotografias num banco que levaram Yauhen Merkis a ser detido
Foi no dia 11 de setembro de 2022 que a vida de Yauhen Merkis mudou para sempre. O jornalista licenciou-se em História na Universidade Estatal Bielorrussa em 2011, mas já antes era ativo na vida associativa e política, tendo participado em manifestações contra o regime de Alexander Lukashenko quando era estudante universitário. “Desde 2014 que trabalho como jornalista freelancer para diferentes meios de comunicação social independentes, entre eles o canal de televisão Belsat, que tem como sede a Polónia.”
▲ Yauhen Merkis, um dos presos políticos libertados a 11 de setembro de 2022
Naquele “dia de outono normal”, em meados de setembro, há três anos, o jornalista “recebeu uma chamada telefónica da autoritária tributária”. “Disseram-me que alguma coisa estava mal com os meus documentos e pediram-me para ir ao escritório da parte da tarde. Eu ia. Mas já tinha ganhado um hábito estranho desde 2020 de escrever mensagens para os meus colegas sempre que havia uma situação estranha: ‘Se eu não estiver online uma hora, isso significa que posso ter sido detido'”.
E assim foi. Yauhen Merkis “saiu de casa, entrou no carro” e viu entre cinco a seis homens “vestidos à civil”. Dirigiam-se até si. O jornalista percebeu que podia correr risco de vida: “Tranquei as portas e tentei ligar ao meu pai. Mas os homens disseram-me que, se eu não desligasse, poderiam partir a janela. Levantei as mãos e rendi-me. E contaram-me que tinha sido aberto em meu nome um processo criminal. Fizeram buscas no meu carro, no meu apartamento”. O homem de nacionalidade bielorrussa até define a situação da sua detenção como uma experiência “boa”, tendo em conta o que poderia ter corrido mal : “Ao menos não fui espancado, porque houve muitos que foram no momento em que foram detidos”.
Além da mensagem que mandou aos seus colegas fora da Bielorrússia, o jornalista assinala ao Observador que já tinha uma “mochila pronta com tudo o que precisava” caso fosse detido. “Na minha região, faz-se isso desde 1930, por causa das repressões estalinistas, quando as pessoas também tinham estas mochilas”, afirma. Yauhen Merkis era também já um conhecido das autoridades bielorrussas: já tinha passado alguns dias numa prisão em 2017, na sequência de uma vaga de protestos que ocorreu em várias cidades do país.
Yauhen Merkis nunca escondeu que é um opositor ao regime de Alexander Lukashenko. Até 2020, mesmo com pouca liberdade, ainda conseguia trabalhar. A partir daquele ano, quando milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra os resultados eleitorais das presidenciais (que deram mais de 80% dos votos ao Presidente), o “regime mudou totalmente”. “Finalmente revelou a sua máscara. Tentou ser liberal de 2015 a 2020. Agora apenas tenta sobreviver”, acusa o dissidente.
O regime reagiu com pulso firme às manifestações, o maior teste ao regime. Além dos milhares de presos políticos, Yauhen Merkis lembra que a “maioria dos órgãos de comunicação social bielorrussos foram encerrados” e que os jornalistas foram “forçados a fugir”. “A grande maioria das Organizações Não Governamentais foram fechadas”, prossegue, explicando que todas aquelas que tinham recebido financiamento do exterior eram consideradas “inimigos do Estado”: “Vivíamos sobre ocupação constante. Vivia no meu próprio país, mas parecia que estávamos a ser ocupados. Foram feitas buscas à minha casa três vezes desde 2020″.
O pior ainda estava para vir. Quando Vladimir Putin ordenou as tropas russas para atacarem território ucraniano, houve alguns militares que entraram na Ucrânia através da Bielorrússia. Alexander Lukashenko ainda apertou mais a malha, principalmente dos jornalistas. “Em março de 2022, a Belsat TV, para a qual trabalhava bastante, foi oficialmente nomeada uma organização extremista. E essa era a acusação atribuída a muitos meios de comunicação social bielorrussos. Se se mandasse uma foto para essas organizações extremistas também se era considerado uma espécie de extremista. E isso leva a que sejam abertos processos criminais”, diz.
