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▲Andriy Yermak é chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky desde março de 2020

Global Images Ukraine via Getty

▲Andriy Yermak é chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky desde março de 2020

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Andriy Yermak. Quem é a "sombra" de Zelensky, o controverso chefe de gabinete que despede críticos e pensou a polémica lei anticorrupção?

É acusado de despedir críticos e de estar por trás da controversa lei anticorrupção. Tem ego "galáctico", é "duro", mas "eficaz". Quem é Andriy Yermak, o camarada de armas e braço direito de Zelensky?

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“Rua Yermak. Vai-te lixar, Yermak.” Nos protestos inéditos contra Zelensky que tomaram conta das ruas de várias cidades ucranianas durante a semana passada, muitos manifestantes exigiram a demissão do chefe de gabinete do Presidente da Ucrânia. Desde 2019 que os dois homens são inseparáveis — e Andriy Yermak é acusado de ter sido um dos principais impulsionadores da lei que colocava em causa a independência das agências anticorrupção ucranianas. Após pressão da União Europeia e da opinião pública, Volodymyr Zelensky recuou e vai apresentar uma nova legislação. Mas poderemos ter estado frente à prova da influência do braço direito no Presidente.

Os dois homens são amigos há vários anos. Conheceram-se no meio audiovisual. Ainda longe da carreira política, em 2011, o Presidente da Ucrânia liderava uma produtora televisiva. O primeiro contacto com o atual chefe de gabinete foi num ambiente profissional, visto que na altura precisava de aconselhamento jurídico e Andriy Yermak era advogado. O agora chefe de gabinete tornou-se depois realizador e produtor também de vários filmes — e os caminhos com Volodymyr Zelensky, ex-ator e comediante, voltaram a cruzar-se.

Em 2019, quando Volodymyr Zelensky se candidatou à presidência, Andriy Yermak apoiou-o. Desde aí, faz parte do seu núcleo duro. Inicialmente, o antigo advogado que se especializou em Direito Internacional era apenas mais um nome na entourage do chefe de Estado. Mas cedo se destacou, ganhando vantagem face a outros aliados. Soube ler a personalidade do Presidente, soube dizer a palavra certa na hora certa e cultivou uma relação de amizade.

epa10112472 A handout photo made available by the Ukrainian Presidential Press Service shows Ukrainian President Volodymyr Zelensky (R), sitting next to chief of staff of the Ukrainian presidential office Andrii Yermak (L), during a video conference with US former president Bill Clinton (on screen), in Kyiv (Kiev), Ukraine, 08 August 2022 (issued 09 August 2022). According to the Ukrainian presidential office, Zelensky thanked Clinton for the personal support to Ukraine as well as for the comprehensive support from the United States at various levels, as the Russian invasion of Ukraine continues.  EPA/UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT -- MANDATORY CREDIT: UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE -- HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Andriy Yermak e Volodymyr Zelenksy numa reunião à distância com o ex-Presidente norte-americano, Bill Clinton

UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT/EPA

Um antigo ministro ucraniano confidenciou ao Politico que Andriy Yermak é um “psicólogo brilhante”: “Ele é capaz de ler Zelensky e antecipar o que ele quer. Ele oferece soluções rápidas e eficazes a Zelensky, que odeia discutir detalhes. Ele não lhe traz problemas”. Fomentada ao longo dos últimos seis anos, essa capacidade de influência junto ao Presidente transformou-se num grande poder nos bastidores da política ucraniana. O chefe de gabinete consegue afastar críticos e todos aqueles que ameacem ofuscar a sua posição.

“A sorte e o futuro de toda a gente [na política] é determinada por Andriy Yermak”, contou outro antigo ministro ao Financial Times. Há vários relatos na imprensa internacional que dão conta de que o braço direito do Presidente teve um papel preponderante no afastamento do antigo comandante-chefe das Forças Armadas, Valery Zaluzhny, e até do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba. Para entender as dinâmicas da política ucraniana, há que entender a complexa personalidade deste braço direito.

