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KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

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Camané. "Ouvia rock muito alto e fado baixinho, por causa do preconceito" /premium

O encontro com Amália e Maria Teresa de Noronha, os outros fadistas que o marcaram, a experimentação que vai fazendo e como pôs toda a família a cantar fado. Maria João Avillez entrevista Camané.

Desta vez contou a vida em vez de a cantar. Fê-lo porém com uma simplicidade tão tocante como se fosse um jovem fadista acabado de ganhar a “Noite de Fado”. Simplicidade, humildade, generosidade e está o retrato tirado. Estaria, se não faltasse o essencial que no caso de Camané foi um dom que Deus lhe deu: o dom da voz, ninguém canta assim. Ninguém entoa, nem ondula, nem fraseia, nem embala, nem funde na guitarra portuguesa as palavras dos poetas, como ele o faz.

Com asas na voz. E passam os anos e somam-se os êxitos mas Camané é sempre igual a si mesmo: não só permanece intacta uma memória grata pelos “incríveis” fadistas com quem “tanto aprendeu”, como a sua imensa fidelidade aos que colaboraram consigo, que o ensinaram, que lhe abriram mundos, que arriscaram experimentar outras coisas a seu lado.

E como ele ousou tanto e foi tão longe… Tocando o infinito, estou certa. “Desde que seja fado está tudo bem.”

Em Julho subirá a um palco da Gulbenkian para cantar com a Orquestra e o Coro da Fundação, o que não é para qualquer um. Irá ser um momento muito especial na vida do fadista Camané ou é apenas mais um degrau a caminhada de quem até já cantou com a Orquestra Metropolitana?
Ah… e com a Sinfónica! Mas sim, é sempre uma experiência nova subir a um palco onde nunca estive, nem cantei. Uma experiência nova e boa.

Que está a puxar por si?
Claro, a puxar e bem. Farei um concerto com um alinhamento parecido com o que fiz com a Metropolitana e com a Sinfónica do Porto, por exemplo — aprendemos com o que nos sai bem — mas também com outros temas que serão intercalados entre os que serão tocados pela orquestra e os fados onde serei acompanhado só pelos meus músicos.

Um alinhamento “parecido”com os dois que já fez será só fado, fado e outras coisas?
É fado. É fado. Alguns têm já as orquestrações feitas como o “Sei dum rio” por exemplo. Serão temas mais musicados, dentro do fado que fui cantando ao longo do meu percurso, mas alguns dos mais tradicionais irão também ser agora tocados com a orquestra. Quais? Olhe, o Fado Perseguição, por exemplo. E outros — já com arranjos — e que me parecem fazer grande sentido. O fado tradicional tem uma musicalidade incrível, podem fazer-se coisas maravilhosas com muitos músicos…

Tratando-se de uma iniciativa da própria Gulbenkian, autora do convite, como se processou esse esquema já pronto na sua cabeça? Foi o Camané que sugeriu, discutiu-se, trocaram-se ideias, houve sintonia?
Fui eu que propus. Mandei o alinhamento. Fi-lo com a ajuda do meu produtor….

Mas justamente tendo o quê em conta?
Pensando no contexto do que estou a fazer e a cantar nesta altura, mas ao mesmo tempo querendo incluir algumas coisas menos cantadas. Agora há mais reportório do que quando fiz o concerto com a Metropolitana, no S. Luis, por exemplo, e nesse sentido vai ser um pouco diferente, por isso falei em “parecido”. É sempre difícil fazer alinhamentos novos, o reportório vai crescendo, vão-se fazendo mais discos e não se pode cantar tudo. (Pausa) Custa-me muito, imenso, ter de excluir… Mas tenho uma noção muito exacta que não se pode exagerar e estar no palco mais do que duas horas.

…durante as quais se ouvirá também, nessa sexta feira, 26 Julho, a guitarra portuguesa, claro?
Sim, sim!  Vão estar no palco  o José Manuel Neto, o Carlos Manuel Proença e o Paulo Paz no contrabaixo. E a orquestra, claro.

Na sala de concertos?
Na grande sala.

