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Ex-ministra e ex-deputada, Ana Mendes Godinho assumiu candidatura a Sintra e diz que é o seu "plano A", indiciando que não ficará se perder eleições.
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▲Ex-ministra e ex-deputada, Ana Mendes Godinho assumiu candidatura a Sintra e diz que é o seu "plano A", indiciando que não ficará se perder eleições.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Ex-ministra e ex-deputada, Ana Mendes Godinho assumiu candidatura a Sintra e diz que é o seu "plano A", indiciando que não ficará se perder eleições.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Carpool com Ana Mendes Godinho: "Quando o candidato do PSD diz que não tem linhas vermelhas com o Chega é um alerta total para todos nós"

Candidata do PS/Livre a Sintra "é pouco adepta de músculos", em resposta a Marco Almeida e fala no "risco" de cedência à extrema direita. Neste Carpool diz que já fez "reset" do chumbo do seu acordo.

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Um desacerto inicial faz com que a candidata vá parar à estação da Tapada das Mercês, para o arranque do Carpool, quando a partida era no Pego Longo”. Aparece no sítio certo pouco depois, ao volante do seu carro: “Não faz mal, aproveitei para fazer campanha”. Ana Mendes Godinho concorre a Sintra para tentar suceder a 12 anos do independente eleito em lista do PS, Basílio Horta, e usa a tática do copo meio cheio para evitar criticar a gestão anterior, quando confrontada com as carências sociais que persistem no território.

Para já, o que parece estar cheio em Sintra é o cofre da autarquia, que tem um orçamento de 400 milhões de euros para o próximo ano. É essa a volta que a cabeça de lista da coligação do PS com o Livre dá para elogiar Basílio e dizer que é por ter “condições financeiras” que pode “apresentar um projeto com uma grande ambição do ponto de vista de investimento estrutural, seja na habitação, seja na higiene urbana, no investimento no espaço público, na segurança, seja também na cultura e no investimento na educação”.

Do outro lado tem Marco Almeida (AD) e Rita Matias (Chega) e entre os dois nota parecenças, apontando sobretudo o dedo ao candidato da AD onde vê “uma cedência total ao discurso de extrema direita”. Acusa Marco Almeida de “não ter linhas vermelhas com a extrema direita” e que isso “é mesmo um perigo neste momento para a nossa democracia.” Quanto ao PS, quer manter-se afastado de radicalizações, o que até se notou na resistência local ao acordo com o Livre — que o PS-Sintra chumbou, tendo o caso sido avocado a instâncias superiores para passar. A candidata garante que o episódio está ultrapassado, mas não desmente que tenha esticado a corda até ao limite da ameaça da demissão para que o acordo se mantivesse.

“O meu objetivo é ter 10 mil casas até 2030”

Estamos aqui no Pego Longo, uma paragem que foi uma escolha sua porque há aqui uma obra em construção, de habitação municipal, mas que foi primeiro projetada para ser habitação temporária, por Basílio Horta, e agora propõe a reconversão para habitação jovem. A gestão PS estava desfocada do problema central e afinal faz falta outra coisa aqui?
Escolhi este sítio por ser simbólico, para mostrar como, neste momento, temos as condições de investimento em curso para responder e dar o salto de que Sintra precisa. Aqui há dois investimentos estruturantes: habitação, 34 apartamentos de habitação de promoção pública, e uma creche que foi financiada por uma linha do PRR que lancei enquanto ministra — dá-me algum orgulho ver acontecer e mostra bem o investimento estrutural de que o país precisa, de que Sintra precisa. E também esta lógica do investimento estrutural que começou a ser feito e que acho que é mesmo essencial dar-lhe mais ritmo. Este é o exemplo de uma construção pública financiada no âmbito da estratégia local de habitação, pelo PRR, que está a ser construída e desenhada com o objetivo de alojamento urgente e temporário. O meu objetivo é aproveitar este investimento que está a ser feito no âmbito do PRR e transformá-lo em arrendamento acessível para jovens. Acho que cada vez mais o que nós precisamos é de ter arrendamento que responda também aos jovens e à classe média e que permita uma real integração das pessoas e não a criação de guetos.

Este é um concelho com muitas necessidades sociais. Não se corre o risco de destapar essa parte pondo o foco no arrendamento jovem?
Neste concelho é determinante encontrar respostas à habitação. É um dos grandes problemas que o concelho tem. É um problema mundial, é um problema do país, é evidente. Aqui no concelho é um problema que precisa de uma resposta de emergência. Aquilo que já está previsto e que já está em curso, como eu disse há bocado, 1.600 fogos por parte de investimento da Câmara Municipal. O meu objetivo é ter, até 2030, 10.000 casas a custos e rendas acessíveis aqui no concelho. Naturalmente envolvendo diferentes tipos de respostas.

Há uns anos, para o mesmo tempo de um mandato, Fernando Medina tinha um objetivo de construir 6 mil casas em Lisboa. Certo que houve a pandemia pelo meio, mas não conseguiu nem mil.
Os tempos mudaram, nomeadamente até em termos de construção. Hoje em dia tem métodos de construção muito mais rápidos e tem processos de licenciamento muito mais ágeis.

O suficiente para essa ambição?
Tem do licenciamento da habitação, que permite até a isenção de licenciamento, nomeadamente por parte da promoção da Câmara Municipal. Nas 10 mil casas, o meu objetivo é ter 2.200 de promoção por parte da Câmara, no fundo para garantir que existe um parque habitacional público de 2%, igual à média nacional; 2.800 com mobilização de casas vazias que existem no concelho neste momento. O que pretendo implementar é um programa de apoio aos senhorios para a realização de pequenas obras, de dez mil euros por cada casa, para que as casas possam voltar a entrar no mercado de arrendamento com rendas acessíveis. Terceira dimensão, são cinco mil casas com promoção imobiliária, através de cooperativas, parcerias com cooperativas e com o sector privado, e aqui assumindo mesmo uma lógica de uma via verde para licenciamento para habitação, porque é mesmo um programa de emergência e aqui também com compromissos e objetivos de realização em curto espaço de tempo. Hoje em dia, com construção modular, consegue fazer habitação em cerca de 12 meses. E, portanto, é possível. É preciso foco, planeamento e mobilização.

