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Carlos Tavares trabalhou durante 43 anos na indústria automóvel
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▲Carlos Tavares trabalhou durante 43 anos na indústria automóvel

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Carlos Tavares trabalhou durante 43 anos na indústria automóvel

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carlos Tavares em entrevista ao Observador: "Não podemos aceitar que Portugal se torne num parque de férias para os outros europeus"

Problema da Europa é não acreditar na mudança. Problema de Portugal é não levar as coisas até ao fim. Carlos Tavares lamenta decisão "emocional" dos líderes europeus na indústria automóvel.

O país do quase, o país da burocracia, mais disposto à mudança dos outros europeus e que pode ser a Califórnia da Europa. Carlos Tavares, um dos mais destacados empresários portugueses a trabalhar na Europa, oferece uma perspetiva, ao mesmo tempo, portuguesa e mundial, dos desafios que Portugal enfrenta.

Com uma carreira internacional de 43 anos no ramo automóvel, tendo sido, até recentemente, CEO da Stellantis — grupo que detém marcas como Fiat, Opel e Peugeot  —, e cuja saída não aborda em entrevista ao Observador, tem um olhar crítico sobre a falta de visão política dos líderes europeus. Entrevistado no âmbito do projeto Clube dos 52, em que o Observador desafiou especialistas em várias áreas a partilhar as suas reflexões sobre o país que teremos na próxima década, o empresário e engenheiro automóvel lamenta decisões “emotivas e dogmáticas” no setor e questiona a dependência nacional económica do turismo.

Olha-se muitas vezes para os problemas portugueses, mas menos para o que pode ser o futuro da Europa e da indústria europeia. Vem desta última. O que é que se está a passar para, na Europa, haver um pessimismo?
Várias coisas se estão a passar, mas uma das primeiras realidades que me parece importante é o facto de a Europa ser uma região do mundo em que se fala muito de mudança desde que a mudança esteja reservada aos outros. Ou seja, a Europa não encara a mudança como uma possibilidade credível.Eu acho que este é o ponto essencial: a agilidade mental. Neste contexto europeu, Portugal está um pouco mais bem posicionado, porque é um país, um povo que historicamente foi confrontado com incógnitas. A nossa história dos descobrimentos é um mundo de incógnitas, como por exemplo, no momento em que os nossos barcos saíam de Lisboa e iam descobrir o mundo, em condições de ignorância sobre o que iam encontrar. A relação com o risco e com a mudança do nosso povo português é um pouco diferente da do resto da Europa, que tem uma característica muito forte: uma rejeição muito importante de tudo o que é mudança.

Mas porquê? Receio do risco?
Receio de perder a riqueza que tem. E quanto mais se receia perder a riqueza, mais rapidamente esta se perde, porque o mundo está em mudança permanente. Não se adaptar ao mundo quer dizer ser-se vítima do darwinismo. Se não nos adaptarmos ao mundo, vamos criar problemas que vão conduzir a menos riqueza para o povo europeu. O povo europeu tem um desafio muito grande pela frente: ou nos adaptamos a um mundo que está a mudar e podemos preservar o nosso modo de vida e riqueza; ou não nos adaptamos e vamos perder essa riqueza e a qualidade de vida. Desse ponto de vista,  este é um desafio muito importante para os líderes políticos europeus. Neste contexto europeu, Portugal e o povo português, através da nossa história, temos um ADN que está mais bem posicionado — embora não seja perfeito — para encarar as incógnitas e as mudanças.

Mesmo assim, eu não diria que o gosto pelo risco, o gosto por empreender seja assim tão elevado em Portugal, porque em Portugal parecem existir duas coisas. Uma é aquela famosa última palavra dos Lusíadas que é “inveja”. Olha-se para o parceiro e quer-se ter apenas o que o parceiro tem. Ou deseja-se que ele não tenha, para nós também não termos.  Por outro lado, somos um pouco mais atreitos ao risco, mas pouco atreitos à ambição. Estamos no país onde nunca se leva tudo até ao fim. Onde se fica sempre a meio, seja do que for. Onde é difícil ter grandes empresas, é difícil ter grandes reformas. Como alguns historiadores dizem, nós não fazemos reformas, só fazemos revoluções. Quando a coisa fica muito mal, é preciso uma revolução. Depois, ficamos outra vez à espera até se fazer outra revolução. França não é muito diferente…
Eu acho que a França, nesse aspeto, é bem pior. Para completar o que está a dizer, diria o seguinte. Primeiro, o nosso país pode ter ambição. Há vários domínios, que nós conhecemos, em que portugueses estão a ter um grande sucesso no estrangeiro. Portanto, não há razão para que não possamos ter uma grande ambição.

