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Lobo-terrível criado pela Colossal Biosciences
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Colossal

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CEO da Colossal: "Ninguém celebra que tirámos ADN com 72 mil anos e fizemos estas crias". Mas não, o lobo-terrível não foi desextinto

A empresa de Ben Lamm modificou genes de um lobo e disse ter recuperado o lobo-terrível da extinção de forma "funcional". Desvaloriza os artigos científicos de que os "investidores não querem saber".

Ben Lamm é o fundador da Colossal Biosciences, a empresa que esta semana apresentou Rómulo, Remo e Khaleesi como crias de lobo-terrível, uma espécie extinta há 13 mil anos. Há nove meses, o empresário que fez fortuna no ramo do software tornou-se pai. “Quando comecei a querer ter filhos, criar outra empresa igual pareceu-me aborrecido, e quis fazer algo com um impacto maior”, conta ao Observador. “Agora temos o poder para ajudar a construir e dirigir vida, muito do mal que fizemos ao planeta pode ser desfeito, e isso é inspirador.” Através da empresa criada em 2021 com George Church, professor de Genética em Harvard e que considera “o pai da biologia sintética”, inaugurou o que chama de desextinção funcional e tenciona, além do lobo-terrível, criar mamutes, dodôs, tigres-da-Tasmânia, e o seu maior sonho, um dugongo-de-Steller, “um manatim do tamanho de uma baleia caçado até desaparecer”. Porém, os especialistas ouvidos pelo Observador recusam que qualquer das crias agora mostradas ao mundo seja um animal desextinto.

Avaliada em 10 mil milhões de dólares (9 mil milhões de euros) em janeiro, a Colossal conta com investidores como Thomas Tull, o produtor dos filmes Jurassic Park, a socialite Paris Hilton, o realizador Peter Jackson, o ex-jogador da NFL Tom Brady e o ator Chris Hemsworth nas suas fileiras, bem como George R. R. Martin, o criador de A Guerra dos Tronos que até partilhou no seu blogue uma fotografia com uma das crias — não tivesse sido este lobo celebrizado nos seus livros e na série que se seguiu. “Pensámos que seria porreiro porque não havia uma homenagem aos fãs e as pessoas ficaram mesmo tristes quando há cinco anos os cientistas disseram que os lobos-terríveis não eram lobos e estavam errados“, diz Ben Lamm. “Agora fizemos a análise que prova que o eram.”

Genes de lobo foram geneticamente modificados

As primeiras duas crias, Rómulo e Remo – como os gémeos fundadores de Roma – nasceram a 1 de outubro de 2024. Khaleesi tem agora dois meses. Para chegar até elas, foi extraído e sequenciado material genético encontrado em dois fósseis: um dente com 13 mil anos, e um osso do ouvido interno com 72 mil anos.

Segundo a Colossal, após comparação com os genomas de canídeos vivos hoje em dia, como lobos e chacais, foram identificadas por meio de bioinformática as variantes de genes específicas dos lobos-terríveis. “Juntamente com abordagens melhoradas para recuperar o ADN antigo, estes avanços computacionais permitiram-nos resolver a história evolucionária dos lobos-terríveis e estabelecer a base genómica para a desextinção — especificamente para selecionar com confiança variantes genéticas específicas dos lobos-terríveis que estabeleceram os nossos alvos para edição genética”, congratulou-se Beth Shapiro, diretora científica da Colossal, que se concentrou em traços relacionados com o tamanho, a musculatura e a cor, textura e comprimento do pelo.

