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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Carpool com Assunção Cristas: "Trabalharei para ser a primeira escolha à direita. O CDS nunca foi a primeira escolha"

No Carpool Observador, Assunção Cristas assume querer ultrapassar o PSD e chefiar uma coligação de direita: "Dentro desta geometria de como se dividem os 116 trabalharei para ser a primeira escolha".

Assunção Cristas entrou no Carpool do Observador na manhã deste domingo depois de uma maratona pela madrugada no congresso do partido. A líder do CDS assume na entrevista que quer uma maioria de 116 deputados de direita, mas gostava que o CDS ficasse à frente do PSD nessa equação. Depois de uma interrupção por problemas de som na transmissão em direto no site do jornal e no facebook, Cristas manteve o discurso ambicioso: “Dentro desta geometria de como se dividem os 116 trabalharei para ser a primeira escolha. O CDS nunca foi a primeira escolha. E portanto acho que é uma ambição que devemos ter. Se lá vamos chegar não sei. Mas vamos fazer tudo para lá chegar”. À chegada ao congresso, verificámos que o novo slogan era mesmo: “CDS, a primeira escolha”.

[Pode ver aqui o vídeo do Carpool com Assunção Cristas]

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Quanto dormiu esta noite?
Duas horas e pouco.

Esteve no congresso até que horas?
Até às quatro e tal. Chegámos ao hotel, e fizemos um brinde com o nosso presidente do congresso pela aprovação da moção e pelos bons trabalhos do dia de ontem. Ainda fui para o quarto reler o discurso de hoje que estava um bocadinho grande e afinar duas ou três coisas, tentar cortar um bocadinho para  não maçar em excesso. Deitar, já passava das cinco e tal da manhã.

Os trabalhos prolongaram-se por responsabilidade da Juventude Popular…
Houve alguma. A dada altura tivemos muitos jotas inscritos…

Mas iam quase todos dizer a mesma coisa…
É sinal da juventude viva, que tem menos timmings e limites de horas do que quem tem mais uns anos e precisa de dormir mais cedo. Mas ontem fiz um discurso, no final, muito curtinho, a dizer que podemos começar todos a poupar para o próximo congresso porque tem de ter duas noites. Para podermos parar para almoço e jantar e termos mais tempo para toda a gente falar um pouco mais à vontade.

"Terminou o voto útil, precisamos de 116 deputados para podermos governar CDS mais PSD. Dentro desta geometria de como se dividem os 116 trabalharei para ser a primeira escolha. O CDS nunca foi a primeira escolha."

Os jotas estavam bastantes coordenados, como se viu, para o Francisco “Chicão” Rodrigues dos Santos ser deputado. Adolfo Mesquita Nunes disse que certamente ele seria. Já tem lugar garantido em posição elegível nas listas para as próximas legislativas?
Isso de lugar garantido nenhum de nós tem. O que tenho dito sempre é que o CDS tem a sorte de ter uma juventude altamente mobilizada e dinâmica. E como acho que vamos crescer muito, haverá espaço para todos, de todas as idades e certamente para a JP.

Então vai ter mesmo o líder da jota…
Faço as coisas por etapas. Agora estamos na etapa das Europeias. Depois passamos para as legislativas. Mas acho que podemos estar tranquilos sobre essa matéria.

Vamos para europeias e para legislativas. No seu discurso de ontem disse que o sucesso se mede em votos. No entanto, estabeleceu algumas metas para o sucesso. Ser o primeiro da direita e do centro e disputar a primeira liga. Isto não é uma ambição muito alta para um partido que da última vez que concorreu sozinho teve apenas 11%?
É uma ambição alta, claro. Junto a isso um grande sentido de realismo, com os pés bem assentes na terra, sabendo que o caminho é duro e difícil, mas achando que acreditar sonhar e trabalhar para atingir o sonho é meio caminho andado para lá chegarmos. Digo para legislativas o mesmo que disse em Lisboa. Sabemos de onde partimos: de 2011 com 11%. Em 2015 não sabemos medir, mas tivemos 18 deputados (passámos de 24 para 18). Esta é a nossa base de partida atual e temos de crescer se quisermos para termos os 116 deputados de centro direita.

Se tiver menos deputados é uma derrota.
Claro que sim, estamos aqui para andar para a frente, não para andar para trás.

"Lugar garantido nenhum de nós tem. O que tenho dito sempre é que o CDS tem a sorte de ter uma juventude altamente mobilizada e dinâmica. E como acho que vamos crescer muito, haverá espaço para todos, de todas as idades e certamente para a JP."

Para ser o primeiro partido à direita tem de haver um segundo, portanto o segundo só pode ser o PSD. Está a colocar-se numa competição direta, neste caso com Rui Rio.
Coloco-me na posição de adversária direta e primeira de António Costa. Esse é o lugar onde gosto de me colocar. Costa, o PS e as esquerdas unidas são o nosso adversário. É António Costa que queremos combater. É o lugar dele que queremos retirar para termos uma alternativa de centro-direita em Portugal. Depois, digo sempre: terminou o voto útil, precisamos de 116 deputados para podermos governar CDS mais PSD. Dentro desta geometria de como se dividem os 116 trabalharei para ser a primeira escolha. O CDS nunca foi a primeira escolha. E portanto acho que é uma ambição que devemos ter. Se lá vamos chegar não sei. Mas vamos fazer tudo para lá chegar.