Na entrevista na redação do Observador. KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

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Falando do prestígio dos convites que recebe para cantar em grandes salas e grandes cidades, regressou há pouco de Nova Iorque que já o ouviu mais de que uma vez.
Cantei em New Bedford, num teatro onde já fui três ou quatro vezes e volto com sempre muito gosto, o público é fantástico, com muitos professores da Brown University, de Providence, da Universidade de New Bedford sentados na plateia, uma gente muito interessante. Em Nova York estive com outros colegas num festival de fado, numa grande zona comercial em frente do local onde ficavam as antigas Torres Gémeas.

Há 10 anos acreditaria poder vir a receber os convites que recebe como este agora da mais prestigiada instituição portuguesa para cantar com a sua orquestra? Quando olha para trás era quase inimaginável, ou nem tanto?
Era. Mas quando olho para trás também vejo que as coisas da minha vida foram sempre acontecendo, rolando, não é? Nunca esperei nada de concreto, nunca fiz projecções, não pensei no que é que iria acontecer daqui a um ano, ou dois, ou três. Nunca consegui visualizar nada para a frente.

Ia andando?
Ia andando mas acreditando sempre que as coisas iriam acontecendo. Que se Deus quisesse ia ter a possibilidade de fazer aquilo de que gostava muito…

Cantar? Acima de tudo cantar?
Cantar fado. E sem que sequer o esperasse, essas coisas foram-se encadeando. Tem sido um prazer enorme fazer coisas diferentes, ir apresentando o meu trabalho de formas completamente diferentes e surpreendendo. Sim, uma grande alegria.

As formas a que tem recorrido ou que tem escolhido para dar a ouvir e a ver o fado?  Com orquestra, com piano, com a guitarra portuguesa, com uma escolha exigente dos poetas que canta?
Tudo isso, mas sempre com a preocupação séria de fazer fado, sem nunca me afastar nem perder a autenticidade. Tive e tenho um grande orgulho na música que faço e em cantá-la. Orgulho em ser fadista, orgulho na autenticidade do fado. Lembro-me, quando era miúdo, e comecei a cantar, com 16, 17, 18 anos, havia um preconceito enorme, terrível, as pessoas diziam-me na cara que detestavam fado. Até quando gravei o meu primeiro disco, já na EMI, isso ainda acontecia. Mas —  lembro-me bem — o fado era o que eu queria e desde sempre o que escolhi.

"Ouvia música rock muito alto, os Beatles e todas as coisas daquela altura, muito alto, e depois vinha o fado muito baixinho, para ninguém ouvir. Mas ouvia. Quando vinha para as casas de fado, apanhava o comboio de Oeiras para Lisboa e às vezes vinha um guitarrista com uma caixa de guitarra portuguesa, e fugia logo, para não me associarem… De tal modo era a má impressão deixada nesse tempo pelo fado!".

Escolha antiga, primeira escolha.
…quando era miúdo ouvia fados baixinho em casa, porque morava no lado do prédio que dava para a rua onde passavam pessoas e tinha vergonha de que me ouvissem a ouvir fado. Ouvia música rock muito alto, os Beatles e todas as coisas daquela altura, muito alto, e depois vinha o fado muito baixinho, para ninguém ouvir. Mas ouvia. Quando vinha para as casas de fado, apanhava o comboio de Oeiras para Lisboa e às vezes vinha um guitarrista com uma caixa de guitarra portuguesa, e fugia logo, para não me associarem… De tal modo era a má impressão deixada nesse tempo pelo fado!

Falou da sua casa: que teve de acontecer em casa, na sua família, no vosso ambiente familiar para haver um Camané, um Hélder Moutinho e um Pedro Moutinho, todos a cantarem e tão bem? Como é que isso se explica?
Ai isso… Bem, é assim: os meus irmãos começaram a cantar muito mais tarde do que eu. O Hélder começou até como meu produtor! Mas como quem mandava no gira-discos lá em casa era eu — sou o mais velho, depois o Hélder, depois o Pedro — eles tinham de ouvir o que eu ouvia. Nós dormíamos no mesmo quarto,  éramos três rapazes, tínhamos um quarto grande, eu cantava às vezes à noite, chegava tarde das casas de fado mas ouvíamos muita música juntos… Mais tarde, os meus irmãos começaram a gostar de cantar, mas o Hélder teve sempre outras coisas de que gostava muito de fazer: tem uma casa de fados, continua como agente — foi agente de várias fadistas, por exemplo, da Gisela João, da Mafalda Arnault, muitas outras — e de vez em quando canta também.

