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▲A China tenta competir com os EUA na liderança da inteligência artificial

NurPhoto via Getty Images

▲A China tenta competir com os EUA na liderança da inteligência artificial

NurPhoto via Getty Images

Com "tigres" e gigantes, como a China tenta impor-se na corrida à inteligência artificial

A DeepSeek ganhou a atenção da indústria no início do ano, mas a China tem mais trunfos na manga para competir com os EUA pela liderança da inteligência artificial. Até conta com "Seis Tigres".

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Na corrida à inteligência artificial, os Estados Unidos pareciam ser líderes incontestáveis. Até que a ascensão, no primeiro mês do ano, de uma startup chinesa, a DeepSeek, serviu do que Trump classificou como uma “chamada de atenção” para a indústria. Em especial para a OpenAI, que desenvolveu o chatbot mais popular do mundo, o ChatGPT.

Logo nos primeiros dias após a DeepSeek começar a receber mais atenção, ao revelar um modelo mais barato e com semicondutores menos avançados, a OpenAI disse ter provas de que a inteligência artificial da startup chinesa tinha sido treinada com os seus modelos. Entretanto, já esta semana, a criadora do ChatGPT, que é liderada por Sam Altman, enviou uma carta ao governo norte-americano em que descreveu a DeepSeek como sendo uma “subsidiária” do regime chinês e recomendou que fosse considerada uma proibição dos modelos apoiados por Pequim.

OpenAI diz que tem provas de que IA da DeepSeek foi treinada com os seus modelos. Alibaba lança mais um modelo que ultrapassa rival

A carta é mencionada por You Chuanman, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Ciências Sociais de Singapura, para defender que “há algum receio” da startup chinesa por parte de determinadas empresas norte-americanas. Contudo, ao ser questionado pelo Observador sobre se o Ocidente deve temer a DeepSeek, diz que “a resposta curta é não” porque “não há que ter medo de uma inovação ou de um avanço tecnológico”.

Defendendo que a “ideia de proibir a DeepSeek no Ocidente é muito politizada” e que uma maior cooperação entre os vários países é possível, o professor afirma que esta empresa é apenas “uma de muitas” que vão surgir na área da inteligência artificial em Pequim. A realidade é que já existem outras, até mais antigas, que têm alegado superar os modelos norte-americanos.

epa11872454 OpenAI CEO Sam Altman attends a talk session with SoftBank Group Corp. chairman and CEO during the event 'Transforming Business through AI' in Tokyo, Japan, 03 February 2025. SoftBank Group CEO Masayoshi Son announced that he had reached an agreement with OpenAI CEO Sam Altman to establish a joint venture in Japan aimed at providing artificial intelligence services to businesses.  EPA/FRANCK ROBICHON

▲ A OpenAI, liderada por Sam Altman, descreveu a DeepSeek como uma “subsidiária” do regime chinês

FRANCK ROBICHON/EPA

Da inspiração nos Pink Floyd ao apoio das gigantes Alibaba e Tencent. Os “Seis Tigres” da China

São conhecidas como “Seis Tigres” e têm todas um outro estatuto: o de unicórnio, uma vez que estão avaliadas em mais de mil milhões de dólares. São startups chinesas que desenvolvem inteligência artificial, impulsionando os esforços de Pequim para competir com os Estados Unidos e chegar à liderança mundial da indústria. O “tigre” mais antigo, no que ao ano de fundação diz respeito, é a Zhipu.

Qual o simbolismo do tigre na cultura chinesa?

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Na cultura chinesa, o tigre é conhecido como o rei dos animais. Com o estatuto de guardião, simboliza força e resiliência. Segundo a BBC, a sua imagem tem sido utilizada por crianças chinesas, em acessórios ou sapatos, dar lhes dar sorte e ainda por soldados, enquanto talismã.

Na imprensa chinesa não é apresentada uma explicação oficial para o facto de as startups serem conhecidas como as “Seis Tigres”. O chatbot da DeepSeek diz que é porque o simbolismo desse animal reflete “a inovação destas empresas no espaço da IA”. “Em conjunto, representam a ambição da China de liderar a investigação, o desenvolvimento e a comercialização de IA, competindo com gigantes globais como a Google, a Microsoft e a OpenAI.”

