“Soldados da Alemanha – em frente para Moscovo! Matem todos os russos que puderem. São um povo de mandriões, sempre bêbedos e corruptos – incapazes de cuidar das riquezas que Deus lhes deu. Esta riqueza pertence, por direito, ao povo alemão. Em frente para Moscovo – esperam-vos a vitória e a glória!”

Foi nestes termos que Hitler se exprimiu num folheto distribuído aos soldados alemães que avançavam para a capital russa no final de 1941, mas, em poucas semanas, o “povo de mandriões, bêbedos e corruptos” não só deteve o avanço das forças alemãs como as forçou a recuos significativos. Em vez de “vitória e a glória”, os soldados de Hitler conheceram a fome, os piolhos, as queimaduras pelo frio, a gangrena e a morte por hipotermia.

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“A Retirada”, de Michael Jones (Bizâncio)

De Michael Jones, um historiador britânico especializado na II Guerra Mundial, de que já se publicaram em Portugal O cerco de Leninegrado e Guerra total: De Estalinegrado a Berlim (ver Na Frente Leste não havia Convenção de Genebra), ambos na Bizâncio, a mesma editora lança agora o seu olhar sobre a Batalha de Moscovo em A última retirada: A primeira derrota de Hitler, publicado originalmente em 2009 (tradução de Clara Alvarez).

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Ataque da aviação alemã ao Kremlin, a 26 de Julho de 1941, por Margaret Bourke-White

Como é usual nos livros de Jones, é-nos fornecida uma reconstituição extraordinariamente viva e realista, com recurso profuso a diários e memórias dos protagonistas (do general ao soldado raso), do que terá sido a experiência dos intervenientes – alemães e soviéticos – no que foi um ponto de viragem na II Guerra Mundial, já que foi a primeira vez que os aparentemente invencíveis exércitos alemães fracassaram os seus intentos. É uma guerra vista à escala humana, ao nível da estepe gelada e das estradas lamacentas, o que por vezes corresponde a uma menor atenção a eventos e condicionantes que, não fazendo parte do âmbito geográfico da Batalha de Moscovo, influíram no seu desfecho.

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Posição de artilharia alemã, perto de Moscovo, Dezembro de 1941

Na estação da lama

A imagem clássica do fracasso alemão na Batalha de Moscovo é a de soldados alemães enregelados e envoltos em agasalhos improvisados, destacando-se na alvura da paisagem. Mas o factor que primeiro retardou o avanço alemão não foi a neve de Inverno mas a chuva de Outono, que converteu as estradas não pavimentadas das planícies da Ucrânia, Bielo-Rússia e Rússia em lamaçais intransponíveis.

O fenómeno é suficientemente significativo para que os russos tenham cunhado um termo para designar a “estação da lama”: “rasputitsa” (que, literalmente, significa algo como “sem estrada”). Esta situação, que dificulta seriamente a circulação de veículos, sobretudo se forem pesados e não dispuserem de lagartas, volta a ocorrer na Primavera, em resultado do degelo. A lama já se revelara um sério obstáculo para a Grande Armée de Napoleão, em 1812, mas os alemães parecem não ter tirado daí qualquer lição. Para mais, o caudal de mantimentos, combustível, munições e peças necessários para assegurar a operacionalidade de um exército aumentara vertiginosamente entre 1812 e 1941 e o peso médio dos veículos também, e a utilização das estradas pelas colunas de tanques que seguiam na dianteira deixava as estradas convertidas num atoleiro para quem viesse atrás, de forma que mesmo os veículos de tracção às quatro rodas e até os semi-lagartas se viam em sérias dificuldades.

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Perto de Moscovo, Novembro de 1941

Não fossem as chuvas de Outono, que retardaram significativamente a progressão das forças alemãs, talvez estas tivessem chegado a Moscovo antes de a neve e o frio terem imposto uma paralisação ainda mais completa e antes de os soviéticos terem conseguido deslocar reforços para a região de Moscovo e é plausível que a Operação Tufão – a ofensiva alemã contra Moscovo – tivesse redundado num êxito. E quem sabe que curso poderia ter seguido a História se tal tivesse acontecido?