Em termos financeiros, Sintra não é um concelho que tenha problemas. Basílio Horta deixa uma situação financeira confortável. Há até críticas da oposição e de alguns sintrenses sobre uma quase obsessão de pôr as contas da autarquia em ordem e de ter sobrado pouco para investimento. Ao ser tão bom aluno na disciplina de finanças, chumbou noutras disciplinas sobre matérias sociais?
Se hoje consigo apresentar um projeto com uma grande ambição do ponto de vista de investimento estrutural, seja na habitação, seja na higiene urbana, seja no investimento no espaço público, seja na segurança, seja também na cultura e no investimento na educação, é porque tenho as condições financeiras do ponto de vista do orçamento que o permite fazer. Não o poderia fazer há 12 anos porque há 12 anos a Câmara estava com um défice elevado que não lhe permitia fazer investimento nenhum. Neste momento, esse investimento é possível, por isso é que eu também procurei ter aqui um programa muito estruturado daquelas possibilidades de resposta.

Mas houve ou não esse descurar de algumas respostas sociais ao nível de infraestruturas e até de melhoria dos serviços públicos no concelho de Sintra? Foram 12 anos de gestão socialista, há-de estar no terreno a responder por eles.
Estou diariamente no terreno e é muito interessante estar sempre a ouvir as pessoas e as grandes preocupações que têm, os sonhos que têm, as sinalizações que me vêm dizer, “faça isto, faça aquilo”. Aliás, isso é o que me move diariamente. É mesmo esse serviço às pessoas que adoro e depois acabo por ter muito eco do terreno porque dou o meu telemóvel a todas as pessoas com quem me cruzo e são as próprias que me vão sinalizando aquilo que consideram que é prioritário.

Deve estar inundada de chamadas ou não?
Nem por isso, porque as pessoas gerem e usam o número quando sentem mesmo que é preciso usar o número. É interessantíssimo essa reação das pessoas e é uma fonte de informação extraordinária, uma grande leitura do terreno, que é aliás isso que eu gosto muito. Mas há 12 anos estava tudo por fazer e eu neste momento sinto que tenho as condições que me permitem, como disse há pouco do ponto de vista até orçamental, assumir aqui prioridades estruturais do ponto de vista de investimento e dar o salto que eu acho que Sintra neste momento está em condições para dar.

"A polícia de proximidade tem de passar mesmo a ter essa função. Hoje em dia é terra de ninguém a fiscalização da sobrelotação de apartamentos, e eu considero que é mesmo um problema de saúde pública,de segurança pública e acima de tudo é um problema de dignidade humana"

“Quero portagens zero para residentes, trabalhadores e empresas”

O orçamento para este ano é de 400 milhões de euros.
405 milhões de euros, 150 milhões de euros são de investimento. E 250 milhões de euros, estou a dizer de uma forma arredondada, são em termos de despesa corrente. Mas nós construímos as prioridades em função mesmo do raio-x do terreno e aquilo que são as preocupações que as pessoas têm sinalizado e que eu acho que são reais e que nós temos que encontrar resposta. A questão da habitação e a questão da mobilidade, que é decisiva e crítica. E aqui, nós apostamos muito, agora estamos aqui a entrar na A16, acho que é o momento certo até para falar disto.

Sim, para falar da mobilidade e das portagens que quer que passem a ser zero para residentes e empresários.
Residentes, trabalhadores e empresas com sede no concelho de Sintra, portanto, dar vantagem às empresas que estão no concelho e eliminar-lhes o constrangimento associado aqui ao custo das portagens. No âmbito da mobilidade, apostamos em duas dimensões: melhorar o transporte público, que é crucial, na ferrovia e transporte rodoviário; a gratuitidade da A16, que é fundamental e essencial se olharmos para os números. Nós temos cerca de 130 mil veículos a circular diariamente no IC19, temos 30 mil a circular na A16 e isto mostra bem que eliminarmos as portagens para os residentes, trabalhadores e para as empresas do concelho de Sintra, pode, de facto, permitir desconcentrar o IC19, que é um problema gravíssimo para todos.

Como é que isso se operacionaliza? Com registo da matrícula?
Isto operacionaliza-se através de uma parceria com a Via Verde em que há a capacidade de identificação e associação das matrículas dos residentes, dos trabalhadores e dos veículos de empresas do concelho de Sintra e que permite, depois, ter uma conta corrente que identifica aqui as matrículas e depois o valor associado à circulação destas matrículas.

Qual é o custo desta medida?
É uma medida com impacto orçamental fortíssimo, é um investimento fortíssimo, mas que eu assumo mesmo que é decisiva e transformadora de vidas. O valor que nós temos estimado para esta medida é cerca de 18 milhões de euros, este é o valor limite que temos assumido.

E quanto é que se paga no máximo em portagens?
Se fizer o trajeto todo, cerca de 5 euros diários, portanto este é o cálculo para quem faz todo o troço, naturalmente só estamos a pensar no troço relativo à parte abrangente pelo concelho de Sintra, que é isso que nós assumimos como prioridade. O objetivo é que esta seja uma medida assumida pelo Orçamento de Estado e tudo faremos para que isso seja assim, mas consideramos que é tão importante que esta deve ser um fator crítico e deve ser assumido como prioridade total do concelho, porque pode facilitar a vida a milhares de pessoas e pode, nomeadamente, também garantir a desconcentração e a sobrecarga que existe no IC19. Porque senão isto é um desperdício também, até do ponto de vista de investimento público, aqui nesta via da A16.

