Como um comunicado e três emails com anexos podem afastar Bruno de Carvalho do Sporting até 2023 /premium

14 Dezembro 2018

Assembleia Geral do Sporting vai votar suspensão de seis ex-dirigentes e a expulsão de dois sócios. No caso de Bruno de Carvalho, é mais do que isso: pode sair da órbita eleitoral pelo menos até 2023.

Bruno de Carvalho sempre foi alguém que mostrou um certo gosto em “ir a jogo”. Comprou demasiadas guerras mesmo sabendo que muitas vezes não tinha as tropas suficientes que dessem conta do recado para sair vencedor, desafiou aquilo que descrevia como “poderes instalados” com a noção de que os tiros também lhe podiam sair pela culatra. Do geral para o particular, nunca admitiu que o seu estatuto como líder fosse colocado em causa; em vez do diálogo, atacava; sentindo-se atacado, explodia ainda com maior veemência; percebendo que continuava debaixo de fogo, ameaçava com a “bomba nuclear”. O importante era ter a última palavra, como se a última fosse obrigatoriamente a final. No limite, essa atitude, que ficou bem patente em alguns atos no final da maio, poderá valer agora ao antigo presidente a perda de uma palavra efetiva no Sporting durante vários anos.

Olhando para a Assembleia Geral do Sporting e espremendo a decisão que poderá sair em relação ao ex-líder, existe um “quase nada”. E porquê? Porque, mensagens “políticas” à parte, mesmo que os associados votem contra a suspensão de um ano de sócio aplicada pela Comissão de Fiscalização, Bruno de Carvalho continuará suspenso de forma preventiva por causa de um outro processo disciplinar que foi iniciado pelo anterior elenco coordenado por Henrique Monteiro e que passou agora para o Conselho Fiscal e Disciplinar eleito. No entanto, existem muitas outras coisas que podem vir a mudar caso a suspensão seja ratificada; por exemplo, não poderá voltar a ser cabeça de lista de uma candidatura às eleições entre cinco e oito anos.

A forma como a Assembleia Geral foi preparada em termos internos (com algumas discordâncias na organização e na melhor forma para o voto ser exercido que foram resolvidas nos últimos dias), a mobilização que tem vindo a ser feita nos bastidores por quem está a favor e contra o presidente destituído e algumas mensagens trocadas entre associados, a que o Observador foi tendo acesso, que envolveram até ameaças veladas caso se voltasse a repetir o que se passou na última reunião magna mostram que esta é muito mais do que uma reunião magna. Tão depressa pode dar uma nova “hipótese” a Bruno de Carvalho como pode acabar de vez com qualquer perspetiva viável de regresso que possa estar em cima da mesa a breve/médio prazo. Ou seja, seria o fim definitivo de um ciclo. E tudo por razões que nada têm a ver com outras bem mais faladas ainda hoje como a invasão à Academia Sporting em Alcochete, o processo Cashball ou eventuais irregularidades cometidas enquanto estava na liderança.

Afinal, para este processo em específico que motivou a suspensão de sócio por um ano, quase tudo se resume aos oito dias que se seguiram à derrota na final da Taça de Portugal, no final de maio. Oito dias que, por causa de uma decisão divulgada em comunicado e três emails enviados a todos os sócios do clube, podem ditar uma penalização mínima de cinco anos.

Marta Soares ganhou o braço de ferro a Bruno de Carvalho, ex-presidente tentou dar a volta e acabou suspenso de sócio

As três grandes razões que levaram à sanção disciplinar de suspensão de sócio

Depois de uma primeira reunião entre todos os órgãos sociais na segunda-feira, dia 21 de maio, que não conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio para o próximo passo no futuro do clube, um novo encontro foi marcado para a quinta-feira seguinte, dia 24. Durante cerca de três horas, houve insultos, expressões mais acesas e uma total discrepância de opiniões em relação ao que se poderia passar no capítulo sozinho. Tudo numa sala de Direção, no piso 3 de Alvalade, que tinha gravadores espalhados pela mesa para que ficasse registado o que fosse falado. Nem a ata da anterior reunião, lida logo no arranque dessa tarde, foi ratificada pelos membros demissionários quer da Mesa da Assembleia Geral, quer do Conselho Fiscal e Disciplinar, por entenderem que não refletia o que se passara. Mais uma vez, Bruno de Carvalho queria desde início marcar o ritmo de “jogo” mas não evitou um nulo no resultado – mantendo a analogia, cada um teria de avançar com o seu prolongamento.