▲ As grandes manifestações bielorrussas contra os resultados eleitorais das presidenciais de 2020
AFP via Getty Images
Não se podia gravar nada nas ruas. Havia um clima de desconfiança. A atividade jornalística independente do regime foi praticamente proibida. Foi neste contexto que Yauhen Merkis acabou detido em setembro de 2022. O motivo? “A razão oficial foi que eu tirei fotografias com o meu telemóvel a um banco. Mas só fotografei e fiz vídeos de notas e moedas. Isso foi usado numa peça jornalística da Belsat TV sobre a situação económica. Isso é legal”, defende, acrescentando que isso foi apenas uma desculpa das autoridades para o prenderem.
A justificação era tão fraca que mais tarde o regime alegou que “escreveu dois artigos para um site independente sobre a história da Bielorrússia e sobre o estado degradado de uma ponte” de Gomel. “E depois foi acusado de ser parte de uma organização extremista. Como sou jornalista, sou extremista. Em maio de 2023, fui condenado a quatro anos de prisão”, explica.
Em Gomel, ainda sobrou uma colega jornalista que não se vergava a Alexander Lukashenko — mas foi detida dois meses depois. Teve algum apoio legal para este caso? Yauhen Merkis diz que teve um advogado que o representou, mas apenas o “ajudou a falar com a família e a partilhar informações”: “Toda a gente entende na Bielorrússia que os advogados não te ajudam. E depois de 2020 tornou-se praticamente impossível”. De qualquer forma, o jornalista recusou-se a colaborar e “partilhar informações” com as autoridades do regime durante os interrogatórios.
▲ Tanques militares russos num exercício militar em Gomel, dias antes de a guerra na Ucrânia começar
Anadolu Agency via Getty Images
“A minha colega detida também trabalhava para a Belsat TV. Ela tentou defender-se, mas não valeu a pena. Recebi quatro anos de pena, ela recebeu três anos e meio. Não importava, isso era mais ou menos o mesmo. A decisão, julgo eu, já estava tomada em Minsk”, expõe. Perante a pena a que foi condenado, Yauhen Merkis referiu que ainda tentou recorrer da decisão judicial, ficando no centro de detenção onde estava desde setembro de 2023. Mas não valeu a pena; o recurso foi indeferido.
A “situação grave” dos Direitos Humanos na Bielorrússia
Depois de o recurso ter sido indeferido, o jornalista foi transferido para uma colónia penal. O seu processo judicial e as circunstâncias da detenção evidenciam que o regime bielorrusso continua a violar os Direitos Humanos, uma situação que diversas organizações internacionais têm vindo a alertar há décadas. E o caso de Yauhen Merkis não é o único: há milhares de presos políticos na Bielorrússia. Ao Observador, vários especialistas falam numa situação “crítica”, principalmente para aqueles que têm a coragem de criticar a liderança de Alexander Lukashenko.
“A situação de direitos humanos na Bielorrússia continua grave. A repressão tanto é explícita como implícita: detenções, julgamentos politicamente motivados, detenções daqueles que continuam politicamente ativos, enquanto o medo da perseguição frequentemente previne as pessoas de se expressarem”, constata, em declarações ao Observador, Tatsiana Chulitskaya, investigadora bielorrussa no Instituto de Relações Internacionais e Ciência Política na Universidade de Vilnius, a capital da Lituânia. A especialista diz mesmo que o entendimento da “extensão total da repressão é limitada, dado que o regime mantém um controlo restrito da informação”.
A mesma descrição é feita ao Observador por Paul Hansbury, investigador em política ucraniana e bielorrussa na Universidade de Warwick. “Há acusações politicamente motivadas contra os cidadãos constantemente — com casos a serem abertos contra pessoas que até vivem fora do país”, afirma. Para o especialista, as ações de Alexander Lukashenko “repetidamente mostram que o Presidente não quer os oponentes em liberdade dentro da Bielorrússia”.
Diante desta realidade, fica a pergunta: as negociações com os Estados Unidos não legitimam Alexander Lukashenko e não dão azo a que repressão continue a ser uma realidade na Bielorrússia? Tatsiana Chulitskaya considera que sim. “É improvável que o levantamento de sanções traga progressos genuínos. Existe o risco de isso ser visto pela entourage de Alexander Lukashenko como um sinal de fraqueza, encorajando-a a preservar ou mesmo a intensificar o sistema de repressão.”
