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"Olá como estás"? Este é o Monarch, o pequeno robô que anima as crianças nos corredores do IPO em Lisboa

Michael M. Matias/Observador

"Olá como estás"? Este é o Monarch, o pequeno robô que anima as crianças nos corredores do IPO em Lisboa

Michael M. Matias/Observador

A arte que é ciência e a ficção científica real

O que têm em comum um académico de engenharia robótica e um artista plástico? Um e outro expressam-se através da tecnologia. Será que a tecnologia ajuda a mudar a ciência e a arte?

Já imaginou quando está a tentar pendurar um quadro na parede e precisa de mais uma mão? Ou então naquelas alturas em que está a montar uma estante do Ikea e precisa de alguém que segure nas prateleiras? E se em vez a ajuda de alguém tivesse como ajudante um robô completamente autónomo e ajustado às suas necessidades? Pode parecer um cenário futurista, tipo Guerra das Estrelas, mas já estivemos mais longe disso. Pedro Lima, professor de Robótica do Instituto Superior Técnico, doutorado em Engenharia Eletrotécnica nos Estados Unidos, tem o desejo de ver o mundo dos robôs massificado e de acesso fácil a toda a gente tal como o computador. Não é um caminho fácil, mas acredita que pelo menos existe essa vontade.

“O que queremos todos fazer são robôs o mais autónomos possíveis, mas estamos muito longe do R2D2, o robô da Guerra das Estrelas, ao contrário do que as pessoas pensam, mas o objetivo é fazer uma coisa dessas. Esse é um bocado o imaginário”, explica este doutorado em robótica em conserva com o Observador.

Embora num passado recente os computadores tenham saído dos laboratórios e universidades para as massas e hoje ninguém passe sem eles, com os robôs o caminho ainda é longo. “A dificuldade é que os robôs não são como os computadores, porque precisam muito mais de interação física com as pessoas. Isso é que é o difícil nos robôs. Quanto mais autónomos eles são mais são interativos, a tal questão da inteligência artificial”.

Autonomia e interação são os grandes desafios da robótica atualmente, segundo Pedro Lima, professor que tem nas mãos dois projetos europeus. Por isso, o caminho tem sido levá-los a cooperar com as pessoas. E como se faz isso? O especialista em robótica fala da investigação da colega Manuela Veloso para trazer à conversa o conceito de “autonomia simbiótica”. Por exemplo, sublinha o investigador, “abrir portas para os robôs é complicadíssimo, mas para os humanos não. O que ele faz é pedir que lhe abram a porta. É aí que temos os humanos em autonomia ajustável aos robôs.”

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Pedro Lima, Professor do Instituto Superior Técnico, ao lado do Monarch, o robô inteligente que interage com as crianças no IPO

Dos robôs de laboratório para o mundo real. Na indústria por todo o mundo e em Portugal existe milhares e milhares de robôs que ajudam a executar tarefas de uma forma ainda pouco autónoma “muito automático-repetitivos”. Mas já se começa a inovar, como por exemplo na indústria do calçado. “Há uma câmara, aquilo não é tão constrangido, fica onde ficar, o robô vê o sapato, vai lá, agarra-o. Isso já é um passo no caminho da autonomia. No entanto, comparado com estas coisas dos robôs em casa não seja tão ambicioso, mas é um avanço em relação ao que havia nas fábricas antigamente”, exemplifica.

Veículos autónomos, robôs empresariais e hospitalares e depois em casa

Será que daqui a dez anos os robôs mais autónomos e interativos vão ser uma realidade? Pedro Lima acredita que a realidade dos “carros autónomos” vai acontecer “mais depressa do que nós imaginávamos”. Marcas como a Mercedes, a Volvo ou a Google já estão a fabricar carros destes. Depois há outras coisas, acrescenta o especialista em robótica, que “são camiões para transporte de mercadorias autónomos para andarem em pelotão – isso até é capaz de chegar mais depressa se calhar que os veículos autónomos”.

Num exercício de futurologia, Pedro Lima arrisca que talvez “possamos ter robôs em hospitais e em grandes empresas” vai acontecer “mais depressa do que ter robôs em casa”. Aliás, ressalva, “já temos exemplos há muitos anos de robôs em hospitais para transportar os tabuleiros. Não tanto esta visão mais futurista que a gente tem da interação com as pessoas mas mais transportar comida, medicamentos. Eu diria que esse tipo de coisas viria sempre depois dos automóveis autónomos, mas antes dos robôs em casa”.