Não só é uma burocracia enorme, mas cometemos o erro de pensar que, pondo uma camada de online por cima da burocracia, iríamos resolvê-la
Carlos Tavares

O problema é: porque é que não o têm em Portugal?
Posso dar-lhe duas razões. A primeira é uma questão de valores. Como disse e muito bem: a questão do quase. Nós somos o país do quase. Está quase bom, está quase feito, está quase pronto, está quase a horas. É tudo quase e, portanto, temos de trabalhar coletivamente para atingir esse nível de rigor em que o quase desaparece dos nossos compromissos. Podemos começar pelos compromissos profissionais, podemos começar pela pontualidade, podemos começar por muita coisa. Por exemplo, fazer com que os documentos estejam bem redigidos à primeira e que não se tenha de rever três ou quatro vezes. Somos um país do quase. O quase está a afastar-nos da perfeição que é necessária para a competitividade. Obviamente, a perfeição nunca se atinge, porque o 100% não existe, mas temos de nos aproximar desse nível. Se conseguirmos coletivamente pôr esse país do quase de lado e todos juntos formos à procura de um rigor e de uma perfeição, já será um ponto muito importante. O segundo ponto é: porque é que em Portugal não se pode ser tão ambicioso? Pode-se ser, mas nós temos uma característica que está muito clara para os que regressam ao país. (Como é o meu caso que há três anos regressei a Portugal e estou agora a tratar dos meus negócios cá, os meus pequenos negócios em Portugal.) Nós somos o país da burocracia. Isto está-se a tornar uma asfixia.

Qualquer obra em Portugal precisas de, mais ou menos, 15 carimbos

Ainda pior que França…
Muito pior. Não só é uma burocracia enorme, mas cometemos o erro de pensar que, pondo uma camada de online por cima da burocracia, iríamos resolvê-la. Obviamente, só complicamos ainda um pouco mais essa burocracia.

A origem dessa burocracia não é um outro defeito, a desconfiança? A ideia de que, se não houver 300 paraquedas, vai haver corrupção. Depois acabamos por criar uma burocracia que facilita a própria corrupção. Talvez não a grande, mas a pequena corrupção.
Exatamente. Para qualquer obra que queira fazer cá em Portugal vai ter de alinhar, mais ou menos, 15 carimbos. Nós sabemos que, infelizmente, a corrupção existe. Infelizmente, não a tratámos como devíamos ter tratado e fragmentámos todos os processos para que cada um deles possa ser controlado. Isso está-se a traduzir numa asfixia da sociedade.

Não temos um projeto e um destino político para a Europa. Não sabemos a que nível de integração europeia é que queremos chegar. Não há visão para uma Europa unificada.
Carlos Tavares

Quando se quer empreender qualquer coisa em Portugal é-se esmagado pela carga burocrática de documentação, certificação, papéis, documentos, etc. Isso está a abafar a nossa sociedade. Eu acho que isso é um problema muito grave para todos os jovens que queremos manter no nosso país, nomeadamente aqueles a quem oferecemos um nível de educação bastante elevado. Se queremos guardar estes jovens para que criem valor cá no país, temos de facilitar a gestão de empresas e a criação de novos negócios, reduzindo essa carga burocrática. Não pensando que, ao acrescentar uma camada online, se vai simplificar tudo o que está por baixo. Não vai simplificar nada, vai só acrescentar uma camada. Eu posso sublinhar essas duas dimensões que mencionou. O “país do quase” é um problema que coletivamente podemos tratar, procurando cada um de nós, nos atos quotidianos, um pouco mais de rigor. Acho que isso é acessível. A segunda dimensão — que, temos de reconhecer, é muito mais difícil para os nossos governantes — é reduzir o nível de burocracia. Tendo em conta que, ao mesmo tempo, também queremos reduzir o nível de corrupção. Portanto, menos corrupção, menos burocracia. Como é que podemos encontrar uma solução para isso?

epa11270589 Stellantis CEO Carlos Tavares during the inauguration of the new production department for electrified eDct transmissions within the Mirafiori Automotive Park 2030 which also includes the battery technology center, the circular economy hub and the Green Campus, in Turin, Italy, 10 April 2024.  EPA/Alessandro Di Marco epa11658128 CEO of Stellantis Carlos Tavares poses next to the C5 Aircross Concept Citroen car during the Mondial de l'Auto – Paris Motor Show 2024 in Paris, France, 14 October 2024. The 2024 Paris Motor Show showcases hundreds of vehicles from 14 to 20 October 2024.  EPA/YOAN VALAT GettyImages-2175549960

