As fotografias dos filhos assassinados estão ao pescoço dos três homens que se vestem integralmente de preto. As imagens dos rostos estão numa pequena medalha dourada agarrada a um fio e reluzem ao sol. Os pais são muçulmanos, tem olhos claros e marejados. Estamos em Magdal Shams, uma cidade drusa na região dos Montes Golã, no norte de Israel, entalada entre a Síria e o Líbano. A 27 de julho de 2024 um projétil lançado pelo Hezbollah a partir do sul do Líbano atingiu o local onde cerca de 200 crianças brincavam. Doze morreram quando jogavam futebol. O mais novo tinha 10 anos e o mais velho 16.
Lythe Abu Salh está acompanhado da filha, Sila, também ela de preto e com a foto do irmão, Fajr Abu Saleh, de apenas 16 anos, pendurada ao pescoço. Naquele dia Abu Salh também perdeu um sobrinho, Ameer, da mesma idade do primo, e outras duas crianças da família. O alerta soou, mas segundo o relato deste pai, não passaram mais de 5 segundos até que se ouviu a explosão. Vídeos mostram as crianças a olhar para norte, à espera de ver de onde vinha o projétil. Abu Salh estava no trabalho, a cerca de 100 metros do campo de futebol, quando ouviu a explosão e correu. “O que vi… espero nunca ninguém veja. Pedaços de corpos espalhados. Horrível”, conta-nos. Encontrou o filho caído onde está agora o círculo central do campo de futebol de relvado sintético, já reconstruido. “Perdemos aqui doze estrelas… esperamos que sejam as doze estrelas da paz do Médio Oriente”, suspira.
▲ Sila é filha de Lythe Abu Salh e irmã de Fajr.
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
Um dos primeiros adultos a chegar ao local do impacto trabalha numa ambulância. Encontrou a filha morta no chão. Cobriu a criança e lançou-se no auxílio das outras.
No campo correm agora outros miúdos atrás de uma bola. Há um treinador a orientá-las. Uma das raparigas é craque entre os rapazes. Num dos lados do campo estão as fotografias das 12 crianças que morreram. Há flores, bolas de futebol, bonecos, fitas negras e cartazes com desenhos. Um memorial encostado à linha lateral, protegido por grades. É impossível não ver, sobretudo quando se festeja um golo e se corre para o meio campo. Ameer (16), Yazan (11), Naji (11), Alma (11), Ezel (12) Nazem (16), Johnny (12), Fajr (16), Milar (10) Hazem (15), Guevara (11) e Venes (11), são os nomes dos que ali ficaram quando também corriam atrás de uma bola e festejavam as fintas e os golos.
▲ O memorial criado junto à linha lateral do campo de futebol atingido pelo míssil.
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
Rabeaa Abu Salh, pai de Ameer Abu Salh, junta-se à conversa. Está também ele carregado de luto. Outro filho, Julian, esteve vários meses no hospital. Ficou ferido no ataque de julho do ano passado e só agora regressou a casa. Os jovens drusos não pertencem a qualquer exército. “Somos uma comunidade de paz e sem inimigos. Criamos os nossos filhos com desporto e estudos. Uma grande parte vai para Universidade e achávamos que não tínhamos nenhum tipo de inimigo. Isto não era uma coisa que esperássemos”, explica. “Por estarmos num lugar neutral, foi uma surpresa total. Temos família na Síria, no Líbano e aqui. E se tivéssemos alguma suspeita teríamos saído daqui. Não sabíamos que poderíamos ser alvo do Hezbollah”, acrescenta Lythe Abu Salh.
Os pais destas crianças são os porta-vozes de uma comunidade inteira, que vive no sopé de uma grande montanha. Dizem que não há sentimento de vingança. “A morte de cem crianças do outro lado não trará as minhas. A guerra é uma desgraça para os nossos filhos e para os filhos dos outros”, afirma Rabeea.
▲ Os três homens são primos. Cada um deles perdeu um filho no ataque.
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
Sila, irmã de Fajr, está perto de nós quando se aproxima o terceiro pai em luto, Naef Abu Salh. Os três homens partilham o apelido, são primos. Os miúdos eram familiares, mas sobretudo amigos. “Eram crianças com futuro, felizes e sorridentes. Pagámos o preço mais alto. É uma tragédia.” Mais de 30 crianças ficaram feridas, algumas passaram meses internadas. Sila está triste a ouvir a conversa dos adultos. Há dezenas de crianças traumatizadas. “Não vivem uma vida normal”, dizem-nos.
Algumas das doze crianças no cartaz que as imortaliza têm camisolas de futebol vestidas. Uma do Real Madrid. Duas camisolas do Al-Nassr assinadas por Cristiano Ronaldo foram enviadas para Magdal Shams. Representantes do clube saudita estiveram onde agora estamos a ouvir o relato destes três homens, três pais que perderam os filhos. Os miúdos vão correndo atrás da bola, aquela miúda que é craque acaba de fazer mais uma finta. O miúdo de camisola preta está na baliza e salta de um lado para o outro sem sair da linha de fundo, não tira os olhos da bola. “Estamos a sobreviver, não estamos a viver”, partilha Lythe Abu Salh.
▲ O campo de futebol foi reconstruído e as crianças voltaram a correr atrás da bola.
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
Os drusos são uma comunidade muçulmana de cerca de um milhão de pessoas que está presente em Israel, Síria e Líbano. Praticam um ramo do islamismo que não permite conversões nem casamentos mistos, porém, está muito longe do radicalismo professado por outras correntes. Muitos recusam a cidadania israelita, o que é o caso das 12 crianças que morreram no ataque de 27 de julho. Haverá cerca de 20 mil drusos na região dos Montes Golã, onde fica Magdal Shams. E há registo de uma relação tensa com o governo israelita na sequência da ocupação daquele território. A comunidade tem mais de mil médicos formados, quinhentos dentistas e a maioria tem estudos superiores, mas todos trabalham o seu pedaço de terra. A agricultura e a construção civil são os principais setores de atividade.
Os jovens saem para estudar em cidades como Telavive, mas, por regra, regressam a uma cidade, que vive entalada, é a ponta de um triângulo. De um lado a Líbia, do outro a Síria e a sul Israel. Três países marcados pela violência da guerra.
O Observador está em Israel a convite da embaixada israelita em Portugal