"Agora temos o poder para ajudar a construir e dirigir vida, muito do mal que fizemos ao planeta pode ser desfeito, e isso é inspirador."
Ben Lamm, fundador da empresa Colossal

De seguida, foram feitas 20 edições em 15 genes do lobo, selecionado como o parente mais próximo do extinto. “Descobrimos que podemos transformar um lobo num lobo-terrível, que tem o mesmo fenótipo. Tem a mesma cor, a textura do pelo, a ‘juba’. É maior, mais forte, mais alto. Tem mais músculo. E podemos fazer tudo isto com 20 edições”, diz Ben Lamm ao Observador. Não se trata de um trabalho de “copiar e colar” ADN antigo dos lobos-terríveis no genoma dos lobos; mas sim da edição de alguns genes. As células com o genoma editado foram então clonadas e transferidas para óvulos de cadela aos quais foi tirado o núcleo, onde se encontrava o genoma. Neste “buraco” foi colocado o núcleo das células editadas e, finalmente, quatro embriões viáveis foram implantados em cadelas da raça hound.

Segundo o The New York Times, nasceram quatro crias. Uma morreu com uma rutura no intestino, mas a autópsia descartou uma mutação genética como a causa.

Desextinção: investigadores recusam, fundador da Colossal não desarma

Os chamados lobos-terríveis divergiram dos lobos para duas espécies diferentes há cerca de 2,5 a 6 milhões de anos. Partilham 99,5% de semelhança genética — mas, a título de exemplo, o ser humano também tem 96% de semelhança genética com o chimpanzé.

Porém, Ben Lamm advoga que a Colossal descobriu que os lobos-terríveis são mais próximos dos lobos do que alguma vez se pensou. “Cerca de dois terços da genealogia do lobo-terrível vem de um antepassado do lobo, cão-selvagem-asiático, e coiote, enquanto um terço vem de um grupo de canídeos muito mais antigo relacionado com os antepassados dos cães sul-americanos como o lobo-guará e o cachorro-vinagre. Esta descoberta sugere que os lobos-terríveis são muito mais ‘parecidos com os lobos’ do que se pensava devido à hibridização antiga”, lê-se no artigo científico disponibilizado dias depois de ser anunciada a descoberta, e que ainda será sujeito a revisão pelos pares. Mas, “para a Colossal, não há valor no papel. Ou se fazem lobos-terríveis ou se fazem artigos científicos em como alguém, em algum ponto, pode fazer um lobo-terrível. Os nossos investidores não querem saber dos artigos académicos”.

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“Pensava-se que os lobos-terríveis eram mais próximos dos chacais, não dos lobos. Isso está incorreto. Temos 500 vezes mais dados que todos os outros”, insiste o fundador da Colossal, que diz financiar 17 laboratórios académicos, 40 pós-doutoramentos, e 132 cientistas em projetos de PhD. “Eu tenho dois genomas completos com uma divergência genética de 50 mil anos entre eles, e temos a mais avançada análise computacional no planeta que examinou durante 18 meses estes dados. Por isso, asseguro-lhe, se alguém sabe de que é feito um lobo-terrível, somos nós.”

"Ou se fazem lobos-terríveis ou se fazem artigos científicos em como alguém, em algum ponto, pode fazer um lobo-terrível. Os nossos investidores não querem saber dos artigos académicos. "
Ben Lamm, fundador da empresa Colossal

Luís Pereira de Almeida, presidente do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, desvaloriza: “Conseguiram introduzir alguns genes, é uma coisa a meio caminho. Provavelmente foram feitos alguns genes dos muitos mais que seria preciso substituir para um verdadeiro lobo terrível”, mas é algo significativo por demonstrar “a capacidade crescente de manipularmos o genoma de uma espécie”.

“Para ser desextinção, teriam que ser criados animais viáveis na totalidade com todo o ADN” dos lobos-terríveis, concorda Albano Beja Pereira, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “Este nunca poderia ser um lobo-terrível, que era de um outro género [Aenocyon dirus], não era um canis lupus. Essa espécie é um mito. Não é com 15 genes que vou recriar uma espécie”, garante o também investigador do CIBIO.

