César Peixoto. “A minha relação com Mourinho era de amor-ódio”

15 Abril 2018152

César Peixoto, o expoente máximo da expressão 'o sonho comanda a vida': em três anos, passa de campeão da 3ª divisão para a conquista da Liga dos Campeões. Dispensado pelo Porto, é campeão no Benfica.

Marinho Peres, José Mourinho, Jorge Jesus, Carlos Queiroz, Ernesto Valverde. Acredite, todos juntos num só. Ali à minha frente. No hall do hotel Evolution, na praça Duque de Saldanha. Entre nós, uma cerveja artesanal Mick-Lager, da Musa, e a música de fundo ao som de Tom Jobim. Em semana de clássico Benfica-Porto, nervos à flor da pele, agitação social, combustão futebolística. Só há um homem capaz de fintar esse hat-trick de emoções: César Peixoto. Dono de um currículo faz favor, com três títulos de campeão português pelo Porto e um pelo Benfica, é a pessoa mais desprendida do mundo da bola. E ri-se com vontade das desgraças da sua carreira, que incluem cinco operações aos joelhos, um chega para lá do Porto a um ano do fim de contrato e o despedimento do Gil Vicente como infeliz ponto final de uma carreira com 12 títulos.

Tenho aqui algumas fotos da tua carreira.
Olha, boa.

Tens muitas?
Eu? Nada. Dou tudo. Quer dizer, tenho as camisolas dos clubes por onde passei mas nem estão expostas nem nada. Estão para lá em casa. Sou muito desprendido. Nunca tive um ídolo nem nada.

Nem um?
Nem um, ahahahahah.

E ias à bola em miúdo?
Com o meu pai, em Guimarães. Ele é sócio do Vitória há mais de 30/35 anos. Num jogo qualquer, houve um episódio de violência lá no estádio e ele nunca mais foi ao estádio.

Nunca mais?
Nunca mais, nem sequer os meus jogos como profissional.

E a tua mãe?
Também não. Quer dizer, ia aos jogos dos infantis do Vitória e só. E ia porque os pais dos outros jogadores juntavam-se para almoçar. Aquilo era o dois-em-um ideal e o grupo dos pais era muito porreiro. Mas é só. Daí para a frente, a minha mãe também não ia. E, sinceramente, ainda bem.

Porquê?
Se eles estivessem na bancada, admito que não ficava tão concentrado.

Havia aquela preocupação de que os meus pais me fossem ver jogar. Como nunca fui um jogador bem-amado, aquilo era só insultos do público ahahahah. Por isso, não queria que eles fossem. Sabes bem que as pessoas não conhecem os seus limites num jogo de futebol e começam a dizer isto, aquilo. O meu pai ainda saberia encaixar, agora a minha mãe. Pfffff, se soubesse que o seu filho estava a ser insultado, virava-se a eles. Ela é muito sossegadinha, mas filho é filho, ahahahah.

Então?
Havia aquela preocupação. Como nunca fui um jogador bem-amado, aquilo era só insultos do público ahahahah. Por isso, não queria que eles fossem. Sabes bem que as pessoas não conhecem os seus limites num jogo de futebol e começam a dizer isto, aquilo. O meu pai ainda saberia encaixar, agora a minha mãe. Pfffff, se soubesse que o seu filho estava a ser insultado, virava-se a eles. Ela é muito sossegadinha, mas filho é filho, ahahahah.

Chegaste a ser campeão das camadas jovens pelo Vitória?
Olha, tenho uma faixa de campeão lá em casa, agora não sei se é nacional ou regional. Espera aí, é regional é. Fui campeão é pelo Caçadores das Taipas, quando subimos da 3.ª para a 2.ª B.

Isso é o teu primeiro ano de sénior?
Segundo. No primeiro, descemos da 2.ª B para a 3.ª.

E antes o Vitória. Quem era o treinador?
Manuel Machado.

Eisch, e então?
É igual ao que hoje, a forma de falar, os treinos, tudo igual. Tudo, tudo, tudo.

Vocês achavam-lhe piada?
Muito. Ele deixava-nos à vontade. Podia ter continuado a carreira com ele no Fafe, mas preferi seguir o meu caminho e desviei-me do Vitória.

Porquê?
Queria subir à primeira equipa. Desfeito esse sonho, quis ir para o clube da minha terra. Cheguei a trabalhar numa fábrica de calçado e a treinar ao mesmo tempo na esperança de chegar longe no Vitória, só que isso não aconteceu. Ainda por cima, já havia jogadores dos juniores a ganhar dinheiro e eu nada.

O meu primeiro ordenado no Taipas foi 500 euros. Havia prémios de objectivos e eu atingia-os porque jogava sempre. Aí, subia até aos 750. Como havia uns brasileiros a ganhar 3 mil euros, eles lá me aumentaram para mil-e-cem. E olha que era namorado da sobrinha do presidente, ahahahahah.

Nada, nada?
Zero. E quem marcava os golos era eu e o Makukula.

Chi-ça.
Senti-me injustiçado porque eles não estavam nem iam dar-me o valor. Então comecei uma guerra com o Vitória: eles queriam que ficasse, eu só queria sair.

Como é que uma guerra nos anos 90, sem telemóvel?
Outros tempos, ahahahah. Só precisava de uma carta. Acabaram por entregar-ma e fui para o Caçadores.

Foste campeão. E golos?
Fiz uns 23, acho. Ou terá sido 23 nos juniores do Vitória e 21 no Taipas? Já não me lembro.

Golos, como?
Bola corrida, bola parada, na direita, no meio, na esquerda. O meu treinador, às tantas, só me mandava atacar, não interessava em que lado, ahahahah. Houve jogos com 3-2 e eu marcava os três golos.