Foi criada em 2019, ainda antes do lançamento do ChatGPT e consequente boom da inteligência artificial, por dois professores universitários, Tang Jie e Zhang Peng. Com o apoio da Alibaba e da Tencent, bem como de fundos estatais, a Zhipu está avaliada em cerca de 2,5 mil milhões de dólares e já fechou mais de 15 rondas de financiamento. Só este mês já anunciou duas: uma no dia 3, de 137 milhões de dólares e com o apoio de um fundo do estado chinês; e outra no dia 13, no valor de 69 milhões de dólares, que contou com a participação do grupo estatal Huafa.

A Zhipu desenvolveu um modelo para gerar vídeos a partir de texto intitulado Ying, bem como um chatbot chamado ChatGLM, que o Observador testou. Ao contrário da DeepSeek, que se autocensura (primeiro responde, depois apaga) em perguntas sobre Xi Jinping, o ChatGLM mostra saber quem é o Presidente chinês. Quanto ao que aconteceu na Praça de Tiananmen em 1989, “lamenta” não conseguir dar as informações pedidas (a conversa é feita em inglês, mas esta resposta é apresentada em caracteres chineses).

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Recentemente, o foco da imprensa internacional não esteve na tecnologia da startup, mas no facto de ter sido incluída na “lista negra” dos Estados Unidos para o comércio, ficando impedida de comprar tecnologia a empresas norte-americanas sem uma licença especial. A decisão dos EUA foi tomada por recear que a tecnologia desenvolvida pela Zhipu estivesse a ser utilizada para ajudar a China a desenvolver a sua indústria militar. A empresa acusou Washington de carecer de “bases factuais” para a decisão, que, garantiu, “não terá impacto substancial nos negócios”.

Primeiro escreve, depois apaga. A censura da chinesa DeepSeek em tempo real e como contorná-la

Yang Zhilin, um dos alunos de Tang Lie, criador da Zhipu, e antigo estagiário da Meta e da Google (em equipas de inteligência artificial), fundou em Pequim outro dos “tigres”: a Moonshot AI, que começou em 2023 com um nome inspirado no álbum The Dark Side of the Moon dos Pink Floyd. Em março desse ano, mês do 50.º aniversário do lançamento do disco, que é o preferido do Zhilin, a startup arrancou com um grande modelo de linguagem (LLM, na sigla em inglês) com 100 mil milhões de parâmetros. Meses depois, em outubro, lançou o seu chatbot, o Kimi, que conta com cerca de 13 milhões de utilizadores na China, de acordo com dados da empresa Aicpb, que são partilhados pelo The Wall Street Journal.

Em janeiro, na mesma altura em que a DeepSeek abanou a indústria ao apresentar o modelo R-1, a Moonshot AI revelou uma versão atualizada do Kimi, o Kimi k.15, que alegou que tinha sido capaz de superar modelos da OpenAI e da Anthropic em alguns dos principais indicadores, nomeadamente num desafio matemático. O Observador testou o chatbot e percebeu que também não responde a questões políticas ou consideradas sensíveis para Pequim.

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Avaliada em 3,3 mil milhões de dólares, depois de no ano passado ter fechado uma ronda de financiamento Série B de mais de mil milhões de dólares, a Moonshot AI conta com o apoio da Alibaba e da Tencent. Ainda assim, segundo um artigo publicado no MIT Technology Review no mês passado, a startup estará, alegadamente, a recuar nos planos de investigação e de desenvolvimento de produtos fora da China devido à saída de trabalhadores considerados chave, embora não sejam especificados quais.

Fora de Pequim, em Xangai, há uma outra empresa que também é apoiada pela Alibaba e pela Tencent. É a MiniMax, que foi fundada em 2021 pelo programador e investigador Yan Junjie e que tem um chatbot chamado Talkie, parecido ao da norte-americana Character.AI. Pelo que o Observador percebeu ao usar a aplicação, os utilizadores podem criar e conversar com personagens fictícias ou celebridades, como Donald Trump, Bill Gates ou Taylor Swift, gerados por inteligência artificial.

Na primeira metade de 2024, o Talkie foi a quarta aplicação de inteligência artificial mais descarregada em solo norte-americano (à frente da Character.AI, que ficou em 10.º lugar), de acordo com dados da Sensor Tower, que são citados pelo South China Morning Post. Por outro lado, a nível global e no mesmo período de tempo, teve 17 milhões de downloads — menos dois milhões do que a aplicação dos EUA.