Mas Ben Lamm não desarma. “A especiação [evolução de uma espécie que a diferencia das outras] é um conceito criado pelos humanos. Não é um argumento científico. E nós dissemos desde o primeiro dia: é impossível clonar uma espécie extinta porque não existem células vivas. Está no nosso site, chamamos-lhe desextinção funcional.” No caso do lobo, explica, “é 99,5% [em termos de semelhança genética] um lobo-terrível”: “Porque quereríamos mudar esses 99,5%? Custaria mil milhões de dólares, ou um bilião. Por isso, vamos focar-nos nos 0,5%. Em todos nós, existem genes que não fazem grande coisa e não interessam, na verdade. E, com menos edições de genes, os resultados serão animais mais saudáveis. Mais edições é igual a um maior risco”, aponta. “E ninguém no mundo fez 20 edições. E o mais triste, neste debate filosófico sobre chamar-lhe ou não lobo-terrível, não nos importa. O triste é que ninguém está a celebrar o facto monumental de que retirámos ADN com 72 mil anos e fizemos estas crias, f***-se.”

▲ Ben Lamm com uma das crias ao colo

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E é fiável recorrer a material genético com milhares de anos? “Os genes terão um prazo de validade, mas, neste momento, vai em um milhão de anos”, explica Albano Beja Pereira. Luís Pereira de Almeida acrescenta que as amostras podem estar danificadas, mas já existem formas de reparar os “buracos” através de uma análise informática que corrige o alinhamento após compará-lo com o genoma de espécies mais recentes, e “consegue ligar-se o ADN na orientação certa com o outro”.

Albano Beja Pereira salienta que desextinguir uma espécie não se limita a fazer voltar um animal: “Temos que trazer o ecossistema, porque já não está cá nada ao que o animal se adaptou. Não existe” e, por isso, “não tem as mesmas interações” e o comportamento deste animal será o de um lobo. A desextinção anunciada pela Colossal não tem em conta os fatores epigenéticos, ou seja, que decorrem da interação entre o genoma e o ambiente e que condicionam as características de qualquer animal.

"Provavelmente, foram feitos alguns genes dos muitos mais que seria preciso substituir para um verdadeiro lobo terrível."
Albano Beja Pereira, investigador no CIBIO-Universidade do Porto

Ao Observador, Matt James diz acreditar “que esta tecnologia representa uma oportunidade para acelerarmos a recuperação das espécies”. O Chief Animal Officer da Colossal frisa que “tem que trabalhar lado a lado com as técnicas convencionais de conservação baseadas na paisagem para proteger os habitats e reduzir o que leva à extinção”, mas “podemos acelerar a recuperação como nunca aconteceu antes”.

Mas este tipo de esforços pode colocar em risco os ecossistemas? “É uma incerteza. Sabemos que este animal é 99% lobo, mas não sei como é que os 15 genes editados lhe alteram o comportamento. Há coisas que não temos como prever: se até com animais vivos há a opção e possibilidade de os comportamentos se alterarem”, como acontece com espécies introduzidas para combater pragas e que depois se tornam invasivas, “imagine-se com algo que não sabemos”.

Um mamute incubado num útero artificial

O lobo-terrível é um entre vários animais que a Colossal quer “desextinguir”. O próximo, nas suas previsões, é o mamute, que surgirá através da mesma técnica: até agora, 25 genes de um elefante indiano foram editados e os embriões prontos a implantar são esperados até ao fim de 2026, com nascimento previsto das primeiras crias em 2028. “Atualmente, sentimos que estamos a cumprir os prazos, o que é ótimo. Há outras espécies que têm gestações mais rápidas, como o tigre-da-Tasmânia, mas tem muito mais edições [de genes].”

“Já disseram que iam criar um mamute, mas criaram foi um rato com pelo de mamute”, recorda Albano Beja Pereira.

De acordo com o jornal El País, os embriões vão desenvolver-se em úteros artificiais. “Adorava ter a certeza de que os nossos úteros artificiais funcionam, em que nós podemos gerar qualquer espécie, incluindo rinocerontes-brancos. Imagine um mundo em que podemos fazer crescer 200 rinocerontes-brancos, geneticamente diversos, em laboratório e depois trabalhar com parceiros de rewilding para os lançar ao meio selvagem”, descreve Ben Lamm.