Porém, ninguém nos altos comandos alemães parece ter tomado em conta o “General Lama” e só as dificuldades do Outono de 1941 levaram ao desenvolvimento, em 1942, do Raupenschlepper Ost, o “tractor de lagartas de Leste”, uma máquina concebida pela Steyr para enfrentar lamaçais e que, embora destinada originalmente à função de rebocar peças de artilharia, se mostrou tão satisfatória que rapidamente passou a desempenhar todas as funções de transporte.

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Frente Leste, Março-Abril de 1942

A máquina militar alemã contra o General Inverno

No início de Dezembro de 1941, confrontado com a inadequação das fardas e equipamento da Wehrmacht para fazer face ao Inverno russo, o general Gotthard Heinrici, comandante de um corpo blindado que fazia parte do II Exército Panzer de Heinz Guderian, uma das unidades fulcrais no ataque a Moscovo, interrogava-se. “Porque nos mandaram para uma batalha de Inverno tão mal equipados? Ninguém tem consciência de como isto é aqui?”. Com efeito, tal como no caso da lama, ninguém nas altas esferas do Reich e da Wehrmacht tinha consciência do problema posto pelo inverno russo.

Jones não desenvolve o assunto, mas A tempestade da guerra, de Andrew Roberts, fornece uma pista reveladora para explicar o facto de os factores meteorológicos terem sido ignorados quando do planeamento da invasão da URSS: Hitler, um auto-didacta presunçoso, obstinado e superficial, considerava-se “um perito em meteorologia como o era em praticamente tudo o resto” e acreditava que os meteorologistas não eram dignos de crédito, podendo ser substituídos com benefício por “homens dotados de um sexto sentido, que vivam na natureza e com a natureza”, capazes de intuir o tempo a partir das migrações dos mosquitos e das andorinhas.

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Patrulha soviética perto de Moscovo: os soldados estão protegidos contra o frio, usam camuflados brancos e dispõem de skis – tudo o que faltava aos alemães. Foto de Arkady Shaikhet

Por outro lado, não fazendo ideia do que é um Inverno onde as temperaturas podem descer aos 40 graus negativos, gabava-se da sua própria resistência ao frio: “Ter de trocar os calções pelas calças compridas sempre foi para mim uma tristeza. Mesmo com temperaturas de 10 graus abaixo de zero eu costumava andar de Lederhosen. A sensação de liberdade que nos dão é maravilhosa”.

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Hitler em Lederhosen, os calções de cabedal típicos da Baviera, em paisagem invernal

E acrescentava Hitler. “Hoje em dia, há bastantes jovens que já usam calções o ano todo; é só uma questão de hábito. No futuro terei uma brigada das SS em Lederhosen!”

Os soldados da Operação Tufão não envergavam Lederhosen, mas as suas fardas e calçado eram inadequados para o frio moscovita, o que os obrigou, à medida que o Inverno avançava, a remediarem-se com gorros, roupas e botas pilhadas a cadáveres de soldados soviéticos mortos ou roubadas a civis, o que fez com que a Wehrmacht perdesse todo o garbo prussiano e se assemelhasse a um bando de maltrapilhos.

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Soldados alemães rendem-se face ao contra-ataque soviético na Batalha de Moscovo

Perto da meia-noite de 24 de Dezembro de 1941, com o contra-ataque soviético a lançar o caos nas extenuadas e famintas tropas alemãs, Heinz Otto Fausten, da 1.ª Divisão Panzer, ao deparou-se com uma imagem emblemática da insânia que lançara soldados vestidos com roupas de Verão para o Inverno russo: “À primeira vista parecia um quadro vivo. mas não havia nele nada de festivo. Os homens tinham gelado até à morte nas posições de onde tinham estado a disparar. Três ou quatro estavam ajoelhados atrás da metralhadora – um tinha estado a olhar pela mira telescópica e os outros carregavam as munições – e todos eram agora blocos de gelo”.