Grande aventura.
Isto não era nada. Queres uma aventura? Cheguei a estar perto de assinar pelo Salamanca e depois por outro clube espanhol, onde jogava o William, aquele central do Benfica.

Santiago de Compostela?
[César estica o indicador] Isso mesmo, Santiago de Compostela. Com o Salamanca, foram só contactos. Com o Santiago de Compostela, cheguei mesmo a ir à Galiza.

Eisch.
Era perto das Taipas, um pulinho. Fomos de carro, falámos com umas pessoas e depois não deu em nada. Fiquei tão chateado que faltei aos treinos de pré-época. Ahahahahah, uma confusão que nem imaginas.

Ligou-me o Luis Campos, treinador do Gil, e disse-me só isto: 'vamos jogar este fim-de-semana à Luz e eu meto-te a titular'. Beeeeem, estar a jogar na 3.ª divisão e ouvir isto é qualquer coisa. Lá fui ouvir a proposta do Gil. Ofereciam-me dois mi-e-tal. O Belenenses, com quem tinha falado antes, oferecia-me 3500. Disse-lhes isso e eles riram-se na minha cara. Não acreditaram em mim.

Vivias sozinho?
Não, ainda vivia com os meus pais.

Mas ganhavas um ordenado nas Taipas?
O meu primeiro ordenado foi 500 euros. Havia prémios de objectivos e eu atingia-os porque jogava sempre. Aí, subia até aos 750. Como havia uns brasileiros a ganhar 3 mil euros, eles lá me aumentaram para mil-e-cem.

Só?
Ya, e era namorado da sobrinha do presidente, ahahahahah.

Ahahahahahah.
Nem isso mudava muita coisa. O máximo que atingi no Taipas foi 1100.

Como é que apareceu o Belenenses?
Estávamos a fazer uma época espetacular, tanto no campeonato da 3.ª, em que éramos primeiro, como na Taça de Portugal. O nosso treinador era o João Cardoso, ex-jogador de Braga e Belenenses. Ele é que tem tudo o que é meu, camisolas, chuteiras e assim. Como ele tinha uma boa ligação com o Belenenses, ligou para lá e avisou-os de um miúdo e tal. Vieram ver-me à Tapadinha, com o Atlético.

Boa, boa.
Ao mesmo tempo, aparece o interesse do Gil Vicente, através de um telefonema do treinador Luís Campos. Ligou-me e disse-me só isto: ‘vamos jogar este fim-de-semana à Luz e eu meto-te a titular’. Beeeeem, estar a jogar na 3.ª divisão e ouvir isto é qualquer coisa. Lá fui ouvir a proposta do Gil.

E que tal?
Ofereciam-me dois mi-e-tal. O Belenenses, com quem tinha falado antes, oferecia-me 3500. Disse-lhes isso e eles riram-se na minha cara. Não acreditaram em mim.

Uiiiii.
Fui-me embora e ligou-me o Luís Campos. Que não conseguia entender como é que um jogador da 3.ª divisão recusava a proposta de jogar na Luz no próximo fim-de-semana. Simples, não admito que se riam na minha cara e que duvidem da minha palavra. Que foi isso mesmo que aconteceu. O Belenenses dava-me 3500, o Gil só 2500, acho. A diferença era mil euros. Se fosse para o Gil, nem saía da minha zona de conforto e até abatia esses mil euros em rendas, viagens e tal, só que a cara dos dirigentes a duvidarem de mim é que me deu força para assinar pelo Belenenses. O Luís Campos entendeu o meu ponto de vista e disse que ia dar a volta ao assunto. Avisei-lhe que ia para Lisboa no dia seguinte.

Reunião com o Belenenses?
Pois, já estava marcada. A caminho de Lisboa, com o presidente do Taipas e o director Armando, que é hoje o vice do Vitória e a quem comprei o meu primeiro carro, a rádio deu conta do negócio Belenenses-César Peixoto. Que eu estava a caminho e tal. O Gil acreditou finalmente na minha palavra e fartou-se de ligar, umas 20 vezes. Já dobravam a proposta, ia ganhar quase sete mil euros. E o Taipas, claro, ia receber mais dinheiro. Agora esta parte da história é gira: o presidente do Taipas encostou o carro à berma da estrada e ‘ò César, tu é que sabes mas isto é muito melhor para ti e para nós; eles dão o dobro’. Ele é construtor civil e só vê números, ahahahah.

E tu?
Tinha dado a minha palavra ao Belenenses na noite anterior e fui de cabeça feita para assinar. ‘Presidente, eles gozaram com a minha cara e não vou voltar atrás na minha palavra ao Belenenses’. O presidente estava desfeito, ahahahah. ‘Continuavas a jogar perto de casa, continuavas o namoro com a minha sobrinha e tudo’. Mas não, estava mesmo decidido a assinar pelo Belenenses. E correu bem.

Vê lá isto.
Isch, eu, o Verona e o Marcão. Lembro-me perfeitamente desde festejo, o Verona ia ser pai e estava na moda aquela celebração à Bebeto.

Maravilha.
Cheguei ao Belenenses e era só trintões: Wilson, Lito Vidigal, Filgueira, Pedro Henriques, Marco Aurélio, Tuck, Marco Paulo, Verona, Sebá, Marcão. Depois havia miúdos, como o Neca, o menino bonito do Belenenses.

E tu?
Não joguei nos primeiros três/quatro meses.

Quem era o treinador?
Marinho Peres.

Eischhhhh.
O gajo é um maluco do melhor, um cromo mesmo. Ele conseguia levar-nos pela sua maneira de ser, toda a gente o adorava. Lembro-me de cenas épicas no balneário.