Porém, os úteros artificiais também são menorizados por Albano Beja Pereira. “Na nossa organização biológica, temos as células, que se juntam para criar tecidos, que por sua vez fazem os órgãos, e estes últimos formam sistemas. [Em laboratório] Há organoides que fazem conjuntos de células que simulam órgãos verdadeiros. Na investigação ao cancro digestivo, por exemplo, há organoides que simulam o estômago ou o intestino. Um útero artificial não é nada de outro mundo, a cultura de tecidos já está implementada.”

"A determinação do sexo das crias no ovo de um grupo de aves é igual à dos répteis e dinossauros."
Albano Beja Pereira, investigador no CIBIO-Universidade do Porto

O investigador do CIBIO descarta que, a partir da técnica da Colossal, venhamos a ter T-Rex, por exemplo. “Mas a ideia que temos de que os dinossauros ficaram lá para trás, não é verdade”, frisa. “Temos as aves, que são o que sobrou. Não ficaram os gigantes porque o mundo mudou, houve mais oxigénio, a alimentação mudou, e eles extinguiram-se. Mas deram origem aos sobreviventes.”

Ainda hoje, a determinação do “sexo das crias no ovo de um grupo de aves é igual à dos répteis e dinossauros”, explica. “O sexo é ditado pela temperatura a que o ovo foi incubado. Numa avestruz, não há maneira de eu saber o que vai biologicamente sair do ovo, mas posso controlá-lo através da temperatura.” As alterações climáticas constituem, por isso, um problema para os machos. “Nos crocodilos, o sexo é consoante a temperatura a que foram incubados. Os machos surgem com temperaturas baixas, mas se estas estão a subir, podem deixar de existir.”

▲ Beth Shapiro, George Church e Ben Lamm

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Centro em Coimbra quer inovar na medicina com edição de genes

Além destes lobos, a edição genética serve também para combater doenças até agora sem tratamento. “É possível corrigir genes defeituosos, como os de um diabético”, salienta Albano Beja Pereira. “Tem um potencial muito grande para patologias degenerativas, e para o cancro: neste caso, são células que se descontrolam. Com a edição genética, o nosso corpo podia ser capaz de corrigir células, ou alertar outras. Como é uma terapia dirigida e cirúrgica, torna-se pouco dada a erros.”

Em Coimbra, está a ser implementado o primeiro centro de investigação e inovação na área da terapia génica de Portugal. Chama-se GeneT e é coordenado por Luís Pereira de Almeida. Irá reunir “a capacidade de investigação de base em várias doenças, a de infraestrutura de produção de vetores e uma unidade de ensaios clínicos em colaboração com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e duas universidades estrangeiras, a University of Sheffield e a University of Eastern Finland”.

"A terapia génica é o corolário da investigação biomédica feita há 150 anos."
Luís Pereira de Almeida, coordenador do Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia

O também presidente do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra descreve a terapia génica como “o corolário da investigação biomédica feita há 150 anos”. Abrange medicamentos que usam ácidos nucleicos para tratar doenças e que através de um vetor, que pode ou não ser um vírus, são levados até ao local onde são necessários. “Os vírus são modificados para transportar o ADN: tiramos partido da evolução de milhões de anos.”

O fármaco Zolgensma, usado contra a atrofia muscular espinhal, ou o Luxturna, que se destina a pessoas com perda de visão devido a uma distrofia retiniana hereditária causada por mutações genéticas, são dois exemplos de terapia génica. Através da “entrega de genes”, o primeiro medicamento “salva crianças que teriam uma esperança de vida inferior a dois anos”, o outro, “através de uma injeção junto à retina, impede que as pessoas fiquem cegas”. Medicamentos inovadores CAR-T ou contra a hemofilia também são destacados pelo também coordenador do Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia. “É uma esperança da indústria farmacêutica, mas há problemas técnicos e de natureza económica que é preciso ultrapassar”, e que tornam a Europa, apesar de mais produtiva nestas terapias, menos rica em aprovações destes fármacos. E, a partir de Coimbra, isso pode começar a mudar.

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