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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Que plano estratégico existe para a prevenção das doenças cérebro-cardiovasculares?

É preciso trabalhar mais em conjunto e a aposta efetiva na prevenção de doenças cérebro-cardiovasculares. As conclusões saíram do evento do Observador “Debater para avançar”, realizado esta semana.

Para o tratamento das doenças cérebro-cardiovasculares, precisamos mais de tecnologia e ciência, de políticas públicas ou de melhor coordenação entre tudo isto? Foi esta a questão de partida para um debate que se centrou na necessidade da aplicabilidade da inovação na vida real dos doentes, integrado no evento “Debater para avançar”, organizado pelo Observador. Em Portugal, continuamos a perder demasiadas pessoas para o AVC e para o enfarte, começou por afirmar Filomena Martins, diretora-adjunta do Observador e moderadora do painel “Inovação: Da ciência à prática”. Nele participaram Henrique Lopes, diretor do Nova Center for Global Health, na Universidade Nova de Lisboa; João Almeida Lopes, presidente da Apifarma; Rui Santos Ivo, presidente do Infarmed e presidente do Conselho de Administração da Agência Europeia de Medicamentos; e Sónia Dias, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP-UNL).

“Provavelmente estamos a precisar de uma maior coordenação e de uma intervenção conjunta, afirmou Sónia Dias, referindo-se à criação do Centro da Ciência da Implementação, na ENSP-UNL. “Sabemos que há um conjunto de conhecimento e de inovação que demora muitos anos a chegar às rotinas dos cuidados de saúde e, depois, à vida das próprias pessoas”, sublinhou. Existem algumas barreiras nesta ciência da implementação que podem passar pelos próprios recursos, o desconhecimento e a motivação dos próprios profissionais, pela cultura organizacional, a resistência à mudança ou até a forma como se comunica esta introdução de novas rotinas e abordagens”.

▲ A diretora da Escola Nacional de Saúde Pública, da Universidade Nova, alertou para uma maior coordenação entre os vários setores da saúde

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Rui Santos Ivo afirmou que a existência de “inúmeros mecanismos de acesso aos medicamentos, quer seja durante fase dos ensaios clínicos, da sua avaliação e também na fase plena enquanto eles estão a ser financiados” é um desses obstáculos. O desafio do Infarmed, garantiu, é trabalhar em conjunto para criar mais condições de acesso. O também presidente do Conselho de Administração da Agência Europeia do Medicamento deu o exemplo da pandemia como o período em que se ganhou mais consciência da importância de trabalhar mais em conjunto. Algo complexo, disse. “É preciso saber qual a mais-valia que um novo medicamento nos traz face aos anteriores e isso é fundamental para saber que condições existem para o disponibilizar no sistema de saúde, que vai ter de o pagar”, referiu.

João Almeida Lopes destacou a complexidade destas matérias, quando em comparação com o que acontecia há alguns anos. “As empresas farmacêuticas trabalham para a inovação e estão à procura de soluções para doenças que ainda não têm cura.” Destacando os dados do último trimestre de 2025, o presidente da Direção da Apifarma afirmou que “estão a decorrer neste momento, em Portugal, 575 ensaios clínicos, e mais de 90% vêm de companhias farmacêuticas internacionais. São processos complexos, extremamente onerosos, que levam dezenas de anos, e de resultados, por vezes, altamente imponderáveis”.

Comparando com os anos 80, 90, salientou, o desenvolvimento de medicamentos para a hipertensão, para a dislipidemia [alterações dos níveis de gordura no sangue], e para doenças extremamente prevalentes na sociedade é muito maior. “Hoje em dia estamos a falar de universos mais pequenos, de terapêuticas cada vez mais específicas, de doenças órfãs e de biotecnologia para doenças que afetam meia dúzia de doenças em Portugal.” O facto de a ciência ter evoluído de forma “alucinante” traz “grandes complicações em termos regulatórios, de decisão de financiamento e de avaliação dos resultados”. Estamos perante “todo um mundo novo” que não era imaginável há duas décadas.

O custo da inação

No que respeita à disponibilização de dados, tomou a palavra Henrique Lopes que se referiu ao séc. XXI como o século dos dados. “Também na saúde, o processamento dos dados vão determinar todas as políticas e todo o desenvolvimento científico que vai estar subjacente aos processos da prestação dos cuidados de saúde, mas isto não é novo”, afirmou. Uma das formas que está a ser encontrada para a potenciação da riqueza informativa que existe em várias áreas, e também na saúde, é através da exploração dos dados. O Nova Center for Global Health está a trabalhar desde há dois anos “no desenvolvimento de uma modulação matemática da aterosclerose e de como ela impacta na sociedade”, explicou o investigador. Chama-se Cardio Policy Optimiser (CPO) permite verificar o “comportamento de uma determinada doença desde o momento em que ainda não é clínica, mas que já se está a formar até ao momento em que começa a manifestar-se na procura dos cuidados de saúde, dos custos para as nações e do sofrimento que incorre sobre as pessoas”.