Mas não entra em contradição com a sua política de mobilidade, de promoção do transporte público?
Por isso é que lhe disse que nós tínhamos duas grandes apostas.

A questão é precisamente se isto não está a dar um sinal contrário com a outra política, porque no fundo está a promover o uso do transporte particular.
Isto é uma medida decisiva para a mobilidade e esta é a minha grande prioridade, a mobilidade das pessoas. As pessoas não podem gastar tempos sem justificação no trânsito ou nos transportes públicos. Temos aqui 400 mil pessoas no concelho que têm direito de ter mobilidade compatível com o século em que nós vivemos. E mobilidade que tem que ter as duas dimensões. A dimensão do transporte individual é uma realidade para muitas pessoas. Disse-lhe há pouco, 130 mil utilizam o IC19. A par disto, grande aposta no transporte público e coletivo. A linha de Sintra, mais de 100 anos depois de ter sido inaugurada, tem que ter a capacidade de funcionar como uma linha metropolitana. Nós temos uma base extraordinária do ponto de vista da infraestrutura, ela tem que funcionar como uma linha metropolitana e não suburbana.

Como é que funciona?
Tem que funcionar não com movimentos pendulares, mas com movimentos regulares permanentes, em que a pessoa assume a linha do comboio de Sintra como uma forma até de circulação normal dentro do concelho. Tem que ter uma frequência regular previsível, que garanta confiança às pessoas, de 10 em 10 minutos ao longo de todo o dia e não só nos picos dos horários do início do dia e do final do dia, até porque os próprios horários de trabalho mudaram e têm uma diferença bastante grande, muitas pessoas a viverem com regimes de trabalho de trabalho híbrido, e que permite, nomeadamente, até diferenças de horário de trabalho. No fundo é aquele exemplo do RER em Paris, que obriga a uma mudança de mentalidade da forma como a linha é encarada. Segunda grande dimensão, também em relação ao transporte coletivo, é uma maior ligação dentro do concelho e maior adaptação aos horários. Muitas vezes os horários não está ajustado aos turnos das empresas e da elaboração contínua, por exemplo, e aqui temos que ter um sistema que garanta que há esta capacidade de ajuste em função das necessidades das pessoas e com maior capacidade de resposta rápida. Segunda dimensão, termos ligações diretas, nomeadamente, reforçadas entre concelhos, no fundo que permitam alternativa quando há, por exemplo, greves de comboio.

No país não há muitas câmaras com este desafogo financeiro. A questão é se isso também se pode repercutir em alívios fiscais. Tem propostas nesse sentido? 
A maior preocupação que eu tenho, e aliás o nosso programa está desenhado em função disso, é mesmo em termos de investimento estrutural que o concelho precisa. Ao longo destes 12 anos houve, aliás, uma grande diminuição em termos dos impostos municipais relativamente aos quais o concelho de Sintra tem a capacidade de gestão

E, portanto, aí já não há mais margem para ajustes?
Certamente haverá margens para ajustes, mas a minha grande preocupação é mesmo em termos de investimento estrutural. A nossa grande prioridade coletiva do município é mesmo investimento, como lhe disse, na habitação, na mobilidade, na segurança, e aqui temos grandes medidas do ponto de vista de reforço da segurança.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Só há verdadeira liberdade se a pessoa se sentir segura”

Estamos agora na Tapada das Mercês, mais um dos pontos em que escolheu passar. Qual a intervenção que planeia para esta estação?
É uma estação que acho que também é simbólica do ponto de vista daquilo que nós queremos fazer. A aposta na linha de Sintra, para ser uma linha metropolitana, mas também a requalificação das estações, para as transformar em pontos vivos, centros de vida. Queremos garantir que tenham gabinetes da Polícia Municipal na estação, garantindo aqui a segurança, mas ter também gabinetes de atendimento ao munícipe nas estações onde passam cerca de 150 mil pessoas por dia nas estações de comboio, e transformá-los em espaços vivos, nomeadamente com espaços de co-working, com espaços de comércio, dar-lhes vida. Estas estações ao longo da linha, muitas delas são desperdícios, mas são desperdícios do ponto de vista até de espaço. E a partir aqui da Tapada-Mercês nós queremos ter um BRT, um autocarro expresso direto a ligar ao metro da Pontinha, permitindo aqui uma alternativa ao transporte.

Com medidas como essa de ter polícia permanente nas estações, não está só a responder a uma agenda populista, que o Chega, por exemplo, tem seguido em alguns territórios do país e neste também. Porque, na verdade, o concelho não está sinalizado como tendo problemas de criminalidade grave e violenta. 
O investimento na segurança é mesmo decisivo. Ando aqui muitas vezes na rua, aliás estamos aqui na Tapada das Mercês, e essa é uma das preocupações que me sinalizam.

Tem sentido isso? Vive no concelho?
Eu não vivo no concelho, vivo em Lisboa, mas desde fevereiro que todos os dias estou diariamente na rua com as pessoas a visitar os bairros.

Mas sente essa insegurança? Hoje em dia responde-se à perceção de insegurança, mas isso não é gastar recursos com uma coisa que não é real?
Não, considero que é mesmo prioritário investir na segurança e na segurança de proximidade, nas respostas de proximidade. Ando muito aqui na rua, aliás ainda a semana passada estava aqui na Tapada das Mercês, e veio uma senhora ter comigo falar da questão da insegurança e alertar para duas questões transversais, na perceção que as pessoas têm, não só perceção, que aqui temos realidade concreta, que é a questão da higiene urbana. As pessoas sinalizam, e cheias de razão, que é preciso encontrar formas de responder à higiene urbana e ao lixo, mas também em relação ao que me pedem de respostas em termos de investimento na segurança. É por isso que defendo passarmos a ter gabinetes da Polícia Municipal nas estações, onde passam muitas pessoas, e porque nos garante que a presença é dissuasora de outros tipos de comportamentos, passarmos a ter duas novas esquadras da Polícia Municipal no concelho, e passarmos a ter equipas da Polícia Municipal com proximidade nas freguesias. Hoje em dia não existe e faz mesmo a diferença, em termos de gestão do espaço público, até dos comportamentos na gestão do lixo, dos comportamentos de utilização do espaço público. É um transmissor de sentimento de confiança da população, que eu acho que é mesmo fundamental, a confiança na segurança é um elemento decisivo da nossa democracia.

