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Paulo Raimundo com António Filipe no Porto, na primeira aparição na campanha
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▲Paulo Raimundo com António Filipe no Porto, na primeira aparição na campanha

LUSA

▲Paulo Raimundo com António Filipe no Porto, na primeira aparição na campanha

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António Filipe tenta tudo na última semana com um objetivo: resistir

Comícios no Porto e em Lisboa mostraram primeiros sinais de vitalidade de uma campanha que passou a primeira semana a meio gás e a combater Seguro. Partido quer mostrar que é capaz e de se renovar.

Primeiro no Porto, depois na capital. António Filipe tinha avisado que o fim-de-semana iria mostrar uma grande mobilização, e cumpriu. As primeiras grandes enchentes na campanha trouxeram à candidatura o primeiro sinal de força de uma candidatura que vai tendo dificuldades para se impor no espaço mediático. A presença de Paulo Raimundo trouxe energia, o aparecimente de Jerónimo de Sousa trouxe simbolismo e emoção, mas os números são o que são: em praticamente todas as sondagens conhecidas até aqui, o candidato apoiado pelo PCP não vai além dos 4%. Os comunistas têm uma semana para acelerar passo.

Aproveitando a evidente fragilidade do Bloco de Esquerda e um aparente desencanto do eleitorado com António José Seguro, o PCP avançou para estas eleições com o objetivo de tentar recuperar o estatuto de força liderante à esquerda do PS. Até este fim de semana, no entanto, as coisas não estavam a correr particularmente bem aos comunistas. Aliás, os dois comícios devem ser lidos com uma oportunidade de viragem numa campanha que até agora, se vai fazendo a meio gás e com muitas dificuldades para lidar com a pressão do voto útil em António José Seguro.

Na primeira semana oficial, António Filipe não teve contacto espontâneo com a população nas ruas. Os dias foram maioritariamente dedicados a uma série de sessões públicas, destinadas a ouvir cidadãos e apoiantes sobre vários temas. Em Setúbal, António Filipe ouviu as queixas dos trabalhadores por turnos; em Pedrógão Grande, o lamento dos bombeiros; em Lisboa, as reivindicações das mulheres. Houve também vários jantares com apoiantes, que terminam sempre com um discurso do candidato. Mas, a cada sítio que ia, o tema era, quase sempre, único: António José Seguro.

Um problema chamado voto útil

Aconteceu em Lisboa e toda a gente sabia que ia acontecer nas presidenciais. Há poucos meses, também João Ferreira foi pressionado para se juntar a uma solução de convergência, em torno de Alexandra Leitão, para combater Carlos Moedas. Apesar da recusa, era previsível que a esquerda (no mínimo no espaço socialista) voltasse à carga nestas eleições, e assim se concretizou. António José Seguro percebeu que a passagem à segunda volta provavelmente se trata mais de uma questão aritmética do que política, e lançou a narrativa: para a esquerda ser representada nesse momento, ele é a única hipótese.

Expectável ou não, esta estratégia, que até chegou a ser explicada em voz alta pelo secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, desorientou a candidatura de António Filipe nos primeiros dias da campanha oficial. Fosse onde fosse, o comunista estava condenado a responder sempre ao mesmo tema. Iniciativas em Setúbal sobre a precariedade no setor da cultura, perguntas sobre Seguro. Sobre a requalificação da Costa da Caparica, perguntas sobre Seguro. Depois de encontros com Manuel Carvalho da Silva em Lisboa, ou com pescadores em Peniche, Seguro, Seguro e sempre Seguro.

A consequência deste cerco apertado foi óbvia: independentemente da ação de campanha, os soundbytes que passaram nos telejornais à noite e que dão títulos nos jornais são sobre Seguro, e nunca sobre os temas que o comunista quer trazer à campanha. Mesmo que não tenha conseguido levar ninguém a desistir, o socialista conseguiu ocupar grande parte do espaço mediático da candidatura de António Filipe. E isto é um enorme desafio para um candidato que está nesta corrida para provar que o PCP consegue resistir ao ar dos tempos.

