Bloco de notas da reportagem no PS. Dia 9. Ora com o Governo ao colo, ora com o Governo às costas /premium

21 Maio 2019

A campanha socialista fez mais de 300 quilómetros num dia entre o metro de Lisboa e os pescadores de Aveiro. Atrelou à caravana altos dirigentes socialistas -- isso ajuda a puxar a carruagem?

Não há campanha sem senão, mesmo que nas sondagens (e no Governo que o partido apoia) a coisa pareça bem encaminhada. O candidato do PS às Europeias gaba-se de ter ao seu lado “extraordinários dirigentes do PS”, expressão que usa quando é confrontado com o Governo que tantas vezes tem descido à campanha onde António Costa pôs a votos a sua própria prestação. Quando a maré está cheia, o Governo não empata na rua, mas não quer dizer que por vezes também não traga as suas pedras. Quando Costa está, por exemplo, os lesados do BES não largam a porta de Pedro Marques, mas não são a única voz crítica que se atravessa no caminho socialista.

Há sempre um professor — no caso da manhã desta terça-feira, uma professora — que lembra ao candidato o que diz que o Governo esqueceu: “Quase dez anos”, disse a professora a quem Pedro Marques pediu, à porta da estação do Cais do Sodré em Lisboa, que não se esquecesse de votar no dia 26, próximo domingo. No porto de pesca de Aveiro, já com Pedro Nuno Santos — o ministro do dia — sentado ao seu lado direito, ouviu o mestre Festas, da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, pedir aos “governantes que repensem a nossa pesca”. E pedia diretamente ao candidato: “Pedimos ao senhor doutor que nos ajude a ter uma frota melhor”. “Não temos uma coroa, um tostão de ninguém”, acrescentou.

Depois também há o outro lado da moeda — que pode não significar propriamente um orgulho para o candidato — que é o reconhecimento que imediatamente traz à caravana. Um grupo de senhoras em Aveiro reconheceu Pedro Nuno Santos, na rua, e foi ele quem apontou para os panfletos que andava a distribuir com a cara do número um da lista do PS às Europeias para que reconhecessem o candidato quando ele passasse. Pedro Marques seguia um pouco atrás, mas a linha da frente da comitiva, onde seguia também a secretária-geral adjunta Ana Catarina Mendes, tentou quase sempre manter-se alinhada, sem passos à frente do candidato a disputar-lhe o palco.

O melhor momento do dia da caravana foi o debate na Universidade Nova de Lisboa, na esplanada da Faculdade de Ciências Humanas. Dois cartazes, um da JS e outro da candidatura às Europeias, e duas cadeiras, uma para Pedro Marques e outra para a líder da JS Maria Begonha. Na plateia muitos jotinhas que, antes de o candidato chegar, tentaram arrebanhar estudantes para participarem na sessão de perguntas sobre Europeias. Acabou por ser bem sucedida, até porque se falou de Europa, com o candidato a mexer-se bem nestas águas mais pedagógicas e sentado perante um público específico: falou de habitação, de segurança, de populismo, do fim da unanimidade e do tratado orçamental europeu.

O pior momento foi a arruada de portas fechadas em Aveiro. Não acrescentou quase nada à caravana num dia que já ia composto. Nem pelo apelo ao voto, já que a maior parte das portas do comércio local estavam fechadas ou, por aquela hora (final da tarde), sem ninguém para cumprimentar ou passar palavra.

O mestre José Miguel anda nisto da pesca desde pequeno, faz vida nas “águas oceânicas”. “Entramos todos os dias. Saio à meia noite e entro consoante a captura do pescado. Se capturar cedo, entro mais cedo, se capturar mais tarde entro mais tarde”. Parece simples, mas é uma vida dura em embarcações pouco modernas que os pescadores do porto de pesca de Aveiro se queixam de precisar de ajuda para recuperar.

Diz ao Observador que fala disto com todos os partidos que o queiram ouvir. Ali recebeu o PS, mas diz não ter preferências: “Na associação [de pesca artesanal] há pessoas de todos os partidos”. Mas da campanha que se atravessa no seu dia espera que o “represente bem na Europa. Não quer dizer que somos mal representados, mas há coisas que têm de ser melhoradas, especificamente as condições de trabalhos, as quotas — que há mais, mas há espécies em que temos menos“. Depois também há a questão da “frota dos barcos que é muito velha” e a queixa, sempre a queixa, de “há muitos anos” nada vir de Bruxelas. “Não compreendo, porque quando há dinheiro candidatamo-nos, mas agora já é de raíz que nem destinam“, lamenta. De Pedro Marques ouviu a promessas de atenção à sua lide. Vai esperar por ela, talvez mais do que pela captura da próxima madrugada.

Foi na arruada de Aveiro embora não tenha sido especialmente calorosa esta ação de campanha em que o candidato contou com Pedro Nuno Santos e Ana Catarina Mendes entre a caravana.

“Nós só queremos o Pedro em Bruxelas, o Pedro em Bruxelas, o Pedro em Bruxelas”. Não é propriamente deste dia, já que a JS grita este cântico sempre que aparece. Mas esta terça-feira originou um momento caricato, quando Margarida Marques o ouviu e foi até aos jotinhas dizer que parecia que estavam apenas a querer a eleição do cabeça de lista quando havia outros candidatos, nomeadamente os primeiros dez da lista, que o PS tem por objetivo eleger. Os jovens ainda repetiram o grito, mas acabaram por lhe dar uma volta, ali na arruada de Aveiro, dizendo que é o PS que querem em Bruxelas.

O candidato socialista fez 300 quilómetros neste dia que começou no Cais do Sodré, em Lisboa, e terminou no Parque de Exposições de Aveiro. Mas hoje não foi só carro, também houve metro, em Lisboa onde voltará no final do comício de Aveiro. No total desta campanha leva acumulados 6.795 km (com idas a Açores e Madeira incluídas).

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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