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Em dezembro, contudo, surgiram notícias de que a aplicação Talkie tinha sido removida da App Store dos Estados Unidos por “razões técnicas” não especificadas. Na Play Store, da Google, continuou disponível; e os utilizadores do sistema operativo iOS que tinham acesso continuaram a conseguir utilizá-la. Não surgiram, entretanto, informações que apontem para que tenha voltado a ficar disponível na loja de aplicações da Apple.

“Deves ter sempre contigo uma pequena faca”. Conversámos com a Character.AI, a aplicação acusada de incitar à violência

A MiniMax, que também tem uma plataforma chamada Hailuo para gerar vídeos a partir de texto, está avaliada em 2,5 mil milhões de dólares, depois de no ano passado ter fechado uma ronda de financiamento de 600 milhões de dólares.

Também com o apoio da Alibaba e da Tencent, bem como de fundos apoiados pelo estado chinês, surge o quarto “tigre”: a startup Baichuan, fundada por Wang Xiaochuan, criador do motor de busca Sogou, no início de 2023. Menos de 100 dias depois de ter sido lançada, a empresa revelou dois modelos de linguagem de código aberto, o Baichuan-7B e o Baichuan-13B.

Em outubro, anunciou um outro grande modelo de linguagem, o Baichuan2-192k, que indicou, segundo a imprensa chinesa, ter superado a Anthropic e a OpenAI ao ter mais contexto e ser capaz de processar 350 mil caracteres chineses. Mais recentemente, no início deste ano, revelou um modelo multimodal, o Omni-1.5, que alegou ultrapassar o GPT-4o-mini em várias áreas, como o processamento visual.

Quanto a financiamento, a Baichuan angariou cerca de 687,6 milhões de dólares em julho do ano passado, numa ronda que a avaliou em aproximadamente 2,8 mil milhões de dólares. Segundo o MIT Technology Review, a startup está focada no mercado chinês, o que pode explicar o facto de o Observador ter tentado experimentar a sua tecnologia mas não ter conseguido.

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Nos esforços da China para ser competitiva na área de inteligência artificial há ainda espaço para a 01.AI, fundada por Kai-Fu Lee, que trabalhou para a Apple, fundou um laboratório de investigação da Microsoft na Ásia e foi presidente da Google China. A startup, avaliada em cerca de 1,2 mil milhões de dólares e que conta com o apoio da Alibaba, lançou dois grandes modelos de linguagem no ano passado, o Yi-Lightning e o Yi-Large, de código aberto.

Para desenvolver o primeiro, o Lightning, Kai-Fu Lee disse que foram necessários 2.000 semicondutores H100 da Nvidia e apenas um mês, menos tempo e menos chips do que os que são utilizados por outras empresas como a OpenAI. “O ponto forte da China é construir bem, construir depressa, de forma fiável e barato”, defendeu o fundador da  01.AI, em declarações à Wired.

A última a entrar para o lote dos “tigres” foi a StepFun, startup criada em 2023 por Jiang Daxin, antigo cientista da Microsoft, que conta com a Tencent e o governo de Xangai como investidores. Avaliada em cerca de dois mil milhões de dólares, depois de no final do ano passado ter fechado uma ronda Série B de “centenas de milhões de dólares” (o valor exato não foi divulgado), a empresa já lançou 11 modelos de inteligência artificial, incluindo de linguagem, vídeo e multimodais.

O maior modelo de linguagem que revelou até ao momento chama-se Step-2 e tem mais de um bilião de parâmetros (o MIT lembra que o GPT-4 conta com cerca de 1,8 biliões). O Observador tentou experimentá-lo, mas não conseguiu porque a plataforma da StepFun depende de um número de telefone chinês para criar uma conta e iniciar sessão.

epa11858488 The logo of Chinese startup DeepSeek on a computer screen, in Geneva, Switzerland, 28 January 2025. Shares in major tech firms plummeted following the growing popularity of Deepseek, a Chinese artificial intelligence (AI) app that offers comparable performance at a fraction of the cost of its rivals.  EPA/SALVATORE DI NOLFI

▲ A DeepSeek agitou a indústria em janeiro

SALVATORE DI NOLFI/EPA

DeepSeek e Manus, os fenómenos de popularidade que surgiram de surpresa

Um chegou de surpresa no início do ano com um modelo mais barato, o outro começou a ganhar atenção este mês com um agente de IA que já tem dois milhões de pessoas em lista de espera. Em comum, a DeepSeek e o Manus, criado pela startup Butterfly Effect, têm o facto de terem nascido da China.