Ouve os seus irmãos cantar? Vai aos espectáculos deles?
Vou aos espectáculos. Aqui há dias fui ouvir o Pedro ao S. Luiz, e quando o Hélder for, também irei.

Como é estar numa casa de espectáculos, sentado na plateia a ouvir os seus próprios irmãos a cantar e tão bem? De algum modo perturba-o? Ouve-os com uma pontinha de orgulho, com expectativa, ouve-os como?
Com orgulho claro mas sempre também com muita preocupação… Sim, porque… Pronto, porque é uma responsabilidade, não gosto que eles falhem, gosto que tudo corra muito bem com eles os dois. E depois vou aos bastidores e digo sempre o que acho, o que gosto e  não gosto. Sempre. Sou muito exigente. Também sou comigo.

Há pouco disse que as coisas foram acontecendo, que não procurava deliberadamente isto ou aquilo, mas a verdade é que uma das suas melhores características e aliás grande qualidade é a sua curiosidade. E uma imparável vontade de ir experimentando o ainda não experimentado. Não será isto uma boa definição sua e da sua maneira de estar no fado e na música: curiosidade, experimentação, alguma ousadia?
Sim, isso. O trabalho com  o Laginha, por exemplo, mostra isso.  A ideia foi trazer o Mário para aqui, sempre acreditei que o fado tem um ambiente musical em que se pode descobrir coisas incríveis. E um dia ele disse-me assim:  “Eu de repente cresci qualquer coisa ao abordar este ambiente musical, esta música, esta autenticidade de ir de frente ao fado”. Ora é absolutamente fantástico ouvir isto dum músico tão extraordinário como é o Mário…

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Vai aliás voltar a estar com ele agora no Mosteiro de Alcobaça, também em Julho, no Festival Cister Música: os dois de novo outra vez…
Pois vou, criou-se uma sintonia formidável, entre nós. Mas falávamos da curiosidade, do evoluir e a minha ideia. Algo que me interessa muito são também as palavras, procurá-las, descobri-las. Sempre gostei de palavras. E dos textos, da poesia, de tudo esse mundo que fui descobrindo.

Sozinho?
Sim e não. A Manuela de Freitas e o Zé Mário Branco ajudaram-me imenso a descobrir essa coisa das palavras, ajudaram-me especialmente na procura de reportório. Foi um trabalho muito enriquecedor. Com os grandes poetas, como o Eugénio de Andrade ou o Pessoa, mas também a descobrir toda a poesia portuguesa que pode ser cantada, encontrámos coisas maravilhosas ao longo do tempo. E a Manuela tem escrito poesia de uma forma incrível nos meus discos.

Como se deu esse encontro? Se há pessoas determinantes na sua vida e na sua caminhada de grande fadista e grande artista, são eles. Foi um acaso, uma procura sua, foram eles que vieram ter consigo? Calhou?
A primeira vez , sim, foi por acaso. Vinha a descer a Rua da Barroca — estava a cantar no Faia, uma casa de fados que fica nessa rua — e encontrei o Carlos do Carmo com o Zé Mário. E o Carlos, que sempre foi muito simpático comigo e entretanto se tornou um amigo de quem gosto e quem admiro imenso como artista, apresentou-me o Zé Mário. Eu já conhecia bem música dele, costumava ouvi-la, e após esse encontro casual fomo-nos vendo. Nessa altura havia umas tardes de fado aos domingos, no Teatro da Comuna onde eu por vezes cantava com a Aldina Duarte, foi uma ideia do João Mota, e uma vez, num desses domingos à tarde, o Zé Mário também foi lá ouvir-me. Eu tinha para aí 23, 24, 25 anos e um dia, de repente, perguntei-lhe se ele não queria produzir um disco meu e fomos ficando a pensar nisso. E quase a seguir, sucedeu outro acaso: uma noite a Amália, no ano de 1994, foi assistir a um espectáculo que eu fazia no Politeama com o Filipe La Féria…

… ah já lá iremos também…
 … ela foi ao espectáculo, ouviu-me cantar e no dia seguinte ligou para o David Ferreira: “Ontem ouvi um rapaz que parece que está no bom caminho”. Passados três dias apareceu-me o David Ferreira e o João Teixeira, da EMI — que agora é a Warner — a convidarem-me para assinar um contrato para um primeiro disco. O Zé Mario Branco produziu — e é aqui que os acasos se ligam — e começámos a gravar. O disco depois atrasou-se se um bocadinho, saiu apenas em 95. E, pronto, as coisas aconteceram assim, quase por acaso, não é?