“Os reclusos têm de sofrer.” A vida na colónia penal e os dias na solitária
Dentro da colónia penal onde esteve quase dois anos, Yauhen Merkis recorda que vigoravam “duas regras não oficiais”. “A regra número um é que o recluso tem de sofrer. É no que se baseia o sistema, apesar de não estar escrito em lado nenhum. Não é um hotel, não é um resort. Tem de se sofrer. A segunda regra não escrita é que o prisioneiro tem de estar constantemente ocupado com algo. É a ideia que provavelmente ficou da União Soviética, porque a colónia é organizada como o exército soviético.”
▲ Exterior da colónia penal IK-17
A colónia penal é composta por um conjunto de “barracas” onde moram cerca de “70 pessoas”. “Também há contagens militares, como cinco pessoas por linha. Tem de se cumprimentar todos os guardas. Como num exército”, descreve o jornalista. Ainda assim, quando em setembro de 2023 foi transferido para aquele estabelecimento penal em Shklov, pensava que ia ser pior. “Eu lembrava-me de todos os filmes e séries dos anos 90 do que era uma típica colónia soviética. E as modernas colónias bielorrussas são um pouco melhor. Foram renovadas. Quando se olha para as fotografias, tudo está limpo, tudo parece estar bem.”
“Tudo é novo, até havia remodelações no pavimento. [A colónia] era limpa e boa. Mas o problema não era esse”, diz, clarificando: “Por um lado, sofre-se todos os dias, mas por outro, tem-se um plasma grande dentro da unidade. Essa televisão foi comprada com o dinheiro dos reclusos, não é dada pelo Estado”. Yauhen Merkis recordou que a televisão até tinha “filmes e séries pirateadas”. “É uma mistura estranha”, classifica, esclarecendo também que, nas atuais colónias penais bielorrussas, não há espancamentos. “Não é porque os guardas se tornaram bons subitamente. Está relacionado com o facto de haver câmaras por todo o lado. E isso cria problemas adicionais.”
Apesar destas condições, o quotidiano é marcado por uma série de desafios para os reclusos. “Tem de se trabalhar. Não se pode recusar, a não ser que se tenha problemas médicos ou que se seja um reformado. Tem-se direito a cinco chamadas todos os meses”, elenca Yauhen Merkis. O trabalho em obras e remodelações é a parte que o jornalista recorda como sendo a mais incómoda. “A parte mais complicada era partir grandes pedras, partes de betão ou asfalto sem qualquer instrumentos profissionais, apenas grandes martelos.”
▲ Os barracões onde vivem os reclusos na colónia penal IK-17
Como as colónias penais devem servir para “mudar”, o jornalista também diz que havia “aulas” — seis a sete por mês — sobre assuntos distintos, desde Saúde a História. Mas as mesmas eram apenas um guarda a “ler numa folha” e não eram estimulantes. “Quer-se dormir, porque se está constantemente cansado. Mas não é permitido. Se se fecha os olhos é uma razão para se ser castigado”, lembra.
Não há tempos mortos nas colónias penais. “Passámos muito tempo em pé. Houve um dia que foram duas horas. Simplesmente parados”, relata Yauhen Merkis, que também denuncia a “a alimentação precária e a falta de sono”. Os prisioneiros políticos eram, segundo o jornalista, o principal alvo das colónias penais para trabalhos pesados. E também não tinham tantos direitos quanto os restantes prisioneiros. “A quantidade de dinheiro que podíamos gastar na loja da colónia era — para prisioneiros políticos — 84 rublos bielorrussos [cerca de 21 euros] cada mês. Os restantes criminosos tinham 300 ou 350 rublos [76 a 89 euros].” Havia outra distinção: enquanto os restantes criminosos — a cumprir pena por roubo, por exemplo — tinham um crachá branco, os prisioneiros políticos tinham um amarelo.
Adicionalmente, Yauhen Merkis conta que, por duas vezes, passou alguns dias na solitária. “Foi por coisas estúpidas. A primeira vez no verão [de 2024] foi porque eu não cumprimentei um oficial na cantina”, sublinha. As condições são muito piores do que a colónia penal. “Sentamo-nos num quarto onde há paredes de pedra em todo o lado. Faz muito frio. Não se tem o direito de dormir durante o dia. Não se pode sair nem para um passeio. Não há nada para ler, para escrever. Não se pode receber cartas. Apenas se pode ter acesso a um duche uma vez por semana durante dez minutos”, enumera.