Conta aí.
Quando empatávamos dois jogos seguidos, ele aparecia no balneário [César começa a falar com sotaque brasileiro] ‘ò, vocês querem-me foder’, fazia o gesto de uma corda atada ao pescoço e dava um esticãozinho. Era demais.

Como é que entraste na equipa?
Era convocado e tal, mas não jogava.

O que fazias?
Nos primeiros tempos, morei na casa do Tuck e era ele quem me levava aos treinos. Sabia lá o caminho, ahahah. Quem também me ajudou muito foi o Marco Paulo. Levava-me a almoçar e a jantar muitas vezes, até ia ao cinema com ele e a namorada, ahahahah. Agora imagina, chego ao Belenenses e não jogo um minutos. Sentia-me frustrado e disse ‘quero ir-me embora’ ao director José António. Ele ficou a olhar para mim ‘hãããã?’. Repeti o que lhe disse e ele recusou, porque acreditavam em mim, porque isto, porque aquilo. Insisti na ideia e disse-lhe ‘ai abrir a janela do mercado, quero sair’. Há coisas que aconteceu assim [César estala os dedos]. O Neca lesionou-se, eu entrei e nunca mais saí.

Um dia, o Tuck falhou um penálti. No treino dessa semana, estavam ali a bater penáltis e eu pedi autorização ao Marinho Peres. Ele para mim 'mister, vai fazer o quê, ò garoto? você não tem idade para isso, não'. Disse-lhe que ia marcar cinco penáltis seguidos. Se, por acaso, falhasse, ele podia fazer o que quisesse. [César estica o sobrolho e ri-se] Marquei os cinco. E o Marinho Peres só dizia 'porra, puta que pariu'.

A sério?
Estreei-me com o Gil Vicente, no Restelo. Na semana seguinte, fomos a Faro. Dei um golo e marquei outro [o 2-2 em cima do minuto 90]. Até final da época, fiz mais seis golos.

Uns de penálti?
Verdade.

Como é que miúdo de 19 anos marca penáltis numa equipa da 1.ª divisão?
Um dia, o Tuck falhou um penálti. No treino dessa semana, estavam ali a bater penáltis e eu pedi autorização ao Marinho Peres. Ele para mim ‘mister, vai fazer o quê, ò garoto? você não tem idade para isso, não’.

Ahahahahah.
Disse-lhe que ia marcar cinco penáltis seguidos. Se, por acaso, falhasse, ele podia fazer o que quisesse. [César estica o sobrolho e ri-se] Marquei os cinco.

E o Marinho Peres?
‘Porra, puta que pariu’.

E esse Verão, que tal?
Fui para a selecção sub-21, depois assinei pelo Porto.

Era o único interessado, o Porto?
Havia Sporting, Benfica, Middlesbrough e Inter, naquela altura em que foram Caneira, Paulo Costa e Vasco Faísca.

Porquê Porto? Pergunto porque o Sporting tinha sido campeão nacional.
Escolhi Porto para estar perto da família. É que nem sequer ouvi Benfica nem Sporting. Não queria, só queria estar perto da família. Sempre fui assim, ahahahah.

Tu marcaste ao Porto nessa época: 3-0 no Restelo.
Apanhei bem a bola.

Quem era o guarda-redes?
Baía.

Fez-se aí o negócio?
Ahahahah, quase, quase. Uma semana depois.

A sério?
Fui às escondidas. O Gaspar, que hoje trabalha com o Jorge Mendes, pegou-me aqui em Lisboa e levou-me à noite para o Porto. Entrei no shopping Bela Vista, acho, ali na Avenida da Boavista. Subimos, jantámos e chegámos a um pré-acordo.

E depois?
Regressámos a Lisboa, numa noite de chuva imensa. Cheguei a casa às seis da manhã e apresentei-me no Restelo às oito, porque havia jogo. Onde?

Boa pergunta.
Salgueiros, no Vidal Pinheiro.

Foste de novo para o Porto?
Ahahahahah. Fui a dormir no autocarro e ganhámos esse jogo por 2-1. Marquei o 1-0, com o pé direito. E fiz uma assistência para o Cafu.

Porto, que tal?
Mais uma vez, às escondidas.

Hein?
Comecei a pré-época no Belenenses, porque eles não me queriam soltar para o Porto. E, azar dos azares, estava lesionado.

Como?
Fui convocado pelo Agostinho Oliveira para o Euro sub-21, com Makukula, Neca, Tiago, Pedro Mendes, Bruno Alves, Postiga, Hugo Viana e outros. Desses todos, só havia três que eram titulares na 1.ª divisão portuguesa: eu pelo Belenenses, Paulo Ferreira pelo Vitória e Briguel pelo Marítimo. O resto eram suplentes ou jogavam lá fora. No último jogo de preparação, com a Inglaterra, lesiono-me. Há três tendões aqui [César puxa as calças, estica o pé e aponta para o tornozelo]. Dois tchau, só um é que segurava o resto do corpo. Tive gesso até cá acima durante uns dois meses. Portanto, o Belenenses já treinava e o Porto também. Só eu é que não.

Fui para um apartamento, comi umas pizzas e disseram-me para estar ás oito da noite no café Vela Latina. Acho que era esse o nome. Quem ia lá estar? O Pinto da Costa. Eu cheio de medo, ahahahah. Às sete e meia, o Jorge Mendes leva-me ao Vela Latina e sento-me. Vê lá tu, nem tinha reparado que o Pinto da Costa estava ali a uns metros de nós. Apresentámo-nos e ele levou-me ao estádio, de carro. E levou-me ao balneário, onde estavam todos aqueles monstros sagrados da bola, como Baía, jorge Costa, Secretário, Paulinho Santos mais o Mourinho. Entrámos e ele diz ao pessoal 'está aqui o homem', como se eu fosse a cereja no topo do bolo.