"Uma noite a Amália, no ano de 1994, foi assistir a um espectáculo que eu fazia no Politeama com o Filipe La Féria… ela foi ao espectáculo, ouviu-me cantar e no dia seguinte ligou para o David Ferreira: “Ontem ouvi um rapaz que parece que está no bom caminho”. Passados três dias apareceu-me o David Ferreira e o João Teixeira, da EMI -- que agora é a Warner -- a convidarem-me para assinar um contrato para um primeiro disco".

Mas que me lembre, houve outros acasos igualmente felizes?
Nesses tempos dos meus vinte a tal anos, quando cantava numa casa de fados, não tinha produtor, não tinha editor… e vamos lá, de vez em quando apareciam uns espectáculos na televisão, aqui e ali. E ainda em mais miúdo, lembro-me por exemplo do Herman me convidar para ir cantar ao “Parabéns”, um programa dele na altura, com orquestra, guitarra e viola, cantar 3 ou 4 fados do Carlos Ramos. Sim, lembro-me de pequenas coisas, as pessoas convidavam-me, confiavam, gostavam, mas nada de discos, não havia editora. Até que um dia surge essa hipótese com o David Ferreira, as coisas começaram a mudar. O que talvez não saiba é que eu já gravara um disco quando estava a sair da tropa, um single. Mas não deu em nada, não havia editora que se ocupasse e me estimulasse.

Um dia tudo mudou: apareceu uma editora, um Zé Mário Branco, uma Manuela de Freitas e por aí fora…
…sim mas uma das coisas que  achei muito importante em relação ao meu trabalho com o Zé Mário foi que queríamos ambos encontrar uma fórmula — e não era um arranjo, visto que não se tratava de orquestra — era uma fórmula só a pensar na guitarra e na viola. Algo que mantendo a autenticidade do fado e a minha forma de estar nele, criasse uma sonoridade que tivesse a ver comigo. Comigo e com essa forma que é concretamente a minha, no sentir e no cantar do fado. E isso tudo foi a guitarra corresponder ao ambiente musical, ao texto, ao registo emocional de cada poema, à história que se estava a contar e a cantar, mas esse “isso”  foi uma coisa que devo ao Zé Mário. Ele ajudou-me muito, muito nessa procurar e nessa descoberta.

Eu ia justamente perguntar-lhe se ao longo de todos estes anos e com tantos êxitos que já conheceu, houve algum “mentor”,  algum “aconselhador” que lhe dissesse “vai por ali”, ou “escolhe isto em vez daquilo”, para além do Zé Mário Branco ou da Manuela de Freitas ? Mais alguém teve importância no critério das suas escolhas, das decisões que foi tomando?
Houve muita gente ao longo da minha vida, do meu percurso, a quem pedi ajuda, a quem falei e quis sempre ouvir. Tenho muita vontade de aprender, ir evoluindo. E sei ouvir.

É alguém que acolhe — e pratica — a humildade, percebemos que nada lhe subiu a cabeça.
Sim, sim, sim. Outra das coisas que também me ajudou foi saber ouvir, estar atento a quem sabia. Eu era muito inseguro, fui sempre tímido, tinha muito medo de entrar no palco. Lembro-me que das primeiras vezes que fiz concertos ao vivo e espectáculos, pensava sempre duas coisas: ou fujo, ou fico. E também me lembro de, no início, ter vontade que aquilo acabasse depressa, estava sempre cheio de medo.

"Era muito inseguro, fui sempre tímido, tinha muito medo de entrar no palco. Lembro-me que das primeiras vezes que fiz concertos ao vivo e espectáculos, pensava sempre duas coisas: ou fujo, ou fico. E também me lembro de, no início, ter vontade que aquilo acabasse depressa, estava sempre cheio de medo".