O canditado à Presidência da República, António Filipe (2D), durante a visita ao clube desportivo CPN , Ermesinde, 10 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA

▲ António Filipe em campanha em Ermesinde

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

À procura da renovação

Ao longo dos últimos dias, em particular no grande comício que fez em Lisboa, António Filipe tem dedicado grande parte do seu discurso aos mais jovens. Escolheu pegar em alguns dos maiores problemas do país e enquadrá-los às dificuldades sentidas pelos mais novos. Socorrido do artigo 70º da Constituição, que confere proteção especial aos jovens, o comunista aproveitou para acusar as políticas “ditadas pelo consenso neoliberal” de condenarem dezenas de milhares de jovens portugueses a abandonar o país à procura de melhores condições de vida e de uma realização profissional “que lhes são negadas em Portugal.

No ensino, a mensagem é a mesma: “Os nossos jovens não podem continuar a frequentar escolas sem condições, sem professores a todas as disciplinas, sem o material escolar necessário fornecido gratuitamente, sem os funcionários que são necessários para que as escolas funcionem, sem espaços adequados para o convívio e a prática desportiva, sujeitos ao frio e à chuva”.

O mesmo para a crise na habitação para mostrar que são os mais jovens os maiores prejudicados. “Os nossos jovens não podem continuar a ver adiada a sua autonomia, as suas possibilidades de constituir família e de sair de casa dos pais por falta de uma política de habitação que dê cumprimento ao artigo 65º da Constituição”, chegou a dizer. “Não se resolve o problema da crise da habitação insistindo nas políticas neoliberais que a criaram. O acesso dos jovens a uma habitação condigna só se resolve com melhores salários e menos precariedade, mas também com promoção direta de habitação pública, com uma regulação do arrendamento e do crédito à habitação que evite a especulação”.

A mensagem é importante, especialmente tendo em conta que o PCP tem um eleitorado tradicionalmente envelhecido. Qualquer crescimento que o partido possa ambicionar no horizonte terá de passar necessariamente pela captação de novos eleitores. Com um dado interessante e porventura contra-intuitivo: os estudos pós-eleitorais que se fizeram depois das legislativas de 2025 mostram que o partido conseguiu captar mais voto jovem do que o rival de esquerda, o Bloco. Mas em números insuficientes para se poder sequer sugerir que o partido está em condição de inverter a trajetória descendente em que se encontra.

Aliás, essa disputa entre os dois partido mantém-se bem viva nestas presidenciais: com Jorge Pinto atirado para intenções de voto residuais, o Livre, que é neste momento o partido mais votado à esquerda do PS, parece estar arredado das contas; Catarina Martins e António Filipe medem forças à esquerda, aparentemente com vantagem para a bloquista. A acontecer, o PCP pode acabar por dar uma pequena vitória ao Bloco de Esquerda, o balão de oxigénio que o partido de José Manuel Pureza vai procurando.

Seja como for, o caminho é por aí, pela renovação de eleitores. Tem sido essa a preocupação dos comunistas e tem sido também essa a preocupação de António Filipe nestas presidenciais. Cada eleição que passa é também um teste à sobrevivência do partido. Estas presidenciais não serão muito diferente: qualquer resultado que fique aquém dos cerca de 3% que os comunistas conseguiram nas últimas legislativas será, inevitavelmente, uma derrota. Cientes disso mesmo, os comunistas preparam uma segunda metade de campanha muito mais intensa.

▲ Paulo Raimundo com António Filipe no comício de Vila Nova de Gaia

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A estrelinha de Raimundo

O partido tentará agora imprimir um novo ritmo à campanha. Esse esforço começou já este fim de semana com dois comícios com sala cheia. Esta segunda-feira vão começar as tradicionais arruadas, um teste mais difícil para medir a real popularidade de António Filipe. Pelo que explica fonte da candidatura ao Observador, esta separação semanal nos tipos de iniciativa não é propositada, mas a campanha foi pensada para evitar imprevistos e trocas de última hora. As previsões de mau tempo (que não se têm materializado) e a intenção de fazer mais arruadas mais perto da reta final levaram a que a agenda fosse organizada desta maneira.