E agora?
Não me treinava e queria sair. Imaginas as pessoas do Belenenses que iam ver os treinos, não imaginas? Ele não quer é treinar, que era um tangas e tal. A verdade é que não conseguia correr, só coxeava. No dia da apresentação do Porto, tudo se precipitou. Nem sequer dormi no hotel do Belenenses, em Gouveia. Fui para um apartamento, comi umas pizzas e disseram-me para estar ás oito da noite no café Vela Latina. Acho que era esse o nome. Quem ia lá estar? O Pinto da Costa. Eu cheio de medo, ahahahah. Às sete e meia, o Jorge Mendes leva-me ao Vela Latina e sento-me. Vê lá tu, nem tinha reparado que o Pinto da Costa estava ali a uns metros de nós. Apresentámo-nos e ele levou-me ao estádio, de carro. E levou-me ao balneário, onde estavam todos aqueles monstros sagrados da bola, como Baía, jorge Costa, Secretário, Paulinho Santos mais o Mourinho. Entrámos e ele diz ao pessoal ‘está aqui o homem’, como se eu fosse a cereja no topo do bolo.

Estavas nas nuvens, não?
Fez-me confusão, sinceramente. Há um ano, jogava na 3.ª divisão. De repente, estava ali, no Porto. Durante o primeiro mês e meio, andei caladinho e a bola até parecia que picava.

E depois?
Ahhhhhh, passei do oito para o oitenta. Já andava com os mais velhos, era eu e o Postiga.

E esse balneário?
Uma mística brutal. O Jorge Costa puxava por nós, o Paulinho Santos também. Os mais palhaços era eu, Bosingwa, Tiago, aquele ex-Marítimo e ex-Benfica. O plantel era fantástico. Acabávamos de jogar e íamos beber um copo. Eram uns 18. O que é que eles iam fazer, multar-nos? Iam multar 18 jogadores? Não multavam, não multavam. Então íamos. Parte do segredo daquelas duas épocas gloriosas é esse. Ganhámos tudo, porque a confiança era grande, enorme. A sério, nós entrávamos em campo para ganhar e só não sabíamos por quantos. Aqui, em Portugal. Na Europa, é diferente.

Claro.
Era assim mesmo, Rui. Estávamos no túnel de acesso ao relvado e só pensávamos em 2-0, 3-0, 4-0. Bora aí jogar e ganhar. Agora, também havia cobrança nas horas más. Fosse onde fosse, até no Belenenses.

Quem?
No Belenenses? O Wilson. Chegava até a ser mal-criado, ahahahah. Outro que se pegava sempre comigo era o Pedro Henriques, agora comentador da SportTV. Ele jogava a lateral-esquerdo, eu a extremo, estás a ver? O que o gajo me melgava, porra. Não se calava um minuto, era um personagem. Mesmo, sempre a falar e a resmungar. Era sempre do contra. Se isto é cinzento, tinha de ser laranja. Se era laranja, tinha de ser vermelho. Se fosse vermelho. Ele era assim, sempre na boa. A gente gozava com ele, ahahahahah. No Porto, quem cobrava mais era o Jorge Costa. Se a gente entrasse em campo adormecido ou assim, ele dava cada berro que aquilo até estremecia. Mesmo. Era tramado.

E o lateral-esquerdo do Porto?
Nuno Valente.

Jogavas com ele?
Era por fases. Ou jogava ou ia para o banco ou nem isso, ahahahah. A minha relação com o Mourinho era de amor-ódio, ahahahah. Ou tratava-me bem ou nem dizia o meu nome. Quando distribuía os coletes, era joga este, este, este e, depois, ‘joga o outro’ na minha direcção. Ahahahaha

Porquê, psicologia?
Perto do final da época 2003-04, quando estava a recuperar de outra lesão, contraída em Marselha, o Rui Faria chamou-me e disse-me a verdade, ahahah. Então, havia treinos em que apanhava porrada de meia-noite. Mesmo. Era mais o Secretário e o Jorge Costa, mas davam-me a sério. Porquê? Porque era individualista, gosta do um para um. Muito. Aliás, quando cheguei às Antas, o público comparava-me ao Futre pela velocidade e pelos dribles. Com as lesões e as cinco operações [César toca ao de leve nos dois joelhos], acabei a carreira a jogar de uma maneira mais cerebral.

Nos treinos, era só bater. Secretário, Jorge Costa, Secretário, Jorge Costa. Revezavam-se, ahahahahah. E o Mourinho nada, só dizia siiiiiga, siga. Quando eu fazia uma falta de nada ou nem sequer fazia falta, o Mourinho apitava. Bem, eu passava-me e mandava-o prò c*****. Banho, dizia-me eu. Quantas vezes fui para o banho, ahahahahah. Dizia eu, na parte final da última época do Mourinho, o Rui Faria chamou-me e disse-me 'dou-te os meus parabéns; se há gajo aqui que levou porrada e foi massacrado durante dois anos, foste tu. Parabéns, porque aguentaste bem. Queres saber uma coisa, era tudo combinado para aprenderes a soltar a bola'.

E mais, e mais?
Nesses treinos, era só bater. Secretário, Jorge Costa, Secretário, Jorge Costa. Revezavam-se, ahahahahah. E o Mourinho nada, só dizia siiiiiga, siga. Quando eu fazia uma falta de nada ou nem sequer fazia falta, o Mourinho apitava. Bem, eu passava-me e mandava-o prò c*****. Banho, dizia-me eu. Quantas vezes fui para o banho, ahahahahah. Dizia eu, na parte final da última época do Mourinho, o Rui Faria chamou-me e disse-me ‘dou-te os meus parabéns; se há gajo aqui que levou porrada e foi massacrado durante dois anos, foste tu. Parabéns, porque aguentaste bem. É verdade que, às vezes, resmungavas e protestavas, mas aguentas-te. Queres saber uma coisa, era tudo combinado’. E eu ‘quê?’. E o Rui Faria ‘era tudo combinado entre nós e o Secretário e o Jorge Costa, eles davam-te forte para aprenderes a soltar a bola’. E era verdade, naquela altura agarrava-me muito à bola e o Mourinho gostava era do futebol do passe.