Alessandro Di Marco/EPA

Isso não será um mal europeu? Não estará a Europa viciada em regulamentação? A regulamentação obrigatoriamente implica burocracia, para qualquer coisa há um regulamento. Imagino que na indústria onde trabalhou, na indústria automóvel, seja verdadeiramente um inferno. Isso também complica a própria inovação, porque o regulamento não prevê o que é novo.
Exatamente, tem toda a razão. Podemos, aliás, olhar para essa realidade de um ponto de vista ainda mais afastado. Hoje, não temos um projeto e um destino político para a Europa. Não sabemos a que nível de integração europeia é que queremos chegar. Não há visão para uma Europa unificada. Isso põe-nos numa situação em que há uma competição — para não dizer uma guerra — entre as instâncias de Bruxelas e os Estados-membros. Estão em competição, a nível de regulamentos. Os estados para guardarem o seu poder e a União Europeia para lhes conquistar mais poder, forçando a integração. Essa tensão é um combate. Qualquer chefe de Estado, de portas fechadas, vai confirmar isto. E um certo número de Estados resistem a isto, porque não há visão do destino político para a Europa. Essa burocracia também vem desse complemento de regulamento que está a ser criado pelos líderes europeus.

O sistema só se reforma pela miséria ou pela guerra. Obviamente, não temos interesse em nenhum desses dois casos.
Carlos Tavares

Mario Draghi fez recentemente aquele famoso relatório em que faz duas grandes propostas. Simplificando, uma é desregulamentar. De alguma forma, fazer desaparecer muitos desses regulamentos. Por outro lado, ter mais dinheiro. As duas coisas, à primeira vista, até podem ter um lado contraditório. Havendo mais dinheiro, há mais vontade de controlar a forma como esse dinheiro se gasta. Nós estamos a viver, neste momento, os dramas da aplicação dos fundos da famosa “Bazuca”. Contudo, não é só em Portugal, é em quase todos os países da Europa. Quase todos os países estão a dizer “precisamos de tirar camadas da burocracia, porque senão não conseguimos sequer gastar o dinheiro que temos para gastar”.
Exatamente.

Afastar a classe média da liberdade de movimento é muito grave

Há aqui uma tensão que, provavelmente, quando chega às empresas ainda é sentida de forma maior. Por exemplo, indo para o seu caso concreto, a indústria automóvel, porque para a Europa é uma indústria muito importante. O que é que está a acontecer para aparentemente estar a ter dificuldades em resistir à China, um país que nem a indústria tinha?
Primeiro, talvez para pôr um ponto nesta primeira parte da discussão, há a questão da falta de destino político para a Europa, que põe os líderes europeus em situação de competição com os líderes políticos nacionais. Este combate está-se a traduzir num excesso de regulamentação, que está a asfixiar as nossas sociedades e a desencorajar aqueles que poderiam ser empreendedores, que poderiam criar riqueza e valor para as sociedades. Esta situação tem a sua raiz na falta de visão política para a Europa. O que é que a gente quer fazer? Queremos ser os Estados Unidos de Europa? Queremos fazer outra coisa?

O muitíssimo respeito que eu tenho pelo relatório do senhor Draghi, não me faz ignorar o facto de que esta visão política para a Europa não existe. Enquanto este destino não existir, vai haver uma competição regulamentar entre os Estados-membros e Bruxelas. Essa competição regulamentar vai-se traduzir em mais burocracia, mais asfixia, menos empreendedores e menos riqueza criada. O sistema só se reforma pela miséria ou pela guerra. Obviamente, não temos interesse em nenhum desses dois casos.

O que está a acontecer na indústria automóvel é um magnífico exemplo disto. Foi algo que começou com uma decisão tomada depois da batota do grupo Volkswagen de 2015 com as emissões dos veículos diesel. A nível europeu, a reação política dessa batota foi extremamente violenta e emocional. Era muito difícil que as consequências dessa batota fossem só dirigidas ao grupo Volkswagen, porque atrás do grupo Volkswagen está a Alemanha. A Alemanha na Europa quer dizer alguma coisa. Não se podia fazer com que essas consequências fossem unicamente dirigidas para esse grupo automóvel, foram dirigidas para toda a indústria automóvel europeia.