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Mas o desprezo alemão pelos efeitos do frio não se ficava pelo vestuário: não se tendo prevenido com lubrificantes adequados, as temperaturas baixas faziam congelar o óleo lubrificante das armas de fogo e dos motores dos veículos e aviões. O general Georgy Zhukov, que teve papel preponderante na Batalha de Moscovo, estava consciente de que a combinação de poder de fogo e rapidez de movimentação da Wehrmacht, na qual tinham assentado as vitórias esmagadoras, estava seriamente comprometida: “os alemães eram vulneráveis em combate de Inverno, porque com frio muito intenso – 30 graus negativos – os motores dos seus tanques e artilharia motorizada tornar-se-iam totalmente inúteis. E isto quebraria a coluna vertebral do seu exército”.

E quebrou, com efeito – e quando o contra-ataque soviético se deu, os alemães em retirada não tiveram outro remédio senão destruir milhares de veículos imobilizados pelo frio.

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Veículos de combate alemães abandonados quando da retirada alemã na Batalha de Moscovo

A ajuda que veio do Oriente

Michael Jones enumera os factores que pesaram a favor dos soviéticos durante a Batalha de Moscovo, mas nem sempre os trata com a profundidade que mereceriam.

O mais decisivo desses factores foi a entrada em cena de tropas frescas vindas do Extremo Oriente da URSS: ao deslocar estas tropas, “Stalin corria um risco calculado. Anos antes tinha havido uma guerra com o Japão, […] cujas forças tinham ocupado a Manchúria e depois invadido a União Soviética. Os japoneses tinham sido derrotados, mas quando rebentou a guerra com a Alemanha, o exército nipónico, de quase um milhão de homens, foi de novo mobilizado para junto da fronteira soviética. Desguarnecer a Sibéria de tropas poderia encorajar um novo ataque. No entanto, os relatórios dos serviços de informação indicavam que o Japão planeava atacar a Inglaterra e a América no Pacífico”.

Elucidar as circunstância da derrota japonesa contra os soviéticos ajuda a perceber a decisão de Stalin: o Japão tinha ocupado a Manchúria em 1931 e tinha-a convertido no estado-fantoche de Manchukuo, e, a partir de 1938, envolvera-se em incidentes fronteiriças com as tropas soviéticas estacionadas na vizinha República Popular da Mongólia, outro estado-fantoche, controlado pelos soviéticos. Os belicistas japoneses dividiam-se em dois grandes grupos de pressão: os que entendiam que o Japão deveria expandir-se para Norte e Ocidente, para o interior da Ásia, à custa da China e da URSS (prevendo a ocupação de uma fatia significativa da Sibéria, até ao Lago Baikal), e os que defendiam que a investida prioritária deveriam ser as colónias europeias do Sudeste Asiático a esfera de influência dos EUA no Pacífico – sendo a primeira opção favorecida pelo Exército e a segunda pela Marinha.

Animados pelas vitórias fáceis contra o debilitado, corrupto e desorganizado exército chinês e tendo ainda na memória a surpreendente e esmagadora vitória na Guerra Russo-Japonesa de 1904-05, foi com confiança que, após dois meses de incidentes fronteiriços, em Julho de 1939, o Exército de Kwantung, que se arrogara alguma autonomia de actuação, atravessou, sem autorização do Governo japonês, o rio Khalkhin Gol, que separa a Mongólia da Manchúria. Os soviéticos cederam algum terreno, mas um contra-ataque desferido no final de Agosto, sob o comando do General Zhukov (que depois seria o principal estratega do combate contra os alemães), lograria a destruição de todas as forças japonesas que tinham penetrado em território mongol.

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Khalkhin Gol, 1939: Soldados soviéticos avançam atrás de um tanque BT-7

Embora a derrota japonesa não tivesse sido pesada – na verdade, as baixas soviéticas até foram mais elevadas – teve consequências relevantes, ao mostrar que o exército soviético era um inimigo de respeito (e com superioridade no capítulo das forças blindadas) e levando o Estado-Maior Imperial a transferir o seu apoio para o lobby da Marinha, que pretendia expandir-se para o Sudeste Asiático e Pacífico. A assinatura, na mesma altura, do pacto de não-agressão entre a Alemanha e a URSS veio reforçar essa opção – e em Abril de 1941, poucas semanas antes do ataque alemão à URSS, seria a vez de também o Japão assinar um pacto de não-agressão com a URSS.