Como é que foi a ressaca do Mourinho?
Dura, difícil. O Del Neri chegou com um conceito totalmente diferente, à italiana, e alguns consagrados não iam jogar.

Então?
Ele ia jogar sem 10. E o Porto jogou sempre com 10. Depois, chegou muito humilde, com o discurso do ‘tenho muito prazer em estar aqui, com os campeões europeus, é um orgulho para mim, venho para aprender e também para ensinar’ etc e tal. Deu a mão e [César como que arranca o braço direito]. Esse choque foi brutal, até porque quando ele quis ser rígido e implacável, já não o conseguiu. Havia muitos pesos-pesados no balneário e o Del Neri foi embora. Veio o Víctor Fernández, que até era mais parecido com o Mourinho nos métodos de treino. Só que a mesma personalidade e não tinha pulso. Sobretudo, não tinha pulso. Foi uma época atípica, embora tivéssemos ganho a Taça Intercontinental. E ainda acabou o José Couceiro, porque não era fácil gerir a frustração de não ganhar tudo.

E depois apareceu este.
Eeeeeee, o Co Adriaanse. Este é o jogo com a Naval, na Figueira da Foz, não é?

Ya.
Marquei dois golos de cabeça, ahahahahah. Nem estava estipulado subir no campo nas bolas paradas, só que reparei numa aberta e disse a mim mesmo ‘vou’. Tau, de cabeça, a acabar a primeira parte. Sozinho ao primeiro poste. Na segunda vez, a abrir a segunda parte, quase cópia. Tau, segundo golo. Gosto do Co Adriaanse, foi o treinador que apostou em mim depois da lesão.

De que maneira?
O Co Adriaanse já entrou ali com mão dura, tipo general, Talvez já de sobre-aviso para o que acontecera na época passada e também pela sua maneira de ser. Não nos era permitido nada e houve outro choque de personalidades, só que aqui nós é que tivemos de nos habituar a ele e não o contrário. Acabou por funcionar, porque ganhámos três competições.

Deves ter histórias até dizer chega.
Primeiro, os números. Ele é que escolheu os números.

Ahahahahah.
E à holandesa, por posição. A posição 6, a posição 10. Alguns chateados porque o número era este e aquele.

E ele?
Nem deu conversa, é assim e pronto.

Ficaste com qual?
O 21.

Então?
Chamou-me à parte e perguntou-me ‘queres jogar no Porto?’ Fiquei a olhar para ele, ‘claro’. E ele ‘mas queres jogar no Porto a titular ou como suplente?’. E eu ‘não estou a perceber, claro que quero ser titular’. Atenção, o Co Adriaanse na boa, simpático. Estava a ser assertivo, nada de arrogância. E ele ‘é assim: ou jogas a extremo no Braga ou jogas aqui como defesa-esquerdo; comigo é assim’. Olhei para ele, fiz as contas e fiquei no Porto, ahahahahah. Até porque o meu número era o 21, suplente do 11, o número estipulado por ele como defesa-esquerdo. Foi assim que comecei a jogar com ele a falso defesa-esquerdo. Até ao jogo com o Boavista, no Dragão, quando me lesionei outra vez, tinha feito 23 jogos de 24 e tinha quatro ou cinco golos. Depois, lesionei-me e nunca mais. Mandaram-me embora e é por isso que não gosto do Porto, ahahahaha.

Mandaram-te embora?
Foi a equipa onde jogou mais anos, onde conquistei 11 ou 12 títulos e fazem-me isto. No dia em que me lesionei.

Com o Boavista?
Nessa noite, cheguei ao intervalo e pedi para sair. Estava cansado e não sentia firmeza no joelho. Ligaram-me o joelho, deram-me força. Fui lá para dentro e, aos dez minutos de jogo, travei sozinho e puuuumba. No final dessa época, mandaram-me embora e eu tinha mais uma época de contrato. Se bem te lembras, o Porto até costumava renovar contrato com quem se lesionasse. Comigo, não. Foi o Jorge Mendes que me disse ‘não contam contigo’.

E tu?
Pedi uma reunião com o Pinto da Costa.

E?
Falei com ele.

E?
Como é que ele disse? [César olha em frente como se estivesse a rebobinar a conversa] ‘César gosto de ti, mas não consegui aguentar-te mais.’

Eisch.
Disse-lhe então que me deixasse sair a custo zero. Ele concordou, excepção feita para Benfica e Sporting. A minha ideia nem era essa, era mais aventurar-me no estrangeiro.

Tinhas propostas?
Portsmouth. Havia um russo a meter dinheiro e jogava lá o Pedro Mendes.

E foste?
O Porto pediu dinheiro, acreditas? A mim, ainda a recuperar de lesão da segunda operação aos ligamentos cruzados. O negócio bloqueou e fiquei revoltado. Então, decide que ia ficar no Porto durante a época seguinte e depois ia para onde quisesse, fosse Benfica, Sporting ou lá fora. Meteram-me na equipa B, era o Domingos o treinador. Quando íamos treinar para o sintético, eu recusava-me. Não ia mesmo. Não podia, sintético com este joelho?! No último dia das inscrições, aparece o Espanyol treinado pelo Valverde.

