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Joe Raedle/Getty Images

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Arábia Saudita. Porque é que o mundo ainda treme com as crises do petróleo? /premium

Cotações do Brent estão a recuperar do impacto do ataque às refinarias na Arábia Saudita. Poderá regressar o fantasma da crise petrolífera de 1973? O que está em causa no conflito.

As campainhas internacionais soaram quando, no sábado, duas refinarias da petrolífera Saudi Aramco, em Abqaiq e Khurais, na Arábia Saudita, foram atacadas (primeiro falou-se em drones com explosivos, agora já se fala em mísseis de cruzeiro lançados a partir do Irão). O ataque, reivindicado pelos rebelde Huthis, do Iémen, destruiu mais de 5% do fornecimento de petróleo a nível global e cerca de metade da capacidade dos sauditas que intervêm no conflito iemenita desde 2015.

A reação nos mercados foi rápida e, entre domingo e segunda-feira, o Brent, petróleo de referência na Europa, subiu quase 20% na sessão eletrónica, de 60 para mais de 70 dólares por barril. Foi a maior subida em termos diários desde 1991, ano em que se iniciou a guerra do golfo contra o Iraque.

Desde então, as cotações estão a recuperar do impacto, e esta terça-feira o Brent desceu quase 7% para cerca de 64 dólares, segundo a Bloomberg. A queda acentuada aconteceu depois de a Reuters ter anunciado que a Arábia Saudita está perto de restaurar 70% da produção de petróleo perdida. Uma fonte saudita disse à agência que o país restabeleceria a produção total nas próximas duas a três semanas.

Segundo a Bloomberg, a Saudi Aramco já terá mesmo acionado a produção de petróleo em campos inativos offshore, de forma a substituir apenas uma parte da produção interrompida. Entretanto, a empresa abastece os clientes com as reservas.

Ainda que, na melhor das hipóteses, a Arábia Saudita consiga repor a capacidade de produção nas próximas semanas, o futuro é agora uma incógnita. Até porque o conflito com o Irão arrisca escalar. Logo no sábado, o secretário de estado Mike Pompeo acusou Teerão de ter levado a cabo “um ataque sem precedentes no fornecimento de energia do mundo”, acrescentando que o Irão “está por detrás de quase 100 ataques contra a Arábia Saudita”. Teerão já negou as acusações.

Por sua vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, já ameaçou com uma retaliação. “As refinarias de petróleo da Arábia Saudita foram atacadas. Há razões para pensar que conhecemos o culpado, estamos carregados e prontos, com verificação pendente, mas estamos a aguardar por notícias do reino [saudita] sobre quem eles acreditam que foi a causa deste ataque e em que termos vamos prosseguir!”, escreveu no domingo à noite, na rede social Twitter.

O ataque de sábado — e as consequências já detetadas — deixam uma certeza: aquele que antes era visto como o produtor mais estável e inatacável do mundo, a Arábia Saudita, agora deixou de o ser. Vai a reconstrução ser lenta ou rápida? E haverá uma escalada do conflito? Como será daqui para a frente?

A Arábia Saudita é (mesmo) importante

Os números falam por si. Com o ataque ao campo de Abqaiq, o principal complexo petrolífero da Arábia Saudita, cerca de 5,7 milhões de barris de petróleo vão deixar de ser comercializados por dia, ou seja, cerca de metade da produção saudita. Quando falamos sobre exportações de petróleo, o país não pode ficar fora da equação, dado que ocupa o lugar cimeiro (com uma quota de 14% do petróleo exportado), segundo dados de 2017 do Observatory of Economic Complexity (OEC).

Ainda assim, atinge a segunda posição no que à produção diz respeito. Em 2018, produziu mais de 12 milhões de barris por dia, sendo responsável por 12% da produção mundial, de acordo com a Agência de Informação Energética (EIA). Em primeiro lugar estão os EUA, com quase 18 milhões de barris de petróleo e 18% da quota total.

Mas onde serão sentidas as consequências do ataque? O Japão, a Coreia do Sul e a Índia são os principais destinatários do petróleo saudita e serão, por isso, os mais afetados pela quebra de produção. Já os EUA estão cada vez mais independentes em termos energéticos, logo, o impacto não deverá ser significativo. Isto em termos de preços e disponibilidade de petróleo.

Segundo a Forbes, no ano passado, os EUA importaram 900 mil barris por dia da Arábia Saudita, o que representou 10% das importações de crude. O valor já foi bem superior. No início do “boom” do petróleo de xisto (shale oil), entre 2012 e 2014, os EUA chegaram a importar à Arábia Saudita 1,5 milhões de barris diariamente.

O petróleo norte-americano é mais caro de produzir, mas com o aumento dos preços, os produtores facilmente aumentam a produção, que, segundo a Al-Jazeera, tem sido tão forte que os EUA chegaram a ultrapassar a Arábia Saudita como o maior exportador em junho.