A decisão dogmática e emocional dos líderes europeus de impor a tecnologia elétrica encurralou a classe média europeia. A classe média não pode comprar veículos elétricos 40% mais caros do que os veículos térmicos, porque não tem essa capacidade

A partir de 2018, foi uma sucessão de decisões dogmáticas e emocionais tomadas por líderes políticos com um trabalho muito difícil. Tomaram — aí está o grande erro —uma decisão de natureza científica. Os líderes políticos sábios sabem que, se não forem científicos, não devem tomar decisões científicas. Não devem impor uma tecnologia, devem impor um resultado de emissões em redução, mas não a tecnologia que permite atingir esses resultados.

A tecnologia deve ser escolhida pelos engenheiros e os mais inteligentes, os mais competentes vão escolher a tecnologia que tem a eficiência mais elevada para o custo mais baixo. Essa decisão dogmática e emocional de impor a tecnologia elétrica encurralou a classe média europeia. A classe média não pode comprar veículos elétricos 40% mais caros do que os veículos térmicos, porque não tem essa capacidade para pagar os 40% adicionais da diferença de custo entre as duas tecnologias.

Estamos simplesmente a afastar a classe média da liberdade de movimento, que é uma decisão de uma gravidade enorme. Não se pode limitar a liberdade de movimento das classes médias europeias, porque esse é o fundamento da democracia moderna. A partir daí, chegam os chineses a dizer “nós sabemos fazer os carros elétricos por um preço muito mais competitivo, porque o nosso sistema de criação de valor é muito diferente”. “Nós, os chineses, somos capazes de vender os carros elétricos ao preço dos carros térmicos, dando à classe média acesso ao carro elétrico”.

Está aqui um conjunto de consequências, de decisões dogmáticas mal tomadas, que depois tentam ser corrigidas com tarifas de importação aos veículos chineses, que obviamente vai criar uma grande inflação, dentro da bolha europeia. Isto não faz nenhum sentido. Não é racional, é emocional. Não é totalmente eficiente, embora possa ter o seu nível de eficiência. Mas a um custo muito elevado que a sociedade europeia já está com dificuldades para pagar.

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Tarifas contra os veículos chineses vai criar inflação

Mas não é só com os chineses que isto está a acontecer. A cota de mercado dos americanos também mudou completamente na Europa, nos últimos anos, precisamente pela oferta de veículos elétricos.
Claro.

Aí, não houve só a questão do preço que, nos últimos anos, foi relevante, mas também, eventualmente, os processos de inovação, que foram diferentes.
É verdade. A Tesla beneficiou de todo aquele período que se chama o quantitative easing — taxas de juros zero ou mesmo negativas — em que era mais importante ganhar cota de mercado do que criar lucros. O período de desenvolvimento da Tesla, com todas as inovações tecnológicas, que são uma realidade, fez-se quando se podia encontrar dinheiro a custo zero e com resultados financeiros que durante vários anos foram brutalmente negativos.

Mas isso também tem a ver com o modelo de financiamento da indústria nos Estados Unidos. Um modelo que não é baseado na banca, mas baseado na bolsa, digamos assim para simplificar. É completamente diferente: não se cria dívida, partilha-se risco.
Isso é uma outra dimensão que é difícil abordarmos hoje, mas os capitais estão muito mais disponíveis nos Estados Unidos (EUA) do que na Europa. A perspetiva de retorno dos capitais nos EUA é bem superior à da Europa. Poderíamos discutir porque é que o retorno sobre os capitais na Europa é mais baixo do que nos EUA. Há muitas razões, uma das quais é a burocracia, outra pode ser a regulamentação. Há muitas razões que provavelmente o senhor Draghi abordou no seu relatório.

O que podemos dizer é que essa decisão emocional — que devia ter sido feita sobre os resultados em termos de emissões e não sobre o tipo de tecnologia que os permite atingir — é um erro fundamental. Esse erro não permite à classe média o acesso à liberdade do movimento dos carros elétricos de zero emissões. É uma decisão de uma gravidade extraordinária. Para absorver esses 40% de custo adicional, foi posta em prática a reestruturação das empresas e de todos os fornecedores de peças automóveis que se está a traduzir num drama social com o qual somos agora confrontados.

Muitas falências, muita redução de postos de trabalho, que são consequências diretas de todos esses erros. Depois veio a tentativa de correção com as tarifas contra os veículos chineses que é uma medida de que não funciona porque vai criar inflação, dentro da bolha europeia.  E vai criar obviamente uma reação da parte da China sobre outros produtos que os europeus gostariam de exportar para a China. Não podemos esquecer que a balança do comércio europeia é positiva. Somos uma região exportadora. Se vamos por esse caminho, vamos perder a nossa capacidade de exportar aquilo que fabricamos.

