"Coletes amarelos": como se preparou o protesto no WhatsApp /premium

Paletes a arder, pregos na estrada ou estradas bloqueadas foram algumas das ideias que se discutiram nos grupos de WhatsApp dos "coletes amarelos". Que força têm, afinal?

Os grupos de WhatsApp dos autodenominados “coletes amarelos portugueses” foram criados ao sabor da necessidade. Sem grande coordenação e sem uma estratégia de conjunto estabelecida à partida, os promotores do grupo “Vamos Parar Portugal Como forma de Protesto” foram respondendo aos pedidos de expandir o movimento além do inicialmente previsto — apenas para a zona das portagens na A8. A mensagem foi sendo espalhada e alastrou-se a vários pontos do país. “Há alguma coisa organizada em Vila Real?”. “Alguém está a organizar protestos no Porto?”. “E em Trás-os-Montes?”. As perguntas sucediam-se. Espontaneamente, foram-se juntando as pessoas da mesma região para replicar o protesto e criaram-se novos grupos de WhatsApp, decorrentes do primeiro. De Leiria a Loures, do Porto a Lisboa, passando pelo Algarve ou por Gaia. Em todos, pelo menos um dos administradores está presente. Existem métodos transversais. Uns mais violentos do que outros; outros mais serenos do que uns. Para cada membro que incentiva a violência existe um que apela ao civismo. A incógnita sobre como vai decorrer a paralisação do país prevista para esta sexta-feira, dia 21 de dezembro, instalou-se no meio dos planos desorganizados que se vão discutindo ao minuto.

A ideia inicial, lançada através de um evento no Facebook, era simples: replicar o movimento que paralisou França e obrigou o Presidente Emmanuel Macron a ceder a algumas das exigências dos manifestantes. O ponto de encontro estava marcado para a Praça da Portagem, perto da A8, em Loures. As reivindicações são também inspiradas no caso francês: aumento do salário mínimo nacional e redução do imposto sobre o combustível. Acrescentam ainda o fim das subvenções vitalícias dos políticos, o fim dos pagamentos às PPP rodoviárias e a descida de mais impostos, como o da eletricidade. Medidas que, como o Observador explicou, esbarram em contradições, em inconstitucionalidades ou em dificuldades de aplicação prática.

No seio destes grupos, as conversas extravasam em larga medida a mera discussão destas exigências. Se os objetivos parecem mais ou menos consensuais — pelo menos não suscitam grandes discórdias ou profundos debates políticos –, o mesmo não se pode dizer da troca de ideias sobre as formas de protesto. Há quem sugira, por exemplo, colocar “paletes a arder” para “chamar mais a atenção”. Uma ideia que parece convencer vários membros em diferentes grupos em que o Observador entrou para perceber o que estava a ser discutido.

“Umas paletes a arder tudo bem, mas com alguns metros de distância”, escreveu um dos organizadores do evento. “Se pusermos pneus a arder no meio da estrada faz mais fumo e tudo”, sugere outro membro.

Os mais cautelosos tentam desaconselhar cenários de potencial caos. “Umas paletes a arder tudo bem, mas com alguns metros de distância”, escreveu um dos organizadores do evento através de uma resposta em áudio, onde apelava à não violência para “não se perder a razão”. “Se pusermos pneus a arder no meio da estrada faz mais fumo e tudo”, sugere um outro membro do grupo. A ideia também não parece desagradar aos que vão participando ativamente nestas propostas. “Vamos pôr pregos na estrada!”, entusiasma-se um terceiro elemento. Desta vez, não se gera consenso. “Pregos na estrada não, não queremos fazer mal às pessoas”, respondem-lhe através de um áudio.

