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Assunção Cristas, a mulher que se segue no CDS

Desde que chegou à política tem sido figura constante ao lado de Paulo Portas e assumiu cada vez mais relevo dentro do partido. Cristas é a mulher que se segue no CDS.

Texto publicado originalmente a 3 de janeiro de 2015

Há sete anos, Assunção Cristas era uma figura desconhecida do panorama político nacional. Agora, prepara-se para ser a próxima líder do CDS. Foi uma das ministras mais populares do Governo de coligação e foi figura constante ao lado de Paulo Portas, então vice-primeiro-ministro, tornando-se assim uma das vozes com mais destaque dentro e fora do partido. Teve a missão de coordenar a elaboração do programa eleitoral e mesmo depois das reviravoltas no Governo, voltou à Assembleia para cumprir mandato como deputado. Passos definitivos para a sucessão na liderança do CDS, que deverá acontecer já no próximo Congresso.

“Se chegou até aqui, pode ir mais longe no partido”, afirmava Manuel Isaac no início de 2015, então deputado do CDS-PP, que conheceu Assunção Cristas quando esta foi cabeça de lista do partido pelo seu distrito – Leiria – em 2009 (foi reeleita em 2011). Antes de saber quem seria o escolhido para dar a cara pelos centristas em Leiria, Isaac recorda ao Observador que recebeu um telefonema de Paulo Portas a avisar: “Vais ver quem vai para Leiria e vais ver a surpresa que vai ser”.

E foi. O deputado conta que apesar de Cristas não ser do distrito e não ter desempenhado cargos políticos, no terceiro evento de campanha que consistia numa entrevista a uma rádio local, a até aí professora universitária, deixou os centristas admirados com a sua eficácia política. “Eu e os meus colegas ligámos o rádio no carro para ficar a ouvir e passados cinco minutos dissemos: temos candidata”, recorda o deputado, explicando que a agora ministra mostrou na altura “capacidade de perceber as coisas, estudá-las e falar delas de forma limpinha” – “não houve momentos de indefinição” – apesar de não ter qualquer relação com o distrito.

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Desde aí, e especialmente desde que foi para o Governo, Paulo Portas manteve sempre Assunção Cristas por perto. Esteve ao seu lado na crise política de julho de 2013, no congresso de 2014 e até na visita de Jean-Claude Juncker a Portugal antes das eleições europeias. Já em 2014, quando se falou na possível sucessão de Paulo Portas, a antiga ministra foi falada ao lado de nomes como Nuno Melo, eurodeputado do CDS, e Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, para o cargo. Sem Paulo Portas no horizonte, depois de o líder de 16 anos ter dito no final de 2015 que não se recandidataria ao lugar de topo dos centrista, Assunção Cristas é agora, e depois do apoio de figuras como Adolfo Mesquita Nunes e até Nuno Melo, no discurso em que afirmou que não se candidataria à liderança, a mulher que se segue no CDS.

"Assunção Cristas impôs-se por ela própria e pela maneira de ser e de estar na política"
Manuel Isaac, deputado do CDS

A chegada e ascensão de Assunção

A postura assertiva de Assunção Cristas logo na campanha de 2009 só não deve ter surpreendido Paulo Portas. Convidou-a para o partido em 2007 após ver o seu desempenho no programa Prós e Contras, defendendo o ‘não’ em plena campanha para o referendo sobre a despenalização do aborto que se realizou nesse ano. Até esse ponto, a vida de Assunção Cristas não tinha passado pela política ativa – tendo assessorado Celeste Cardona enquanto ministra da Justiça em 2002 e passando os três anos seguintes como diretora do Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça – mas sim, pela via académica, como investigadora e professora auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.

