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SHAWN THEW/EPA

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A "raiva" dos canadianos contra o "bully na Casa Branca". Canadá entra em campanha eleitoral com Trump no centro da agenda

Trump começou uma guerra de tarifas, o Canadá declarou o fim da "amizade". O país vai a eleições e Liberais e Conservadores tentam capitalizar o patriotismo e a raiva "anti-Trump".

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“Elbows Up”. A expressão é familiar para os fãs de hóquei no gelo, o desporto nacional do Canadá. Trata-se de uma tática defensiva, em que um jogador levanta os cotovelos para deter adversários agressivos e recuperar o disco, e foi popularizada por um jogador canadiano. Porém, nas últimas semanas, a expressão saltou dos rinques de hóquei para o discurso dos líderes políticos canadianos. Desta vez, o adversário agressivo é o Presidente norte-americano, Donald Trump.

A frase foi utilizada por Justin Trudeau no dia 9 de março, no seu discurso de despedida como primeiro-ministro e líder do Partido Liberal e adotada pelo seu sucessor, Mark Carney. “Cotovelos para cima” tornou-se o lema do patriotismo canadiano contra a guerra de tarifas e as ameaças de anexação de Trump e espalhou-se pelas ruas, pelas redes sociais e pelas vozes de políticos. Os cientistas políticos do Canadá ouvidos pelo Observador são unânimes: nunca os canadianos estiveram tão zangados com os seus vizinhos norte-americanos.

Foi neste contexto que o novo primeiro-ministro Carney convocou eleições federais antecipadas para o dia 28 de abril. “Estou a pedir aos canadianos um mandato forte e positivo para lidar com o Presidente Trump”, justificou o antigo governador do Banco do Canadá no passado domingo, quando anunciou a ida às urnas. A decisão de eleições antecipadas poderá servir também para capitalizar uma subida acelerada do Partido Liberal nas sondagens.

"A eleição pode muito bem ser decidida com base em que partido estará melhor equipado para lidar com o regime em Washington."
Stephen Azzi, professor de Gestão Política na Carleton University

No final do ano passado, as sondagens colocavam os liberais 26 pontos percentuais atrás do Partido Conservador, um recorde de impopularidade para o partido que foi liderado por Trudeau durante uma década. Agora, as projeções mostram os dois partidos a disputarem a vitória, com uma ligeira vantagem para o Partido Liberal.

Com pouco mais de um mês até à ida às urnas, os “Trump Troubles” (“Os problemas com Trump”, em tradução livre) serão o foco central da campanha, afirma Stephen Azzi. “A eleição pode muito bem ser decidida com base em que partido estará melhor equipado para lidar com o regime em Washington”, avalia o professor de Gestão Política na Carleton University ao Observador. A preponderância que Trump está a ter na opinião pública canadiana e na campanha eleitoral é uma situação quase inédita no Canadá.

Do “ressentimento” à “raiva”. Como a postura anti-Trump tomou conta do Canadá

Em Kingston, Ontário, a poucos quilómetros da fronteira com o estado norte-americano de Nova Iorque, o dono de uma carrinha de caixa aberta decorou o seu veículo com uma enorme bandeira com as palavras “Fuck Trump“. A descrição é feita pelo jornalista e historiador britânico Andy Beckett, que viajou para a região no início de março. Ao longo dessa semana, os canadianos com quem falou reagiram negativamente de cada vez que mencionou o Presidente norte-americano.

O sentimento é fácil de perceber: no início de março, Donald Trump impôs tarifas de 25% sobre todas as importações do país e de 10% sobre os produtos energéticos canadianos — um golpe para a economia canadiana, já que 75% das suas exportações vão para o mercado norte-americano. A decisão é um “choque” e uma “traição”, definiu Mark Carney no domingo.

“Os canadianos estão zangados com esta agitação e muito assustados com a forma como isto vai funcionar e com o impacto que terá na nossa economia. Estamos a enfrentar a possibilidade de uma recessão profunda e de uma enorme perda de postos de trabalho”, explica Bradley Miller, professor de história na University of British Columbia, ao Observador.