Jones não menciona o papel crucial desempenhado por Richard Sorge, um espião soviético que se fazia passar por jornalista alemão, que já avisara – em vão – Stalin do traiçoeiro ataque alemão de Junho de 1941.

Embora o grupo de pressão do Exército, que defendia o ataque à URSS, voltasse a ganhar força com as esmagadoras vitórias alemãs do Verão de 1941, Sorge informou, numa mensagem de 25 de Agosto de 1941, que pelo que apurara a partir de fontes próximas do Primeiro Ministro japonês, o Alto Comando decidira não lançar um ataque à URSS nesse ano. Em Setembro, Sorge comunicou informações ainda mais encorajadoras: o embaixador alemão Eugen Ott não conseguira convencer os japoneses a atacar os soviéticos e a possibilidade de um ataque japonês À URSS dissipara-se completamente. Desta vez, Stalin deu ouvidos a Sorge e fez deslocar do Extremo Oriente para Moscovo, 15 divisões de infantaria, três de cavalaria, 1700 tanques e 1500 aviões, que fizeram o fiel da balança pender a favor dos soviéticos.

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Reforços soviéticos atravessam Moscovo a caminho da frente de batalha, 1 de Dezembro de 1941

Lutar até ao último homem

A resistência desesperada que os soviéticos mostraram frente a Moscovo contrastou com a facilidade com que as unidades do Exército Vermelho se rendiam nas primeiras semanas da Operação Barbarossa. Tal mudança no ânimo das tropas soviéticas resultou tanto do fervor patriótico como das medidas implacáveis ditadas por Stalin.

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Cartaz soviético: “Lutemos por Moscovo!”

Também a rapidez com que o armamento começou a ser produzido resultou de medidas draconianas impostas pelo Governo soviético e que seriam inaceitáveis num país democrático ou num regime autoritário menos brutal e centralizado do que o stalinista: operários fabris com horários de trabalho de 18 horas e uma folga por mês; fábricas desmontadas e deslocadas para os Urais que começavam a operar ainda antes de serem erguidas paredes e tectos; administradores de fábricas obrigados a responder com a vida pelo cumprimento das quotas de produção; trabalhadores a viver em condições sub-humanas; e uma reconversão de toda a indústria para o esforço de guerra – em A tempestade da guerra, Andrew Roberts menciona uma fábrica de garrafas de champanhe que passou a fabricar cocktails Molotov.

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Trabalhadora em fábrica de munições soviética

É revelador confrontar esta situação com a da Grã-Bretanha, em que, durante a II Guerra Mundial, houve numerosas greves em indústrias cruciais para o esforço de guerra, nomeadamente dos operários dos estaleiros de Tyneside, dos engenheiros aeronáuticos, dos mineiros de carvão ou das operárias da Rolls-Royce (um dos principais fabricantes de motores para aviões de combate), o que fez com que em 1944 se registassem 2194 greves, com a perda de 3.7 milhões de dias de trabalho.

[A 7 de Novembro de 1941, apesar da proximidade das forças alemãs, Stalin fez questão de que fosse realizada na Praça Vermelha a tradicional parada militar assinalando a Revolução de Outubro. Quadro de Konstantin Yuon, 1949]

A Ordem n.º 270, de 16 de Agosto de 1941, conhecida como “até ao último homem!”, determinava que os comissários que de desfizessem das suas insígnias seriam considerados desertores, que qualquer soldado que tentasse render-se deveria ser abatido e que os seus familiares deveriam ser privados de qualquer assistência do Estado. Stalin sintetizou desta forma lapidar a Ordem n.º 270: “Não há prisioneiros de guerra soviéticos, apenas traidores”. A Ordem n.º270 viria a ser reforçada pela ainda mais implacável n.º 227, de 28 de Julho de 1942 (“Nem um passo atrás”).