Mas não há, até pelo crescimento do Chega, uma cedência a essa agenda, e fala até nos municípios em geral, mas neste muito em particular. Sentiu esse apelo?
O investimento na segurança acho que não tem a ver com cedências, pelo contrário, acho que é uma resposta ao reforço da confiança dos cidadãos na segurança, que é um fator crítico e decisivo da democracia. Acredito mesmo, e tenho usado essa mensagem, que Sintra tem que ser o concelho que transporta e que é a porta da esperança dos cidadãos, mas para isso temos mesmo que garantir o reforço de toda a confiança na democracia e de reforço dos valores que são essenciais para a liberdade. Só há verdadeira liberdade se a pessoa se sentir segura, se a pessoa sentir que as suas respostas à habitação, à educação, ao investimento no espaço público, aos serviços públicos, que estão na base da liberdade, funcionam. Por isso é que acredito que tudo o que seja reforço no investimento social, no investimento estrutural, naqueles que são as condições para a pessoa ser livre, são determinantes para o reforço da democracia, e é por isso que eu acredito mesmo que o investimento na segurança é determinante.

É o segundo concelho do país com o maior número de população imigrante, nas últimas legislativas o Chega, com um discurso mais conservador e nacionalista, foi a primeira força política neste concelho. Ouviram-se muitas críticas à construção desta mesquita que temos aqui ao nosso lado. Como é que justifica à população, quando contacta na rua, que haja disponibilidade financeira para investir numa infraestrutura religiosa quando, na verdade, há carências habitacionais e as pessoas fazem essa queixa
Legislativas e autárquicas não têm nada a ver do ponto de vista de expectativa das pessoas. Acho que as pessoas nas autárquicas votam em função também da confiança que têm nas pessoas em concreto para resolver os problemas que sentem no seu dia a dia.

Também é um desejo que tem, que não se repita o que aconteceu nas outras legislativas…
E o que eu sinto na rua, em termos de perceção. Está a ir atrás de uma fake news, de uma notícia falsa.

Eu sei que a mesquita não foi feita com fundos do PRR.
Não, não, nem com financiamento público. Portanto, há aí um equívoco.

A primeira pedra foi posta por Fernando Seara, mas o terreno foi uma cedência municipal. É legítima a dúvida das pessoas neste contexto, neste território, ou não?
O que eu tenho visto é TikToks a dizerem que a mesquita foi financiada pelo PRR e por dinheiros públicos.

Há reportagens com pessoas desta zona a falar e com esse desconforto. A minha questão é como é que se responde a isto.
A mesquita tem uma história já longa, aqui no concelho, mas que também reflete o facto de ser um concelho multicultural, um concelho de tolerância de integração, historicamente de tolerância de integração. Neste momento vivemos momentos preocupantes do ponto de vista da nossa democracia, em que são criados bodes expiatórios e elementos perturbadores com informações falsas para que as pessoas fiquem com informações e perceções erradas. Respondo às pessoas com o que estou aqui para fazer. Porque o meu objetivo e a minha missão aqui no concelho é responder aos problemas reais que as pessoas me sinalizam.

E esse não é o problema real que é sinalizado aqui, é isso que está a dizer?
O problema da habitação é um problema real, o problema da limpeza é um problema real, o problema da segurança é um problema real.

A questão da multiculturalidade está bem resolvida nos sintrenses?
A necessidade de encontrarmos respostas para uma integração das pessoas é um problema real. E acho que é mesmo, e por isso é que eu assumo esta necessidade, por exemplo, de encontrarmos forma de termos resposta para as necessidades, por exemplo, de creche. Há 10 mil crianças no concelho com idade de creche, de 0 a 3 anos. Há 4 mil lugares instalados de creche. Este é um problema real, não tem a ver com imigrantes. É um problema real de falta de capacidade para os residentes. Depois em torno disto criam-se fake news.

Tem conseguido explicar isso? Mesmo que esteja a dizer que autárquicas e legislativas não são a mesma coisa, aqui em Sintra o Chega ultrapassou o PS e o PSD, com esse discurso.
As pessoas têm problemas reais para os quais é preciso resposta. O que é que eu assumo com as pessoas? O meu pragmatismo de não colocar a cabeça na areia, enfrentar os desafios e os problemas e responder. Estou aqui no concelho de Sintra com a cabeça e com os dois pés completamente mergulhados. Um pé do ponto de vista de investimento estrutural nas respostas aos problemas reais, que eu acho que são mesmo reais e que estou cá para lhes dar resposta. Seja do ponto de vista, como disse há pouco, da higiene urbana, da segurança, da resposta às creches. Eu tenho um programa aqui para o concelho de Sintra para garantir 6 mil novos lugares de creches. Eu sou a mulher que implementou a gratuitidade das creches no país e que consegui, enquanto ministra, em três meses, abrir 10 mil novos lugares de creches. Portanto, eu sei que é possível, porque com a construção modular faz-se uma creche em nove meses, é preciso só foco e planeamento. E respondendo ainda à questão que estava a dizer, nomeadamente de terrenos e das pessoas perceberem a utilização do património público. A minha grande prioridade é mesmo colocar o património ao serviço da população. E com estes investimentos que tenho previsto, seja na habitação, seja nas creches, seja na resposta, por exemplo, aos mais velhos e aos idosos, aquilo que eu tenho neste momento é um levantamento do património do município, seja de terrenos, seja de edifícios.