Para os críticos, é um homem com um “ego galáctico”, vivendo apenas para obter reconhecimento público, mesmo trabalhando nos bastidores. Para os apoiantes, Andriy Yermak fez da missão da sua vida a vitória da Ucrânia frente à Rússia, trabalhando incansavelmente para esse objetivo — muitos relatam que trabalha cerca de 19 horas por dia e é capaz de fazer sucessivas noitadas. Os dois lados admitem, contudo, que é um nome influente junto a Volodymyr Zelensky e que usa métodos muitas vezes questionáveis para alcançar os objetivos a que se propõe.

epa10181540 Anders Fogh Rasmussen, Former NATO Secretary General, speaks during their joint with Andriy Yermak, the head of the Office of the President of Ukraine, meeting with the media at the Presidential office in Kyiv, Ukraine, 13 September 2022. Anders Fogh Rasmussen arrived in Kyiv to meet with top Ukrainian officials and discuss the project of the 'Kyiv Security Compact' which mast to guarantee the security of Ukraine after the end of the war.  EPA/SERGEY DOLZHENKO

▲ Andriy Yermak é considerado uma pessoa com personalidade polarizadora

SERGEY DOLZHENKO/EPA

Da advocacia ao cinema, qual é o percurso de vida de Andriy Yermak?

Enquanto figura de destaque nacional, o nome de Andriy Yermak está longe de ser consensual entre os ucranianos. “Na Ucrânia, existe uma perceção amplamente partilhada (e até queixas) de que Yermak tem demasiado poder, apesar de ser um burocrata que não foi eleito”, corrobora ao Observador a diretora do departamento de relações internacionais na Universidade de Tufts, Oxana Shevel. Durante os últimos anos, foram difundidas várias informações sobre o braço direito da presidência da Ucrânia. Uma das que mais o incomodou foi a insinuação de que seria um agente secreto russo, informação que o homem de 53 anos negou categoricamente.

Nascido em 1971 numa família de classe média-alta na capital ucraniana, a mãe, Marina, é natal de São Petersburgo, ainda que tenha vivido grande parte da vida em Kiev. Ucraniano e judeu, o pai de Andriy Yermak trabalhou na indústria de armamento soviética antes de ser colocado na embaixada da União Soviética no Afeganistão durante a guerra que opôs os dois países nos anos 80. Alguns rumores sugerem que foi um agente do KGB em solo afegão, mas o braço direito de Volodymyr Zelensky assegurou que se tratava também de uma mentira: “Onde estão as provas?”

Quando a União Soviética se dissolveu, Andriy Yermak estava a estudar na Universidade Nacional de Taras Shevchenko, onde se licenciou e terminou um mestrado em Direito Internacional. Ao contrário de muitos dos seus colegas de curso — que aproveitaram para ir trabalhar para a Europa Ocidental —, decidiu ficar na Ucrânia. A jornalista ucraniana Yulia Mendel contou ao Politico que o agora chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky teve vários empregos: trabalhou numa discoteca, na indústria têxtil e depois como advogado. “Foi importante para moldar a rede de conexões de Yermak.”

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▲ Ucranianos celebram a independência da União Soviética em 1991

AFP via Getty Images

Na Ucrânia após a independência, que se adaptava a uma economia de mercado e à democracia ocidental, Andriy Yermak fundou um escritório de advogados que se especializava nos domínios da propriedade intelectual e nos registos de patentes. Segundo a Business Insider, o aliado de Volodymyr Zelensky teve a perceção do quão corrupto era o sistema judicial ucraniano — e esta experiência originou que o combate à corrupção fosse uma das suas principais prioridades quando entrou na política.

Foi nas funções de advogado que conheceu Volodymyr Zelensky, que procurava ajuda jurídica na sua produtora, que trabalhava na altura para o canal Inter, um dos mais vistos na Ucrânia. A primeira impressão foi logo positiva, recorda Andriy Yermak, citado pelo Financial Times: “Eu vi logo que era uma pessoa muito inteligente, muito esperta. Gostei da forma como falava da sua mulher e dos seus filhos”.

Após ter dedicado parte da carreira profissional à advocacia, Andriy Yermak passou para a indústria do entretenimento. Fã de cinema italiano, fundou uma produtora em que realizou vários filmes até 2019. Nesse ano, decidiu entrar para a política — e apoiar a candidatura presidencial de Volodymyr Zelensky. O agora chefe de Estado determinou que seria o seu conselheiro em questões de política externa.