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▲ Centenas de pessoas reuniram-se em Toronto sob o lema Elbows Up

Toronto Star via Getty Images

Don Abelson, professor de ciência política na McNaster University, confirma a existência de um sentimento de raiva, mas ressalva que os canadianos estão a expressar a sua “raiva, frustração e desapontamento” contra Donald Trump e não contra o povo norte-americano em geral.

Independentemente dos visados, os sentimentos traduziram-se em boicotes, com o objetivo de proteger a economia canadiana da dependência económica dos Estados Unidos. Nos supermercados, multiplicam-se as etiquetas “Compre local” nos produtos canadianos, e na internet as recomendações sobre como apoiar a economia nacional. Os operadores turísticos norte-americanos registaram uma queda de 85% de visitantes canadianos e as viagens de carro para os Estados Unidos também caíram 23%, quando comparadas com o mesmo período do ano passado.

As questões económicas são as que mais preocupam os canadianos. Mas não são as únicas. As declarações de Donald Trump, quando se referiu ao Canadá como “o 51.º estado” e ameaçou a sua anexação, levantaram uma onda de nacionalismo e patriotismo no país. No sábado passado, sob o lema “Elbows Up“, centenas de pessoas reuniram-se pela segunda vez este mês em Toronto, para mostrar que “vale a pena lutar pelo Canadá”, como declarou um dos organizadores.

Os políticos canadianos reconhecem que os sentimentos agressivos contrariam a imagem que o resto do mundo tem do país: “Temos a reputação de sermos educados. Somos educados, às vezes demasiado“, afirmou David Eby, governador da Columbia Britânica, num discurso no parlamento estadual em que defendeu uma postura mais agressiva. Apesar desta perceção, esta está longe de ser a primeira vez que Otava confronta Washington publicamente.

"Mas mesmo na altura [da invasão norte-americana do Iraque], o nível de insulto, de ressentimento e de animosidade [do Canadá face a Washington] não era nada comparado com o que estamos a ver agora."
Don Abelson, professor de ciência política na McNaster University

No passado, o atrito foi causado principalmente por questões de política externa: diferentes governos canadianos criticaram o Presidente Kennedy sobre a crise dos Mísseis de Cuba, Nixon durante a guerra do Vietname e Bush pela invasão do Iraque. O professor Abelson destaca a guerra no Iraque como a vez mais recente em que os canadianos se viraram contra os Estados Unidos: “Mas mesmo nessa altura, o nível de insulto, de ressentimento e de animosidade não era nada comparado com o que estamos a ver agora”, remata.

A abordagem dupla ao “bully na Casa Branca”: agressividade e diplomacia

Os sentimentos que predominam na população canadiana também se fazem sentir no governo. A primeira reação de Otava à nova presidência Trump fez-se sentir ainda sob o governo de Justin Trudeau, que respondeu à ameaça de tarifas norte-americanas com a imposição de taxas de importação na mesma medida. Ao mesmo tempo, o Canadá procurou diversificar os seus mercados de exportação, através de negociações com a Europa e a China, para quebrar a dependência dos Estados Unidos.

As respostas também aconteceram na esfera militar, destaca Aaron Ettinger, professor de Ciência Política na Carleton University. Em primeiro lugar, Otava está a reavaliar encomendas de equipamentos de Defesa de fabrico norte-americano, para os adquirir no mercado europeu. Além disso, Canadá e Austrália assinaram um acordo para desenvolver um novo sistema de vigilância no Ártico, uma região de importância geoestratégica.