Não existe sequer uma cama: “Dorme-se numa espécie de porta, um pedaço de madeira. Não existem cobertores ou almofadas”. Mas o pior é mesmo o frio, que Yauhen Merkis enfrentou na segunda vez em que esteve na solitária — em janeiro de 2025, durante treze dias. “O sítio é muito frio e as janelas estão constantemente abertas, mesmo no inverno quando as temperaturas são na ordem dos quatro graus negativos”, recorda, acrescentando que dormir é muito complicado por causa da temperatura.
O que quer Trump ao aproximar-se de Lukashenko?
O passado na colónia penal ficou para trás. Yauhen Merkis vive agora em Vilnius, na Lituânia, mas ficaram algumas mazelas: “Após passar três anos na prisão, nem me lembro de mim mesmo”. Tal como ele, 37 prisioneiros políticos foram libertados em setembro e, três meses antes, tinham sido mais algumas dezenas. Porém, não foi um gesto de boa vontade de Alexander Lukashenko: foi uma forma de piscar o olho a Donald Trump e incentivá-lo a negociar com ele.
Após a reunião em Minsk em meados de setembro, Keith Kellogg — o enviado especial para a guerra na Ucrânia que também é uma espécie de superior hierárquico de John Cole —, explicou que a libertação de prisioneiros políticos não era o “principal objetivo” das negociações entre os Estados Unidos e a Bielorrússia. Os EUA não são “ingénuos” em relação ao regime de Alexander Lukashenko, salientou o responsável: “Quando ele liberta um [prisioneiro], Lukashenko prende mais dois”.
▲ Keith Kellogg clarificou que os Estados Unidos pretendem enviar mensagens a Putin
SARAH SILBIGER / POOL/EPA
Mas então qual é o objetivo? Keith Kellogg clarificou que os Estados Unidos viram em Alexander Lukashenko um intermediário para tentar acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. O Presidente bielorrusso seria uma espécie de mensageiro entre Washington e Moscovo. “Queremos transmitir mensagens” ao Kremlin, afirmou o enviado especial em meados de setembro antes mesmo de a cimeira de Budapeste, onde haveria um encontro entre Vladimir Putin e Donald Trump, ter sido cancelada.
A estratégia de usar o Presidente bielorrusso enquanto mensageiro entre a Casa Branca e o Kremlin resultará? Os analistas ouvidos pelo Observador duvidam. Em declarações ao Observador, Giselle Bosse, professora de Relações Internacionais na Universidade de Maastricht, afirma que os Estados Unidos veem a Bielorrússia como um “canal de comunicação” com a Rússia. “Veem essa ligação com Minsk como uma manobra de baixo custo e de baixo risco dentro da sua estratégia mais ampla em relação à Rússia, que permanece em constante mudança e é marcada pela imprevisibilidade estratégica.”
Apesar das libertações de prisioneiros políticos, Giselle Bosse não tem dúvidas que o aproximar de relações entre a Bielorrússia e os Estados Unidos é “tácito na melhor das hipóteses”, mas não é “primordialmente humanitário”, como, aliás, Keith Kellogg reconheceu. Ainda assim, a professora na Universidade de Maastricht não vê qualquer “estratégia coerente” na movimentação diplomática de Washington ao reatar as relações com Alexander Lukashenko e ao levantar as sanções aplicadas contra a Bielorrússia. “Parece ser guiada não por uma política estruturada em relação à Bielorrússia, mas antes um wishful thinking geopolítico.”
▲ Os prisioneiros bielorrussos a serem libertados a 11 de setembro de 2025 em Vilnius
Anadolu via Getty Images
As sanções foram levantadas, explica ao Observador Paul Hansbury, no setor da aviação, em particular na “companhia de bandeira” bielorrussa, a Belavia, que poderá passar a fazer transações com os Estados Unidos para, por exemplo, adquirir peças. Essa empresa é, aliás, detida pelos filhos mais velhos do Presidente bielorrusso: Dmitri e Viktor Lukashenko. Para além disso, os EUA decidiram abandonar as proibições que tinham sido aplicadas ao jato privado da família do chefe de Estado.
Keith Kellogg sinalizou que os Estados Unidos quiseram levantar as sanções à Belavia — foi mesmo a “opção preferencial” — para que os “aviões não caiam nos céus”, já que alguns estão já obsoletos. No entanto, o enviado especial especificou que as aeronaves não podem ser usadas para “objetivos nefastos”, como vender peças à Rússia ou enviar migrantes para a Europa Ocidental.
