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O dia em que Trump declarou que a Gronelândia é "território" dos EUA, mas se entendeu com a NATO

Trump descartou ataque militar contra a Gronelândia, mas disse não desistir de anexar a ilha. Horas depois, anunciou um acordo com o secretário-geral da NATO e recuou nas tarifas à Europa.

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Segunda Guerra Mundial. Foi este período histórico que Donald Trump lembrou esta quarta-feira para explicar o motivo pelo qual os Estados Unidos da América (EUA) devem “comprar” a Gronelândia. No conflito, as tropas norte-americanas ocuparam a maior ilha do mundo e assumiram a sua defesa. O Presidente norte-americano disse que o país o fez “porque sentia que era uma obrigação”: “Os territórios na Gronelândia não tinham hipótese sem ser connosco”. Mais de 80 anos depois, num discurso perante líderes internacionais no Fórum Económico Mundial, o líder dos Estados Unidos lamentou: “Que estúpidos fomos ao dar a Gronelândia de volta” à Dinamarca.

Em Davos, num discurso que durou quase duas horas, Donald Trump empregou argumentos com ecos de revisionismo histórico para provar que os Estados Unidos deveriam ocupar a maior ilha do mundo. Se a História não bastasse para convencer a plateia, o Presidente norte-americano tentou persuadi-la com a geografia. “A Gronelândia é um território subdesenvolvido e está numa localização estratégica entre a China, Rússia e EUA. É parte da América do Norte. É o nosso território, por isso é um assunto de segurança nacional”, defendeu.

E no entanto, horas depois, tudo parecia estar sanado. Depois de uma “reunião muito produtiva” com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, Trump anunciava a “estrutura de um acordo futuro” sobre a Gronelândia. Faltavam os detalhes, mas o Presidente norte-americano garante que, se for posto em prática, será “uma grande solução para os Estados Unidos da América”. E como prova da sua boa fé, anunciou que iria recuar na decisão de impor novas tarifas aos países europeus.

Um anúncio que parece divergir totalmente do que o Presidente havia dito horas antes no discurso de Davos. Terá sido estratégia negocial? É que o tópico da Gronelândia acabou por dominar o discurso do Presidente norte-americano, mesmo que tenha referido que nem sequer era “para tocar no assunto”. Entre reprimendas aos aliados da NATO e a repetição de que os Estados Unidos são uma “potência”, Donald Trump deixou bem claro que a anexação da maior ilha do mundo não sairá da sua agenda em breve. O tópico é a sua principal prioridade na política externa: “Nenhuma nação ou grupo de nações deve ficar com a Gronelândia, a não ser os EUA. Somos uma potência.”

"A Gronelândia é um território subdesenvolvido e está numa localização estratégica entre a China, Rússia e EUA. É parte da América do Norte. É o nosso território, por isso é um assunto de segurança nacional."
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América

Mas a potência que mostrou as garras na Venezuela com a captura do Presidente deposto da Venezuela Nicolás Maduro não o fará na Gronelândia. O Presidente norte-americano assegurou que “não usará a força” militar contra a Gronelândia. “Não tenho de usar a força. Não quero usar a força. Não vou usar a força”, frisou. Mas não sem antes exigir que se iniciem “negociações imediatas” com a Dinamarca para alcançar a finalidade que se propõe: comprar a maior ilha do mundo.

Durante o discurso, Donald Trump também falou sobre a guerra na Ucrânia e declarou o seu “amor” à Europa. “Amo a Europa. Quero que seja bem sucedida”, enfatizou. Mas para logo depois lamentar que o continente europeu se “esteja a destruir” com a aposta na desindustrialização, o uso de energias renováveis e com uma “vaga migratória em massa” que “destruiu tantos sítios bonitos”. Aos olhos do Presidente norte-americano, o outro lado do Atlântico ainda merece a sua estima, ainda que tenha lançado várias críticas aos líderes europeus.

Trump sugere que é tempo de a NATO retribuir — e aceitar a compra da Gronelândia

Qualquer acordo para aumentar a presença militar norte-americana na Gronelândia que mantenha a ilha como região autónoma da Dinamarca é para esquecer. Donald Trump deixou bem claro que os Estados Unidos precisam da “propriedade e soberania” da ilha, que, aliás, para o chefe de Estado é apenas um “grande pedaço de gelo”. “Não conseguimos defender a Gronelândia sem ter a soberania”, prosseguiu, acrescentando que isso também tem a ver com uma questão de imagem. “Ninguém se atreve a enfrentar” os Estados Unidos.