No entanto, e apenas com dois anos de militância no partido, em 2009, quando é eleita pela primeira vez como deputada à Assembleia da República, Assunção Cristas já é vice-presidente do partido – tendo coordenado a proposta de orientação política, económica e social de Paulo Portas ao congresso desse ano -, assumindo a coordenação dos centristas numa das comissões mais exigentes: a Comissão de Orçamento e Finanças. Ao mesmo tempo, ao intervir no plenário da Assembleia da República, fora da sua família política até havia quem lhe reconhecesse características de outros tempos.

“Assunção Cristas foi minha aluna entre 1992 e 1997 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e lembro-me que era uma aluna aplicada, trabalhadora e que revelava grande inteligência, capacidades que lhe reconheci 18 anos depois quando nos voltámos a encontrar na Assembleia”, dizia ao Observador Teresa Morais em 2015, então secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade e, em 2009, deputada e vice-presidente da bancada parlamentar do PSD. A antiga professora chegou mesmo a ligar à sua antiga aluna – Assunção Cristas foi aluna de Teresa Morais nas cadeiras de História do Direito, no 1º ano, e História do Pensamento Jurídico, no 5º ano – para lhe dar os parabéns por uma intervenção no plenário na discussão do Orçamento do Estado e esta retorquiu que que quando a ouvia falar se lembrava dos tempos de estudante.

Mas a ministra nem sempre alinhou com o partido. Em 2010, aquando a votação sobre o casamento homossexual, Assunção Cristas votou contra, mas apresentou uma declaração de voto dizendo que só não tinha votado favoravelmente de modo a cumprir o programa do partido. “Disse o que pensava, mas não votei a favor, porque devia fidelidade ao programa eleitoral do CDS – e nesse sentido cumpri o programa –, mas dececionei amigos e familiares que esperavam que eu fosse contra. […] Se há gente que acha que pode ser feliz por esse caminho, eu não tenho o direito de entender que esse não é o caminho de felicidade para eles”, disse Cristas em entrevista ao Expresso em 2011.

A superministra com qualidades de líder

O desempenho no Parlamento vale-lhe a recandidatura em 2011 e posteriormente o controlo de um dos maiores ministérios da democracia portuguesa, agregando Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território. A escolha de Assunção Cristas para a pasta surpreendeu quem a conhecia. “Surpreendeu-me, mas nunca duvidei que faria um bom trabalho fosse qual fosse a pasta”, assumia a antiga deputada do CDS, Teresa Anjinho, que entrou no partido em 2011, vinda também do meio académico, através da própria Assunção Cristas. “Ela assume a posição de um líder: alguém que se prepara sobre as matérias e se rodeia das melhores pessoas”, argumentou a então deputada, afirmando que pouco tempo depois da tomada de posse acompanhou a ministra a uma deslocação a uma fábrica de cortiça, onde esta “falava de cortiça como se tivesse trabalhado no setor a vida toda”.

Um exemplo corroborado por José Diogo Albuquerque, antigo secretário de Estado da Agricultura, que conheceu Assunção Cristas em 2011, quando foi convidado a integrar o Governo. “É muito rápida a absorver as matérias, tem bom senso, tato e está sempre disposta a aprender”, disse o secretário de Estado ao Observador, reconhecendo que o ministério, especialmente no setor da Agricultura, enfrentava grandes problemas no início do mandato devido às dificuldades económicas, depois em 2012 devido também à seca que atingiu o país e que em 2013 teve de renegociar uma das políticas comunitárias mais importantes, a Política Agrícola Comum (PAC).

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Com quase duas décadas de experiência em Bruxelas sobre política agrícola, Albuquerque reconhece que o setor pode ser “conservador” e que por isso é positivo que seja liderado por pessoas que venham de fora e tragam “ideias frescas”, como considera ser o caso de Assunção Cristas. “O setor está a recuperar e há muita confiança no trabalho do ministério. Até é comum ouvir dizer que agora é o ministério dos agricultores”, referiu o ex-secretário de Estado. Sobre a organização interna da equipa e o trabalho direto com Cristas, José Diogo Albuquerque disse que a ministra “delega muito”, “compreende os problemas” e “aguenta bem o stress”.