Se não tem dúvidas de que o DeepSeek é o “equivalente chinês” ao ChatGPT, o professor You Chuanman mostra-se mais cético quanto ao Manus e lembra que ainda está “numa fase muito inicial”. “É demasiado cedo para fazer um avanço significativo na IA ou [nunca o fará] de todo. Há algumas notícias [que o elogiam]. Mas não é nada comparado com a DeepSeek”, afirma, em declarações ao Observador.

DeepSeek, uma surpresa que colocou a indústria sob pressão

A chinesa DeepSeek foi criada em 2023, mas só este ano deu nas vistas quando apresentou o modelo R1 e declarou que um mais antigo, o V3, foi desenvolvido em apenas dois meses e com menos de seis milhões de dólares. Um montante muito inferior àquele que é utilizado por empresas norte-americanas, como a OpenAI, para desenvolver os seus modelos.

Por outro lado, a startup chinesa disse também ter utilizado menos chips (e menos avançados) para desenvolver os modelos, de código aberto (que podem ser explorados por outras entidades para desenvolver outros trabalhos), que lançou ao longo dos últimos quase dois anos. Ou seja, se a Meta ou a OpenAI usam supercomputadores com, no mínimo, 16 mil semicondutores para treinar chatbots, a DeepSeek alegou ter precisado apenas de cerca de dois mil.

DeepSeek, a startup chinesa que “abana” a indústria da inteligência artificial ao prometer fazer mais com menos

A ascensão da DeepSeek gerou alarme nos Estados Unidos, país que tinha aplicado restrições à exportação de semicondutores mais avançados para impedir que a China desenvolvesse a sua indústria de inteligência artificial. Atualmente, uma vez passado o entusiasmo inicial, poucas novidades têm surgido relativamente à startup chinesa.

Esta semana várias fontes avançaram ao The Wall Street Journal que o fundador, Liang Wenfeng, não pretende fazer alterações aos modelos da empresa (que são gratuitos e de código aberto) e disse aos sócios que não está com pressa para fechar investimentos no futuro próximo. Isto porque o empresário teme que “outsiders”, ou seja, entidades fora da empresa, possam interferir no negócio e nas decisões que são tomadas. Por outro lado, segundo o mesmo jornal, Wenfeng, que a 17 de fevereiro se encontrou, juntamente com outros empresários, com o Presidente chinês, Xi Jinping, esteve recentemente com responsáveis da Tencent e da Alibaba para discutir uma possível parceria para o futuro.

Yichao "Peak" Ji, co-fundador e cientista chefe Manus AI.

▲ Yichao "Peak" Ji é cofundador e cientista chefe do Manus AI

Manus AI

Manus, o agente de IA que tem dois milhões em lista de espera para acesso

Enquanto muitas das tecnológicas chinesas estão a trabalhar em chatbots ou modelos de IA, há quem se concentre noutro campo, mais virado para a operacionalização de IA. É o caso da startup chinesa Butterfly Effect, que lançou no início de março o Manus, que afirmou ser o “primeiro agente geral de IA”.

O Manus foi anunciado, mais do que um chatbot, como um “agente verdadeiramente autónomo que esbate as limitações entre execução e conceção”. A indústria tecnológica olha para os agentes de IA como o nível seguinte de produtividade da IA — por exemplo, se o ChatGPT consegue dar ideias para um itinerário de férias, um agente poderá fazer mais tarefas, como a marcação de voos ou de hotéis para poupar tempo ao utilizador.

Há um novo agente de IA vindo da China. Manus é um segundo “momento DeepSeek” ou um novo “hype” da indústria?

Numa publicação na rede social X, a empresa responsável pelo Manus revela que, sete dias após o lançamento da versão beta, tinha “dois milhões de pessoas na lista de espera”. Neste momento, o agente de IA continua a estar apenas acessível a quem tem um código de acesso. Segundo a empresa, é uma forma de conseguir garantir que a infraestrutura tecnológica da startup consegue fazer frente à procura.