Num exercício de futurologia, Pedro Lima arrisca que talvez “possamos ter robôs em hospitais e em grandes empresas” vai acontecer “mais depressa do que ter robôs em casa”

O que hoje parece um cenário altamente futurista e de filmes de ficção científica rapidamente se torna realidade. Quando começou a lecionar na academia onde hoje ensina, aos 21 anos, nem a disciplina de robótica existia. Quando começou “tinha essa expectativa de fazer coisas muito engraçadas e muito interessantes, mas não imaginando que chegaríamos a este ponto. A ideia de interagir com as pessoas é relativamente recente e na altura com robôs não existia.”

Tecnologia faz evoluir a ciência da robótica ou vice-versa?

Pedro Lima assume que tem uma bagagem que vem “do chamado controlo automático – a teoria do controlo é uma área que se aplica em tudo e mais alguma coisa. Os aviões são controlados para voar, é assim que os veículos autónomos são controlados. É uma área mais científica do que tecnológica”. Mas na robótica, a “tecnologia tem de facto muita importância”. Ao contrário das outras áreas mais metodológicas, na robótica há algum nível de liberdade criativa. “Na robótica costumamos dizer: epá fiz um robô porreiro!. Eu estou a brincar, mas é quase assim. Às vezes há coisas que saem que são consideradas excelente trabalho, de topo e são isso. Não há um rigor matemático. Não o digo com um ar de censura, não é bom ou mau, é assim”.

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Volvidas mais de três décadas de investigação, Pedro Lima olha para o futuro com os olhos a brilhar. “Em relação a tecnologia posso considerar-me otimista sim, porque acho que as pessoas têm desconfiança das coisas e depois começam a usá-las e beneficiam delas no dia-a-dia”, diz Pedro Lima, que vai à aviação buscar exemplos de como já é difícil passar sem robôs.

“Em relação a tecnologia posso considerar-me otimista sim, porque acho que as pessoas têm desconfiança das coisas e depois começam a usá-las e beneficiam delas no dia-a-dia”, diz Pedro Lima

“Farto-me de viajar de avião e não é das coisas que mais goste neste mundo. Mas estou muito mais seguro num avião quando ele está a voar autonomamente do que com o piloto”, confidencia ao Observador. Por exemplo, em situação de nevoeiro. Os aviões aterram espetacularmente no nevoeiro. Eu quando vou num e está nevoeiro e digo – Deus queira que o ILS esteja a funcionar, porque é muito mais seguro”.

Futuro mais próximo, talvez daqui a 10 anos, Pedro Lima arrisca a “dizer que o que vai acontecer cada vez mais, e que já está a acontecer, é que os robôs não vão ser exclusivamente aquelas máquinas que nós imaginamos quando pensamos nos filmes – normalmente são humanoides com rodas -, vão ser coisas que nós nem reparamos, mas eles estão por aí na nossa casa”. “Acho que o grande salto que espero que se dê – já está a ser tentado neste momento mas há de levar esses dez anos e mais – é os robôs serem cada vez mais naturais na maneira como interagem connosco.”

“Acho que o grande salto que espero que se dê – já está a ser tentado neste momento mas há de levar esses dez anos e mais - é os robôs serem cada vez mais naturais na maneira como interagem connosco", diz otimista o especialista em robótica

E depois de alguma insistência, este professor do Técnico aceitou revelar o seu desejo mais “maluco” enquanto investigador em robótica: “Há uma coisa em que estive muito envolvido não desde o início, mas quase e que gostava de ver acontecer, mesmo já velhinho, que é aquele desafio do RoboCup ter uma equipa de robôs que defronte uma equipa humana no campeonato do mundo e que ganhe, em 2050. Era capaz de ser engraçado ver isso acontecer e é uma ideia muito maluca. De facto, seria um sonho tornado realidade.”

A arte que é digital, mas também ciência e filosofia

Do outro lado da tecnologia está o artista plástico Rudolfo Quintas. Aos 34 anos é um dos mais pioneiros na utilização do digital nos trabalhos artísticos. Cria instalações audiovisuais, performances e peças de software no cruzamento entre arte, design, tecnologia e ciência. O seu trabalho explora processos interativos, implicando a participação do público que se faz co-criador, numa dinâmica de interação intuitiva e afetiva em ambientes, situações ou relações formalmente depuradas e minimais, cuja composição é determinada por estratégias de equilíbrio subtil entre fluxos de controlo e aleatoriedade.