E hoje? Ainda resta hoje alguma coisa dessa timidez?
Acho que sim, um pouco. Mas aprendi uma coisa essencial com a tal humildade que é sair de mim em cima de um palco. Eu não tenho importância nenhuma. O que conta é ir por dentro do texto, da história do que estou a contar e esquecer-me de mim. E quando me esqueço de mim… pronto. A verdade também é que nunca entrei no palco para me exibir. A exibição é a pior coisa para um intérprete, para um actor, para um cantor. A pessoa tem de sair dela própria e ir por dentro do fado. Sem qualquer tipo de piscadela de olho ao público, isso quebraria logo a história do que se está ali a fazer no palco. Ora isto ajudou-me muito a conseguir ter prazer naquilo que faço em vez do  medo que tinha. Um medo tão grande.

Isso foi acontecendo até tarde? Sentir mais medo do que alegria em cantar?
Foi aos poucos. Mas eu sabia que um dia iria conseguir, tinha a certeza, não sabia era como, a timidez e a insegurança eram tão fortes…. O medo de falhar.  Então percebi que a única maneira que tinha para ultrapassar esse estado era sair de mim. Ter a humildade de perceber que aquilo que fazia era muito mais importante do que o medo que sentia. E isso ajudou-me imenso.

Hoje é coisa  adquirida?
Tem sido aos poucos, como disse. Às vezes tenho retrocessos, às vezes volto a alguns medos, não é? Às vezes olho para o público, está lá uma pessoa que eu gosto imenso ou por quem tenho grande admiração, um actor, um escritor, e começo a pensar “ah, e agora?” mas depois acabo por dar a volta.

Quando cantar na Gulbenkian, no fim de Julho, com a Orquestra, poderá ter um bocadinho desse receio?
Vou trabalhar. Vou trabalhar, vou dar o meu melhor… Mas vou ter medo claro. Bem, mas é  diferente. É um medo que não me tolhe tanto.

Falei da orquestra e já falou dos seus músicos, o que nos tranquiliza: haverá  com certeza fados ao som daquele genial José Manuel Neto…
Claro! O espectáculo intercalará doze temas de orquestra, com doze temas de guitarra e viola.

Para além do que o define e de que já falamos — um trabalho de procura sério, a inovação, a sua humildade — tropecei numa palavra no seu curriculo que também pode defini-lo: a versatilidade. Uma capacidade de antecipar o que pode vir a ter qualidade artística, de agarrar em ideias, poemas e pessoas diversas entre si, antevendo como podem funcionar bem. Como fez com o Laginha por exemplo: agarrou nele e foram capazes de produzir uma espécie de um milagre em cima de um palco, entre o piano dele e a sua voz. Ou a capacidade de arriscar o tango com uma orquestra, ou cantar Eugénio de Andrade… e por aí fora. Uma mistura de curiosidade, risco, experimentação que conduz à tal versatilidade. E tudo isto sempre para levar o fado mais longe e mais fundo?
O fado é o fado! A minha ideia nunca é sair dele ou afastar-me, eu só sou cantor porque sou fadista. Aprendi a cantar, porque tinha de aprender a cantar fado.

E porque acha foi assim? Paixão, vocação, destino? Provavelmente nem há resposta?
Não sei. Acho que talvez tenha a ver com um estado, uma determinada forma de cantar, de entoar. E então, sinto um prazer enorme de cantar essas coisas que não são fado, mas sempre, sempre, com esse lado fadista a pegar nelas. Por exemplo, aqueles temas de tango que mencionou agora e de que gostei imenso, cantei-os como costumo cantar…

Relembre lá isso…
Foi no espectáculo que fiz com a Metropolitana, no S. Luis. Sou fã de um cantor argentino chamado Roberto Goyeneche, adoro-o, sou fanzíssimo dele, e resolvi cantar alguns temas dele. Um deles, “La Ultima Curda”, é dos mais tradicionais que existem mas tem muito a ver com o fado, cantei-o aliás como canto os meus fados. Mas antes disso procurei um pianista que também aprecio muito, o Daniel Schvetz, para me ajudar. É que na altura, eu tinha uma dicção meia estranha, não era muito bom naquele espanhol com sotaque argentino, e então ia para o Conservatório, às dez da manhã, cantar com o Schvetz a tocar e ensinar-me como entoar com o sotaque certo.