As adaptações da política externa canadiana nas dimensões económica e militar resumem-se numa única medida da dimensão diplomática: a aproximação a outros aliados, para lá dos Estados Unidos. Esta orientação ficou visível na primeira visita de Estado que Mark Carney fez enquanto primeiro-ministro: enquanto os seus antecessores viajaram para Washington em primeiro lugar, Carney rumou a Londres e Paris.

epa11969696 French President Emmanuel Macron (R) and Canada's Prime Minister Mark Carney (L) give a joint statement during their meeting at the Elysee Palace in Paris, France, 17 March 2025.  EPA/Thomas Padilla / POOL  MAXPPP OUT

▲ Mark Carney com Emmanuel Macron, na sua primeira visita como primeiro-ministro do Canadá

Thomas Padilla / POOL/EPA

O facto de esta visita ter tido dois destinos também tem significado: o Canadá mantém uma linha tradicional de apostar nas relações multilaterais. “O Canadá é vulnerável no palco mundial sem um grupo maior”, analisa o professor Ettinger. Isto justifica-se, uma vez mais, com a interdependência que criaram através de vários acordos — comerciais e militares — que assinaram com os Estados Unidos ao longo da História. Agora, com esta relação fragilizada, Otava procura aprofundar relações com aliados familiares da NATO.

Se, por um lado, a resposta de Otava à administração Trump se revelou mais agressiva e confrontacional do que o habitual, por outro, manteve canais diplomáticos abertos. “Estamos a persuadir antigos amigos em Washington de que nenhuma das suas ações são do melhor interesse dos Estados Unidos”, elabora o professor Stephen Azzi.

Para Don Abelson, esta abordagem dupla do Canadá envia uma mensagem clara aos Estados Unidos: “Estamos a ver um bully na Casa Branca e não nos vamos deixar intimidar por ele“.

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O rebranding do Partido Liberal. Como a relação com Trump pode decidir as eleições

O Partido Liberal cumpre este ano uma década no governo do Canadá. Mas os últimos anos desta governação foram marcados por uma acentuada queda de popularidade: o aumento dos gastos públicos que não resolveram a crise na habitação e do custo de vida levaram a uma queda dos liberais nas sondagens para as eleições federais, que estavam marcadas para o final de 2025.

No início do ano, a insatisfação generalizada levou Justin Trudeau a apresentar a demissão do cargo. Dias depois, Donald Trump entrou na Casa Branca. Quando Mark Carney assumiu funções este mês, as tendências dos liberais nas sondagens inverteram-se. “Carney teve uma sorte inacreditável em herdar a liderança liberal neste momento particular”, atira Bradley Miller.

▲ A reação agressiva de Trudeau a Trump inverteu a tendência de queda do Partido Liberal

AFP/Getty Images

O professor elabora que o regresso de Donald Trump à presidência permitiu aos liberais “fazer um rebranding“. Ou seja, passarem de um partido impopular e a cair nas sondagens para um partido “ferozmente patriótico e que luta pelo Canadá face à agressão norte-americana”. Convocar eleições antecipadas é uma forma de capitalizar este patriotismo dominante. Esta reformulação começou ainda sob a liderança de Trudeau, que, já demissionário, conseguiu melhorar as suas taxas de aprovação ao “levantar os cotovelos” contra Trump.

Mas este ressurgimento da popularidade dos liberais faz surgir a questão: como é que os Conservadores estão a reagir à agressividade norte-americana? O partido liderado por Pierre Poilievre, um veterano da política de apenas 45 anos, opôs-se aos liberais durante os últimos anos com o lema “O Canadá está quebrado”. Agora, o lema passou a ser “O Canadá Primeiro“. O espírito patriótico da mensagem reflete uma posição igualmente determinada para fazer frente a Trump.

No entanto, a mensagem também é demasiado semelhante ao lema que o próprio Presidente norte-americano assumiu na sua campanha. Mas esta não é a única semelhança. Poilievre herda de Donald Trump uma retórica “populista” e “anti-woke“, o facto de focar a sua campanha na forma como o governo liberal “destruiu” o país e de criticar os seus adversários diretamente, sublinham os especialistas ouvidos pelo Observador. As semelhanças entre o discurso de Poilievre e Trump podem acabar por prejudicar o líder conservador canadiano num contexto em que o espírito anti-Trump domina a opinião pública.