Marta Soares pedia que os membros que restavam do Conselho Diretivo se demitissem, com a promessa que teriam três meses em funções de gestão corrente onde poderiam fechar as pastas que alegavam ser fundamentais naquele contexto, Bruno de Carvalho recusou sempre a ideia e foi argumentando que precisava de um período entre dez e 30 dias para resolver essas mesmas questões, relacionadas com a reestruturação financeira, o empréstimo obrigacionista e a planificação do futebol. O então presidente da Mesa apresentou três datas possíveis, entre agosto e setembro (de recordar que, mais tarde, haveria mesmo um ato extraordinário a… 8 de setembro); o então presidente da Direção disse que isso seria impossível por condicionar toda uma época que tinha de ser trabalhada. Marta Soares avisou que iria marcar uma Assembleia Geral para ouvir os sócios sobre uma possível destituição perante a crise institucional que se vivia, Bruno de Carvalho ameaçou avançar com processos contra todos aqueles que lesassem o clube porque essa reunião magna seria ilegal por falta de fundamentação.

Dois dias depois, sábado, foi cometido o primeiro facto levado em conta no processo disciplinar levantado pela Comissão de Fiscalização: através dos meios do Sporting, nomeadamente os endereços eletrónicos de todos os associados com esse registo no clube, o Conselho Diretivo enviou um email com a ata – ou a proposta de ata, porque não estava assinada por ninguém, pelo que não estava naquela altura válida – dessa mesma reunião de dia 24. Mais tarde, no dia 29, aquele que poderia ser um episódio esporádico repetiu-se: mais um email, desta vez com um comunicado enviado por Fernando Correia, então porta-voz de Bruno de Carvalho; a nomeação de uma Comissão de Fiscalização por parte de Marta Soares; a convocatória para a Assembleia Geral de destituição da Direção; e o pedido aos meios do clube para poderem esta na logística dessa mesma reunião magna; a 1 de junho, novo email com a convocatória para duas Assembleias Gerais, uma para votar o Orçamento e outra eleitoral.

Bruno de Carvalho tentou anular a AG destitutiva através de mecanismos que, segundo a decisão, violaram os estatutos

“Ao divulgarem uma designada ata entre os sócios, usando a base de dados do Sporting Clube de Portugal, os sócios participados deram um uso indevido a ativos do clube, incluindo a citada base de dados, a qual contém dados considerados pessoais, como nome completo e endereço de correio eletrónico. Da mesma forma, o envio de email assinado pelos sócios participados, datado de 29 de maio de 2018, foi remetido através da base de dados do Sporting Clube de Portugal e não tem subjacente qualquer interesse objetivo do clube. Tal email, para além da designação de pessoas estranhas para órgãos inexistentes, convoca uma Assembleia Geral, em nome do clube, visando-se atribuir-lhe uma aparência de um ato regular e legítimo”, escreveu a Comissão de Fiscalização nas justificações para as sanções aplicadas aos elementos da antiga direção.

Há ainda outro ponto, o mais relevante neste caso, que justifica a decisão de suspensão: a resposta ao anúncio de Jaime Marta Soares em relação à Assembleia Geral destitutiva e à nomeação de uma Comissão de Fiscalização. Na madrugada de 31 de maio para 1 de junho, o Conselho Diretivo liderado por Bruno de Carvalho, considerando tratar-se de medidas ilegais e ilegítimas, assim como por achar que os membros demissionários da Mesa da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal e Disciplinar não teriam cumprido os procedimentos legais e estatutários a que estavam vinculados, decidiu fazer uma completa reviravolta na novela que estava montada e quis afastar o então presidente da Mesa com a nomeação de uma Comissão Transitória da Mesa da Assembleia Geral que, por sua vez, nomeava uma Comissão de Fiscalização. Mas não ficava por aí: além de marcar uma reunião magna por causa do Orçamento onde estavam também previstas algumas alterações a oito pontos dos estatutos que visavam reforçar o regime presidencialista, avançava também uma data para novas eleições para os dois órgãos.

"Os sócios participados não desconheciam que, nos termos do disposto no artigo 41.º dos estatutos, só o presidente da Mesa tem competência para nomear comissões de gestão e de fiscalização (...), não desconheciam que o presidente da Mesa não se demitira (...), não desconheciam que não existe qualquer disposição estatutária ou análoga que permita ao Conselho Diretivo nomear ou substituir membros de outros órgãos", destacou a Comissão de Fiscalização.

