“La Divina”, lenda da ópera, a soprano mais famosa do século XX. Das interpretações dramáticas à popularização do canto lírico, da vida amorosa polémica a ícone do jet set, Maria Callas era presença. Uma mulher com um estilo inconfundível, que ainda inspira criações dos designers mais consagrados do mundo da moda. E que tem parte da vida retratada no cinema, mais de 40 anos depois da sua morte, no filme “Maria”, de Pablo Larraín, que estreou em Portugal esta semana. Para vestir a pele da soprano, Angelina Jolie usou cerca de 50 peças de roupa feitas de propósito para a produção e que ajudaram a reproduzir um pouco do impacto fashion de Callas nas décadas de 1950, 60 e 70. Uma mulher que se viu obrigada a transformar a sua imagem, pelas mãos de uma criadora milanesa que preferia ser chamada “costureira” e viu na cantora o “natural chic”.
A primeira pessoa a chamá-la “Bicchi” foi o compositor de música clássica Giacomo Puccini, o segundo marido da sua avó. A alcunha vem de “Biricchina”, que em português é algo como “criança travessa”. Quando começou a dar os primeiros passos no mundo na moda, transformou a alcunha da infância num nome exótico e internacional. Biki ficou. Elvira Leonardi Bouyeure, ou Biki, cresceu cercada pela influência das artes. Para além da relação praticamente familiar com Puccini, era muito amiga da atriz Wally Toscanini, filha do maestro Arturo Toscanini, com quem viajou por muitas cidades europeias em digressão. Em Paris, conheceu o colecionador de arte francês Robert Boyeure com quem se casou em 1936. E foi na cidade do amor que também teve contacto com o fervilhante mundo da alta costura parisiense.
Inspirada pelo estilo francês, criou com Gina Cicogna uma linha de lingerie chamada “Domina”, nome sugerido pelo poeta Gabriele D’Annunzio e que traduz a ousadia do estilo que viria a seguir. A 5 de maio de 1936 abriu o seu primeiro ateliê, na Via Senato, em Milão, dedicado não só às lingeries, mas aos fatos e vestidos de festa. Foi uma das precursoras do movimento “Made in Italy” e uma das primeiras designers a trabalhar coleções prêt-à-porter quando, em 1957, firmou uma parceria com a GFT — Gruppo Finanziario Tessile — para a criação de uma coleção, a Cori, Cofezioni Rivetti. No mesmo ano abriu ateliês em Portofino, Saint Moritz e Roma.
O estilo de Biki destacava-se pelo dramático e arrojado, com peles, turbantes, misturas de cores e tecidos incomuns para a época. A designer foi uma das primeiras a apostar em tecidos sintéticos tanto para trajes comuns como para vestidos de gala. Vestiu as principais musas do cinema da época, como Sofia Loren e Brigitte Bardot. E é considerada a responsável pelo estilo, imagem e criação de “La Divina” Callas.
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A reinvenção de Maria Callas
Biki e Maria Callas conheceram-se em 1951 num encontro na casa de Wally Toscanini. Na altura, a soprano pesava cerca de 100 quilos. Diz-se que a grande transformação da Callas foi graças a Biki, que lhe terá dito que só a vestia se perdesse peso.
“Ela era uma verdadeira confusão, uma madame gorda, rica e vaidosa que amava acessórios a combinar, como os sapatos com a mala, e melhor ainda se fossem em pele envernizada e brilhante. Veio ao meu ateliê, onde eu trabalhava com o meu genro, Alain Reynaud, que foi assistente de Jacques Fath, e fazia desenhos para mim. Ela estava a fazer uma dieta, um pouco abaixo dos 100 quilos, mas já se movia como uma pessoa magra e tinha o fascínio de uma pessoa magra”, disse a criadora a Helène Blignaut, autora da biografia “La Scala di Vetro: Il romanzo della vita di Biki”, publicada em 1995.
▲ Biki com o genro, Alain Reynaud, no Ateliê em Milão em 1968
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Os números variam, mas Maria Callas provavelmente perdeu mais de 30 quilos no período de um ano. Certo é que em 1954 pesava pouco mais que 60 quilos e precisava de um novo guarda-roupa. Biki e o genro criaram visuais completos para a soprano. “Para que ela não cometesse erros, Alain numerou cada um dos itens do seu guarda-roupa, incluindo vestidos, sapatos e acessórios, e escreveu exatamente o que usar com o quê. Vestido número 8 com sapatos número 14 e xale número 6”, relata. No total eram 24 casacos de pele, 40 fatos, 200 vestidos, 150 pares de sapatos, pelo menos 300 chapéus e inúmeras luvas.
À parte das suas dramáticas interpretações de Ópera, como em “La Traviata” ou “Norma”, Maria Callas era muito fotografada pelos paparazzi, que acompanhavam a sua polémica vida amorosa. A cantora iniciou um romance mediático com o magnata grego Aristotle Onassis em 1957, enquanto ainda era legalmente casada com Giovanni Battista Meneghini, um empresário 27 anos mais velho. Entretanto, Onassis acabou por se envolver com a viúva do presidente norte-americano John F. Kennedy. O empresário casou-se com Jackie Kennedy em 1969, na ilha privada de Skorpios, mas terá mantido o relacionamento com Callas nos bastidores até a sua morte, em 1975.