Por outras palavras, acaba por assumir que a gestão do PS nos últimos anos também falhou em algumas respostas sociais que fizeram com que outros partidos viessem explorar essas queixas, essas carências das pessoas.
O que estou a dizer é que a sociedade está a mudar muito rapidamente, com necessidades reais que estão a transformar-se diariamente. E o que eu assumo, e essa é a minha forma de vida, é encontrar respostas com capacidade de implementação rápida, que respondam às pessoas, até para resolver os seus problemas. Para a Tapada das Mercês tem um programa de investimento fortíssimo, seja em termos de higiene urbana, seja em termos de presença da Polícia Municipal, com proximidade, seja de investimento em novas creches, seja do ponto de vista de mobilidade, como lhe disse há pouco, aliás, de uma ligação direta da estação da Tapada para o metro da Pontinha. As pessoas precisam de respostas. E eu acho que é essa resposta que permite que as pessoas se sintam confiança na capacidade de resolução dos seus problemas.

"Não sei o que quer dizer 'autoridade musculada'. Sou pouco adepta de músculos. Sou mais adepta de proximidade e de racionalidade e de colocarmos o nosso corpo e alma ao serviço"

“Marco Almeida não tem linhas vermelhas com a extrema-direita”

Vamos entrar aqui no bairro do Cabeça da Fonte.
É o exemplo de um bairro dos anos 90, aqui do concelho de Sintra, em que aquilo que assumo é ter um programa que se chama Os Nossos Bairros. E o objetivo aqui é, com a tal proximidade, dando competências às juntas de freguesia para capacidade de resolução mais rápida e com mais proximidade, ter aqui programas de investimento focados nos bairros, em colaboração com as associações de moradores. E aliás, aqui estamos a chegar ao Antigo Mercado, onde está uma das associações de moradores do Cabeço da Fonte, para procurar ter aqui um programa integrado de reabilitação e investimento de requalificação do espaço público. Como aqui no mercado, que estamos aqui a ver à direita, um polo cultural, isto faz parte de um programa que assumimos, que é passar a ter redes de pontos culturais em todas as freguesias, no fundo tendo espaço onde os artistas, os jovens possam encontrar para poder utilizar equipamentos, até poder usar os espaços para eventos culturais ou mesmo para partilha de equipamentos musicais. E ser também a partir destas parcerias com as associações de moradores que realizamos investimentos de proximidade, nomeadamente até com os gestores de bairro.

O seu adversário mais direto, Marco Almeida (PSD), tem falado na necessidade de uma “autoridade musculada” no concelho. Isto faz falta a Sintra?
Não sei o que quer dizer “autoridade musculada”. Sou pouco adepta de músculos. Sou mais adepta de proximidade e de racionalidade e de colocarmos o nosso corpo e alma ao serviço.

Marco Almeida tem um discurso sobre as questões da multiculturalidade e de costumes e que é preciso disciplinar, por exemplo, as lojas de conveniência estarem abertas até mais tarde.
Sinto aí sim, uma cedência total ao discurso de extrema direita e eu acho que é mesmo esse o risco que está em causa nestas eleições aqui no concelho de Sintra, por isso temos que ser à porta das esperança e não deixar que essa radicalização e que essa cedência à extrema direita. Aliás, como já foi referido, que não tem linhas vermelhas com a extrema direita, é mesmo um perigo neste momento para a nossa democracia. E eu acredito muito que é no equilíbrio, é na capacidade da sociedade acreditar em si que consegue encontrar formas de resolução. É na aposta, na gestão do bairro e no investimento do bairro que se gere, se reforça e que se constrói a democracia.

Como é que se responde a questões muito concretas que existem como situações de subaluguer de apartamentos?
A polícia de proximidade tem de passar mesmo a ter essa função. Hoje em dia é terra de ninguém a fiscalização da sobrelotação de apartamentos, e eu considero que é mesmo um problema de saúde pública, é um problema de segurança pública e acima de tudo é um problema de dignidade humana.

Bom, também é uma intervenção musculada, não?
Não, não, é de proximidade, é o contrário, está a ver que é mesmo exatamente de proximidade. Musculada faz-me lembrar os regimes totalitários, que eu acho de má memória e a que ninguém quer voltar. Até me assusto só de ouvir isso. Eu não tenho medo de apostar verdadeiramente no investimento social e no investimento na capacidade de respostas dos equipamentos sociais, do espaço público às pessoas, porque é isso verdadeiramente, e também a lógica da polícia de proximidade, porque é isso que permite a dissuasão e a prevenção de comportamentos que sejam desconformes com as regras. Acho que essa proximidade da polícia é fundamental nesse sentido, não na lógica persecutória, mas na lógica de prevenção.

E uma câmara deve despejar as pessoas, por exemplo? O que é que se deve fazer com estas situações de ilegalidade e de construções ilegais?
Acho que nunca se deve deixar que elas aconteçam, isso deve ser prevenido e deve haver uma capacidade de intervenção a priori.

Por vezes não há tempo para haver essa intervenção a priori.
Acho que há exemplos bons de capacidade de intervenção a priori. O pior que nós podemos ter são situações de informalidade e de ilegalidade. Aliás, eu como ministra apostei muito nisso, quando criámos um programa especial para integração e acolhimento de refugiados ucranianos, que foi de um sucesso brutal, porque aquilo que nós conseguimos foi, a partir do momento em que as pessoas se inscreviam numa plataforma, garantíamos que tínhamos informação sobre as pessoas que estavam a vir para Portugal.