Para Tatsiana Chulitskaya, o alívio das sanções é uma “aposta geopolítica que oferece poucas perspetivas de mudanças significativas” dentro da Bielorrússia. Giselle Bosse ainda é mais crítica da medida dos Estados Unidos: “Os supostos ganhos são ilusórios. Os Estados Unidos arriscam-se a mandar sinais mistos, aparentando prestigiar um regime que ainda mantém milhares de prisioneiros políticos e apoia diretamente a guerra da Rússia contra a Ucrânia”.
No entender de Giselle Bosse, esta ação dos Estados Unidos “repete os ciclos passados de apaziguamento e desapontamento” do Ocidente em relação à Bielorrússia. “Lukashenko é totalmente previsível: o único objetivo dele é manter-se no poder”, vaticina a especialista neerlandesa. Este padrão também é notado por Matthew Frear, professor do Instituto de História na Universidade de Leiden. “Minsk está outra vez numa ronda de procurar de certa forma normalizar as relações com o Ocidente. No passado, tendia a fazê-lo mais com a União Europeia do que com os Estados Unidos, mas desta vez os Estados Unidos são talvez vistos como mais pragmáticos e abertos a isso“,expõe ao Observador.
Segundo Matthew Frear, a administração Trump está “talvez menos disposta a fazer pressão pelo cumprimento de valores democráticos e de Direitos Humanos na Bielorrússia”. No entender do analista, há apenas uma espécie de “vitória rápida” que a presidência norte-americana pode reclamar na gestão desta questão: “Pode retirar dividendos da libertação de prisioneiros políticos”.
De resto, poucas são as vantagens para os Estados Unidos. “A Bielorrússia não é mais um ator com alguma autonomia; é efetivamente um componente subordinado da arquitetura securitária e militar da Rússia. O alívio económico não se vai traduzir em autonomia política. Pelo contrário: qualquer concessão será instrumentalizada por Minsk para consolidar o controlo interno e extrair vantagens, um padrão que temos visto ao longo das últimas duas décadas”, vinca Giselle Bosse, que clarifica que Alexander Lukashenko vê há muito tempo os prisioneiros políticos como uma “moeda de troca”. “No dia após os acordos, ele prende mais pessoas para ter mais moedas de trocas.”
▲ Alexander Lukashenko governa a Bielorrússia com pulso firme e usa prisioneiros políticos como moeda de troca
RAMIL SITDIKOV / POOL/EPA
O que pode Lukashenko ganhar com a aproximação aos EUA?
Os Estados Unidos terão poucos ganhos com a reaproximação a Alexander Lukashenko: podem ter um eventual intermediário para tentar sussurrar ao ouvido de Vladimir Putin de modo a resolver a guerra na Ucrânia e recolher alguns dividendos pela libertação de reféns. Mas não é linear que o Presidente bielorrusso tenha capacidade de influenciar o homólogo russo para acabar com um conflito. “Outra interpretação é que os Estados Unidos estão a tentar reduzir a dependência da Bielorrússia de Moscovo, embora isso pareça irrealista, dado o quão ativamente Alexander Lukashenko tem procurado uma ligação mais próxima com a Rússia”, argumenta Tatsiana Chulitskaya.
Para a Bielorrússia, em primeira instância, o alívio das sanções para os Estados Unidos não tem um grande impacto na economia do país, ainda que possa ser útil para o setor da aviação. “Os dirigentes bielorrussos até já disseram que esperam um maior alívio em troca da libertações de prisioneiros. Até penso que estão insatisfeitos com o que os EUA fizeram até agora. De qualquer modo, o levantamento das sanções da União Europeia seria um benefício ainda maior para o regime e para a sua economia. Os Estados Unidos nunca foram um grande mercado para as empresas bielorrussas”, aponta Paul Hansbury.
Os ganhos económicos serão marginais. Mas os políticos e geopolíticos poderão ser bem maiores. “O regime totalitário da Bielorrússia ganha legitimidade através destas ligações ao mais alto nível”, frisa Giselle Bosse, salientando que talvez Alexander Lukashenko possa ter uma vitória para consumo interno. O Presidente bielorrusso pode agora “desempenhar o papel de equilíbrio já conhecido”, em que “tanto desafia como lucra com o Ocidente”, continua a especialista. “A não ser que a posição da Rússia enfraqueça significativamente, ele não tem qualquer iniciativa para mudar o curso até agora. Moscovo assegura que a sobrevivência económica [da Bielorrússia] e o controlo repressivo.”