“Estamos entusiasmados e honrados por esta incrível procura e estamos a trabalhar contra o relógio para levar o Manus a mais pessoas assim que possível”, explicaram na publicação. Mais tarde, através de comunicado, a startup pediu desculpa ao público pela demora, explicando que “subestimaram a resposta do mercado” ao agente. Também descreveram o Manus como “um produto preliminar”, ainda aquém daquilo que a empresa ambiciona.

Em parte, a forte procura e curiosidade à volta do Manus é justificada pelo fenómeno do DeepSeek. No caso do Manus, que o Observador ainda não conseguiu testar, continuando na lista de espera, as opiniões dividem-se sobre se é mais uma tecnologia de destaque nascida na China ou um fenómeno passageiro de popularidade.

Dean W. Ball, investigador na área de IA do Mercatus Center, da George Mason University, já testou o agente Manus. Ao Observador afirma que “é o melhor agente de uso computacional que já testou”. “Mas isso é uma frase que engana, porque é um espaço ainda emergente e nenhum destes produtos é de forma alguma fiável. É quase como dizer em 2019 que ‘o GPT-2 era o melhor modelo de linguagem que já testei’ [o GPT-2 foi lançado em fevereiro de 2019 e só com o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, é que as reais potencialidades dos LLM se materializaram para o público geral]. “Acho que o tempo [do Manus] na liderança desta área será limitado, já que espero que muitas mais startups melhorem esta ideia e que haja laboratórios de ponta norte-americanos que lancem produtos muito superiores”, explica.

O Manus não é uma grande inovação técnica”, admite, “mas sim o resultado de um bom produto de engenharia”. Dean W. Ball nota que o agente recorreu “a muitas ferramentas amplamente disponíveis na internet”, “combinou tecnologias existentes e técnicas para desenvolver um produto de ponta”.

O agente de IA Manus foi criado pela Butterfly Effect, uma startup que já desenvolveu uma assistente de IA, a Monica, lançada em março de 2023. A assistente está disponível como uma extensão para o navegador, que funciona com recurso aos grandes modelos de linguagem (LLM) o3-mini e GPT-4o, da OpenAI, o DeepSeek R1, o Claude 3.7, da Anthropic, e o Gemini 2.0, desenvolvido pela Google.

A Butterfly Effect foi criada em junho de 2022, por Red Xiao Hong, de 33 anos, que é o CEO, em conjunto com Ji ‘Peak’ Yichao, cientista-chefe e quem surge no vídeo de apresentação do Manus, e com Zhang Tao, responsável de produto. Segundo a imprensa chinesa, a startup terá pouco mais de uma dezena de funcionários e tem escritórios em Pequim e Wuhan, na China.

O CEO Xiao Hong é descrito pela imprensa chinesa como um “empreendedor em série”. Quando saiu da Universidade de Ciências e Tecnologia de Huazhong, em 2015, fundou uma startup chamada Nightingale Technology, que conquistou investimento da Tencent Holdings e de capitais de risco de menores dimensões. Curiosamente, a Tencent também faz parte da lista de investidores da Butterfly Effect, embora não seja claro qual o montante que investiu.

O jornal Asia Times refere que a Tencent investiu na Butterfly Effect no ano passado, numa ronda que contou com a participação da HongShan Capital Group. A ZhenFund, uma capital de risco fundada pelos investidores Bob Xu e Victor Wang, foi a primeira investidora da startup.

A Butterfly Effect e o seu Manus já conquistaram a atenção de mais uma grande tecnológica chinesa — mas não como investidora. Esta semana, o grupo Alibaba anunciou que está a trabalhar com a startup para desenvolver uma versão chinesa do agente. O anúncio menciona que a equipa do Manus vai ter uma cooperação estratégica com a equipa que desenvolveu o Qwen, o LLM da Alibaba, para “responder às necessidades dos utilizadores chineses”.