O ritmo das conversas é frenético e difícil de acompanhar. Mas há dois fatores que saltam imediatamente à vista: o formato inorgânico dos grupos e a ausência de coerência — e congruência — nas reivindicações. Apesar de haver administradores nestes grupos, não existe propriamente uma voz de comando. Não há um líder assumido, disposto a dar a cara pelo movimento, que vá estabelecendo limites ao protesto. Filipe Ferreira, forcado e um dos cinco elementos fundadores do primeiro evento de Facebook, era quem, até esta quinta-feira, ia fazendo as vezes de organizador, tanto na moderação das conversas como no contacto com a comunicação social. Na véspera do protesto, abandonou o evento depois de ser acusado pelo grupo de estar a ser pago para passar informações à comunicação social. Nunca houve, no entanto, uma hierarquia ou liderança respeitadas. Era cada um por si, com apenas uma palavra de ordem: “Paralisar o país”.

Críticas a Costa e elogios ao PNR: ligados à extrema-direita?

Em todas as conversas de WhatsApp, há elementos comuns que permitem traçar um perfil daquilo que pode vir a ser o protesto desta sexta-feira. A indignação perante o Governo é transversal, mas não existe uma medida específica que se queira revogar ou uma outra que se queira fazer passar. “Este estado de coisas não pode continuar”, resume um elemento da conversa relativa a Loures.  Este mote parece ter sido a cola necessária e suficiente para agregar tanta gente em cada um dos grupos. “Não houve uma estratégia definida desde o início“, garante um membro que não se quis identificar ao Observador. “A ideia foi apenas a de fazer o protesto acontecer”. Quem se identificasse com alguma das reivindicações seria sempre bem-vindo.

Num dos áudios partilhados no WhatsApp um dos fundadores garante: "O SIS já nos anda a investigar para saber quem nós somos. Nós, os cinco que começámos isto, já temos o telefone sob escuta". Os serviços secretos desmentem.

Esta mesma postura foi assumida pela organização num manifesto divulgado na quarta-feira nas redes sociais. “Um movimento pacífico, apartidário, sem fins lucrativos, de união e apoio a todos os grupos e indivíduos vulgo ‘colete amarelo’ que estejam insatisfeitos com os variados problemas da atualidade no nosso país”, podia ler-se. As condições para ser parte integrante deste projeto são demasiado genéricas e deixam a porta de entrada escancarada para qualquer cidadão, seja de esquerda ou de direita, politizado ou apolítico.

O controlo sobre o que se escreve nestas conversas não passa por nenhum crivo. Assim, tornaram-se terreno propício para que fossem partilhadas não apenas notícias falsas como posições políticas mais extremistas, como a crítica ao acolhimento de refugiados por Portugal. A grande maioria não teve apoio dos restantes membros, mas a recusa também não foi evidente. Houve quem se revoltasse mas também quem tenha incentivado esse tipo de discursos.

Desde cedo se disse que os “coletes amarelos portugueses”, à semelhança do que aconteceu em França, podiam ter o apoio da extrema-direita. Algo que nunca foi assumido por nenhum dos membros. É certo que muitos dos elementos destes grupos, cujos perfis nas redes sociais o Observador consultou, seguem páginas como o PNR ou a Nova Ordem Social. Mas não se pode falar de uma ligação formal entre este movimento e essas organizações.

No entanto, há vários membros que parecem rever-se em posições de extrema-direita. Desde a partilha de frases de Salazar e de Marcello Caetano até às críticas ao 25 de abril, são vários os momentos em que as conversas derivam para um saudosismo relativo ao Estado Novo. Os organizadores não assumem estas posições como definidoras do protesto e recusam sempre ser conotados “com qualquer força política”. Ainda assim, em vários grupos foi celebrado o apoio que José Pinto-Coelho, líder do PNR, deu ao movimento no Twitter. 