Ainda assim, o nível de tolerância de quem está no país com esse tipo de situações de refugiados de guerra é diferente com imigrantes, por isso é que eu lhe estou a perguntar qual é que deve ser a ação de um presidente de Câmara face a essa construção ilegal que nasce do dia para a noite, muitas vezes sem prevenção, e sobre a questão do subaluguer. Há fiscalização da polícia, mas qual é que deve ser a intervenção? Despejar as pessoas?
Eu acho que muitas vezes existe a sensação de impunidade, de que não há controlo sequer sobre esse tipo de situações, e esse tipo de situações são completamente indignas e têm que, mesmo por parte da sociedade, merecer uma censura. Então têm que ser criados mecanismos de real integração.

Mas e às pessoas, o que é que tem de acontecer especificamente, à pessoas? Por exemplo, aquilo que fez em Loures o autarca socialista que foi tão criticado?
Eu estou a falar concretamente das pessoas, vou-lhe dizer um exemplo concreto, nas escolas, o que é que está a acontecer é que há uma enorme variedade e diversidade multicultural de diferentes origens que dificulta muitas vezes a própria integração das crianças. O meu grande objetivo é haver equipas multidisciplinares nas escolas, contratadas diretamente pela Câmara, a reforçar os quadros para garantir uma real integração, e isto é um exemplo daquilo que é o investimento que temos que fazer e que deve ser prioritário, pode verdadeiramente transformar a forma como a integração.

Mas o que é que faria na situação de Ricardo Leão, em Loures? A polícia fiscaliza, identifica e depois?
Não tenho conhecimento, no concelho de Sintra, de situações de construção ilegal, porque tem havido capacidade de deteção e de impedimento que surjam situações destas. Tem havido situações de sobrelotação e ocupação ilegal e a Câmara tem encontrado soluções alternativas de alojamento temporário das pessoas. O que eu acho que tem que haver é esta capacidade de integração das pessoas, com mecanismos de acompanhamento personalizados, mas não de criação de guetos, por isso é que eu acho que não devemos ter grandes espaços de alojamento urgente e temporário, devemos ter sim capacidade de integração em soluções que sejam integradas, mas não guetizadas.

"Nos últimos 12 anos estava tudo por fazer, portanto até é curioso ouvir isso, e a requalificação dos centros de saúde foi feita exatamente nos últimos 12 anos, porque estavam num estado calamitoso"

“A competir com Rita Matias? Era o que mais faltava”

Estamos aqui a chegar ao Hospital de Sintra, uma construção recente. Os seus adversários dizem que desde que existe veio trazer uma pressão sobre as equipas do Amadora-Sintra. O novo hospital veio resolver ou veio criar um problema?
Este investimento no Hospital de Sintra só foi possível graças à capacidade de gestão orçamental, nomeadamente de conseguir afetar cerca de 60 milhões neste investimento. É o único hospital do país construído por um município que o entrega ao Estado central, precisamente para garantir a resposta à população. É um investimento desejado há décadas e basta consultar nas notícias, muitos dos que agora são contra defenderam este investimento neste hospital, certamente mudam muito de ideias ao longo das circunstâncias, talvez de uma forma muito populista. Mas eu acho que é um investimento estratégico, determinante e fundamental para o concelho. Se fosse no meu tempo teria tido a mesma decisão, acho que foi de uma grande coragem do presidente Basílio, acho que é um grande orgulho para a população e é fundamental. Agora, naturalmente, é verdade e é crítico garantir que tem médicos e enfermeiros e isso é um problema nacional, como todos sabemos. Do meu lado, tudo farei enquanto autarca, nomeadamente para ter aqui um programa de captação e de fixação de profissionais de saúde, nomeadamente com um programa especial dentro das 10 mil casas, ter aqui 200 casas para profissionais de saúde, para garantir exatamente que esse é um elemento também de atração e de fixação de profissionais de saúde aqui para o hospital. Infelizmente, no cenário em que vivemos, tivemos várias promessas eleitorais por parte do governo que resolveriam em 6 meses o problema da saúde como problema de emergência, já se viu que verdadeiramente é um problema estrutural.

Marco Almeida diz que não teria feito este projeto e que investiria mais em unidades de saúde locais. Havia aqui outro caminho?
E o que eu lhe posso dizer só é que a história já mostra o que fizeram e o que não fizeram. Nos últimos 12 anos estava tudo por fazer, do ponto de vista do investimento nos centros de saúde, portanto até é curioso ouvir isso, e a requalificação dos centros de saúde foi feita exatamente nos últimos 12 anos, porque estavam num estado calamitoso, tal como estavam as escolas públicas. Dito isto, eu considero que, além do hospital, é muito importante desenvolver outro tipo de respostas de proximidade à população, nomeadamente na área da saúde. E a proposta que eu tenho é lançar um programa de médico ao domicílio para as pessoas mais velhas, que eu acho que é mesmo fundamental, até porque permite responder, mais uma vez, nesta lógica de proximidade, sem que as pessoas tenham de sair de casa, e garantindo, aliás, uma maior capacidade de personalização da resposta.

Temos falado no crescimento do Chega, isso deixa-a alerta neste momento?
O que me deixa alerta e que aliás me move para esta missão são as causas da insatisfação das pessoas.

Foi essa insatisfação que fez com que o Chega ganhasse este relevo?
Nós vivemos tempos em que a democracia está em risco a nível mundial, basta olhar para todo o enquadramento mundial e percebemos que isto é um fenómeno internacional e mundial e para o qual todos somos convocados e todos temos que dar a nossa voz e não deixar que retrocessos aconteçam, nem que velhos dogmas voltem a imperar, nomeadamente 50 anos depois.