Ir para o Conservatório as dez da manhã aprender o sotaque argentino mostra quer a tal humildade, quer a tal versatilidade a que eu aludi.
Sim, mas a ideia era só aperfeiçoar a dicção. Foi só uma pequena coisa, para aquele tango. A minha música é realmente é o fado E aquelas outras coisas, canto-as como canto os meus fados.

Pode haver algumas paredes-meias entre o fado e o tango, a dor, o ciúme, uma melancolia fininha?
Sim, mas o tango é mais extrovertido. O fado é uma emoção contida, o tango é mais… Um cantor de tango que cantasse um fado, um triste fado, partia-se todo no chão.

Um dia mostrou-me umas fotos suas, uma com a Amália, e outra com o Vicente da Câmara e a Maria Teresa de Noronha onde figurava em garoto, com 12, 13 anos. Conhecia-os, ouvia-os?
Ah, eu adorava-os a todos! Ouvia os fados deles e de todos os grandes fadistas, de resto, desde muito cedo. Em nossa casa havia todos esses discos. O meu pai e a minha mãe gostavam, depois começaram a gostar ainda mais por causa de mim. Aliás comecei a cantar primeiro do que eles…

… que eles? Também cantavam?
Cantavam. Eu queria tanto ir cantar aos fins-de-semana que o meu pai começou também a cantar, mais tarde a minha mãe, e anos mais tarde os meus dois irmãos.  O meu pai cantou com guitarra e viola dois anos depois de eu me ter estreado.

Maria Teresa de Noronha, Vicente e Camané (Arquivo pessoal do artista)

Arquivo pessoal do artista

Toda a família? Um dia apareceu certamente alguém a pedir-lhes para fazer uma coisa a cinco, num palco?
Não, não. Isso é um lado que eu recuso, nunca quis ir por aí. A minha forma de estar e de cantar fado sempre foi solitária, nunca foi uma coisa de família, não tem muito a ver… Os meus pais eram amadores, os meus irmãos têm outro percurso. Mas… sim houve uma vez em que fizemos uma pequena brincadeira, aliás duas vezes. A primeira foi todos juntos num espectáculo há uns anos, a outra ocorreu numa homenagem à Celeste Rodrigues. Dois pequenos episódios apenas.

E como é que chegamos as fotos com a Maria Teresa de Noronha e a Amália sendo você quase uma criança…
Foi assim: os meus pais levavam-me aos fados, tínhamos o costume de ir a Alcochete onde havia uma colectividade onde se cantava.  Na noite da foto, quem tocava guitarra era o José António Sabrosa — marido da Maria Teresa de Noronha — e eu cantei um fado com música dele mas cantei-o muito bem, eles gostaram imenso

… mas que idade tinha?
Doze, talvez. E fizemos essa foto. Na outra em que estou com a Amália, também devia ter uns doze, treze anos, foi numa festa dedicada ao Marceneiro no Arreda, em Cascais, mas tive vergonha de lhe ir falar. Era tão envergonhado, não fui capaz, mas com a Amália, consegui vencer a timidez, fui falar-lhe, dei-lhe um beijinho e cantei. E pronto. Mas como eu gostava deles e como os admirava!

Amália Rodrigues com Camané (Arquivo pessoal do artista)

Arquivo pessoal do artista

Fez um disco de homenagem ao Marceneiro.
A música do Marceneiro  é incrível! Ele sabia música, fazia maravilhas… Aquele fado “Cravo”, a sua maneira de compôr, a personalidade melódica que ele tinha, o “Fado Bailado” que todos os grandes fadistas cantaram, a Amália, o Carlos do Carmo, o João Braga, o João Ferreira Rosa… todos! E depois aqueles poetas que escreveram para ele, o Linhares Barbosa, o Carlos Conde, o Silva Tavares, esses tipos eram muito mais do que simples letristas, ainda ninguém lhes deu o valor que merecem, escreviam melhor do que toda a gente e para um músico extraordinário, como o Marceneiro, um génio! Como é que ele conseguia fazer aquelas músicas?