Este útlimo fim-de-semana mostrou que, apesar da crise de resultados, o PCP ainda mantém uma forte capacidade de mobilização de militantes e simpatizantes nos momentos-chave — ainda que, no passado, essas mobilizações não se tenham refletido nos resultados eleitorais. De todo em todo, o fator anímico é muito importante numa campanha e uma sala cheia, como aquelas que teve em Lisboa, Porto e Vila Nova de Gaia, ajudam muito.

“Se alguém pensa diminuir o peso desta candidatura, um comício como este mostra que está muito enganado”, disse o candidato em Lisboa. António Filipe tem garantido que vê a campanha em crescendo, e quem só tenha acompanhado os comícios nos maiores centros urbanos pode ficar com essa sensação. Se no comício de Vila Nova de Gaia estiveram muitas centenas de apoiantes, em Lisboa o número terá seguramente ultrapassado os mil, e desta vez a candidatura até puxou dos galões, garantindo a presença de alguns pesos pesados para mostrar uma candidatura forte, com nomes conhecidos.

No evento no Casal Vistoso, o secretário-geral Paulo Raimundo voltou a sentar-se ao lado do candidato, e consigo trouxe de surpresa o antigo líder (e maior figura viva comunista) Jerónimo de Sousa — sentado uma fila atrás, mais discreto –, além de figuras como o único eurodeputado da CDU, João Oliveira, e Isabel Camarinha, antiga líder da CGTP. No Porto, estiveram também o deputado Alfredo Maia e o atual secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira.

Como também explica fonte da candidatura, cada campanha é pensada para potenciar as mais-valias de cada candidato, e António Filipe não é Paulo Raimundo. Na imagem que passa para fora — a que interessa aos eleitores — o candidato presidencial é mais reservado e contido do que o secretário-geral do PCP. É por isso normal que as sessões públicas em que tem participado, pensadas mais para ouvir do que falar, lhe sejam mais sensíveis e se adequem mais ao seu estilo.

Nas duas vezes em que participou na campanha, Raimundo serviu de complemento para puxar Filipe para cima em cenários em que este possa mostrar mais desconforto. No comício em Lisboa, por exemplo, o candidato até aproveitou o embalo do líder para se levantar da cadeira, voltando-se para trás e acenando durante alguns momentos para as mais de mil pessoas que o aclamavam à entrada — um momento raro de interação na última semana.

No curto desfile até ao comício no Porto, foi o líder comunista que foi respondendo a perguntas de circunstância dos jornalistas, aproveitando para soltar uma deixa adequada ao espírito da CDU para o dia 18: “É difícil mas é sempre a subir. É preciso aproveitar as descidas todas para embalar, para depois ganhar força para subir”.

Raimundo já não é o mesmo homem que disputou a sua primeira campanha há ano e meio, nas legislativas de 2024. Na altura, era-lhe apontada inexperiência e pouco à vontade, mas o cenário mudou. Pelo caminho, ficaram várias eleições diferentes, e nota-se agora que o secretário-geral ganhou quilómetros. Seja pela facilidade espontânea na rua, pelo bom humor com a comunicação social ou pelos altos decibéis que empresta a cada discurso, o líder do PCP transmite hoje uma aura de confiança que não tinha anteriormente e que serve de lufada de ar fresco à candidatura de António Filipe.

Essa bateria será bem-vinda e necessária se os comunistas quiserem dar um salto nas sondagens e descolar dos adversários à esquerda. Para isso, a mobilização das figuras mais mediáticas do partido poderá ser crucial, e o Observador sabe que os próximos dias trarão um reforço nesse sentido. Raimundo tem estado ocupado com os trabalhos do Parlamento, mas já não vai ter esse entrave. João Oliveira vai marcar presença, no mínimo, em Évora, sua terra natal. E João Ferreira, candidato presidencial apoiado pela CDU em 2021, vai reaparecer no último dia de campanha.

▲ Jerónimo de Sousa foi a presença surpresa no comício de Lisboa

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