Há, porém, outras variáveis a ter em conta. A Arábia Saudita tem sido um elemento estabilizador na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) visto como inatacável, assegurando um abastecimento de petróleo nos vários mercados. Com o ataque de sábado, chega ao fim este “estatuto” de invulnerabilidade.

Assim, se 72% do petróleo saudita tem como destino o continente asiático, apenas 9,6% vai para a Europa — e destes, só 0,49% para Portugal. Por isso, por cá, não são se devem esperar grandes impactos. O secretário-geral  da Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (Apetro), António Comprido, já veio dizer que “não haverá nenhuma crise de abastecimento” de combustíveis, embora reconheça que o ataque possa causar nervosismo nos mercados financeiros.

“Não vai haver nenhuma tragédia em termos de subida do preço dos combustíveis”, disse o responsável, esclarecendo que, a haver um ajustamento de preço, será “na ordem daquilo a que estamos habituados no dia-a-dia nas subidas e descidas semanais”. Até porque os preços dos combustíveis para os portugueses são determinados pela evolução da cotação dos derivados do petróleo (o gasóleo, cuja cotação até desceu na segunda-feira, e a gasolina, que valorizou cerca de 5%), e da evolução do euro em relação ao dólar.

"As refinarias de petróleo da Arábia Saudita foram atacadas. Há razões para pensar que conhecemos o culpado, estamos carregados e prontos, com verificação pendente, mas estamos a aguardar por notícias do reino [saudita] sobre quem eles acreditam que foi a causa deste ataque e em que termos vamos prosseguir", escreveu Donald Trump, no Twitter.

Portugal já mostrou disponibilidade para libertar reservas estratégicas. Num comunicado divulgado esta segunda-feira, a ENSE afirma que “dispõe de reservas estratégicas que podem ser mobilizadas para suprir uma falta eventual” e precisa que tem “à sua disposição 538,1 mil toneladas de crude em reservas físicas e 373,5 mil toneladas em tickets que representam direitos de opção sobre crude armazenado em Portugal e noutros países da União Europeia”.

Estas quantidades estão à disposição da ENSE para mobilização imediata, caso se entenda necessário”, sublinha a ENSE, adiantando que “é importante destacar neste momento que, caso o impacto sobre a oferta seja persistente e os operadores que importam petróleo para Portugal tenham alguma dificuldade temporária para obter crude, o país através da ENSE dispõe de reservas estratégicas”.

Pode o fantasma de 1973 voltar?

No cenário mais benévolo, se a Arábia Saudita conseguir recuperar a produção rapidamente, os efeitos económicos serão limitados, segundo o Commerzbank. Mas se houver uma escalada — e a primeira reação norte-americana ao ataque deixa essa possibilidade bem vincada — a distribuição de petróleo a partir do Golfo Pérsico pode ter algum sufoco, com consequências económicas.

Apesar de tudo, o cenário mais provável para o banco alemão — que permitiria às economias mundiais respirarem de alívio — admite que a produção de petróleo possa ser normalizada em breve. Mais: ao prometer libertar, se necessário, petróleo das reservas estratégicas dos EUA, Donald Trump também contribui para um retorno suave à estabilização dos mercados e da distribuição de petróleo. Há, aliás, vários países, como Portugal, a admitirem recorrer a reservas.

A reação dos mercados na segunda-feira, depois da escalada inicial — em que o Brent rapidamente foi dos 60 aos 71 dólares — parece dar razão ao Commerzbank. O valor ainda oscilou nessa tarde entre os 65 e os 69 dólares, mas acabaria por estabilizar. Porquê? O banco alemão considera que o mercado de petróleo não está sob tensão, havendo muito mais oferta do que procura. Basta recordar que o preço do Brent ainda não atingiu os 82 dólares registados há um ano; está bem longe dos 112 dólares de 2014; e mais ainda do recorde de 140 dólares registados em 2008. As consequências para a zona Euro devem, por isso, ser limitadas.

Este cenário, no entanto, implica que a produção seja retomada a todo o vapor o mais rapidamente possível, avisa o banco ING. O que não vai necessariamente acontecer, tendo em conta as perspetivas da Saudi Aramco — a produção total não deve ser retomada no próximo mês.

Será problemático? Sim, se tivermos em conta que a Arábia Saudita apenas deverá ter disponível em inventário o equivalente a 26 dias de exportações, de acordo com as contas do ING. E que o acréscimo de produção por parte da OPEP não compensa, de todo, as perdas diárias do reino saudita.

O Brent, neste cenário, poderia subir aos 70 ou mesmo 80 dólares se a ‘seca’ de petróleo saudita se prolongasse para lá de três ou quatro semanas — ou mais, na opinião de Robert Rapier. O especialista em energia escreveu na Forbes que este acidente “vai lembrar-nos das vulnerabilidades do mercado global de petróleo” e que o medo vai gerar novamente “um custo adicional” a este mercado. Se não houver rapidez na resolução do problema, “não está fora de questão que os preços do petróleo voltem a atingir os 100 dólares por barril”. Será sempre difícil fazer uma estimativa, porque “o mundo nunca viu uma quebra tão grande na produção”.