Manuel Isaac, que coordenava os deputados do CDS na comissão parlamentar da Agricultura, defendeu que “o debate político é muito bonito e é isso que passa para fora”, mas que o trabalho de fundo do ministério tem passado pela negociação e que nisso “Assunção Cristas é um exemplo para qualquer ministério”. “É um trabalho feito em gabinete e de charme, as pessoas respeitam a ministra”, remata o deputado.

Já dentro do partido, as qualidades de Cristas podem demorar mais algum tempo a fazer efeito. “Uma pessoa que não chegou há muito tempo ao partido ainda não tem o conhecimento das bases. Há outros que trabalham dentro do próprio partido, ela não faz isso, não tem tempo”, afirma Isaac, defendendo que a ministra, na sua opinião “está a fazer o caminho correto”: “Dedicar-se àquilo que tem em mãos e o partido há de reconhecer o trabalho que realizou”.

Ministra, mulher, mãe, católica

Para além de ter sido a primeira mulher a desempenhar o cargo de ministra da Agricultura em Portugal, foi também a primeira ministra grávida em funções. Algo que não abrandou o ritmo de Assunção Cristas, mãe de quatro filhos – Maria da Luz, a mais nova, nasceu no verão de 2013. “Lembro-me de estarmos a ir para uma Comissão Política Nacional do CDS e ter medo que quando saíssemos tivéssemos de ir diretamente para a maternidade”, recordou Teresa Anjinho. Para a deputada centrista, a capacidade de organização da ministra e capacidade de conciliação entre a vida pessoal e a vida profissional é uma das chaves do seu sucesso. “É uma pessoa que descomplica quase tudo na vida e sabe distinguir entre o que é importante e o que não é”, afirmou.

Em várias ocasiões, a antiga ministra já disse que tenta levar a família o máximo de vezes possível nas deslocações que faz ao fim de semana a eventos oficiais e que no CDS conseguiu mudar as horas das reuniões para antes ou depois do jantar, de modo a conseguir fazer esta refeição com os filhos. No próprio ministério, a gravidez da ministra não causou qualquer disrupção. “A ministra esteve grávida enquanto se levava a cabo a reforma da PAC, teve bebé, continuou a trabalhar e a acompanhar as matérias sem qualquer sobressalto”, ressalva José Diogo Albuquerque.

Para isto, a centrista tem vindo a defender uma divisão equitativa de tarefas entre o casal e diz praticar este princípio com o marido. Apesar de dizer que só deu conta que ser mulher fazia qualquer diferença quando chegou à política, a ex-ministra, segundo Teresa Anjinho, tem sido “uma pioneira”, “contrariando estereótipos” e mostrando que “o trabalho muito sério que faz, é apenas uma parte da sua vida”. Já em Conselho de Ministros, Teresa Morais assegurou ter tido na ministra uma aliada na defesa da igualdade de género, dizendo que a ministra se mostra “favorável” a propostas que visem a igualdade de oportunidade entre homens e mulheres.

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Assunção Cristas e marido na estreia do filme “O Leão da Estrela”

A par da família, Assunção Cristas continua a zelar pela sua vida espiritual, mantendo a ida semanal à missa de domingo. “Vou à missa, comungo, digo aos meus filhos que a coisa mais importante para fazer ao domingo é ir à missa e que tudo o resto vem a seguir”, disse em entrevista ao Expresso. No entanto, os centristas próximos de Cristas consideram que a ministra tem uma visão moderna da Igreja, mais ao estilo do Papa Francisco. “Ela enquadra-se dentro da democracia cristã, mas deu um passo à frente. O que quer dizer muito da sua personalidade, já que no caso dos casamentos homossexuais, quando teve de ir contra os princípios da Igreja, foi e disse porquê. Até na linha do Papa Francisco”, argumentou Manuel Isaac.

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