Mas o Chega veio impor aqui um certo e determinado ritmo, uma dinâmica diferente na abordagem que os políticos fazem dos territórios e dos problemas das pessoas?
Não sou política profissional, sou uma política de passagem e de missão, mas sempre pautei a minha intervenção política como de proximidade e de grande leitura permanente junto das pessoas. É a minha forma de vida, aliás só me faz sentido estar neste momento, nesta missão, porque acredito mesmo que a vida é muito curta e todos os dias têm que contar, todos os dias tem que fazer a diferença e tem que se justificar. Confesso-lhe agora de uma forma já um bocadinho pessoal, mudei muito, esta minha inquietude acelerou-se muito com a morte da minha mãe, em 2010. Isso levou-me a valorizar cada dia das nossas vidas como um dia em que temos que fazer a diferença na vida dos outros nesta missão de serviço. E eu acho que neste momento nós somos todos convocados para uma missão de serviço: questões essenciais que são determinantes para nos sentirmos livres, e em que a liberdade pode ser exercida, podem estar em causa.

Convoca os políticos também a uma abordagem diferente?
Nós temos essa obrigação de conseguir responder realmente às necessidades das pessoas. E também conseguir explicar às pessoas e desmontar muitas vezes os bodes expiatórios ou as conversas mais demagógicas ou populistas que se construam. Dito isto, há problemas reais nas vidas das pessoas e há alertas reais que as pessoas nos dão através dos seus votos e nós temos a obrigação como sociedade de responder.

E é mais fácil falar com elas através do TikTok? Descobriu isso ou é para fazer ali uma concorrência à sua também adversária nesta corrida, Rita Matias, que tem essa presença muito assídua?
Sempre fiz. Estou presente nas redes sociais há muitos anos, aliás comecei com uma presença muito forte no LinkedIn.

É uma rede social diferente, não é nessa que o Chega tem maior penetração, mas sim nos TikToks, os Instagram, que permitem esse diálogo mais direto com as pessoas. 
Mesmo no LinkedIn eu sempre assumi este diálogo mais direto com as pessoas, porque senti que era uma forma, um canal de chegar às pessoas de uma forma diferente, até para dar conta e mostrar o meu dia-a-dia. Às vezes, quando me perguntam o que é que fizeste no ano x, eu vou às minhas redes sociais porque acabam por funcionar até como o meu diário de vida e o meu compromisso de prestar contas às pessoas do que é que eu tenho feito. Portanto, a minha presença nas redes sociais acaba por ser isso, tenho procurado naturalmente também que as redes sociais sejam uma forma de chegar às pessoas, seja do ponto de vista de partilha de informação do meu programa, das medidas que pretendo fazer, mas também e assumi também sempre muito isso nas redes sociais como uma forma de valorizar o concelho. Fui secretária de Estado de Turismo quatro anos, e já na altura, assumi muito a presença no digital, aliás, como um instrumento poderosíssimo de promoção de Portugal.

Está a dizer que não está a competir com a Rita Matias.
Era o que mais faltava! Não tenho que competir, nem quero competir com ninguém, eu estou aqui por uma missão que assumi e acredito que as pessoas olham para mim e por mim, não é para os outros.

E o que é que aconteceu ao PS, na gestão aqui também da coligação ao PS local, assustou-se com essa presença mais forte do Chega no território e rejeitou a coligação de esquerda?
Qualquer partido democrático tem liberdade e vive, aliás, da diversidade das suas opiniões, e houve claramente aqui diferenças de opiniões sobre a estratégia que devíamos seguir do ponto de vista de autárquicas. Agora isso está completamente ultrapassado, neste momento eu acho que é interessantíssimo ver as equipas compostas por elementos do Partido Socialista e do Livre no terreno. Acho que neste momento é evidente que somos muito mais do que a soma de duas partes, somos mesmo uma proposta que acrescenta muito valor pela riqueza da diversidade do tipo de pessoas até que juntamos.

E se não tivesse sido assim com esta estratégia, o PS não poderia contar consigo como candidata? É verdade que chegou a ponderar não estar nesta corrida?
Eu tenho uma coisa na minha vida que é todos os dias faço reset e todos os dias o meu objetivo é o próximo.

Já fez reset do episódio em que quis desistir da candidatura?
Eu defini objetivos muito claros e sou muito determinada nos meus caminhos e muito focada. E tenho regras, e as regras eram claras, as regras foram cumpridas, cá estamos cheias de entusiasmo.

Foram cumpridas com a ajuda da Federação da Área Urbana de Lisboa, porque teve de ser um processo avocado para, a um outro nível, avançar-se com a coligação.
Só mostra até mais força desta grande frente de entusiasmo que está ao serviço do concelho. É uma mobilização das pessoas. Eu não sei se viu, mas nós tivemos aqui a apresentação dos candidatos, das equipas candidatas às Juntas de Freguesia na Ribafria, no sábado passado, e foi extraordinária a mobilização. A mim deu um entusiasmo brutal, cheio de centenas e centenas de pessoas, muito mobilizadas e cheias de confiança no caminho que estamos a seguir. Acho que maior prova de mobilização e de entusiasmo ninguém teve.

Não tem pena que não tenha sido possível fazer uma coligação mais alargada?
Esta é uma coligação com os valores daquilo que eu considero que é fundamental aqui para o concelho de Sintra, dos valores da solidariedade, do equilíbrio entre os princípios das respostas sociais, mas também do investimento e de procurar ter dois pés e uma cabeça, seja no investimento das respostas sociais, seja do ponto de vista do posicionamento económico e da formação do concelho, e do salto que eu acredito que o concelho está exatamente no momento certo para dar, para ser o concelho com maior crescimento na área metropolitana, para se posicionar como um dos grandes motores de crescimento económico de Portugal. E por isso acho que esta é a conjugação dos valores certos, uma coligação que mistura dois partidos, mas que eu acho que traz oxigénio aos dois partidos.

O PS está disponível para coligações, por exemplo, com o PSD para travar possíveis investidas do Chega na gestão camarária?
A minha história também fala por mim, sempre fui mulher de diálogo e de construção de soluções partilhadas para chegarmos a caminhos comuns, quando os caminhos são comuns e os objetivos são comuns. Naturalmente, tenho uma preocupação enorme, a partir do momento em que o candidato do PSD diz que não tem linhas vermelhas com a extrema direita, alerta total para todos nós. Preocupa-me imenso.