Olha olha, quem é ele.
Na primeira semana de treinos, o Valverde chega-se ao pé de mim e pergunta-me ‘o que se passou?’

Como?
Foi a minha pergunta, ahahahahah. Ele repetiu: ‘o que se passou para vires embora do Porto?’ Lá lhe disse algumas coisas e ele meteu-me a jogar num particular com o Girona, acho.

Correu-te bem?
Sim [César faz um compasso de espera]. Até me lesionar outra vez. Tinha feito duas assistências em 20 minutos e, de repente, há um gajo que me faz uma tesourada por trás. O meu joelho craaaaaaaaaac. Saí de maca e passei o resto da época a recuperar. Já saísse daqui para ali [aponta para o Monumental], o meu joelho ficava como uma bola e nem imaginas a quantidade de pus que saía dali.

Chegaste a jogar no Espanyol?
Não, não, nada. Fiz a recuperação e já só estava a pensar na época seguinte. Entretanto, o Espanyol tinha um departamento médico e ainda um médico que era uma espécie de conselheiro. Muito conhecido na praça, chama-se Ramón Cougat e já operou craques como Guardiola, Eto’o, Xavi, Iniesta. Ele sugeriu-me uma táctica que passava por seringas a tirar isto e mais aquilo. Fiz uns tempos e o joelho não estava a corresponder. Depois, correspondeu. Só que travava a meio dos treinos.

Travava?
Ia a correr, fazia um passe ou qualquer coisa e o músculo prendia. Mas prendia de tal forma que a perna não descia.

Como se fosse uma cãimbra?
Era bom era.

O que é que fizeste?
Num fim-de-semana, às escondidas do Porto, vim cá para ver o José Carlos Noronha, o médico que me operou as cinco vezes e uma das pessoas mais importantes da minha vida. Fez-me uma ressonância e percebeu que era preciso raspar 10% para voltar ao que era em mês/mês e meio. Fiquei animado porque o Valverde queria meter-me a jogar. Quando cheguei a Barcelona, continuei a treinar e o Valverde queria mesmo que jogasse. Só que eu queria raspar os tais 10% e esperar mês e meio. Apresentei-me ao Cougat, mostrei-lhe a ressonância e ele sabes o que fez?

Nem ideia.
Ele para mim: ‘tens de ir viver uns quatro meses para uma clínica suíça, onde eles rebentam-te o resto do joelho para reconstrui-lo de uma só vez e depois recuperas em seis/sete meses’.

Quê, seis/sete meses?
Olhei assim para ele [César franze o sobrolho]. Estava sozinho em Espanha, sem empresário, sem nada. Você está maluco, soltou-me a tampa. Então o meu médico, que conhece o meu joelho por dentro, fala-me em mês e meio e você diz para rebentar o joelho antes de o reconstruir. Não, não fui nisso. Como os médicos do Espanyol eram assim em relação ao Cougat [César aproxima as mãos dos olhos e faz o gesto da pala], rescindi o contrato e fiquei livre para assinar por quem quisesse.

E quem apareceu?
Braga.

E o Porto?
Nunca quis saber de mim, nunca me ligou nem nada parecido. Quando se aproximou o final da época, só não queria voltar. E disse-o ao Jorge Mendes. Até paguei essa operação do meu bolso, já que tinha rescindido e estava sem seguro de saúde.

Dizias, Braga. Que tal?
O treinador era o Jorge Costa, meu colega do Porto. Fui lá fazer a recuperação, treinava com eles e o Braga apresentou-me uma proposta. Recomecei a jogar depois de quase dois anos parado.

Pois, bem sei. Daí esta foto.
Ééééééééé, que categoria. Fizemos um jogo nesta noite, grande grande jogo com o Milan. O Dida fez cá uma defesa a um remate meu, ainda hoje não acredito. A bola veio, eu dei mal na bola mas dei. Era golo e o gajo vai lá abaixo buscá-la. Foooogo, que defesa. Depois, olha, o Ronaldinho entrou e resolveu com um golaço, 1-0 no último minuto. É o ano do Jesus, em que ganhámos a Taça Intertoto. Gostei muito de jogar no Braga.

Vais à selecção pelo Braga?
Isto é que o futebol: o médico do futebol dá-me acabado para o futebol, aos 26 anos de idade, e estreio-me na selecção aos 28. Incrível. Dei a volta, soube-me muito bem. Quando voltei ao Benfica e fui campeão, isso então foi um momento sensacional. Bati lá em baixo e voltei lá acima. Só tenho pena de ter tido poucas internacionalizações. Muitas vezes, ia lá e só treinava. Detestava isso, o ficar fechado no hotel e depois não jogar. Ahahahahah.

Jogaste com o Brasil, não foi?
Joguei, levámos seis. Joguei uns 10 minutos. Era o tempo do Kaká. Quando ele arrancava, esquece. Era vrum, vrum, vruuuum [César empurra a mão direita como se fosse um F1]. Parece que flutuava.

E o Queiroz, que tal?
Gostei, gostei. Sou suspeito, não é? Ahahahahahah. Mas gostei, era uma altura de experiências e estavam à procura de um defesa-esquerdo. Não havia o Coentrão, não havia Raphaël Guerreiro. Testaram o Duda, a mim. Aliás, esse jogo com o Brasil, o lateral foi o Duda. Que até jogou o Mundial-2010.

E tu?
Eles ligaram-me, acho que foi o Agostinho Oliveira, adjunto do Queiroz. Disse-me que podia ser uma opção válida para a selecção, se começasse a jogar a defesa-esquerdo do Braga. Disse-lhes que não.