epa09518502 A man walks past the logo of Alibaba outside the company's headquarters in Beijing, China, 11 October 2021. Stock price of China's Alibaba rose 7.9 percent to 167.80 Hong Kong dollar at the Hong Kong stock market on 11 October 2021, extending to 24 percent its rebound from a 05 October low.  EPA/WU HONG epa08921399 (FILE) - A sign hangs outside the headquarters of Tencent, the parent company of Chinese social media giant WeChat, in Beijing, China, 18 August 2020 (reissued 06 January 2021). On 05 January 2021 US President Donald Trump signed an executive order banning transactions with eight Chinese-connected apps, including Alipay owned by Ant Group Co and other apps owned by Chinese tech giant Tencent Holdings Ltd.  EPA/WU HONG

▲ A Alibaba e a Tencent investem em várias empresas de IA

WU HONG/EPA

Gigantes chinesas aceleram lançamento de modelos de IA

A gigante chinesa Alibaba é conhecida pelo seu negócio de comércio eletrónico, que tem particular expressão na China, e pelo seu sistema de pagamentos AliPay. Porém, não ficou fora da corrida à IA e nos últimos anos intensificou o investimento nesta área, em particular no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem.

A empresa é a responsável por uma série de modelos de linguagem chamada Qwen. A versão mais recente, o modelo Qwen 2.5-Max AI, foi lançada no fim de janeiro, no encalço do sucesso da DeepSeek. Aliás, a Alibaba fez questão de declarar que o seu modelo “ultrapassou amplamente” o DeepSeek V3, mas também modelos de empresas norte-americanas, como o GPT-4o da OpenAI ou o Llama-3.1-405B da Meta.

Já esta semana, além da parceria com a empresa responsável pelo Manus, o grupo Alibaba anunciou uma alteração ao Quark, a aplicação de IA que contém um assistente digital. Na nova versão, o Quark passa a ter como “motor” uma versão do modelo de IA que é capaz de raciocinar — ou seja, explica ao utilizador quais são as etapas de ‘pensamento’ que o levam a apresentar determinada resposta.

Na apresentação de resultados do último trimestre de 2024, divulgados em fevereiro, a empresa declarou que continua “comprometida com o avanço de tecnologia de IA multimodal”, ou seja, IA que é capaz de compreender interações de texto, imagem, áudio e vídeo. No gigante grupo Alibaba, que foi criado em 1999, em Hangzhou, por Jack Ma, a IA está alicerçada na unidade de cloud.

Fundador do Alibaba reaparece cinco anos depois num evento público com o Presidente da China

Para acompanhar o compromisso, a Alibaba anunciou que pretende investir pelo menos 380 mil milhões de yuans em IA e na unidade cloud nos próximos três anos, o equivalente a 48,4 mil milhões de euros. De acordo com a Reuters, o valor de investimento até 2028 ultrapassa os valores investidos pela empresa na área de cloud e IA ao longo da última década. Até agora, o investimento em IA parece agradar aos mercados: as ações da Alibaba valorizaram 61,75% até este ponto do ano.

A gigante Tencent, dona do WeChat, também está ativa nesta área da IA — tanto na vertente de desenvolvimento de modelos como no investimento em startups a trabalhar na área. Depois do abanão da DeepSeek, também correu para lançar um modelo de IA. A 28 de fevereiro, praticamente um mês depois do tumulto DeepSeek, a gigante apresentou o Hunyuan Turbo S, sem surpresas, também um modelo capaz de raciocinar. No anúncio, a Tencent declarou que o Turbo S ultrapassou os modelos V3 e o R1, ambos da rival DeepSeek.

A empresa chinesa fez questão de puxar pelos galões de ser uma multinacional com uma infraestrutura madura. Enquanto o chatbot da DeepSeek foi penalizado por tempos de resposta algo demorados e falhas na ligação, fruto de uma procura elevada, o Turbo S foi descrito como capaz de responder a pedidos “num segundo”. Distinguindo-se, assim, “do DeepSeek R1, do Hunyuan T1 e de outros modelos de pensamento lento que precisam de ‘pensar por algum tempo  antes de responder”, disse a Tencent em comunicado.

A DeepSeek tem outra característica que pressionou algumas gigantes chinesas — o facto de desenvolver modelos de IA de código aberto. Robin Li, CEO da tecnológica Baidu, defendeu noutras ocasiões a manutenção dos modelos de IA em código fechado era uma forma de desenvolver a indústria. Mas mudou de ideias depois da atenção dada a uma rival, ainda por cima uma startup. “Uma coisa que aprendemos com a DeepSeek é que ter modelos de código aberto pode acelerar fortemente a adoção” da tecnologia, declarou durante uma chamada com analistas em fevereiro, após a apresentação de resultados.