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▲ Andriy Yermak e Volodymyr Zelensky durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 2019 na Ucrânia

NurPhoto via Getty Images

Aos 41 anos, Volodymyr Zelensky venceu as eleições de forma esmagadora, com cerca de 75% dos votos. Envergando a bandeira da luta contra a corrupção e do fim das hostilidades com a Rússia (país que tinha anexado a Crimeia em 2014 e tinha em curso uma guerra no Donbass desde aquele ano), o chefe de Estado abanou as estruturas da política ucraniana, dominada desde o fim da União Soviética pelos mesmos nomes. O Presidente da Ucrânia escolheu uma equipa jovem, leal e que vinha maioritariamente de fora da política.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]

Entre os escolhidos estava Andriy Yermak, que se dedicava inicialmente à política externa. Destacou-se inicialmente ao negociar com a Rússia sucessivas trocas de prisioneiros de guerra, libertando centenas de soldados. Ganhou ainda mais relevo pela sua participação direta nos bastidores da polémica do então Presidente norte-americano, Donald Trump, que desejava que Kiev investigasse o filho daquele que viria ser o seu adversário nas presidenciais de 2020, Joe Biden, em troca de ajuda militar à Ucrânia — e que esteve na base do primeiro processo de impeachment.

Para o Presidente ucraniano, Andriy Yermak era visto como o perfeito interlocutor entre Kiev, Moscovo e Washington. Daí que, em 2020, Volodymyr Zelensky o tivesse promovido a chefe de gabinete, substituindo Andriy Bohdan no cargo. Dois anos depois, o vínculo ainda se ia fortalecer mais: quando as tropas russas invadiram território ucraniano, numa situação de crise que exigia respostas rápidas, os dois homens passaram a partilhar a tomada de decisões na presidência.

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▲ Andriy Yermak quando chegou ao cargo de chefe de gabinete

SOPA Images/LightRocket via Gett

Ténis de mesa, cinema e ginásio. Os camaradas de armas Yermak e Zelensky

Caos. Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, a presidência ucraniana entrou em permanente estado de alerta e gestão de crises. Antes de Vladimir Putin ter ordenado a invasão, Volodymyr Zelensky tentou apelar a uma solução diplomática. A Rússia ignorou e lançou uma ofensiva. Durante os vários dias e noites, quando os bombardeamentos à capital ucraniana eram bastante frequentes, os dois homens esconderam-se no bunker do gabinete oficial do Presidente na Rua Bankova.

No bunker, os dois homens tinham espingardas, caso os russos conseguissem invadir o gabinete oficial presidencial. “Não estava assustado. Eu pensei nesse momento, mas não me preocupei muito principalmente comigo. Eu tinha medo pela minha família e pelo povo ucraniano”, contou Andriy Yermak ao Financial Times. Solteiro e sem filhos, o braço direito esteve sempre ao lado de Volodymyr Zelensky durante os tempos iniciais da invasão. Trabalharam horas seguidas, gravavam vídeos e tentavam mobilizar a opinião pública internacional para a guerra.

No famoso vídeo que Volodymyr Zelensky publicou nas horas depois da invasão — em que garantia que a Ucrânia não se ia render e que ficaria em Kiev — Andriy Yermak estava lá, atrás do Presidente. Quando o vice-chefe de gabinete russo, Dmitry Kozak, ligou para a residência oficial a exigir que os ucranianos rendessem, foi o braço de direito do chefe de Estado quem atendeu o telefone. “Vai-te f****”, foi a resposta de Andriy Yermak.

Desde fevereiro de 2022 que os dois homens passam muito tempo juntos, convertendo-se em camaradas de armas. Dormem no mesmo bunker relativamente próximos um do outro. À noite, se tiverem algum tempo livre, jogam ténis de mesa e veem filmes; o cinema é uma paixão que os dois partilham. Outra é o desporto. Todas as manhãs, os dois fazem exercício físico e levantam pesos num ginásio instalado no abrigo.

Nos momentos de lazer, estão muitas vezes juntos. No trabalho, é a mesma coisa. Um antigo dirigente ucraniano lembrou ao Politico que os dois têm uma “conexão mental”. “Yermak fez questão de estar presente em todas as reuniões que eu tive com Zelensky a ouvir e a reagir. Ou então, apenas se sentava, mexia no telemóvel e às vezes contava piadas privadas. Eu depois parei de ir a reuniões e comunicava apenas por e-mail”, narra a mesma fonte.

O “cardeal de verde” que é um “co-presidente” ou que apenas o apoia?