Ahahahahahah.
Não gosto nada de jogar a defesa-esquerdo e, naquela altura do Braga, jogava a médio-esquerdo. O que lhes disse foi que podia utilizar-me a defesa-esquerdo na boa, não via problemas. Agora não ia mudar a estrutura do Braga só por isso. Eles queriam fundamentar a decisão e disse-lhes que não, não ia abdicar do meu lugar de médio-esquerdo. Até porque vocês chamaram-me porque estou a resultar a médio-esquerdo.

Bem, que cambalacho.
Resumindo, jogou o Duda. Que jogava a médio-esquerdo no Málaga, ahahahahahah.

Do Braga para o Benfica, sempre com Jesus. Imagino os teus ouvidos.
Ahahahahahah. Podes crer. Mesmo assim, o Pedro Henriques era mais chato, ahahahah. O Jesus era assim, é a sua imagem de marca.

E tu passavas-te?
Se me passava? Claro que sim. O futebol não é para padres nem para freiras, tinha de me passar. É complicado controlar as emoções quando estás a jogar a 100 à hora. Nem sempre és educado ou simpático. Isso é válido para jogos e treinos. Há pouco, dei o exemplo do Mourinho. Agora é o Jesus. E houve outros. Os jogadores têm é de filtrar tudo para encadear os momentos, sejam bons ou maus. Depois disto tudo, digo-te: é o treinador que mais me marcou na carreira.

Muitos jogadores dizem isso.
E isto tem uma explicação: quando apanhei o Jesus, já me interessava por outras temáticas do futebol, como a táctica, a colocação dos jogadores aqui e ali, o estudo das bolas paradas e mais uma série de coisas. Antes, só queria pegar na bola e fazer umas coisas bonitas, uns golos, uns dribles e tal. Quando apanho o Jesus no Braga, já tinha interesse pelo porquê das coisas, o porquê das tácticas etc e tal, por via daquelas duas épocas sem jogar em que aproveitei para estudar o futebol e olhá-lo de uma maneira diferente. Se lhe perguntasse, o Jesus explicava tudo. Mas tudo é tudo mesmo. Todos os jogadores sabiam tudo sobre o próximo adversário. Eu, como médio-esquerdo, sabia tudo sobre o lateral-direito, de como avançado no campo, de como cruzava, de como dava o primeiro toque. Esses pormenores que decidem um jogo, uma eliminatória, uma época. É muito engraçado.

Foi o Jesus que te levou para o Benfica?
Quem me ligou foi o adjunto Raúl José. Deu-me conta do interesse, de que já tinha tomado nota por via Jorge Mendes. E o negócio fez-se na parte final.

Outra vez?
Era sempre o último contratado, ahahahahah. O Jesus recebe-me na sua sala e diz-me ‘vens como defesa-esquerdo, é a forma como posso justificar a tua vinda, mas coloco-te no lugar em que és mesmo bom quando se justificar’.

O de médio-esquerdo?
Exacto.

Quando é que isso chegou?
Na verdade? Nunca, ahahahahah. No início da terceira época, perguntei-lhe ‘então?’ Saí, ahahahah.

Como é que foram essas duas épocas?
Comecei a defesa-esquerdo e aquilo resultou, só que não consegui exprimir o meu futebol ao máximo. E havia pessoas que me cobravam, naturalmente.

Porquê?
Porque era competente a defender mas não conseguia desequilibrar a atacar. Claro que havia mais coisas: era um ex-Porto, tinha vindo com o Jesus.

Este aqui és tu, a legenda diz que sim.
Ahahahahahahahahahahahah [César não pára de se rir] O corte de cabelo está horrível, mas sou eu, sim.

Jogaste com o Deco e o Aimar, dois 10 geniais.
Uyyyyyyyy, sem dúvida. Tive sorte, muita sorte. O Aimar era 10 em tudo. Era reservado, mas muito trabalhador, competitivo e uma pessoa excelente. Foi um jogador que me marcou, como tantos outros desse Benfica: o Di María era um fenómeno. Depois havia Coentrão, Maxi, Quim, David Luiz, Ramires, Saviola, Cardozo, Javi García.

Chi-ça, já disseste uns 11.
Era cá uma equipa [César abana a mão] e o Benfica foi campeão nacional pela primeira vez ao fim de cinco anos.

Depois há a segunda época. E já nem começas a terceira?
Já tinha 32 anos e queria acabar a carreira a jogar. Já tinha ganho quatro campeonatos nacionais, uma Taça UEFA, uma Liga dos Campeões e procurei uma equipa que me desse condições.

Lá voltaste ao Minho.
De volta às origens.

Reconheces esta foto?
É a da final da Taça da Liga.

Como é que acertaste outra vez?
Feeling, ahahahahah. Fizemos hstória, é a primeira final nacional do Gil. Perdemos 2-1 com o Benfica.

Como é que era o Fiúza?
Era um presidente diferente dos demais. Sempre tive presidente mais instituicionais, o Fiúza era mais terra a terra. Por vezes, não tinha a postura correcta como presidente, que se expunha em demasia. Sempre tive boa relação com ele até ser despedido do Gil Vicente.

Des-pe-di-do?
Sim.

Porra.
Cheguei e o primeiro ano correu-me muito bem. Não era para ficar mais um ano, só que o Gil fez um esforço e acabei por continuar em Barcelos. O Paulo Alves era o treinador e ligava-me muitas vezes. Senti apoio e fiquei com a perspectiva de um futuro no Gil: jogava mais dois ou três anos e depois passava a director-desportivo. No terceiro ano do Gil, em 2013-14, entra o João de Deus e ele quer fazer-me capitão. O Gil, como em muitos outros clubes, tem uma cultura de capitão sob o ponto de vista da antiguidade. Normalíssimo. Expus isso mesmo ao João de Deus, só que ele insistiu no sentido de responsabilizar os mais velhos de idade. Como eu. Disse-lhe para não fazer isso, até porque nunca quis ser capitão em lado algum. O João de Deus ouviu-me e manteve a ideia. Avisei-o: ‘atenção que isto vai dar problema, eu conheço o balneário e eles não vão acatar isto da melhor forma’.