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O processo criativo de Rudolfo Quintas começa muitas vezes com o papel e caneta

Se para um cientista em robótica a tecnologia é indispensável, para um artista plástico ela é uma ferramenta, mais uma forma de exprimir o seu modo de ver e entender o mundo. Utiliza as tecnologias “como mais uma ferramenta de expressão e de comunicação do pensamento e da tua curiosidade artística e daquilo que queres pôr no mundo como proposta artística”.

Como artista plástico, Rudolfo Quintas trabalha no campo da sensibilidade, e nos últimos anos tem explorado bastante e de forma pioneira esse meio de comunicação que é a tecnologia e o digital. Considera-se fruto de uma geração que conviveu com a alteração tecnológica. Para ele, as ferramentas digitais “são ferramentas que estão na base da minha transformação. Passei daquela idade do analógico – da disquete, das cassetes- a minha geração viveu muito essa transformação”.

Assistiu e foi ator de uma mudança tecnológica. Mas ainda assim, este artista não larga o papel e o lápis. O que o atrai na tecnologia em si é que “pela primeira vez na história da criação desdobras o som, a imagem, numa coisa que é informação binária. E podes misturar uma frequência de um som na criação de uma cor através do batimento cardíaco e acho isso fascinante”, conta ao Observador.

Um artista dentro e fora do seu tempo, que investiga, explora e cria soluções para exprimir a sua sensibilidade artística. “Estou a falar da criação de algoritmos. Isso é muito importante. Eu criei a maior parte dos meus programas de computador”.

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Rudolfo Quintas criou os algoritmos e o sistema de projeção da escultura interativa “Absorption”

Por isso, Rudolfo Quintas diz mesmo que “é uma forma política de dizer: – atenção nós podemos criar as nossas próprias ferramentas, que expressam as nossas ideias”. Se os artistas “não trouxerem o plano da sensibilidade para a tecnologia, a experiência em tecnologia fica muito reduzida a uma coisa que é o algoritmo mais rápido e mais eficaz”.

Daí que a arte que produz não se distingue por ser “a mais rápida, eficaz e útil”, mas pela própria criação de “novo conhecimento” em si. “Eu crio coisas que considero pertinentes para nos ajudar a perceber que afinal somos muito mais do que os telemóveis e os interfaces.”

Sozinho e como poucos tem rasgado o panorama nacional. Aqui ainda é um estranho para muitos, mas lá fora é considerado bem à frente do seu tempo. Responde que a arte tem evoluído “com a transformação das expetativas que as pessoas têm sobre o que é a arte” e dedica-se a obras que mexem com o sentir.

“Quando chegas a um museu e vês um quadro. Umas pessoas são indiferentes, outras cresce-lhe uma coisa cá dentro e aquilo começa a provocar emoções e ideias. O que acontece no meu trabalho é que eu passo esse lado da perceção e da interpretação e torno isso visível também no corpo e na experiência. É um misto de contexto sensível, ou seja, contexto porque existem objetos ou projeções, existe um corpo e o trabalho é feito dessa relação. Tento que essa relação seja o mais variável possível para que cada um se descubra e encontre na peça”.

"É um misto de contexto sensível, ou seja, contexto porque existem objetos ou projeções, existe um corpo e o trabalho é feito dessa relação. Tento que essa relação seja o mais variável possível para que cada um se descubra e encontre na peça” - Rudolfo Quintas, artista plástico

É arte interativa e viva, que absorve e influencia. “Há um lado que atravessa o meu trabalho que são as questões do controlo, a barreira entre o que tu influencias e quando estás a ser influenciado. É uma barreira abstrata que percorre todos os trabalhos”. Rudolfo Quintas explica que trabalha “muito esta dimensão”, pelo que os seus trabalhos artísticos “acabam por ser trabalho considerados vivos, porque trabalham muito sobre a experiência humana e sobre aquele momento, são muito performativos”.

Influenciar e ser influenciado. Absorver e ser absorvido

Por vezes as ideias de Rudolfo Quintas surgem daquele “nada aparente”, mas por vezes são fruto de pesquisa a investigação, como se de uma ciência exacta se tratasse. É um artista, cientista, um “tipo curioso”. Em 2007, trabalhou num laboratório de robótica do Instituto Superior Técnico e dessa experiência saiu a peça “Burning The Sound” que recebeu o prémio Transmediale Distinction Award do festival Transmediale, em Berlim.

Mais recentemente juntou-se a um cientista “apaixonado” e surpreendeu o país com a sua escultura interativa “Absorption”, exibida recentemente na exposição “Presence”.