Já Mark Carney pode utilizar a situação a seu favor. O facto de nunca ter ocupado um cargo político e de, em apenas poucos dias, ter aproximado o Partido Liberal do centro distancia-o da impopularidade de Justin Trudeau. A isto soma-se a vasta experiência no setor financeiro — é a única pessoa a ter ocupado tanto o cargo de governador do Banco do Canadá como do Banco de Inglaterra –, que pode ser útil num contexto de guerra de tarifas.

"A opinião pública canadiana está tão fortemente anti-Trump, que não terá custos para os políticos experimentarem [sentimentos de] anti-americanismo."
Aaron Ettinger, professor de ciência política na Carleton University

Apesar das diferenças entre os dois candidatos, os especialistas concordam que a “questão Trump” será decisiva nas eleições. Aliás, já está a ser, se o salto dos liberais nas sondagens for considerado. É preciso recuar a 1988 para encontrar uma eleição federal que tenha tido um foco tão grande num único tema. À data, o Partido Conservador ganhou as eleições, depois de ter assinado o acordo de comércio livre da América do Norte, numa ação profundamente criticada pelo Partido Liberal. Aaron Ettinger lembra que esta eleição funcionou como “referendo” ao acordo de comércio livre.

Agora, quase 40 anos depois, o tema é a relação com os Estados Unidos e este professor da Carleton University antecipa que ambos os partidos provem a sua agressividade. “A opinião pública canadiana está tão fortemente anti-Trump, que não terá custos para os políticos experimentarem [sentimentos de] anti-americanismo”, prevê.

A “amizade perdida” e a reorientação de política externa. Que futuro para a relação Washington-Otava?

A dependência económica do Canadá face aos Estados Unidos pode obrigar à manutenção (ainda que contrariada) de relações entre Otava e Washington. Mas o regresso de Donald Trump é o fim da amizade entre os dois países da América do Norte. A sentença foi declarada pelo próprio Mark Carney esta segunda-feira, em declarações em que as culpas também ficaram entregues. “Nesta crise causada pelo Presidente dos EUA, lamentamos uma amizade perdida”, declarou o chefe do executivo.

A declaração parece deitar por terra qualquer possibilidade de a “amizade” entre os dois países ser reparada enquanto Donald Trump estiver na Casa Branca. Mas a cisão também poderá ter efeitos a longo prazo. “Mesmo que um futuro Presidente democrático amigo do Canadá regresse ao poder, a perda de confiança provocada por Trump não será reparada“, considera Aaron Ettinger. “Pior: a relação está a ser prejudicada sem uma razão sensata”, critica.

O fim desta relação histórica, que tem contribuído para a estabilidade política e económica do Canadá, exigiria uma total reformulação da política externa de Otava. Se é verdade que esta reorientação já começou — por exemplo, na aproximação à Europa –, também é verdade que em pouco mais de um mês de medidas ainda não houve resultados concretos. Assim, é impossível medir o sucesso a longo prazo desta estratégia, como substituição da relação com os EUA que era, até aqui, previsível.

"Isto pode ser apenas um desvio na história desta relação bilateral, uma história interessante para professores contarem aos seus estudantes em 2054."
Stephen Azzi, professor de Gestão Política na Carleton University

Contudo, esta é a visão mais negativa da situação atual. Outras visões são mais esperançosas sobre o futuro e acreditam que a relação pode ser reparada e tornar-se novamente numa amizade. No entanto, os especialistas não desenham caminhos para como isto será feito: a via diplomática será bem sucedida ou uma das duas partes terá de ceder? E neste caso, quem cede primeiro? “Isto pode ser apenas um desvio na história desta relação bilateral, uma história interessante para professores contarem aos seus estudantes em 2054”, propõe o professor Stephen Azzi, sem se comprometer, porém, com uma solução.

Seja o fim definitivo ou um sobressalto ultrapassável, “Trump merece créditos“, declara o professor Bradley Miller. Isto porque a agressividade do Presidente norte-americano obrigou o Canadá a repensar as fragilidades das suas políticas económicas, securitárias e diplomáticas.

Artigo corrigido no dia 26 de março às 18h00 relativamente às críticas canadianas ao Presidente Nixon, e não Reagan

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