A rapidez e eficácia do sistema de saúde português em casos de enfarte ou de AVC, quando surge um evento agudo, têm sido motivo de reconhecimento. No entanto, apesar desta capacidade de resposta imediata, o antes e o depois continuam a ser um problema: o que acontece antes da urgência surgir, nomeadamente, a nível da prevenção, e depois deste evento, sobretudo ao nível da continuidade dos cuidados e da comunicação entre profissionais e doentes?
No evento “Debater para Avançar”, promovido no âmbito da secção Arterial, do Observador, o painel “Hospitais e centros de saúde: como comunicar melhor”, moderado pela coordenadora deste projeto, a jornalista Cláudia Pinto, debruçou-se sobre como pode a comunicação — com o doente e entre profissionais e instituições — melhorar a prevenção e o prognóstico das doenças cérebro-cardiovasculares.
▲ "Temos de garantir que o percurso da pessoa ao longo do sistema vai decorrer de forma adequada e o mais eficiente possível. E isso não está a acontecer", defendeu a cardiologista Cristina Gavina.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A cardiologista Cristina Gavina, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, começou precisamente por referir que alguns dos problemas de comunicação nesta área estão fundados no enorme sucesso no tratamento do enfarte agudo do miocárdio que temos atualmente. A rapidez da intervenção, o acesso a salas de hemodinâmica e internamentos curtos fazem com que muitas pessoas “não tenham consciência dos riscos a que estiveram sujeitas”. Isso compromete a adesão às alterações de estilo de vida e à medicação crónica, frisa a responsável. “O maior desafio que temos neste momento é fazer as pessoas compreenderem que estiveram em risco de vida.”
Depois do susto, quando o enfarte não deixa sequelas, é habitual que a perceção de risco vá diminuindo com o tempo. O doente, muitas vezes, regressa aos maus hábitos. “É muito frequente que voltem a fumar, por exemplo, passado um ano”. Para evitar isto, defende a médica, os cardiologistas não podem passar ao doente a ideia — errada — de que basta tomar a medicação e tudo fica resolvido: há um antes e um depois do enfarte e a mudança de estilo de vida é obrigatória para prevenir um novo evento agudo e outros problemas de saúde.
Para que esse objetivo seja alcançado, é importante saber como comunicar no momento certo. Francisco Araújo, presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, referiu que a altura de fragilidade após um evento agudo é decisiva para influenciar os comportamentos dos doentes. “Estes momentos, em que a pessoa se sente mais frágil e mais dependente do conselho de um médico, (…) são muito importantes para mudar o curso de vida da pessoa”, frisou.
▲ Francisco Araújo, presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose alertou para a falta de adesão à medicação por parte de doentes que tiveram um AVC ou enfarte, e o risco de voltarem a ter outro.
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Mas, para que a comunicação tenha impacto, tem de ser clara e simples. Há que evitar o jargão médico e técnico, para que o doente consiga perceber os riscos e ter motivação para seguir as recomendações que lhe podem salvar a vida. O médico referiu mesmo que “não adianta falar só da falta de literacia dos doentes”, é necessário garantir que não há inércia da parte dos profissionais de saúde. Desde logo, fazendo uma verificação proativa da adesão à medicação. “Sabemos que 10 por cento da recorrência de eventos está relacionada com a [falta de] adesão à medicação: há muitos doentes que desistem dos anti-hipertensores ou dos medicamentos para o colesterol no ano a seguir a um enfarte agudo do miocárdio.”
Estes são alguns dos problemas que se colocam depois dos eventos agudos, mas os grandes desafios surgem antes. Os cuidados de saúde primários foram apontados por Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, como essenciais precisamente para evitar que os enfartes ou AVC aconteçam. “Para prevenir os fatores de risco que, muitas vezes, começam na infância ou adolescência”, “para fazer um diagnóstico precoce” e “um acompanhamento de proximidade, com regularidade e qualidade”. O médico de família exemplifica que, segundo os estudos disponíveis, quanto mais tempo os utentes são seguidos pelo mesmo médico de família, melhores são os resultados nesta área.
▲ Nuno Jacinto, médico de medicina geral e familiar defendeu que quanto mais tempo os utentes são seguidos pelo mesmo médico de família, melhores são os resultados nesta área.
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Esta importância do acompanhamento e prevenção por parte do médico de família estende-se à prevenção secundária, ou seja, à prevenção de um novo AVC ou enfarte, depois do primeiro. “Tem de haver um trabalho conjunto entre os cuidados de saúde primários e hospitais para evitar novos episódios e manter [o doente] alerta de que aquilo que aconteceu pode voltar a acontecer.”
Essencial para que isso seja possível, referiu Cristina Gavina, é a melhoria da comunicação dentro do próprio sistema e entre os vários profissionais. “Não podemos estar só focados naquilo que é o nosso trabalho individual: temos de garantir que o percurso da pessoa ao longo do sistema vai decorrer de forma adequada e o mais eficiente possível. E isso não está a acontecer. Temos as coisas demasiado compartimentadas.” A falta de sistemas de informação integrados, que permitam a troca fluida de informação entre cuidados de saúde primários e hospitalares, prejudica a eficácia dos cuidados, a consistência das mensagens aos doentes e a confiança destes no sistema, referiu a médica cardiologista.
▲ “Quanto menos anos de exposição a fatores como hipertensão, colesterol ou diabetes, menor o risco", defendeu o presidente da Sociedade Portuguesa do AVC, Vítor Tedim Cruz.
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O tempo conta — antes, durante e depois. No caso do AVC, frisou Vítor Tedim Cruz, presidente da Sociedade Portuguesa do AVC. Conta durante o evento na medida em que “tempo é cérebro”, mas também antes, na fase da prevenção. “Quanto menos anos de exposição a fatores como hipertensão, colesterol ou diabetes, menor o risco.” O médico neurologista referiu que é preocupante a percentagem de recorrência: “Um quarto ou um terço dos novos acidentes vasculares cerebrais são repetições. Isso é um número que nos incomoda porque percebemos que mesmo aquele evento dramático não conseguiu ter os efeitos pedagógicos que imaginávamos possíveis.” Também aqui, há outra falha na comunicação com as famílias, que podem e devem ter um papel ativo. O sistema, diz, tem “pouca tradição de fazer interações pedagógicas sólidas com a família”.
A conclusão desde painel foi clara: o sistema de saúde português responde bem no momento crítico, mas falha a montante, seja na prevenção dos primeiros episódios de enfarte e AVC, seja das repetições.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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