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HUGO DELGADO/LUSA

HUGO DELGADO/LUSA

Atrasos nos inquéritos põem em causa estratégia de testar em massa. Faltam rastreadores e há quem nunca seja contactado

Para testar mais é preciso identificar todos os contactos, mas os atrasos nos inquéritos continuam. Portugal tem apenas um terço dos rastreadores necessários. Governo garante que reforçou as equipas.

Filipa Sousa soube que estava com Covid-19 a 27 de janeiro, uma quarta-feira. No dia antes tinha sido o marido a descobrir a infeção. A ele ligaram-lhe do centro de saúde da Alameda, em Lisboa, dois dias depois; ela só recebeu a chamada no sábado. Ambos explicaram que tinham três filhos, nenhum com sintomas, pelo que as crianças não tiveram de fazer testes. No entanto, nunca ninguém perguntou a Filipa Sousa com quem tinha estado nos dias anteriores, para fazer uma lista dos seus contactos de risco — o inquérito epidemiológico que deve seguir-se sempre que um novo caso é identificado. E não será caso único.

O Governo reconhece que, apesar de haver já professores, médicos, enfermeiros e até militares a rastrear contactos, na semana passada — em que a estratégia passou a ser “testar, testar, testar” — havia ainda 4.244 inquéritos epidemiológicos por concluir. O problema é evidente: só é possível testar todos os contactos se todos os contactos estiverem identificados. Especialistas contactados pelo Observador consideram que estes inquéritos — que devem ser feitos em menos de 24 horas — são fundamentais para travar as cadeias de transmissão do novo coronavírus e falam, mais uma vez, em falhas de planeamento.

Se alguém tivesse telefonado a Filipa para saber se teve contactos de risco, ela diria que foi com a mãe votar. Como a mãe vive com a avó, não esperou sequer pelo telefonema (que nunca veio) e foi fazer o teste por sua conta — o que nem todos conseguem fazer. Além de Filipa, chegaram outros relatos ao Observador. Houve quem tenha tido um contacto de risco com um positivo e só tenha sido contactado nove dias depois; num outro caso já passaram quatro semanas e nada. O Observador conhece também um caso em que o contacto foi feito para o infetado, que forneceu a sua lista de contactos de risco, mas essas pessoas, por sua vez, só foram contactadas mais de três dias depois. Algumas delas decidiram isolar-se em casa à espera do resultado dos testes, que fizeram por sua conta e só depois foram contactadas. Os testes, feitos assim, podem custar cerca de 100 euros. Mais uma vez, nem todos têm hipóteses iguais de o fazer.

A Direção Geral da Saúde, dirigida por Graça Freitas, emitiu uma nova orientação a 20 de janeiro

TIAGO PETINGA/LUSA

As normas da Direção Geral da Saúde (DGS) , atualizadas a 20 de janeiro, são claras: “As Equipas de Apoio Regional e Nacional devem ser dotadas com recursos humanos e materiais de forma a responderem em menos de 24 horas às necessidades identificadas a nível local”. Porém, desde que os casos se começaram a avolumar em Portugal que não tem sido sempre assim. Ainda em julho o Observador dava conta de vários casos em que tal não aconteceu e, sete meses depois, o cenário parece não ser diferente, embora com duas agravantes: o número de casos disparou e agora as ordens são para testar todos os contactos — e não apenas os considerados de alto risco.

Segundo a DGS, são consideradas contactos de alto risco de exposição as pessoas que tiveram um contacto frente a frente com alguém que testou positivo, a uma distância de menos de 2 metros e durante 15 minutos ou mais, ou que tiveram um contacto físico direto (sem máscara). Acrescem aos critérios os contactos em ambiente fechado, numa casa, numa sala de aula, numa sala de reuniões ou numa sala de espera durante 15 minutos ou mais. Também quem viajar de avião com até dois lugares de distância em relação a um caso positivo é considerado um contacto de alto risco.

Como quanto maior a duração do contacto com o infetado, maior o risco de ser contaminado. Quem estiver com um caso confirmado a uma distância menor de dois metros, nas mesmas circunstâncias, mas por menos de 15 minutos, é considerado um contacto de baixo risco. O mesmo acontece para quem tenha tido um contacto esporádico (em movimento ou em circulação).

Surto em Lisboa. Aida, João, Ana e Odete estão há dias à espera do contacto das autoridades de saúde

Mais rastreadores e isoladores sem serem necessariamente profissionais de saúde

Com o aumento de casos, a própria Direção Geral da Saúde acabaria por emitir uma nova orientação a 20 de janeiro desde ano com a reorganização dos serviços de Saúde Pública e à adoção de novas metodologias de trabalho, “nomeadamente nos processos de investigação e de vigilância epidemiológica”. E lembrava que os inquéritos epidemiológicos seriam feitos por equipas compostas por rastreadores (que fazem a avaliação de risco dos contactos, podendo mesmo isolar os coabitantes)  e isoladores (que comunicam com os contactos para lhes determinarem as medidas que devem tomar, como o isolamento profilático), e que podiam ser outros profissionais que não os de saúde, desde que tivessem formação e a coordenação de um médico.