O laço de amizade e de confiança entre Volodymyr Zelensky e o seu braço direito fortaleceu-se assim. Andriy Yermak acompanhou todos os passos do Presidente da Ucrânia desde o início da guerra. Ganhou o cognome de “cardeal de verde” pela influência que tem na presidência e pela roupa que usa — sempre daquela cor. É uma “sombra” da política ucraniana que sussurra com eficácia ao ouvido do chefe de Estado e gere nos bastidores o país, seja no plano interno, seja no externo.

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▲ Após a invasão, Andriy Yermak costuma andar sempre de verde

Bloomberg via Getty Images

Há quem critique e lamente que um homem tenha tanto poder. “O Presidente não tem entourage. Há uma pessoa que influencia as decisões do Presidente. Não há mais ninguém. A influência de Yermak é monopolista. É uma tragédia”, lamenta um dirigente ucraniano ao Washington Post. Em resultado, o braço direito tem carta branca para fazer o que quer — escolhendo apenas os seus aliados para cargos de relevo e selecionando a informação que chega a Volodymyr Zelensky.

É uma espécie de “co-presidente”, cargo que a diretora-executiva da Organização Não Governamental Anti-corrupção Action Center, Daria Kaleniuk, critica. “Não existe um governo. Em vez disso, existe um governo liderado por Yermak, que controla o acesso à agenda do Presidente e até ao Presidente. E depois há uma série de conselheiros estranhos, que não são dirigentes públicos, que não recebem vencimentos do Estado e que não têm de submeter declarações de rendimento”, denuncia. Ao Politico, a mulher esclarece que não são os “oligarcas que são o principal problema doméstico da Ucrânia”, nem mesmo a corrupção: “O principal problema é o sistema de governação e como o poder tem sido monopolizado”.  

Já Michael McFaul, antigo embaixador norte-americano na Rússia, disse ao Washington Post concordar que “de alguma maneira” Andriy Yermak é “de facto primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e chefe de gabinete”. “Eu sei como toda a gente se queixa sobre Yermak. Mas, em contrapartida, [a Ucrânia] está em guerra. E ele é bastante eficaz no seu trabalho.” Neste estado de gestão de crises por causa do conflito, é normal que um chefe de Estado se rodeie de “pessoas eficazes e 100% leais”: “É esse papel que Yermak desempenha para o Presidente Zelensky”.

"O Presidente não tem entourage. Há uma pessoa que influencia as decisões do Presidente. Não há mais ninguém. A influência de Yermak é monopolista. É uma tragédia."
Dirigente ucraniano ao Washington Post

Por sua vez, em declarações ao Observador, Taras Fedirko, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Glasgow, rejeita também que seja “correto descrever Yermak como agindo de forma quase presidencial” na Ucrânia. “É claro para mim que Yermak, tal como os chefes de gabinete dos antigos Presidentes, age como alguém de confiança do Presidente num contexto em que grande parte do poder, anteriormente distribuído entre o governo e o Parlamento, está concentrado no gabinete do Presidente”, começa por explicar o especialista, recordando o estado de guerra.

“Zelensky relega a tomada de decisões e a gestão em assuntos-chave a outras pessoas, o que fez com que alguns na sua administração sejam mais poderosos do que outros, porque são eficazes a resolver problemas. Yermak talvez seja o mais poderoso de todos”, prossegue Taras Fedirko.

O mesmo especialista concede que é “claro” que Andriy Yermak também “tem jogado um jogo político relativamente anónimo”, instalando os seus aliados “onde pôde no governo ao longo dos últimos cinco anos e meio”. Mas para “jogar este jogo”, realça Taras Fedirko, o chefe de gabinete tem de continuar a ser “credível” e tem de continuar a avançar as iniciativas governamentais de Zelensky.

"Zelensky relega a tomada de decisões e a gestão em assuntos-chave a outras pessoas, o que fez com que alguns na sua administração sejam mais poderosos do que outros, porque são eficazes a resolver problemas. Yermak talvez seja o mais poderoso de todos."
Taras Fedirko, professor na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Glasgow

Perante as críticas, o braço direito do Presidente da Ucrânia também se tem vindo a defender em várias entrevistas. “A minha tarefa tem sido garantir que a presidência é eficaz e que continuo a ajudar o chefe de Estado a cumprir os seus poderes constitucionais. Não se trata de um poder vertical separado, mas um braço de trabalho do Presidente, especialmente durante este tempo de guerra, quando as decisões devem ser tomadas rápida e claramente”, frisou, em entrevista ao Politico, Andriy Yermak.