Há uma competição com o PSD. Há também uma grande desigualdade de forças. O melhor resultado do CDS em 1976 foi 800 mil votos. Um dos piores resultados do PSD, em 2005, foram 1,6 milhões, é o dobro. Estão numa posição muito difícil. Não está a elevar demasiado as expetativas? Uma das razões para o seu sucesso em Lisboa foi não ter levantado tanto as expetativas…
Não. Por acaso não é verdade. Disse sempre em Lisboa que partíamos com 7% e que acima disso era uma vitória e que íamos disputar a câmara. E como nas autarquias o sistema é presidencial, para ganhar é mesmo preciso ficar em primeiro. Não é como para as legislativas, em que basta somar uma maioria no Parlamento mesmo que o partido fique à frente desse somatório não tenha ganho as eleições como aconteceu com António Costa. Nesse aspeto até é mais difícil. Digo o mesmo que em Lisboa. Sei de onde parto. Sei onde quero chegar. Vamos ver até onde vamos.

E mais, diz que quer ficar em primeiro lugar, que quer ser o maior partido da direita. 
Quero ser a primeira escolha. Como disse em Lisboa…

Mas a parte de ser o maior partido da direita e do centro, vai direitinho a Rui Rio…
Não, não. Em Lisboa disse sempre, estou a trabalhar para ser a presidente da câmara. Nesse caso tinha que ficar à frente até de Fernando Medina. Não bastava ficar à frente do PSD. O objetivo ainda era mais difícil. Sei de onde parto, de 18 deputados. E sei que o resultado foi 11% quando concorremos sozinhos. Sei que é difícil crescer e que a base de partida do CDS é muito diferente de outros partidos de dimensão maior. Mas acho possível e desejável, e os portugueses merecem, que tenhamos essa ambição e trabalhemos para isso. Se lá vamos chegar não sei. Temos o PSD como partido amigo e parceiro, com quem já estivemos muitas vezes juntos em governos, e podemos voltar a estar.

"A chave de melhor resolução deste congresso foi o discurso do professor Adriano Moreira, com afirmações notáveis logo no início, explicando que a nossa base é a nossa inspiração, mas sempre vista e adaptada às circunstâncias de cada momento e ao andar dos tempos."

No congresso houve muitas referências ao PSD, diretas e indiretas, sobretudo no que tem a ver com a questão de quem faz oposição, quem é de direita, quem é de esquerda ou cobre o centro. O PSD está a deixar de fazer oposição como uma série de pessoas próximas de si foram dizendo?
Não olho para o lado, olho em frente. O tempo que tenho, a exigência que tenho neste trabalho que desenvolvemos, muito árduo, de formiguinha, de terreno, na rua, todos os dias e todas as semanas para chegar a todos os lados do país, e estar o máximo com as pessoas… não me deixa tempo para olhar para o que os outros estão a fazer…

Mas tem de olhar para o que os outros estão a fazer…
Com certeza, muitos de nós olham. Somos uma equipa, felizmente, não trabalho sozinha.

Disse ontem os outros apresentavam propostas onde o CDS tinha chegado há muito tempo… isso tinha outro destinatário direto, ao seu lado…
Não. É só mostrar o trabalho que fizemos, uma parte do meu discurso foi mostrar onde chegámos aos militantes que votaram em mim e querem saber o que fiz estes dois anos. Às vezes achamos que as pessoas sabem e não sabem. A primeira parte do meu discurso é a prestação de contas aso militantes, não exaustiva e exemplificada.

A primeira notícia que deu no discurso no congresso foi a de que ia levar o Programa de Estabilidade de novo a votos. Falou em testar as esquerdas, que já se sabe como votam. Isto é um teste ao PSD?
Nem olhei para a coisa assim, se quer que lhe diga. O meu foco não está aí, o meu foco está no PCP, BE, Verdes e PS todos unidos. Com dois ou três partidos altamente críticos do semestre europeu. No caso do PCP, até da presença de Portugal na União Europeia e zona euro.

Não é um teste ao PSD, para ver como Rui Rio vai votar o primeiro documento estratégico do Governo?
Se quer que lhe diga, vocês, jornalistas, interpretam sempre. Tenho que aprender convosco. Eu sou mais simples. O que me preocupa é combater as esquerdas unidas, combater António Costa e o seu Governo das esquerdas encostadas. E, aí, perceber como se vão posicionar no último Programa de Estabilidade, que não é um qualquer, é o que baliza o Orçamento do Estado, que também não é um qualquer. É o Orçamento de Estado de um ano eleitoral e, portanto, vai ser interessante. Não que tenha dúvidas sobre o desfecho da votação, mas politicamente é sempre importante obrigar a que isso aconteça, que os partidos se posicionem e que fique registado de que lado estão.