Esta política foi decisiva para suster o recuo soviético, mas resultou no sinistro balanço feito por Andrew Roberts: “Nada menos do que 135.000 militares do Exército Vermelho – o equivalente a 12 divisões – foram executados pelo seu próprio lado durante a guerra, incluindo muitos dos que se haviam rendido aos alemães e sido recapturados. A pena de morte era imposta por alarmismo, dormir em serviço, cobardia, embriaguez, deserção, perda de equipamento, recusa em atacar através de um campo de minas, destruir um cartão de membro do partido […], agressão a oficiais, ‘agitação anti-soviética’ e por aí fora”. Os que não foram fuzilados acabaram nos batalhões disciplinares, por onde passaram 400.000 soldados, cuja taxa de sobrevivência foi bem mais baixa do que a média do Exército Vermelho, já que eram incumbidos de desempenhar as missões mais perigosas ou irracionais.

Com receio de que esta dissuasão fosse, ainda assim, insuficiente, era frequente que a NKVD montasse uma segunda linha com metralhadoras prontas a abater os soldados soviéticos que ousassem abandonar a primeira linha de defesa.

[Excerto do premiado documentário Moscovo contra-ataca, realizado por Leonid Varlamov e Ilya Kopalin e filmado maioritariamente entre Outubro de 1941 e Janeiro de 1942, dando conta da Batalha de Moscovo na perspectiva oficial soviética; aqui na versão americana, narrada por Edward G. Robinson]

Uma formidável máquina de guerra

A maioria dos tanques que equipava o exército soviético em Junho de 1941 eram inferiores aos tanques alemães, mas entre eles estavam. logo em Junho de 1941, algumas centenas de T-34, recém-saídos das fábricas, que se debatiam ainda com problemas de embraiagem e transmissão. Mas assim que estes problemas mecânicos foram resolvidos e as desastrosas tácticas de uso de tanques do início da guerra alteradas, o T-34 revelou-se um adversário formidável – os generais das divisões Panzer foram os primeiros a admiti-lo: “o melhor tanque do mundo” (Paul von Kleist); “não tínhamos nada de comparável” (Friedrich von Mellenthin); “o melhor tanque de combate de qualquer exército até 1943” (Heinz Guderian); “os nossos Panzer IV com canhão curto de 75 mmm só são capazes de destruir um T-34 se alvejarem o motor, pela traseira” (Heinz Guderian).

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Tanque T-34

O T-34 batia os rivais em poder de fogo, blindagem, velocidade, agilidade e (depois de resolvidos os problemas mecânicos mencionados) fiabilidade. Dispunha ainda de uma lagarta mais larga que a de qualquer tanque alemão, que lhe permitia enfrentar situações de neve mole e lama que fariam atolar outros tanques.

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Tanques T-34 a caminho da frente de batalha

Quando tomaram consciência disto, as autoridades soviéticas fizeram os possíveis para acelerar a produção de T-34s, alterando o design do tanque de forma a tornar o seu processo de fabrico mais simples e rápido e impondo ritmos de trabalho frenéticos nas fábricas e, por vezes, enviando os T-34 directamente da linha de montagem para a frente de batalha, ainda com acabamentos e pintura por terminar.

Só a partir de meados de 1943 entrariam aos serviço os primeiros tanques alemães capazes de fazer frente ao T-34. Mas então já a maré da guerra mudara irreversivelmente.

[O T-34 em síntese]

Um mundo frio e hostil

“O Verão tinha-nos levado em frente. O Outono aprisionou-nos com a lama persistente, indomável. Agora o inverno quis expulsar-nos definitivamente do país. Metemo-nos às cegas, erradamente, numa paisagem que nos é estranha e com a qual nunca conseguiremos familiarizar-nos. Tudo é frio e hostil e actua contra nós”. Foi neste tom angustiado que o tenente de Panzers Wolfgang Paul sintetizou, no final de 1941, a campanha alemã em território russo.

