Fernando Rosas foi quem apresentou o dilema de forma mais clara no primeiro dia de trabalhos. O fundador do partido assumiu que a convenção deste fim de semana apresenta ao Bloco de Esquerda a “tarefa crucial” de decidir, entre duas alternativas. “Queremos ser um efémero partido de agitação sobre as lutas sociais e políticas sem criar raízes, um partido do toca e foge destinado a isolar-se e a definhar, ou um partido que pretende ser relevante junto do povo trabalhador e das forças progressistas?” A resposta dos congressistas não seria unânime, mas pareceu existir uma corrente maioritária a defender um reset e a necessidade de falar de problemas concretos para uma maioria alargada.
Entre os oradores, seria outro fundador a responder-lhe de forma mais definitiva. “Sabemos bem o que precisamos: pés bem assentes na terra. Respostas claras: Salário, casa e hospital. Salário, casa e hospital”, repetiu Louçã. O antigo coordenador líder do partido traçou o caminho a seguir: “Fazer crescer os movimentos sociais amplos“, que só ganharão dimensão se o partido “ganhar os jovens e organizar trabalhadores”. Nesse ponto, Louçã respondia diretamente a Rosas, que, minutos antes, tinha dito que o Bloco devia “apoiar as lutas populares — como naturalmente tem de ser — mas influenciando-as, através de uma organização permanente na luta de classes”.
O historiador acabou por concretizar ainda mais, dizendo que o partido tem de “estar organizadamente” nas empresas, comissões de trabalhadores, sindicatos, associações de moradores, escolas, associações de defesa de imigrantes e de género. “Porque é que abandonámos incompreensivelmente as associações de estudantes?”, interpelou. Rosas foi o mais claro a reconhecer que o partido se tem inclinado para a pior alternativa entre os dois cenários que apresentou. A “verdadeira revolução na organização do Bloco” vai ser uma “tarefa hercúlea e prolongada“, avisou.
Em entrevista ao Observador, Marisa Matias também reconheceu que o partido centrou demasiado a sua intervenção na “política institucional”. Lembrou o que um outro fundador do Bloco, Miguel Portas, dizia: na política, é preciso “correr por dentro e correr por fora”, ou seja, ter uma ação política mais equilibrada que não deixa para trás o enraizamento social. “O Bloco perdeu um pouco isso”, admitiu.
Manter o ataque ao Chega — mas de outra forma
Outra nuance importante nesta convenção do Bloco de Esquerda foi a forma como o Bloco parece apostado em combater o Chega: não necessariamente no plano ideológico, mas num plano mais concreto, mais tangível. Aproveitando a posição do partido sobre a reforma laboral, vários dos notáveis bloquistas subiram ao palco para tentar desmontar a ideia de que o Chega está de facto preocupado com aqueles que ficam para trás e que são esquecidos pelo “sistema”.
“O poder abriu uma brecha onde a esquerda tem poder ofensivo. Neste conflito é impossível esconder posições de classe. Não há nenhuma burca atrás da qual André Ventura possa esconder a sua posição sobre os cortes salariais aos trabalhadores”, afirmou Joana Mortágua. Pedro Filipe Soares seguiu a mesma linha. “Ventura bem pode tentar andar nu pelo Chiado que agora não consegue tirar do centro do debate a greve geral.”
O bloquista que disputou a liderança do partido com Catarina Martins em 2014, lembra a experiência do combate popular às medidas de austeridade durante os anos da troika — e os dividendos que isso traria ao Bloco. “Quando falamos de temas que chegam à maioria social e colocamos bem evidente quem são os homens e as mulheres mandados pelos patrões, conseguimos ter um apoio social que os assusta.”
Nesses anos, Pedro Filipe Soares entende que “o País saiu à rua porque o Bloco se mexeu” para tal e que essa mobilização teve implicação concreta na reposição de salários e a evitar o corte de pensões. “Este partido, que muitos dizem moribundo, fez a diferença na vida das pessoas“.
Para aproveitar essa oportunidade de ser resposta aos anseios de uma maioria, há consenso alargado no Bloco para “fazer pontes” com os restantes partidos de esquerda. João Curvêlo defendeu que apenas a “abertura contra o sectarismo” alarga o campo de ação do Bloco. O dirigente bloquista afirmou que o partido “sempre convergiu com a esquerda”, mesmo contra o “centrismo” do PS ou o “conservadorismo” do PCP, mencionando que até houve entendimentos com a “direita liberal” para a despenalização da eutanásia. “Uma esquerda fechada sobre si será pouco mais do que um grupo de autoajuda e uma esquerda que se limita a defender o que existe, até para isso será inútil”, concluiu.
A recusa da crítica: BE não se perdeu nas lutas identitárias
O ex-deputado Jorge Costa disse não encontrar na intervenção política recente do Bloco outras “centralidades” a não ser “o combate ao Governo de direita, a defesa do SNS, a defesa dos trabalhadores”. O partido “nunca deixou nenhuma causa para trás”, afirmou, em entrevista ao Observador. Por outro lado, Jorge Costa defende que as questões identitárias estão “muito longe de ser agenda exclusiva da esquerda” e atribui responsabilidades à direita neste debate. “Existe uma tática sistemática da direita e da extrema-direita de confinar a esquerda nas questões dos direitos individuais”.
José Soeiro concordou que se faz uma “caricatura” do Bloco como um “partido identitário” e avisa para as “armadilhas” que levam o espaço público para “debates absurdos“, dando o exemplo daquela que ficou conhecida como a lei da burca. O antigo deputado bloquista, cujo nome terá sido discutido como um dos potenciais sucessores de Mortágua, rejeitou, também em declarações ao Observador, que o partido tenha ido demasiado longe em discussões de nicho e que isso tenha alienado parte do eleitorado.
“É impossível pensarmos o que é a emancipação da classe trabalhadora se não reconhecermos que esta é composta por homens e mulheres, sendo que estas são mais precárias”. Soeiro argumentou que uma “visão feminista da classe trabalhadora” amplia o universo de pessoas cujos interesses são defendidos, mencionando, por exemplo, as trabalhadoras domésticas.