Linha de montagem na fábrica de automóveis, Auto-Europa, em Palmela. 31 de Maio de 1996.Manuel Moura / Lusa

Manuel Moura/LUSA

Falámos muito de indústria “clássica”, mas fica-se às vezes com a sensação de que países como Portugal se tornaram porventura excessivamente dependentes de uma indústria mais recente, a indústria do turismo. Com clientes que já não são apenas europeus a circular entre os países, com muitos clientes que vêm de fora da Europa. E Portugal está na cabeça do touro no que respeita a esta indústria. Há futuro para isto?
A indústria turística é um dos primeiros postos de criação de riqueza do nosso país. Para já, se estivermos a pensar qual é o Portugal que queremos para 2050, poderíamos pensar em qual é a cota de criação de riqueza proveniente do turismo que queremos. Não podemos estar totalmente dependentes do turismo. O exemplo da Covid está aqui para nos demonstrar que isso potencia uma posição muito perigosa. Mas não deixa de ser uma indústria muito importante que temos todo o interesse em desenvolver para turistas com poder económico, porque são esses que vão deixar aqui mais riqueza quando aqui passarem x dias, na sua volta europeia. Obviamente, são estes turistas que nós queremos atrair. Neste momento, são turistas mais da América do Norte e da América do Sul.

Já sabemos quais são os recursos que temos cá no nosso país. Os nossos recursos são a nossa qualidade de vida. Os nossos recursos são, antes de tudo, o famoso jardim à beira-mar plantado

Portugal pode ser a Califórnia da Europa

Já tivemos mais japoneses do que temos hoje, mas começamos a ter chineses.
Começamos a ter chineses. Tudo isto deveria conduzir a uma reflexão: Qual é o Portugal que queremos para 2050? Hoje, não podemos aceitar a ideia, que Portugal se torne em 2050 num país que é um parque de férias para os outros europeus. Devemos ter uma outra ambição para nosso país mais do que este de ser unicamente um sítio onde se pode passar boas férias, com um bom serviço e boa segurança. Sim, é muito importante que assim o seja, mas esta não pode ser a única ambição que temos para o país. Há uma outra dimensão que é óbvia. Portugal pode ser a Califórnia da Europa. Pode ser um sítio onde a criatividade, as novas tecnologias se desenvolvem, num contexto de segurança, num contexto de climático muito equilibrado, num contexto de qualidade de serviço, que se pode melhorar, e num contexto em que as infraestruturas são já de um bom nível, mas que ainda podem melhorar. Eu acho que essa visão para o país em 2050 é a pergunta que nós deveríamos fazer aos nossos líderes políticos, que têm um trabalho muito difícil. Não quero criticá-los, acho que a missão deles é realmente muito difícil. Qual é o Portugal de 2050 que queremos? É a Califórnia da Europa? É simplesmente um país que tem 40% da sua riqueza criada pelo turismo, ou seja, que passa a ser o centro de férias do resto da Europa?

Turismo em Praia de Lagos durante a pandemia causada pelo vírus Sars-Cov2

Getty Images

Primeiro falámos da Florida da Europa, depois da Califórnia da Europa. Eu interrogo-me hoje, olhando para o que se está a passar nos Estados Unidos e para as suas migrações internas, se não devíamos estar a pensar em ser o Texas da Europa — mesmo sem petróleo?
Já sabemos quais são os recursos que temos cá no nosso país. Os nossos recursos são a nossa qualidade de vida. Os nossos recursos são, antes de tudo, o famoso jardim à beira-mar plantado. Acho que temos todo o interesse em proteger esse jardim. Proteger a coesão da nossa sociedade, que é o fundamento da segurança que temos neste país, e promover a educação científica. Para que uma boa educação científica com boas infraestruturas, num país seguro com uma qualidade de vida muito elevada, se possa tornar num centro de criação de valor. Isso vai equilibrar a nossa pegada da criação de riqueza. Para que essa pegada não seja totalmente desequilibrada no sentido do turismo. Obviamente, temos de o desenvolver, é do nosso interesse. Mas isso não quer dizer que no PIB português, em 2050, o turismo represente 50%. Não, isso não nos interessa. Tem de representar um montante mais elevado, mas numa repartição equilibrada por outros fatores de criação de riqueza.

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