"Mas há uma coisa que sinto, que até comento com o Pedro Salgueiro, nosso assessor de imprensa, que tem a ver com o facto de eu querer delegar. Ele diz: "Se não fores tu os jornalistas não vão". E eu digo: 'Mas não posso ser sempre eu'. 'Mas se não fores tu eles não vão e a mensagem não passa'"

Falando de posicionamentos, houve uma dicotomia neste congresso. A questão do pragmatismo, que até elogiou e defendeu no seu discurso — como querendo chegar a mais gente e abrir o partido, no sentido de crescer –, e uma parte do partido mais conservadora, uma direita mais tradicional que clamava por uma ideologia mais marcada do partido. Acha que isto ficou resolvido no congresso ou a tensão mantém-se?
Penso que ficou resolvido, mas esse é um tema recorrente, no CDS e noutros partidos. A chave de melhor resolução deste congresso foi o discurso do professor Adriano Moreira, com afirmações notáveis logo no início, explicando que a nossa base é a nossa inspiração, mas sempre vista e adaptada às circunstâncias de cada momento e ao andar dos tempos.

Lembra-se do professor Adriano Moreira ter sido muito critico do Governo de que fez parte? Não olhava para o governo como democrata-cristão…
Não olhava… mas, como vimos, tivemos um momento notável e particularmente comovente quando o professor Adriano Moreira disse “a nossa presidente”. Senti-me absolutamente comovida e emocionada por receber essa referência. Acho que foi muito bonito, e foi também muito bonito dar posse ao Senado. Nós falamos do envelhecimento ativo e temos de o chamar para dentro de portas. Chamar os mais experientes para partilharem connosco a sua visão. Sabe que entrei para o CDS com 32 anos, professora universitária e mãe de três filhos, e muito pouco interessada em discussões ideológicas ou doutrinárias. Mas muito interessada em coisas práticas. Aquilo que sinto e digo sempre é que lá fora as pessoas gostam ou não de nós pelas soluções que apresentamos, por aquilo que dizemos, pelo tom que usamos, e com certeza que as nossas propostas são diferentes, porque têm uma inspiração diferente, das do PCP ou do BE.

Dentro do seu partido percebe porque é que a jota é mais à direita do que a direção?
Acho que isso é natural nas juventudes partidárias. São sempre mais radicais do que as direções dos partidos. No caso dos partidos mais à esquerda mais radicais à esquerda, no caso dos partidos da direita mais radicais à direita.

Filipe Lobo d’Ávila anunciou que ia sair do Parlamento e apresentou uma lista ao Conselho Nacional…
O que é bom porque assim continua ligado ao partido e aos espaços próprios de discussão.

Mas ele fez algumas críticas nomeadamente sobre o facto de ser um partido unipessoal, muito centrado na sua imagem, um reparo antigo no CDS. Aceita essa crítica?
É uma critica recorrente, mas não creio que fosse justa quando se fazia ao Paulo Portas, e também acho que no meu caso não é justa. Trabalho muito em equipa. E como se viu ontem temos muitos e bons políticos, bem preparados. Mas há uma coisa que sinto, que até comento com o Pedro Salgueiro, nosso assessor de imprensa, que tem a ver com o facto de eu querer delegar, querer que vá pessoa A, ou B ou C falar sobre determinado assunto em vez de ir eu e ele diz: “Se não fores tu os jornalistas não vão”. E eu digo: “Mas não posso ser sempre eu”. “Mas se não fores tu eles não vão e a mensagem não passa”. Portanto, muitas vezes eu própria me vejo impelida em estar mais vezes e falar mais do que aquilo que até gostaria. Mas é porque há uma exigência de passar a mensagem. Isso é difícil, de facto, para nós, e tento furar sempre que posso. Como há sempre competição entre os vários partidos nos temas, se uns apresentam líderes para umas coisas e outros não, depois uns passam e outros não passam. Por isso é sempre um equilíbrio difícil. O que importa é que temos muita gente boa, bem preparada, a trabalhar muito nas várias áreas e que vai aparecendo bastante

O que vai fazer hoje de novo? Vai apresentar novas propostas?
Hoje de novo vou realçar os três pilares fundamentais das nossas preocupações para estes dois anos: a demografia, o território, com especial ênfase para as alterações climáticas. Estamos a ver isto: o alerta vermelho no litoral, o mar a galgar e o drama da seca. Que continua a ser drama. Isto cai água, mas a seca é estrutural e vai ser estrutural cada vez mais, infelizmente. E certamente as questões da economia, de uma economia digital, de uma economia que nos convoca para desafios e para adaptações que se forem assumidas e preparadas funcionam certamente muito melhor. Portanto, falarei sobre isso e pode ser que haja mais uma outra novidade. Mas para isso temos de esperar pelo discurso.

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