Países como Japão Coreia do Sul ou Índia, grandes compradores do petróleo saudita, deverão ser dos mais prejudicados, por terem também grande dependência energética. Os EUA, como vimos acima, já não importam petróleo tanto como noutros tempos, mas num contexto económico ensombrado pelo medo de recessão, a economia global e os mercados dispensariam bem uma fonte de stress adicional. Donald Trump já aproveitou para pressionar mais uma vez a Reserva Federal (Fed) para que baixe as taxas de juros de referência.ia

Há, no entanto, cenários ainda piores. Apesar de apontar para uma solução rápida do problema, o Commerzbank avança também um cenário de risco — se os EUA confirmarem a suspeita de que o Irão esteve realmente envolvido no ataque. Nesse caso, o banco não ficaria surpreendido se o Irão respondesse a ataques militares com um corte de petróleo através do estreito de Ormuz (por onde passa 20% da produção global). Um cenário extremo que poderia levar o preço do crude acima dos 100 dólares, acredita o Commerzbank.

Ainda assim, o fantasma de 1973 parece estar afastado, mesmo no pior dos cenários. Nessa altura, o embargo de petróleo por parte dos países árabes gerou um aumento de 250% dos preços do crude, provocando uma rápida inflação e uma escalada do desemprego na Europa.

O Commersbank não acredita que algo do género possa aconteça agora: desde logo, porque em 1973 este tipo de crises foi uma surpresa — mais ainda depois de um longo período de prosperidade; depois, porque os bancos centrais terão aprendido com erros do passado, não respondendo a uma crise de oferta com aumentos das taxas de juro (para combater a inflação); e, finalmente, o banco alemão lembra que hoje o mundo é menos dependente de petróleo.

Um ataque que instala a dúvida para o futuro

Quem garante que não volta a acontecer um ataque do género às instalações petrolíferas da Arábia Saudita? O país que deveria ser o bastião da estabilidade na distribuição de petróleo na OPEP afinal não está a salvo. E o Council on Foreign Relations nota que pode ser difícil e complexo travar novos ataques, sejam eles feitos pelo Irão ou pelos seus aliados.

Para todos os efeitos, foram os rebeldes Houthi, do Iémen, que assumiram responsabilidade pelo ataque, mas os EUA apontam o dedo ao regime dos Ayatollah, que tem uma histórica rivalidade com a Arábia Saudita (e um renovado desentendimento com a Casa Branca, depois da chegada de Trump ao poder).

No passado, segundo o Council on Foreign Affairs, a Arábia Saudita e o Irão apoiaram movimentos que sabotaram a produção de petróleo do país rival. Mas, desta vez, é “categoricamente diferente”. O ‘think thank’ americano explica porquê: porque os danos são maiores.

E se os EUA confirmarem que o Irão participou direta ou indiretamente neste ataque, a reação não será fácil: “os aliados iranianos e os ativos militares iranianos estão localizados em diferentes pontos ao longo da fronteira saudita”, as distâncias são pequenas e “as instalações de outros países podem também ficar em risco num cenário de escalada da violência” e, com tantos movimentos armados no Médio Oriente, “identificar e eliminar grandes ameaças a instalações petrolíferas será desafiante”. As ameaças podem passar por mísseis ou drones armados, mas também por ciberataques. Por outro lado, a estratégia dos EUA pode passar por evitar uma escalada do conflito.

Os ataques a Abqaiq e Khurais constituem um golpe financeiro para a Arábia Saudita e uma vantagem, pelo menos aparente, para o Irão — cuja produção petrolífera caiu 2%, acumulando já uma queda de mais 35% desde 2018, segundo a OPEP — nomeadamente em termos de perceção do poder do país na região, escreve o Council on Foreign Relations. Mas no horizonte desenha-se uma crise económica — agravada com ataques como o de sábado — que pode afetar mais de 80 milhões de pessoas.

Nos últimos meses tem sido visível a tensão crescente entre EUA e Irão, mais evidente com os ataques no Golfo a quatro navios, incluindo dois sauditas. As autoridades norte-americanas rapidamente culparam o Irão, que sempre negou responsabilidade. Depois foi a vez de um petroleiro iraniano ter sido apreendido, junto a Gibraltar, por suspeitas de violação das sanções europeias sobre transporte de petróleo bruto para a Síria. A 19 de julho o Irão respondeu, apreendendo dois navios petroleiros britânicos.

Com o ataque de sábado, a tensão chega a um pico e os EUA estão agora num dilema sobre qual o próximo passo a tomar. Sem um fim à vista na guerra no Iémen, certo é que os próximos tempos serão de incerteza política. A Arábia Saudita, que lidera a coligação árabe contra os Huthis no Iémen, já declarou que tem “vontade e capacidade” de reagir à agressão.

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