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Donald Trump na chegada a Davos

AFP via Getty Images

“Tenho um respeito imenso pelo povo da Dinamarca e da Gronelândia, mas os aliados da NATO devem defender-se a si e ao seu território”, destacou Donald Trump, acusando a Dinamarca de não gastar “quase nada” na segurança da ilha. Por causa do alegado desinvestimento dinamarquês, os Estados Unidos têm de a controlar, tal como fizeram durante a Segunda Guerra Mundial, em que, segundo o chefe de Estado, os EUA instalaram bases militares no “grande pedaço de gelo”.

A Dinamarca está a ser “ingrata”, considerou Donald Trump. O Presidente norte-americano voltou a pressionar as autoridades do país, reiterando que o assunto da anexação da Gronelândia é de “segurança nacional”. Os Estados Unidos precisam da ilha para o sistema de defesa antimísseis que estão a desenvolver, pela questão nuclear e para os “ditos vilões” — a China e a Rússia — não ganharem poder na região do Ártico.

“Queremos começar negociações imediatas para a compra da Gronelândia pelos EUA”, declarou Donald Trump, explicando que “muitas nações europeias” já compraram território no passado. Sempre que abordou a questão do território autónomo dinamarquês, o Presidente dos Estados Unidos falou sobre a NATO. O que, aliás, faz sentido, já que a Dinamarca é um Estado-membro fundador da Aliança Atlântica.

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Donald Trump continua empenhado na compra da Gronelândia

AFP via Getty Images

Por várias vezes durante o discurso (e também nos últimos dias), o Presidente norte-americano gabou-se de ter sido ele quem revitalizou a aliança atlântica. “Salvei a NATO”, alegou, associando sempre a ideia de que não sabe se os aliados “estariam lá” em caso de emergência para os Estados Unidos. Os EUA, ainda assim, estão “100% comprometidos” com a organização militar, garantiu.

Mas depois desabafou: “O que lucrámos com a NATO? Apenas protegemos a Europa da União Soviética e a Rússia. Nunca tivemos nada e pagámos pela NATO”. Como prova de solidariedade dos EUA, Donald Trump lembrou que o país apoiou a Ucrânia na guerra contra a Rússia, mesmo que o conflito esteja “muito longe” das fronteiras norte-americanas.

O chefe de Estado acredita que, ao longo dos anos, a NATO “tratou os Estados Unidos muito injustamente” — e que os restantes membros não pagavam o que deviam para o funcionamento da Aliança. “São países ricos, afinal de contas”, justificou. Por causa do apoio norte-americano aos Aliados e por tudo o que Washington investiu, Donald Trump sugeriu que os Estados-membros deveriam agora aceitar a compra da Gronelândia. “Quero ver a NATO a ser forte. Quero os EUA a serem fortes”.

“O que lucrámos com a NATO? Apenas protegemos a Europa da União Soviética e a Rússia. Nunca tivemos nada e pagámos pela NATO."
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América

O “amor” de Trump pela Europa e a guerra na Ucrânia

“Quero que a Europa tenha sucesso. Mas não está a ir numa boa direção.” No entender de Donald Trump, é importante que os aliados europeus prosperem, mas o atual rumo não lhe permite isso. “A Europa está a destruir-se”, lamentou, assegurando que os “EUA querem saber muito das pessoas da Europa”. “Realmente queremos”, vincou Donald Trump, dizendo que acredita “fortemente nos laços com a Europa enquanto civilização”.

As principais críticas foram dirigidas à política migratória seguida por países europeus que levou a ser formasse uma “onda migratória em massa”. “Partes do mundo estão a ser destruídas e já não as reconheço”, lamentou. A aposta em energias renováveis também motivou várias críticas de Donald Trump.

Dando um exemplo, Donald Trump referiu que a Alemanha registou uma subida do preço da eletricidade nos últimos tempos. “A culpa não é do atual chanceler [Friedrich Merz]. Está a resolver o problema e a fazer um grande trabalho. Melhor do que o antecessor [Olaf Scholz]. Foi por isso que ele chegou lá”. E também explicou que o Reino Unido enfrenta problemas idênticos na sua política energética e que deveria seguir o exemplo dos Estados Unidos: o retorno à exploração de combustíveis fósseis.