O rastreio da Covid-19 passa pela identificação de todas as pessoas (contactos) que estiveram potencialmente expostas a gotículas respiratórias ou secreções de um infetado pelo novo coronavírus. Esses contactos são depois avaliados e estratificados de acordo com o risco, para depois se tomarem medidas de isolamento e ou de vigilância regular dos sintomas.

"As Equipas de Apoio Regional e Nacional devem ser dotadas com recursos humanos e materiais de forma a responderem em menos de 24 horas às necessidades identificadas a nível local"
Norma da DGS de 20 de janeiro de 2021

Só a 10 de fevereiro, depois da reunião no Infarmed em que o especialista Manuel Carmo Gomes insistiu na necessidade de testar mais pessoas, dando o exemplo de países como a Dinamarca, é que a Direção Geral da Saúde enviou uma nota à comunicação social a dar conta de que todos os contactos de alto e baixo risco passariam a ser testados (até aqui só eram os considerados de risco muito elevado) e da generalização dos testes.

Covid-19. DGS muda estratégia de testagem. Todos os contactos vão ser testados e vai haver rastreios regulares em escolas

Para o infeciologista António Diniz, é “evidente” que, a partir do momento em que se aumenta o número de testes, e consequentemente os inquéritos, tem também que aumentar-se o número de rastreadores. “Quando se diz que se vai fazer uma coisa — que é, a meu ver bem, aumentar a capacidade de testagem — tem de haver a avaliação dos meios para aplicar essa medida. Senão, por melhor que sejam as intenções e que o texto seja o mais correto e que esteja escrito, se não houver meios para implementar é igual”, diz. Por outro lado, se a escassez já tinha sido notada antes, “então devíamos ter evitado essa situação”.

É que, para além da formação que é preciso dar a estes rastreadores e do cuidado na sua escolha, uma vez que lidam com dados pessoais, é também preciso garantir que “estão sob coordenação de um médico, que têm um local de trabalho, linhas telefónicas, computadores”, explica o médico, que sublinha a importância do “planeamento”. “Para atingir o objetivo, que me parece bondoso, para aumentar a capacidade de testagem e a realização de inquéritos epidemiológicos, são necessários também meios físicos, além das pessoas formadas”, diz, na esperança de que, se o aumento de inquéritos foi previsto, então tudo o resto tenha sido assegurado.

O infecciologista António Diniz quer acreditar que o Governo acautelou que fazer mais testes implica fazer mais inquéritos e ter mais rastreadores

LUSA

Médicos já tinham avisado há mais tempo que era preciso reforçar este trabalho

Ricardo Mexia, que representa a Associação de Médicos de Saúde Pública, diz que já há muito tempo que anda a bater na mesma tecla: são precisas mais pessoas ao telefone para este trabalho. “Já andamos a dizer isto há muito tempo. É preciso recrutar pessoas, treiná-las e dar-lhes as ferramentas necessárias. Até o podem fazer em teletrabalho, como aliás uma boa parte está a fazê-lo. Tem de se alocar os recursos necessários”, considera Mexia, que afirma que isso é fundamental para “interromper as cadeias de transmissão”.

É também preciso garantir que "estão sob coordenação de um médico, que têm um local de trabalho, linhas telefónicas, computadores".
António Diniz, infecciologista

O médico de Saúde Pública alerta para o facto de, a certa altura, ter havido 50 mil inquéritos epidemiológicos por fazer. Numa resposta conjunta ao Observador, tanto o Ministério da Saúde como a Direção Geral da Saúde garantem que esse número está a cair. A 11 de fevereiro, um dia após o anúncio de que todos os contactos com algum infetado iriam passar a ser testados, havia em todo o país 4.244 inquéritos epidemiológicos por fazer. Ou seja, 4.244 infetados por contactar para se fazer a lista das pessoas com quem estiveram nos dias anteriores.

Na mesma resposta, o Governo admite andar a fazer de tudo para reforçar os recursos humanos nesta área.  “Mobilizaram-se funcionários da administração pública, professores sem componente letiva, funcionários das autarquias locais, médicos internos de formação geral e específica, médicos aposentados e outros identificados pela Ordem dos Médicos, enfermeiros aposentados, enfermeiros, técnicos de saúde, profissionais de saúde de outras unidades dos ACES, estudantes dos cursos de enfermagem e medicina, agentes da proteção civil, elementos das forças de segurança (PSP, GNR) e elementos das forças armadas (exército, força aérea, marinha)”, lê-se.

Rastreadores mais que duplicaram

Esse reforço traduz-se nestes números: a 13 de dezembro eram 427 os funcionários que rastreavam a Covid-19 a tempo inteiro. A 4 de fevereiro, cerca de dois meses depois e com o aumento dos casos, tinham mais do que duplicado: eram 1.121. Só da Marinha, do Exército e da Força Aérea são cerca de 500. Ainda assim, continuam a ser insuficientes. Em abril, um relatório do centro de estudos para a área da Saúde da Universidade Johns Hopkins estimava que são necessários 30 rastreadores por cada 100 mil habitantes para conter o aumento de casos, durante os grande surtos. Para Portugal seriam 3.000 — o que significa que, neste momento, temos pouco mais de um terço do que seria necessário.