“O Presidente tem o direito de se apoiar naqueles que confia e naqueles que são capazes de trabalhar sem folgas e sem pena de si próprios. Estou grato pela sua confiança. Faço tudo o que posso para garantir que a equipa funciona como um mecanismo único sob circunstâncias extremamente difíceis”, salienta Andriy Yermak, acrescentando que os mitos sobre “controlo total” são construídos em redor de impressões — e também podem ter, segundo o chefe de gabinete, uma pitada de propaganda russa.

O homem que não gosta de protocolos e que irrita muitos diplomatas em Washington

Não há dúvidas de que Andriy Yermak tem poder. Por um lado, o chefe de gabinete tem garantido que tudo o que executa tem o aval do Presidente ucraniano — que é sempre consultado. Por outro, também tem margem de manobra para influenciar Volodymyr Zelensky, que confia quase de olhos fechados no seu braço direito. Algumas das decisões tomadas criaram já problemas à Ucrânia — muito por conta da personalidade “impulsiva” e “dura” do seu aliado.

epa11081937 A handout photo made available by the Ukrainian Presidential Press Service on 16 January 2024 shows Ukraine's President Volodymyr Zelensky (2-L), Head of the Office of the President of Ukraine Andriy Yermak (L) and NATO Secretary General Jens Stoltenberg (2-R, back to camera) during a meeting in Davos, Switzerland, on the sidelines of the 54th annual meeting of the World Economic Forum (WEF). According to the Ukrainian presidential office, Zelensky met Stoltenberg in Davos to discuss Ukraine's defense needs and the situation on the front lines amid the Russian invasion, among other topics.  EPA/UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT -- MANDATORY CREDIT: UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE --  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Yermak e Zelensky numa reunião com o antigo secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg

UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT/EPA

Quem trabalha com Andriy Yermak conhece o seu temperamento “brutal”, como reconhece o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andriy Sybiha, ao Financial Times, que recolheu vários testemunhos sobre o seu estilo de trabalho junto da sua equipa. “É duro, mas eficaz”, adjetiva um conselheiro próximo. Outro fala em “crueldade”, mas também “astúcia”. Ao Business Insider, um antigo colaborador, Oleksiy Arestovych, destaca que é um “bom gestor”. Porém, tem um “estilo de comportamento e de gestão” que é “completamente russo”: “Pensa nas pessoas como peças de xadrez” e não se coíbe gritar e humilhar quem lhe faz frente ou desobedece.

Em reação, em várias entrevistas que foi dando, o chefe de gabinete da presidência ucraniana admite que é “duro” no trabalho e que se exalta com facilidade. “É impossível não ser duro e obter resultados. Não existe maior crítico de mim do que eu mesmo. Sou o gestor do Presidente. Ele não é apenas o líder da Ucrânia — eu acredito que ele é o líder do mundo livre. O meu trabalho é ajudá-lo a ser o mais eficaz possível. O objetivo é ganhar esta guerra, reclamar os territórios, trazer as nossas pessoas de volta, receber compensações e reconstruir o nosso país.”

Essa dureza não é só na forma. É também no conteúdo. O braço direito de Volodymyr Zelensky não desiste com facilidade das suas ideias e até é impulsivo. Em política externa, Andriy Yermak já declarou ser “contra a diplomacia formal”. “É uma nova época. É necessário soft power. Preciso de resultados.” Uma das suas iniciativas consiste no facto de reunir o apoio de várias celebridades internacionais, que fazem campanha pela Ucrânia e consciencializam as opiniões públicas da importância de apoiar o país.

"É impossível não ser duro e obter resultados. Um maior crítico de mim não existe. Sou o gestor do Presidente. Ele não é apenas o líder da Ucrânia — eu acredito que ele é o líder do mundo livre. O meu trabalho é ajudá-lo a ser o mais eficaz possível."
Andriy Yermak, chefe de gabinete do Presidente da Ucrânia

Encontrar novos embaixadores da Ucrânia em todo o mundo é uma das suas prioridades. Ao mesmo tempo, parece também gostar de se relacionar com celebridades. Em circuitos diplomáticos, como nota o Financial Times, comenta-se e ridiculariza-se a necessidade de Andriy Yermak se destacar, mencionando constantemente que conhece alguns famosos, como o ator Sean Penn (que já fez um documentário sobre a guerra) ou a atriz Jessica Chastain.