E, nessa ocasião, prometeu uma atualização ao Ernie, a série de modelos de IA desenvolvida pela empresa. “O Ernie 4.5 vai ser um dos nossos melhores modelos de sempre e queremos que os nossos utilizadores e clientes o experimentem de forma mais fácil do que antes. A nossa decisão de ter o Ernie 4.5 em código aberto é apoiada pela nossa confiança profunda na nossa liderança tecnológica”, declarou. A transição do Ernie vai ser gradual — só será de código totalmente aberto a 30 de junho, citou a Reuters.

You Chuanman, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Ciências Sociais de Singapura, considera que essa mudança de ideias da Baidu terá como objetivo tentar aumentar a quota de mercado. “Para ser franco, para os utilizadores chineses, seja na China ou no estrangeiro, raramente usam a Weixin media, que foi desenvolvida pela Baidu, preferem usar produtos da Alibaba e da Moonshot”, explica. O professor nota que a tecnológica “é, falando francamente, uma empresa sem esperança”. “Tem todos os recursos, mas a governança corporativa da Baidu e a visão do fundador é muito diferente da maioria dos outros inovadores no mercado”, reconhece. “Durante um longo período de tempo, o fundador da Baidu foi bastante contra a ideia do código-fonte e de IA aberta.”

epa11767377 Signage in front of the ByteDance office, parent owner of TikTok in San Jose, California, USA, 09 December 2024. The U.S. Court of Appeals for the D.C. Circuit sided with the Justice Department, who argued that the U.S. government has the authority to ban TikTok, owned by the Chinese government, based on the national security risk which can expose American’s data or influence what they see. TikTok requested an emergency pause of the law set to ban the popular social media app next month to allow the Supreme Court time to determine whether it should review the law, the company said in a court filing.  EPA/JOHN G. MABANGLO

▲ A ByteDance, dona do TikTok, também tem um chatbot

JOHN G. MABANGLO/EPA

Quem também não quis ficar de fora da corrida à inteligência artificial foi a ByteDance. É mais conhecida por ser a proprietária do TikTok, mas tem outras aplicações com alguma popularidade, como o CapCut, para editar vídeos, ou a Lemon8, uma rede social que é uma mistura entre Instagram e Pinterest. Os primeiros rumores de que iria apostar em IA surgiram em junho de 2023, quando vários meios de comunicação avançaram que estaria a testar um chatbot. O nome de código do projeto era “Grace”. Quando foi oficialmente lançado, dois meses depois, recebeu o nome de Doubao (para a versão chinesa e de Cici para a internacional). O Observador testou o Doubao e percebeu que, tal como outras plataformas chinesas, não responde a perguntas como o que aconteceu em Tiananmen: “Não posso responder a esta questão. Podes perguntar-me outras questões e eu vou dar o meu melhor para te ajudar”. E também recusa que exista censura na China, alegando, entre outras coisas, que o país “cria um ambiente favorável para a expressão legítima dos cidadãos”.

A aplicação do Doubao tinha mais de 71 milhões de utilizadores mensais ativos no final do ano passado. Nessa altura, surgiram rumores, com base num memorando interno, de que a ByteDance estaria a mudar o foco dos chatbots para plataformas alimentadas por inteligência artificial que geram vídeos a partir de imagens, como a Jimeng AI ou a Pixel Dance.

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Ainda assim, em janeiro, com a ascensão da DeepSeek, a ByteDance atualizou o grande modelo de linguagem que alimenta o Doubao, para a versão 1.5-Pro, que disse ter conseguido obter resultados iguais ou superiores aos de rivais, como a Anthropic e a OpenAI, em vários testes de conhecimento.

Nesse mesmo mês, o Financial Times avançou, citando fontes, que a ByteDance tinha planos para gastar mais de 12 mil milhões de dólares em semicondutores de inteligência artificial, cerca de 5,5 mil milhões para comprar esses chips na China e outros 6,8 mil milhões no estrangeiro. A empresa respondeu à notícia dizendo que a informação “anónima” estava “incorreta”.

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