▲ O diretor do Nova Center for Global Health criticou a falta de destaque para os processos ateroscleróticos, responsáveis pelas doenças que constituem a principal causa de morte em Portugal

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Esta ferramenta tem a vantagem de permitir verificar “o custo da inação”. O investigador criticou que, “contrariamente ao que se passa com os acidentes de trânsito, que são repetidamente transmitidos nos canais de televisão, negligencia-se a expressão dimensional imensamente maior da doença aterosclerótica [25% maior do que os acidentes rodoviários]”. Henrique Lopes acrescentou que “é capaz de ser de bom senso dar-lhe a atenção devida” e defendeu a necessidade de “fazer promoção à séria, que ainda não começámos nesta área, e é algo a que os decisores têm de dar a devida atenção, o que não acontece ainda neste momento”. Pode até haver uma preocupação, mas a consumação da mesma ao nível das políticas públicas e da intervenção social está ainda muito longe do potencial que já é possível injetar hoje na sociedade”.

Sónia Dias considera que já temos “uma imensidão de dados e a preocupação hoje será como vamos usar as novas tecnologias e a Inteligência Artificial para ajudar na análise crítica desses dados”. O passo é claramente “ver como é que essa ligação vai ser construída”, destacou. Para isso, há uma pergunta essencial: “Como é que lidarão com isso as políticas públicas e com que base são construídas”? Não é por acaso que se ouve falar hoje em “pacto para a saúde”, afirmou, deixando algumas questões sobre as barreiras que se colocam à implementação destas atividades que são “facilmente ultrapassáveis”.

A diretora da ENSP-UNL considerou que é necessário “ter um plano estratégico com orientações”, uma vez que os desafios são repetidamente discutidos e que estão identificados pela grande maioria dos atores. Voltou a falar-se da importância de prevenir e Sónia Dias acrescentou que “não há um único discurso, de qualquer pessoa, que quando se fala em qualquer área, que não aborde a questão da prevenção e da promoção”, questionando sobre “o que é que estamos a falar e que “plano estratégico existe para a prevenção, que intersectoralidade está a acontecer para trabalharmos em conjunto para manter as populações saudáveis, o mais tempo possível”.

▲ "É preciso saber qual a mais-valia que um novo medicamento nos traz face aos anteriores e isso é fundamental para saber que condições existem para o disponibilizar no sistema de saúde", disse Rui Ivo

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Rui Santos Ivo confessou ficar desconfortável com o facto de, em Portugal, haver a tendência de se apontar as falhas e não se colocar a energia para as soluções. “Se há país que tem condições para poder trabalhar os dados, é Portugal. A nossa realidade é muito melhor do que a de outros países europeus.” No que respeita à prevenção, explicou que temos de perceber como vamos fazer esse investimento.

João Almeida Lopes defendeu que “será preciso olhar para estas matérias com um ar mais lúcido, que por vezes nos falta, uma vez que o peso da saúde é hoje incomparavelmente maior do que era há uns anos, e irá continuar a aumentar, pelo envelhecimento da população, pelo aumento da tecnologia, e pelo número de pessoas que estamos a tratar”. Só em 2025, o Serviço Nacional de Saúde tem mais de 200 mil pessoas, dado referido pelo presidente da direção da Apifarma. “E isto oficialmente, pois não sabemos bem quantos familiares estão atrás desses 200 mil, o que causa pressões enormes sobre o sistema.”

▲ "O peso da saúde é hoje incomparavelmente maior do que era há uns anos e irá continuar a aumentar", alertou João Almeida Lopes, presidente da direção da Apifarma

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No final desta mesa-redonda, Henrique Lopes também reforçou a mensagem da aposta na prevenção. “É preciso fazer o que muitos outros países fizeram há décadas: apostar na alteração de comportamentos que são danosos para a saúde das populações e incorporar novos conhecimentos que estão a acontecer.” Por exemplo, há que avaliar o aumento do risco resultante da poluição atmosférica, mas também as questões de saúde mental que também impactam os processos ateroscleróticos. “Já existem políticas públicas de saúde com um caminho feito, mas devem ser reforçadas com uma força similar ao que acontece noutros países da Europa”, destacou o investigador.

O grande evento “Debater para avançar” aconteceu no passado dia 17 de novembro, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

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Com a colaboração de:

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