Violência na base da discórdia

Num dos áudios partilhados no WhatsApp a que o Observador teve acesso, um dos fundadores garante estar a ser investigado pelos serviços secretos. “O SIS já nos anda a investigar para saber quem nós somos”, começa por dizer. “Nós, os cinco que começámos isto, já temos o telefone sob escuta.” O anúncio deixou os restantes interlocutores alarmados e o administrador daquele grupo de WhatsApp teve de prestar mais esclarecimentos. “Sei [que o SIS está a investigar os fundadores] porque tenho um amigo na PJ e ele disse-me. Depois, vi alguns movimentos aqui ao pé de minha casa e eu fui abordar dois deles. Chamei a GNR local e eles foram obrigados a identificar-se”, explicou. O Observador contactou o SIS, que desmente estas declarações. Segundo foi possível apurar, as secretas estão a acompanhar os desenvolvimentos atentamente mas não efetuaram nenhuma das diligências mencionadas pelo organizador.

O áudio pretendia sensibilizar os membros dos grupos para não avançarem com violência no protesto de sexta-feira. “Tenho família, foda-se!”, diria alguns dias mais tarde, continuando a apelar à calma. Mas, por mais insistentes que fossem os pedidos, as ideias para se avançar para um protesto violento não cessavam. “Sem violência ninguém nos vai ligar nenhuma!”, avisava um participante de Leiria.

Para separar os mais violentos dos que querem levar para a frente um protesto "pacífico" — mas com paletes e pneus a arder —, foram entretanto criados grupos mais extremistas. Auto-intitulam-se "coletes cor-de-laranja".

Independentemente da área geográfica, os grupos de WhatsApp seguiam mais ou menos o mesmo curso. O perfil dos participantes era semelhante em todos eles. E, por isso, também nos grupos de Lisboa havia discórdia sobre o grau de violência dos protestos. “A polícia já avisou que as penas podem ir até oito anos”, alertava-se. Mas nada pareceu convencer os apologistas de uma manifestação mais agressiva. “Eles [polícia] não vêm enquanto não virem que nós não somos extremistas”, argumentava um dos participantes na conversa relativa ao protesto agendado para a Ponte 25 de Abril, em Lisboa.

Foram muitos os que avisaram que “violência gera violência” ou que proclamaram que “a agressividade retira credibilidade” ao protesto. Mas a vontade de seguir em frente com uma outra ideia de manifestação teimava em persistir. À sugestão de levar o protesto a converter-se numa “guerra civil”, houve uma resposta sintomática: “Estás no grupo errado”. A referência à existência de um outro grupo é real. Para separar os mais violentos dos que querem levar para a frente um protesto “pacífico” — mas com paletes e pneus a arder –, foram entretanto criados grupos mais extremistas. Auto-intitulam-se “coletes cor-de-laranja”.

A deriva dos “coletes cor-de-laranja”

Esta é a transcrição de um vídeo que começou a circular nos grupos dos “coletes amarelos” de cada vez que se instigava a violência. Nas imagens, repousadas sobre um “colete cor-de-laranja”, viam-se várias armas, munições e um cão. A ideia era simples: com os “coletes cor-de-laranja” as regras estavam traçadas desde o início.

Ao longo das últimas duas semanas, o tema da violência começou a gerar discussões acesas nos chats de WhatsApp e mais recentemente no Telegram. Mas serviu igualmente para identificar aqueles que queriam de facto tornar o protesto mais violento. Foi, por isso, de forma natural que se criaram grupos paralelos exclusivamente para juntar todas as pessoas que pretendiam ir mais longe na violência do protesto. Começaram a surgir grupos dentro dos próprios grupos. Nesses, as conversas não são travadas por nenhum administrador ou organizador e o conteúdo é muito mais violento do que nos originais.

“Levar arma, tudo”, sugere um primeiro membro. “Comprar garrafões de gasolina: Avenida da Liberdade e Marquês a arder”, responde um segundo. Entre eles, vão trocando vídeos onde se ensina como se pode fazer um cocktail molotov caseiro e sugerindo levar armas para o protesto — ainda sem data definida.

A dimensão destes grupos é, no entanto, substancialmente mais pequena do que a dos grupos dos auto-proclamados “coletes amarelos”. A adesão que cada protesto vai ter é uma incógnita que só começará a ser desfeita esta sexta-feira de manhã, quando os protestos para “paralisar o país” entrarem em ação. Ou não.

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