O estilo combativo, pouco preocupado com protocolos e até convencido causa alguma exasperação entre os diplomatas que necessitam de se relacionar com a presidência ucraniana. Andriy Yermak já entrou em rota de colisão com muitos quadros diplomáticos em Kiev. Sendo o maior parceiro da Ucrânia, muitos dirigentes dos Estados Unidos não escondem a irritação com o chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky. “É irritante para as duas fações”, confessou uma fonte ao Politico, aludindo ao facto de o braço direito do Presidente já ter tido problemas quer com a administração Biden, quer com a administração Trump.

Forçar reuniões, insistir na mensagem de que a Ucrânia precisa de apoio militar e até aparecer de surpresa em Washington. Os norte-americanos não escondem a frustração com o número dois da presidência ucraniana. Aliás, muitos culpam Andriy Yermak pela reunião fracassada na Sala Oval. O chefe de gabinete terá insistido num encontro entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump perante as câmaras de televisão e terá reiterado a necessidade da assinatura do acordo de minerais o mais rapidamente possível.

epa11930781 Ukrainian President Volodymyr Zelensky (L) talks with US President Donald Trump (R)  in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 28 February 2025. Zelensky is in Washington to sign the framework of a deal, pushed by President Trump, to share Ukraines’s mineral wealth with the US.  EPA/JIM LO SCALZO / POOL

▲ Andriy Yermak terá insistido numa reunião entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump

JIM LO SCALZO / POOL/EPA

A pressão contínua em Washington pode ter efeitos adversos. Ao Politico, membros da administração Biden lamentaram que Andriy Yermak não seguisse os principais basilares da diplomacia. Ora, se na antiga presidência norte-americana o apoio ucraniano era algo “à prova de bala”, nesta não. E as atitudes do braço direito de Volodymyr Zelensky podem ter sérias implicações na ajuda dos EUA a Kiev, principalmente entre a fação do Partido Republicano que vê na Rússia uma inspiração e na Ucrânia uma causa perdida. Como resumiu uma fonte ao mesmo jornal, “todas as pessoas que querem desistir e abandonar a Ucrânia estão felizes em ter Yermak perto”.

Atualmente, nas redes sociais, é visível a nova missão do braço direito do Presidente ucraniano: garantir que Donald Trump impõe as novas sanções à Rússia. O Presidente norte-americano já abriu a porta em fazê-lo dentro de dias — e foi algo que o chefe de gabinete se congratulou no X: “Putin apenas respeita poder — e essa mensagem é clara. Quando a América lidera com força, outros pensam duas vezes”. Se o instável chefe de Estado dos EUA realmente adotar uma política sancionatória mais dura contra Moscovo, poderá ser mais uma vitória do incansável chefe de gabinete.

Zaluzhny, Kuleba e o novo alvo Budanov. As purgas de Yermak

No plano interno, os especialistas ouvidos pelo Observador e pela imprensa internacional são unânimes: o chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky é capaz de moldar os cargos na política ucraniana. Afasta vários nomes incómodos e promove os mais leais. Por exemplo, Andriy Yermak terá sido o principal responsável pelo afastamento do popular Valery Zaluzhny, a mente por trás da contraofensiva de setembro de 2022, que recuperou vários territórios para a Ucrânia.

Valerii Zaluzhnyi. O general “modesto” e “popular” por trás dos êxitos militares ucranianos e da contraofensiva

Com ambições presidenciais e popular entre os ucranianos, Valery Zaluzhny discordou publicamente das estratégias adotadas pela presidência ucraniana — e foi transferido para a embaixada ucraniana em Londres. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, assim como o ex-ministro das Infraestruturas, Oleksandr Kubrakov, também terão sido afastados por iniciativa do chefe de gabinete.