Os registos fotográficos da época mostram uma mulher segura, sorridente e que estava acostumada a ser o centro das atenções. Biki terá também ensinado gestos e poses para compor a imagem glamourosa dentro e fora de palco. “Maria era uma esponja. O seu talento era um dom. O que aprendeu parecia ter estado sempre consigo, como algo inato. Por exemplo, a sua graça ao envolver-se num xale. Lembro-me que a única pessoa que se podia comparar era o Cardinal Montini, que depois se tornou papa. Vi-o no arcebispado de Milão. Protegia-se do frio com um grande cachecol. Uma pessoa que tinha o ‘natural chic'”.
Depois de ter a imagem transformada e consolidada com a ajuda de Biki, Callas tornou-se rapidamente num ícone fashion e musa de grandes nomes da indústria da época. Christian Dior chegou a criar peças para a cantora usar em espetáculos e eventos sociais e a soprano ainda criou uma amizade próxima com Yves Saint-Laurant. O estilo diva consagrou-se com as capas, luvas, leques de penas, casacos de pele e chapéus dramáticos, que depois serviram de referência para coleções de grandes nomes da moda, como Dolce&Gabbana, Valentino ou Burberry. Biki foi amiga de Maria Callas por 25 anos, até a morte da soprano, em 1977, aos 53 anos. A costureira ainda viveria até aos 92.
“Natural chic”
Depois de “Jackie”, de 2016, que traz Natalie Portman como Jackeline Kennedy, e de “Spencer”, de 2021, com Kristen Stewart no papel de princesa Diana, “Maria” vem para completar a trilogia de “biografias psicológicas” do realizador chileno Pablo Larraín, ao contar a história da cantora lírica. Angelina Jolie teve a difícil missão de vestir a pele da Callas. Uma atuação que rendeu uma nomeação aos Globos de Ouro e pode levar a atriz a disputar um Óscar.
Reproduzir o “natural chic” de Callas no grande ecrã foi um desafio. Em “Maria”, Angelina Jolie chegou a usar 12 perucas para conseguir o aspeto barroco teatral do cabelo da cantora de ópera. “Quando as mulheres daquela época saíam de casa, estavam sempre com os cabelos arranjados”, explica ao The New York Times a cabeleireira Adruitha Lee, responsável pelo visual de Jolie no filme. “O cabelo era boa parte do visual da Callas”, remata a profissional, vencedora do Óscar em 2014 pelo trabalho de cabelo e maquilhagem em “O Clube de Dallas”.
Outro detalhe importante no guarda-roupa da longa-metragem está nas joias. Especificamente num alfinete de peito Cartier Panthère que pertenceu à cantora, e que Jolie usa no filme. Aliás, numa aparição no Festival de Cinema de Veneza em agosto, a atriz levou o mesmo alfinete, uma pantera em ouro com olhos de esmeralda com o rabo enrolado numa grande calcedônia branca. A equipa responsável pelo guarda-roupa também se preocupou em criar réplicas de outras joias usadas pela soprano, já que as peças originais fazem parte de coleções privadas.
Massimo Cantini Parrini, o principal responsável pelo guarda-roupa do filme, quis ser fiel ao estilo incomparável da Callas. Para isso criou 50 trajes, com inspiração nos diferentes momentos da vida da cantora. Angelina Jolie participou das escolhas de visuais, que incluem echarpes Hermès e Gucci que pertenceram à avó de Parrini. O figurinista também se inspirou nos designs de Yves Saint-Laurent, designer que a cantora usou nos anos 1970, e ainda incluiu uma peça que efetivamente pertenceu a Callas. Um casaco longo, bordado em vermelho e dourado e mangas de pele, peça que já pertencia à coleção de Parrini antes mesmo do início da produção de “Maria”.
Mas não é a única roupa “original” que o figurinista já tinha na sua coleção. A outra peça que pertenceu a Maria Callas e que agora é de Parrini é um vestido castanho de 1950 criado por… Biki. “Percebi que a peça tem um pedaço de algodão por dentro que diz ‘Mrs. Callas’. E também tem um número, o que significa que realmente pertenceu a Callas, porque estes eram os códigos colocados por quem cuidava do seu guarda-roupas”, disse Parrini ao blog da Motion Pictures Association. Apesar de ser uma criação da estilista que reinventou o estilo de Maria Callas, ficou fora da longa-metragem. Entretanto um dos visuais mais icónicos de “La Divina”, criado por Biki, foi reproduzido no filme. O vestido longo com gola, de cetim de seda bege, combinado com uma capa preta, que a cantora lírica usou na abertura da sua digressão de despedida, no Royal Festival Hall, em 1973.
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