O que é que aconteceu?
O João de Deus chegou ao balneário e anunciou o Dani como capitão. O Dani era o Daniel, que acabou mais cedo a carreira. Na prática, ele não ia jogar. ‘E quero o César como número dois; ele não quer, mas eu quero’. Quando cheguei ao cacifo, já tinha a braçadeira e falei com os jogadores, já sem o João de Deus no balneário. ‘Pessoal, quero falar com vocês: como viram, nunca quis ser capitão, foi força do treinador e não tenho como recusar; vocês, mais velhos, não pensem que eu queira mandar mais, nada disso; e garanto-vos que abdico da braçadeira quando o João de Deus sair’.

E agora?
Era capitão para tudo, não era só portador da braçadeira. E comecei a notar incómodo dos mais velhos, ao ponto de chegarem atrasados aos encontros marcados por mim.

O que é que se segue?
O João de Deus foi-se embora e eu entreguei a braçadeira aos antigos capitães. Antes, falei com o diretor-desportivo Pedro e marquei uma reunião para dizer de minha justiça sobre esse final de estatuto de capitão. E ele ‘epá, tem calma’. E eu ‘tudo bem, não estou nervoso; estou só a transmitir-te o que aconteceu no balneário com a nomeação do João de Deus’. Eu não sabia quem era o próximo treinador.

E quem foi?
José Mota. Que tomou aquilo como uma afronta. Vínhamos de três dias de folga e disseram-nos José Mota. Ele chamou-me e perguntou-se porque é que não queria ser capitão. Disse-lhe que não era nada disso, que não era nada contra ele. Ele podia ser Mourinho ou Van Gaal. Eu nunca quis ser capitão, o João de Deus nomeou-me e eu prometi ao balneário que abdicava da braçadeira no momento em que ele saísse.

E o José Mota?
Disse-me ‘eu é que decido quem é o capitão’.

Uh la la.
Disse-lhe que não valia a pena ter essa atitude, que eu ajudava na mesma, como se fosse o capitão. E ele a bater na mesma tecla do ‘eu é que decido’. E a verdade é que fui capitão nos dois, três jogos seguintes. Há um dia em que ele vem ter comigo e diz-me para dizer amen a tudo o que disser ao grupo. Recusei, claro. Era o que faltava. Ele que fizesse o grupo, que tomasse as decisões, agora eu é que não ia meeeesmo dizer amen. E ele insistia ‘tens de me dar cobertura’.

E ele a bater na mesma tecla do 'eu é que decido'. E a verdade é que fui capitão nos dois, três jogos seguintes. Há um dia em que ele vem ter comigo e diz-me para dizer amen a tudo o que disser ao grupo. Recusei, claro. Era o que faltava. Ele que fizesse o grupo, que tomasse as decisões, agora eu é que não ia meeeesmo dizer amen. E ele insistia 'tens de me dar cobertura'.

Uh la la, parte 2.
Nunca dei cobertura, claro. A partir daí, o meu nome ficou manchado porque criou-se a ideia de que eu estava minar o balneário e tal e tal. Enfim. Encheu a cabeça de todos, Fiúza incluído. Em menos de um mês, fui despedido.

Sem mais nem menos?
Cheguei de manhã para treinar, chamaram-me e informaram-me que estava suspenso.

Quê?
Foi isso mesmo que perguntei. ‘Quê? Quê?’ E eles a avisarem-me que vinha aí o mister. Chegou o José Mota e disse-me que tinha faltado a uma sessão de autógrafos de uma escola e que não o tinha avisado e que isto e que aquilo.

Foi assim?
Nada disso. Avisei o Pedro, liguei-lhe na véspera a dizer que tinha que levar a minha filha ao médico. Em jeito de desabafo, o José Mota disse que já tinha treinado muitos internacionais A como eu. Aí, passei-me: ‘Treinou quem?’ E ele ai e tal, no Vitória de Setúbal. E eu: ‘Você treinou foi mal em todos os clubes por onde passou’. Estava passado. À tarde, reuni-me com o Fiúza e ele tinha um papelinho em cima da mesa com algumas queixas. Sabe-se lá de quem [César faz uma careta engraçada]. Uma das queixas tinha a ver com um brincadeira. E eu brincadeira? Uma vez, no balneário, brinquei com o Diogo Valente e fizemos uma aposta sobre os nossos carros. E que achava-me mais que os outros, que ganhava mais dinheiro que os outros, isto e aquilo. Interrompi-o logo e disse-lhe ‘faça o que quiser; já percebi que está com a cabeça feita, nem vale a pena tentar justificar tudo isso’. E, pronto, acabou assim a minha carreira. Saí e ganhei tudo em tribunal, porque não havia forma como provar nada daquilo. Foi pena, ahahahah. Foi um desgosto enorme, não estava preparado para sair dessa forma.

Mas não tiveste mais nenhuma proposta?
Estava traumatizado e decidi não arriscar mais. Estava tão revoltado e desiludido com o futebol. Olha, raramente joguei desde então naqueles jogos de solidariedade. No Natal, houve um jogo em que participei. Ao intervalo, perguntaram quem queria sair e eu estiquei o dedo. Cansei-me do futebol. Depois de ter conquistado tanto no futebol, ainda ser colocado em causa por questões dessas?! Não, não é para mim. Agora sou comentador e quero treinar. Já fiz o curso nível 3, falta o 4 na Irlanda.

E o céu é o limite.
É mesmo isso.

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