E como é que Camané apareceu em cima de um palco dirigido pelo Felipe La Féria, aí pelos anos noventa?
Comecei por entrar na “Grande Noite”, um programa televisivo. Estava a cantar no Faia e alguém foi lá ouvir-me e, pronto, acharam que tinha potencial e fui. Cantei numa “Grande Noite”, e depois noutra “Grande Noite” e a seguir fui convidado para fazer a peça “Maldita Cocaína” com o Filipe. Cantava dois fados e estive praticamente quase um ano nessa peça…

"Comecei por entrar na “Grande Noite”, um programa televisivo. Estava a cantar no Faia e alguém foi lá ouvir-me e, pronto, acharam que tinha potencial e fui. Cantei numa “Grande Noite", e depois noutra “Grande Noite" e a seguir fui convidado para fazer a peça “Maldita Cocaína” com o Filipe. Cantava dois fados e estive praticamente quase um ano nessa peça..."

Como foi?
Aprendi muito, é verdade, mas não era a minha forma de estar. Percebi que não era aquilo que queria. Ajudou-me a ser mais responsável, a ir para cima do palco, a pensar doutra maneira, mas não era o meu caminho e por isso não voltei a fazer. Mas ajudou muito. Ainda fiz o “Cabaret” no Politeama e mais uns dois ou três a seguir.

É alguém que ouve muita música. Ópera. Gosta muito, não é?
Oiço ópera, jazz, rock, até hip-hop. Gosto de tudo. Pude assistir a muitas coisas boas. Calhou. Tive sorte.

Se olhar para trás, entre tantos êxitos e experiências interessantes dentro do fado, é possível escolher, eleger algum momento em particular ou a sua carreira tem sido um rio a correr?
Isso, um rio a correr… Mas gostaria de dizer isto outra vez: a coisa de que mais gosto é de cantar fado, ir para cima dum palco, uma guitarra, uma viola e cantar. Se é fado, está tudo bem. Por exemplo, o Laginha pega no Mouraria ou numa coisa do Oulman, no “Sei de um Rio” ou mesmo num fado tradicional, o “Menor” por exemplo, e de repente ele toca isso tudo no piano como se tivesse uma guitarra e uma viola… Ou às vezes, de repente, há uma orquestra que pega num fado tradicional e faz um arranjo que funciona, acompanhando também a guitarra portuguesa e é uma maravilha. Desde que seja fado, está tudo bem. É a minha forma de expressão, não é?

Num concerto, com a sua imagem de sempre. António Cotrim/LUSA

Antonio Cotrim/LUSA

É a sua forma expressão mas falta aí qualquer coisa que me é constantemente referida por muitos fadistas seus colegas — ainda há dias o João Braga me falava nisso — e que é muito a sua forma de estar no fado mas também na vida, a sua generosidade. Eles dizem que o Camané é alguém naturalmente generoso e naturalmente delicado para com todos eles.
Sim, sou, mas a verdade é que tenho um enorme respeito por eles todos. Falou agora no João. O João Braga é uma das minhas grandes referências. Há fados que o João faz, há “voltas” que ele dá e que aprendi com ele.  Estou a lembrar-me de fados tradicionais — o “Esmeraldinha”, a forma de entoar o “Mouraria” — que também aprendi com ele. E com o Marceneiro, e outros a Amália, o Carlos do Carmo. E o Fernando Maurício e Maria Teresa de Noronha e o João Ferreira Rosa…

Fala dos maiores e dos melhores…
Mas se os ouvi, se aprendi com eles? Tinha alturas que passava os dias inteiros a ouvir Carlos do Carmo, outro dia inteiro só a Amália, outro, o João Braga… Tenho um disco dele — onde está a “Esmeraldinha” — que ficava doido a ouvir. A poesia, a maneira como ele cantava…

"Tinha alturas que passava os dias inteiros a ouvir Carlos do Carmo, outro dia inteiro só a Amália, outro, o João Braga... Tenho um disco dele -- onde está a “Esmeraldinha” -- que ficava doido a ouvir. A poesia, a maneira como ele cantava..."

Não me lembro do “Esmeraldinha”, cante um bocadinho…
“Loucura de te não ver como eu te via/ com esses olhos teus da cor do mar”. Eram maneiras diferentes de cantar entre todos eles mas com bom gosto e ao mesmo tempo antigas! Antigas, mas sempre novas. Eternas: daqui a cinquenta anos estas maneiras de cantar ainda serão novas.

O que pede ainda à vida?
Que me dê a possibilidade de fazer aquilo que gosto, que é ir para cima dum palco e cantar o fado. Mais nada. E é isto.

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