A percepção de que estavam a travar uma batalha de vida ou de morte num território que lhes inspirava receio, contribuiu, em conjunto com a propaganda nazi que representava os soviéticos como sub-humanos, para uma escalada da violência e da implacabilidade do lado alemão, que teve resposta recíproca no lado soviético. “A guerra na Rússia e todas as suas consequências são verdadeiramente terríveis”, escreveu o cabo Alois Scheuer, da 197.ª Divisão de Infantaria, “Temos de cortar com os nossos princípios e sentimentos de pessoas de bem. […] Devemos endurecer para suportar tudo isto”. Claro que é mais fácil endurecer quando são os outros os desafortunados – o tenente Wilhelm Prüller observava cinicamente: “A sorte da população civil não é de invejar. Mas as emoções compassivas têm de ser sacrificadas por motivos de necessidade táctica”.

Hitler, que perante o sucesso do contra-ataque soviético demitira Walther von Brauchitsch, o comandante-chefe do exército alemão e assumira as suas funções, contribuiu decisivamente para a escalada da barbárie: “a fim de facilitar as nossas operações militares, não haverá nenhum tipo de contemplação pela população nativa”. Não é que antes os civis soviéticos tivessem sido tratados com “contemplação”, mas daí em diante imperaria a crueldade ilimitada. A 20 de Dezembro, Hitler deu ordem para que se adoptasse uma política de terra queimada e para que os soldados alemães tirassem “a roupa de Inverno a prisioneiros e habitantes, sem olhar às consequências”.

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Blindados alemães bloqueados pela neve

Embora as perdas soviéticas na Batalha de Moscovo – 650.000 a 1.280.000 homens – tenham excedido largamente as alemãs – 174.000 a 400.000 – a URSS dispunha de reservas de homens, equipamento e matérias-primas, lutava numa única frente e começara a receber em Setembro de 1941 um volumoso caudal de auxílio americano, sob a forma de alimentos, munições, camiões, jipes, veículos blindados, tanques e aviões de combate (o contributo mais significativo foi em camiões e jipes, que atingiram, no decurso da guerra um número total de 400.000). A Alemanha via-se obrigada a repartir o seu poderio por várias frentes e não tinha forma fácil de substituir os homens e equipamento perdidos frente a Moscovo. De acordo com o coronel Erhard Raus, comandante da 6.ª Divisão Panzer, citado por Jones, “o exército alemão nunca recuperaria das perdas em homens e equipamento sofridas durante a retirada de Moscovo”.

Durante a Primavera de 1942, as tropas alemãs conseguiriam retomar algum do terreno perdido a Norte e dilatar consideravelmente as conquistas no Sul da URSS, mas o fracasso em tomar Moscovo marcou o fim da sua aura de invencibilidade, o que deu ânimo à URSS e aos restantes Aliados.

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Soldados alemães rendem-se aos soviéticos, perto de Moscovo, início de 1942

O descalabro frente a Moscovo marca ainda outro ponto de viragem: Hans von Greiffenberg, chefe de Estado-Maior do Grupo de Exércitos Centro, observaria que esse foi o momento em que “Hitler perdeu finalmente o contacto com as realidades da guerra no Leste”. Não voltaria a recuperar o contacto com a realidade, nem na Frente Leste nem noutra qualquer, e continuaria a vociferar ordens insanas, vãs, confusas ou contraditórias até ao seu derradeiro momento.

Nota: A tradução é genericamente escorreita, mas, como acontece frequentemente com livros sobre a II Guerra Mundial, nota-se alguma falta de familiaridade com a terminologia bélica. Por exemplo, na pág. 190, lê-se que a única forma que os alemães tinham de deter os T-34 soviéticos “eram as metralhadoras dos nossos Panzers Mark IV e as metralhadoras anti-aéreas de 88 mm”. É claro que estas “metralhadoras” são na verdade canhões (o de 75 mm do Panzer IV e o Flak de 88 mm). Na pág. 191, menciona-se a captura pelos soviéticos, em Kamenka, de “duas metralhadoras pesadas que tinham sido trazidas para bombardear Moscovo”, e é óbvio que se tratam de canhões de muito grande calibre e longo alcance, não de “metralhadoras”.