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Donald Trump disse que quer manter boas relações com a Europa, apesar de não estar a ir "num bom caminho"

AFP via Getty Images

Sobre a Ucrânia, Donald Trump voltou a repetir o argumento de que a guerra não teria começado caso não fosse Presidente. “Conheço Putin muito bem. Dizia: ‘Vladimir, não vais fazer isso’. E ele não fazia”, explicou. Mas Trump também disse algo inédito: que “previu” o início da guerra da Ucrânia quando saiu da Casa Branca em 2021, devido ao facto de a Ucrânia ser a “tentação” do homólogo russo.

O líder norte-americano vaticinou ainda que, se o antecessor Joe Biden ou a rival democrata nas eleições presidenciais de 2024 Kamala Harris tivessem vencido as eleições, teria havido uma Terceira Guerra Mundial contra a Rússia. “Teria evoluído para uma situação muito má”, alertou.

Donald Trump insistiu na ideia de querer “parar com o banho de sangue” que disse estar em curso no território ucraniano. “Morreram 31 mil soldados na semana passada. É uma matança”, descreveu o líder norte-americano, classificando o conflito da Ucrânia como a “pior guerra desde a Segunda Guerra Mundial”. O chefe de Estado está a tentar que se chegue a um cessar-fogo, de modo a parar com a “morte de tantos jovens”.

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Trump assegurou em Davos que conseguiria parar a guerra na Ucrânia — a "tentação de Putin"

POOL/AFP via Getty Images

No que toca às negociações, Donald Trump sublinhou que está a “lidar com o Presidente Putin”: “Acredito que ele quer fazer um acordo”. E diminuiu a tensão com o homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky. Numa entrevista à Reuters, na semana passada, o Presidente norte-americano acusou-o de estar a bloquear os esforços de paz. Agora, voltou atrás e garantiu que o líder ucraniano também “quer fazer um acordo e ver a guerra terminar”.

Trump diz que é Zelensky — e não Putin — que está a bloquear acordo de paz para a Ucrânia e questiona futura liderança do Irão

Terá também havido um mal entendido. Volodymyr Zelensky anunciou que não iria a Davos caso não se pudesse encontrar com o homólogo norte-americano. E, durante o discurso, Donald Trump adiantou que se iria encontrar esta quarta-feira com o Presidente ucraniano na Suíça. “Até pode estar aqui na plateia”, chegou mesmo a dizer. Só que havia um problema: o líder da Ucrânia estava em Kiev.

A reunião deverá acontecer na mesma entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, mas terá lugar esta quinta-feira. Será praticamente ao mesmo tempo que o encontro entre o enviado especial norte-americano, Steve Witkoff, e o Presidente russo, Vladimir Putin, onde também se discutirá um eventual acordo de paz.

Ainda na política externa, Donald Trump falou sobre a Venezuela. “É um sítio incrível, mas tornou-se horrível por causa das políticas seguidas”, lamentou, recordando que os Estados Unidos apreenderam recentemente “50 milhões de barris” de petróleo venezuelano. “Vamos dividir com eles. Vamos fazer mais dinheiro”, assegurou.

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Donald Trump assegurou que "fará muito dinheiro" na Venezuela

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Na opinião do Presidente norte-americano, a Venezuela vai dar-se “excelentemente bem”. “Vai fazer mais dinheiro do que fizeram nos últimos 20 anos”, prosseguiu Donald Trump, que elogiou a atual liderança venezuelana: “Tem trabalhado bem. Tem sido muito esperta”. O líder dos Estados Unidos confirmou a cooperação com as autoridades chavistas — principalmente a Presidente interina Delcy Rodríguez.

Quando abordou a Venezuela, Donald Trump enviou uma farpa que parecia destinada às autoridades dinamarquesas. Recordando o ataque em Caracas a 3 de janeiro que levou à captura de Nicolás Maduro, o líder norte-americano destacou que, “quando o ataque terminou”, as autoridades venezuelanas “quiseram fazer um acordo”. “Foram espertos. Mais pessoas deviam fazer isso.” Ainda não se sabe o que pensa Copenhaga do acordo que Trump e Rutte alcançaram ao final do dia.

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