"Já andamos a dizer isto há muito tempo. É preciso recrutar pessoas, treiná-las e dar-lhes as ferramentas necessárias"
António Mexia, médico de Saúde Pública

Também os inquéritos epidemiológicos foram simplificados no sistema utilizado pelas autoridades de saúde, o SINAVE, através de uma ferramenta de “auto-reporte”, como explica o Governo. E foram feitos planos de recuperação dos inquéritos em atraso. “Verifica-se um aumento global do número de Inquéritos Epidemiológicos iniciados diariamente (1º. contacto), com capacidade de realizar 1º. contacto de todos os casos diariamente, que permite isolar os casos conhecidos e contacto próximos de alto risco, quebrando as cadeias de transmissão”, explica.

As próprias autoridades de saúde já tinham reconhecido as dificuldades, sobretudo em Lisboa, a zona mais fustigada pela Covid-19 desde janeiro. Disso mesmo dava conta o o último relatório sobre o estado de emergência que vigorou entre 8 e 14 de janeiro, pouco antes deste novo confinamento. Nesse documento, que está disponível ao público no site do parlamento, lê-se mesmo que já em novembro a capacidade de rastreio era deficiente e, por isso, no decreto assinado por Marcelo Rebelo de Sousa previa já reforço da “capacidade de rastreio das autoridades de saúde pública” recorrendo a outros recursos humanos “que não necessariamente profissionais de saúde”. A ideia era incluir também militares das Forças Armadas  para o apoio no controlo da pandemia, como a realização de inquéritos epidemiológicos, rastreio de contactos e seguimento de pessoas em vigilância ativa.

O Ministério da Saúde, liderado por Marta Temido, garante que mais que duplicou os profissionais desde dezembro

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Entre 8 e 14 de janeiro: 23.264 casos e 15.028 inquéritos feitos

Na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde entre 8 e 14 de janeiro, foram notificados 23.264 novos casos positivos de Covid-19 — 76,22% dos quais na Área Metropolitana de Lisboa — foi uma das regiões do país onde nesse período “a realização dos inquéritos epidemiológicos ocorreu com maior dilação, sendo em alguns casos realizados num prazo que excedeu as 24 horas”, lê-se no relatório. Neste período foram realizados apenas 15.028 inquéritos epidemiológicos e envolvidos 290 os militares das Forças Armadas, organizados em  Equipas de Operadores de Plataforma Trace Covid19/SNS.

"Verifica-se um aumento global do número de Inquéritos Epidemiológicos iniciados diariamente (1.º contacto), com capacidade de realizar 1.º contacto de todos os casos diariamente"
Ministério da Saúde

Já na região Norte, esse atraso nos inquéritos sentiu-se semanas antes, quando esta zona do país era a que mais casos de Covid-19 registava. Assim, também segundo este relatório, as autoridades de saúde decidiram logo alargar este trabalho a outros profissionais de saúde, técnicos superiores, tais como militares, técnicos superiores das câmaras municipais, médicos dentistas, enfermeiros e técnicos superiores da administração pública, embora sempre com a supervisão de um médico. A par deste reforço dos recursos humanos, os próprios inquéritos sofreram alterações, com o utente a participar “ativamente”, reduzindo assim o tempo de realização.

Ricardo Mexia diz que os alertas para o problema da falta de rastreadores não são novos

Observador

“O utente é sempre contactado por um profissional, podendo depois responder por email a um conjunto de questões e reportar informação que tem de ser fornecida aos serviços de saúde. É também dado apoio aos utentes sobre os procedimentos a adotar no caso de terem estado em contacto com uma pessoa infetada com Covid-19 e, no caso de estar infetado com Covid-19, a forma como devem agir no local onde vão fazer o referido isolamento”, explicam as autoridades de saúde do norte no relatório.

Também na Região Centro, perante o agravamento da situação epidemiológica em toda a região, com as taxas de incidência a passarem de 718 para 1.108 por 100 mil habitantes e os surtos ativos a aumentarem de 33 para 49 naquele período, manteve-se o reforço das equipas de rastreamento dos ACES por militares das Forças Armadas.

Testar mais para ter menos casos. As propostas de 1.209 cientistas europeus (e 10 portugueses) para conter a Covid

Com o aumento dos casos no início do ano, a Autoridade Regional de Saúde do Alentejo pediu logo às Forças Armadas, a 6 de janeiro, uma segunda equipa de rastreadores que se juntasse à que já ali prestava serviço da Marinha. Oito dias depois acabou por pedir a terceira. Os militares fizeram 1.456 casos inquéritos epidemiológicos com 4.681 contactos próximos — o que significa que fizeram 5.492 telefonemas.

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