Oleh Rybachuk, que desempenhou as funções de chefe de gabinete do Presidente Viktor Yushchenko entre 2005 e 2006, analisa ao Financial Times como é que Andriy Yermak opera. “Ele é como [um caça] F-16 com um radar de longa distância. Se alguém ganha popularidade, Yermak é o primeiro a sussurrar no ouvido de Zelensky. Ele joga com os estados de espírito de Zelensky. Ele sabe exatamente o quê e quando dizer para eliminar ameaças políticas”, descreve o antecessor, salientando que essa estratégia não “protege Zelensky, mas antes enfraquece-o”: “Sem personalidades fortes em redor, começa a viver-se numa bolha”.

Em sua defesa, o chefe de gabinete refuta todas estas acusações. No entanto, a imprensa ucraniana relatou que Andriy Yermak tem um novo alvo na mira: o líder das secretas ucranianas dentro do Ministério da Defesa, o general Kyrylo Budanov. De acordo com a Economist, o chefe de gabinete já terá tentado nove vezes demitir o responsável pelas secretas ucranianas. Até ao momento, sem sucesso. Volodymyr Zelensky não terá cedido para já às vontades do seu braço direito — e a Casa Branca terá mesmo intervindo em favor de Kyrylo Budanov.

Briefing on return of Ukrainian defenders from Russian captivity held in Kyiv

▲ Kyrylo Budanov (à esquerda) e Andriy Yermak (à direita)

Future Publishing via Getty Imag

A mancha negra no currículo? O Yermakgate

Antigos inimigos, ameaças ao poder de Volodymyr Zelensky e até nomes populares entre os ucranianos. Se bem que nem sempre seja bem-sucedido, Andriy Yermak controla a composição do executivo da Ucrânia. E não só. Com tanto poder nas mãos, muitos críticos acusam o chefe de gabinete do Presidente de atrasar a luta contra a corrupção no país. Terá mesmo contribuído para a lei que tanta controvérsia causou em relação ao fim da independência da Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAPO) e da Agência Nacional Ucraniana Anticorrupção (NABU), as agências anticorrupção do país.

Andriy Yermak tem negado todas estas acusações de corrupção. Mas há um escândalo que o tem perseguido: o Yermakgate. Em 2020, o seu irmão mais novo, Denis, foi apanhado num alegado vídeo a discutir subornos em troca de cargos governamentais e lugares em empresas estatais com o objetivo de enriquecer. O chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky assegurou que não estava envolvido neste processo, tal como o irmão garantiu estar inocente.

O Yermakgate não resultou em quaisquer condenações — o inquérito judicial foi arquivado. Mas a NABU e a SAPO investigaram de perto Denis Yermak, o que poderá ter incomodado o chefe de gabinete do Presidente. E, de acordo com o Financial Times, Kyrylo Budanov terá tentado reabrir o caso, atravessando-se no caminho do todo-poderoso chefe de gabinete — o que terá motivado que Andriy Yermak o tivesse tentado demitir.

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▲ Caso relacionado com o irmão foi uma mancha negra no currículo de Andriy Yermak

Global Images Ukraine via Getty

Andriy Yermak e Volodymyr Zelensky terão certamente discutido a questão. Existem suspeitas de que o chefe de gabinete terá estado por trás do projeto de lei que tanta controvérsia causou. Mesmo assim, nos bastidores, o aliado do Presidente tem conseguido escudar-se de várias críticas, mesmo que, nas ruas das cidades ucranianas, houvesse quem tivesse pedido a sua demissão.

Em relação ao Yermakgate, o chefe de gabinete já se justificou — e alegou que há quem tente destruir a sua reputação. “Vivemos uma democracia e é muito fácil fazer acusações injustificadas. Há muita publicidade suja em redor de mim. As pessoas dizem coisas horríveis, incluindo sobre mim. Houve uma operação contra mim e contra o meu irmão”, defendeu Andriy Yermak, lembrando o patriotismo do familiar: “Agora o meu irmão está na linha da frente a combater e ninguém fala sobre isso”.

Há quem lhe chame o Rasputine de Zelensky pela influência e pela capacidade de adivinhar o temperamento do chefe de Estado. Há quem o arrase por centralizar o poder em seu redor, afastando críticos e promovendo personalidades apenas na base da lealdade. Há quem o elogie pela resiliência, capacidade de execução e força. Por um lado, entre adversários e aliados, Andriy Yermak é, sem dúvida, um homem poderoso, focado nos seus objetivos e ambicioso. Por outro, gerou vários anticorpos dentro e fora da Ucrânia e está longe de ser uma figura popular no país.

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