Essa postura de Marco Almeida face ao Chega fá-la ter linhas vermelhas com o candidato do PSD?
As minhas linhas vermelhas são com movimentos extremistas e com movimentos que põem em causa a democracia e que põem em causa os valores que nos unem como sociedade, os valores da extrema direita. Tenho linhas vermelhas principalmente quando fica em causa a dignidade das pessoas. Vou-lhe dar um exemplo concreto. Uma linha vermelha que eu acho inconcebível: como é que nós temos neste momento regras que impedem uma pessoa, em caso de necessidade, aceder a um hospital? Como é que nós temos pessoas que defendem neste momento que uma criança, por ser filha de um imigrante, não tem direito a refeições nas escolas? Imagine uma criança que tem o processo pendente, à espera, e neste momento não tem acesso a refeições escolares. Eu diria que isto é criminoso e viola a dignidade humana. Os meus princípios, os princípios da coligação que eu represento são os valores do humanismo e os valores de uma sociedade que encontra soluções, que não põe a cabeça na areia, que não vive em bolhas da areia da praia, e que encontra soluções concretas, focadas, mas também com rapidez.

“Tenho um plano A: ganhar a Câmara de Sintra”

Estamos a chegar ao Centro Histórico de Sintra, e ainda bem que fala dessa sua experiência no turismo, aqui há uma natural procura turística, mas quem é de Sintra queixa-se muito que isto já é uma espécie de “Disneylandia turística”. Esta descaracterização também dos espaços e dos centros históricos com esta saturação de turismo não acaba por ser contraproducente?
No Turismo lancei na altura uma estratégia baseada na sustentabilidade do turismo nas várias dimensões, ao longo do ano, ao longo do território, abrir e desconcentrar a procura e também ao nível da sustentabilidade social. Ou seja, o turismo só interessa se interessar à população. Eu acho que é evidente que nós temos que ter a capacidade de gerir as cargas do território. Eu acho que aqui no caso de Sintra, nós temos de ter a capacidade de medir a carga e de gerir a sobrecarga.

Medir a carga para fazer o quê?
Para avaliar a carga, qual é a carga que o território…

Mas só para avaliar ou para pôr ali uma portagem à entrada e pôr um limite?
Não, para avaliar a carga e gerir a sobrecarga, ou seja, as duas dimensões. E criar medidas, implementar medidas que têm a ver com gestão, seja de turistas, seja da própria mobilidade e do trânsito. Nós precisamos de ter aqui uma imposição de, por exemplo, as pessoas só visitarem o Palácio da Pena, se reservarem previamente online. Aí, no fundo, o que está a gerir é a própria expectativa das pessoas. É uma gestão racional dos sítios e é mesmo importante dar esse passo. Também acho que é fundamental termos os parques de estacionamento de entrada, com minibus que garantam o transporte dos parques de estacionamento satélites e com bilhética integrada que garanta a bilhética do parque de estacionamento, do transporte e do acesso aos principais pontos que as pessoas querem visitar. Portanto, gestão. Hoje em dia, os sítios que têm carga turística, que têm procura turística, têm que ter mecanismos de gestão de carga. Portanto, o que eu considero é que deve ser reforçado e deve haver aqui um gabinete de gestão do próprio sítio de património cultural e natural, com meios reforçados. Hoje em dia já existe, mas não tem meios suficientes para a missão que tem. E a missão tem que integrar as várias dimensões, não só dos monumentos, mas também da própria gestão da mobilidade e do espaço público integrado.

Se não as coisas não correrem como deseja no dia 12 de outubro, ou seja, se não vencer as eleições, acha que só volta a Sintra em turismo?
Eu tenho um plano A, que é ganhar a Câmara de Sintra nesta missão que eu assumi.

Não vai dizer que não vai falar do plano B.
Não, não, eu não vou lhe dizer.

Assume o lugar de vereadora ou não?
Por opção, deixei a Assembleia da República, era deputada da Assembleia da República, e assumi esta minha missão porque acredito mesmo, 360 graus, que Sintra precisa, neste momento, de uma pessoa com as minhas características para dar o salto que precisa. Portanto, de corpo e alma, todos os dias, desde janeiro deste ano, todos os dias, diariamente, converso, estou com as pessoas do concelho de Sintra nas 15 freguesias, construindo este programa em conjunto. E, portanto, eu estou cá de corpo e alma para fazer.

Se não ganhar as eleições vai ocupar o seu cargo de vereadora?
Eu tenho um plano A, que é ganhar as eleições, e isso tudo farei porque acredito que essa é a minha missão, neste momento assumi mesmo que esta é a minha missão, por isso é que também abdiquei da Assembleia da República, porque achei que a minha missão era de me entregar de corpo e alma. É isso que estou a fazer, corpo e alma, nesta missão em que eu acredito e que estou mesmo convencida que é o momento determinante em que Sintra precisa de uma pessoa com experiência nas várias dimensões, com pragmatismo, com capacidade de construção e, acima de tudo, com uma entrega total, que é isso que eu, neste momento, assumo aqui com as 400 mil pessoas que têm direito a que Sintra se afirme pela sua centralidade e não pela periferia. Foi isso que eu fui fazendo na minha vida, seja no turismo, de colocar Portugal no mapa do mundo, seja no trabalho de colocar as pessoas sempre no centro da minha intervenção, por exemplo, na pandemia, e a forma como assumi a resposta às pessoas como uma missão de vida. A vida é mesmo muito curta e tem que ser vivida com intensidade máxima. Na minha vida, aprendi um lema que me acompanha sempre, que é, “com calma e com alma”, tudo se consegue, mas, acima de tudo, com uma entrega total.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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