Ao mesmo tempo, Alexander Lukashenko poderá querer tornar-se um pouco mais independente do controlo russo. Não totalmente, ainda assim. “A Bielorrússia está interessada em quebrar o isolamento, mas não deseja virar costas a Moscovo”, destaca Matthew Frear. “Entretanto, as elites em volta de Lukashenko mantêm-se leais e coesas. Moscovo continua a ser o principal parceiro, mas Minsk vai sempre tentar ter alguma margem de manobra para manter a sua soberania, mas isso está a tornar-se mais difícil”, analisa o especialista.
“Daí a importância do potencial alívio de sanções internacionais, incluindo com os Estados Unidos. O objetivo não é substituir Moscovo, mas ter outras opções além de Moscovo”, conclui Matthew Frear. No melhor dos cenários, Alexander Lukashenko almeja uma aproximação à União Europeia, se bem que o bloco comunitário mantenha uma posição muito inflexível e bastante mais exigente em relação ao caráter repressivo do regime bielorrusso.
No entender de Giselle Bosse, a União Europeia deve “resistir à tentação” de copiar Washington. Esse assunto não está, de resto, previsto que aconteça. Na hipótese improvável de acontecer, a especialista neerlandesa alerta para o facto de a Bielorrússia já não ser um ator neutral, mas ser antes um país que contribui para sustentar a “máquina e economia da guerra da Rússia”, nomeadamente ajudando o Kremlin a contornar algumas sanções. “Diminuir a pressão a Minsk enfraqueceria a coerência e credibilidade das sanções europeias à Rússia. As sanções à Bielorrússia são parte de uma linha de defesa contra uma agressão autoritária.”
▲ Relação com a Rússia liderada por Vladimir Putin continua a ser o principal parceiro da Bielorrússia chefiada por Alexander Lukashenko
ALEXANDER DEMYANCHUK / KREMLIN / POOL/EPA
Apesar de não negar que há algumas vantagens para Minsk, Paul Hansbury antecipa que não haverá grandes vantagens no futuro. “O limite do alívio das sanções dos Estados Unidos e o número limitado de presos políticos libertados pelo Estado bielorrusso são razões para acreditar que nenhum dos lados está a obter aquilo que queria das interações bilaterais“, opina o especialista. No futuro, porém, Alexander Lukashenko poderá tentar comunicar com Vladimir Putin e convencê-lo a sentar-se à mesa das negociações — mas nada disto está garantido e o Presidente russo tem muito mais poder do que o homólogo bielorrusso.
Fruto desta aproximação entre Minsk e Washington, que até ao momento aparenta ser superficial, Yauhen Merkis conseguiu ser libertado. “Sou uma pessoa livre.” Mesmo tendo estado numa colónia penal e tenha passado dias ao frio numa solitária, espera um dia voltar à Bielorrússia. Mas num futuro próximo está fora de questão. “Sou um grande patriota. Não deixei a Bielorrússia nem nos tempos mais difíceis, mesmo quando em 2020 a maioria dos meus colegas — os jornalistas independentes — deixaram o país. A minha colega e eu fomos dos últimos jornalistas independentes ainda a trabalhar na minha cidade natal até sermos presos”, recorda.
▲ Libertação de presos políticos com Sviatlana Tsikhanouskaya, que esteve presente em Vilnius
Anadolu via Getty Images
“Eu quero regressar”, diz Yauhen Merkis, lamentando que a situação seja muito complicada: “A Bielorrússia está presa pela Rússia. E a Rússia não a liberta”. Apesar de ter sido detido, o jornalista pode efetivamente voltar ao país natal, uma vez que lhe entregaram o passaporte, algo que não fizeram com todos os detidos liberados a 11 de setembro. “Não sou persona non grata na Bielorrússia, posso efetivamente tentar voltar. Mas entendo que a possibilidade de ser detido outra vez é muito grande. Não me posso permitir isso por causa da família e da minha saúde”, justifica.
A esperança do jornalista que participou em manifestações contra o regime de Alexander Lukashenko desde que era estudante reside no conflito da Ucrânia: “Se a guerra acabar, talvez possa haver alguma possibilidade de mudança”. Até lá, Yauhen Merkis vai continuar a viver na Lituânia, ao lado de uma grande comunidade bielorrussa no exílio, composta essencialmente por aqueles que ousaram criticar o “último ditador da Europa”: “Dão-me muita esperança de que um dia tudo vai mudar. É um dos pilares sobre os quais podemos construir o nosso futuro”.