Tom Kirchhausen, do Departamento de Biologia Celular da Harvard Medical School, conheceu Rudolfo na Mouraria, conversaram e daí saiu o convite para ir a Boston fazer uma residência. Passou dias fechado num laboratório, com cientista de “todos os géneros”, mas com a paixão comum de “compreender o mecanismo da vida e do nosso corpo”.

Nos Estados Unidos passou “por um processo de fazer exercícios de investigação científica, de tirar e pôr células, de as dividir para perceber o que eles faziam no dia-a-dia e naquele processo comecei a colocar questões e a criar”.

Nos Estados Unidos, Rudolfo Quintas passou “por um processo de fazer exercícios de investigação científica, de tirar e pôr células, de as dividir para perceber o que eles faziam no dia-a-dia e naquele processo comecei a colocar questões e a criar”.

E quando se pensa que fazer ciência e arte são coisas diferentes está-se a cometer um engano. Segundo explica Rudolfo Quintas, “eles trabalham com um processo semelhante ao processo artístico. Eles usam células, uma câmara para ver células e fazer o seguimento da sua evolução e extraem dados para chegar a conclusões. Eu faço exatamente o mesmo. Tenho o microscópio, câmaras e sensores 3D, que recolhem o corpo e o espaço para depois transformar em som e em imagem. O processo é exatamente igual.”.

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Então, relembra o artista plástico, “peguei no caderno e fui redesenhar o processo de endocitose, que é o processo através do qual as células absorvem os nutrientes. E eu vi a analogia. Quando entram num espaço, os meus visitantes olham para um objetivo artístico e absorvem a experiência ou não absorvem. A arte que absorve o espetador”. Assim nasceu a escultura interativa “Absorption”, uma metáfora artística dos mecanismos moleculares da endocitose. Uma peça que é muito mais do que uma escultura é um desafio tecnológico: “Tive de criar um sistema de projeção”.

Rudolfo Quintas já está a trabalhar no futuro. Vai ser desenvolvida uma nova série da escultura “Absortion”, que vai iniciar nos próximos dias com a visita do cientista Tom Kirchhausen, da Harvard Medical School, a Lisboa. Durante dois dias vai haver reflexão e “brainstorming” para o desenvolvimento de uma nova escultura que será instalada em Boston, nos Estados Unidos.

Criar robôs para ajudar crianças doentes

O que podem ter o autismo ou o cancro a ver com tecnologia, futuro e robótica? Aparentemente nada. Mas vejamos por partes onde se cruzam a ciência, a tecnologia e a saúde. O professor de robótica Pedro Lima explica a peculiaridade de estar a trabalhar em dois programas europeus, coordenados pelas equipas de investigadores do Instituto Superior Técnico. Destas investigações nasceram os projetos Monarch e Inside.

Neste momento, existe em permanência um pequeno robô, de 1 metro e pouco na pediatria do Instituto Português de Oncologia. Tem alguma autonomia, é interativo, reconhece a fala e deteta movimentos. Pedro Lima confessa que o Monarch tem estado a ter “mais sucesso do que esperávamos”. “Os miúdos, e diga-se de passagem, os médicos e as enfermeiras… é uma coisa acima das expectativas.”

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Em breve o Monarch terá um primo que vai interagir com crianças autistas no hospital Garcia de Orta, em Almada

Em breve o Monarch vai ter um primo nascido do projeto Inside. Embora lá fora já comecem a existir experiencias deste género, em Portugal em completamente inovador. O pequeno robô vai trabalhar com crianças autistas no Hospital Garcia de Orta, em Almada. Ainda não há prazo, mas até 2018, data do fim deste projeto europeu liderado pelos investigadores do Instituto Superior Técnico, esta pequena máquina interativa vai estar a funcionar. Está provado que as crianças com autismo reagem melhor ao robô do que com os humanos. Por isso, esta equipa de investigadores está a criar um robô que vai ajudar no processo terapêutico.

Digamos que o pequeno Monarch e o Inside não deixam muito a desejar se o compararmos ao Peper, o robô emocional que deteta emoções humanas e reconhece expressões faciais. Pode ser que um dia, daqui a não tantos anos quanto isso, tenhamos robôs nos hospitais, em casa e nos carros. Um regresso ao futuro ou o homem substituído pela máquina? A internet nasceu em 1995 no seio do mundo militar norte-americano. Vinte anos depois já ninguém vive sem ela. Será que daqui a 20 anos não vamos saber viver sem robôs e sem a tecnologia digital?

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