Perante a “obstaculização da Assembleia Geral do dia 23 de junho de 2018” e a “usurpação de funções e criação de órgãos não previstos estatutariamente”, a Comissão de Fiscalização detalhou os pontos na decisão tomada perante o processo disciplinar. “Os anteriores membros do Conselho Diretivo visaram obstaculizar a realização da Assembleia Geral de 23 de junho, desta forma tentando impedir os sócios do Sporting Clube de Portugal de deliberarem sobre a destituição com justa causa dos mesmos (…) Os sócios participados não desconheciam que, nos termos do disposto no artigo 41.º dos estatutos, só o presidente da Mesa da Assembleia Geral tem competência para nomear comissões de gestão e de fiscalização (…), não desconheciam que o presidente da Mesa da Assembleia Geral não se demitira (…), não desconheciam que não existe qualquer disposição estatutária ou análoga que permita ao Conselho Diretivo nomear ou substituir membros de outros órgãos”, destacou.

Perante estes factos, Bruno de Carvalho, por ser presidente, foi sancionado com a pena de um ano de suspensão da condição de sócio, ao passo que os restantes vices e vogais do Conselho Diretivo (Carlos Vieira, Rui Caeiro, Alexandre Godinho, José Quintela e Luís Gestas) ficaram pelos dez meses à exceção de Luís Roque, “ilibado” com uma repreensão por não ter participado na reunião. Mais tarde, e também a este propósito, Elsa Tiago Judas e Trindade Barros foram castigados com pena de expulsão por “usurpação de funções, criação de órgãos ilegais e convocatória de falsas Assembleias Gerais”, tendo ainda agravantes como o facto de não pagarem quotas há alguns anos ou “serem licenciados em Direito com inscrição ativa”. É esta decisão, e apenas esta decisão, que será sufragada este sábado, com essa nuance supracitada porque, confirmando-se a suspensão, teria de voltar a juntar cinco anos ininterruptos de sócios efetivo. Ou seja, já depois do próximo ato eleitoral, que se realizará em condições normais em 2022. Como cada mandato tem quatro anos, chega-se à tal data de 2026.

O encontro prévio em Alvalade e as justificações diferentes dos dirigentes suspensos

Como o Observador explicou esta semana, alguns dos antigos dirigentes suspensos pediram a Rogério Alves, atual presidente da Mesa, uma reunião para discutir o recurso das sanções, que em termos estatutários está previsto apenas na figura de Assembleia Geral e por maioria simples de 50% mais um. O encontro, quando começou a ser falado logo nesse dia em alguns circuitos mais restritos da blogosfera leonina, mereceu críticas também num grupo fechado do Facebook por Rita Garcia Pereira (que fez parte da Comissão de Fiscalização) mas trouxe resultados, com cada posição a ser clarificada e a certeza de que, caso estivesse tudo a cumprir os regulamentos, haveria essa possibilidade de poder avaliar o recurso numa reunião magna. Quatro antigos vices e vogais marcaram presença, ao contrário de Bruno de Carvalho, que se fez representar no encontro pelo advogado José Preto, e Alexandre Godinho. Mais uma prova da cisão que foi havendo no antigo Conselho Diretivo e que ficou comprovada nas alegações apresentadas para rebater a decisão da Comissão de Fiscalização a que o Observador teve acesso.

Da parte de Bruno de Carvalho e Alexandre Godinho, único membro da Direção que ficou com o antigo líder e quis tomar a iniciativa de apresentar uma resposta conjunta com o antigo número 1, a argumentação radica muito nas justificações dadas para cada uma das medidas logo na altura (a única coisa que foge a isso é a recusa de obstrução na realização da Assembleia Geral destitutiva) – Jaime Marta Soares anunciou a sua demissão a vários órgãos sociais que estavam à porta de Alvalade; depois de dizer que iria marcar a Assembleia para colocar nas mãos dos sócios uma possível destituição deixou de aparecer e cumprir os seus deveres; era muito mais importante na altura fechar pastas como a reestruturação financeira, o empréstimo obrigacionista e a planificação da época do futebol do que avançar para o cenário de eleições ou destituições; a Comissão de Fiscalização era composta quase na íntegra por elementos que já se tinham manifestado contra o presidente em termos públicos, o que lhes retirava a imparcialidade que deveriam ter para cumprir o cargo.

Houve uma cisão entre os antigos dirigentes suspensos durante o processo, visível em vários momentos: as justificações de defesa no processo disciplinar; a vontade que existia em seguirem caminhos diferentes nas últimas eleições; ou a presença ou não na reunião com Rogério Alves em Alvalade.

Já Carlos Vieira, Rui Caeiro, José Quintela e Luís Gestas, que foram sempre falando entre si antes de cada passo ao longo de todo o processo, tiveram uma base comum de defesa com outras nuances individuais. Todos alegaram a violação do princípio da imparcialidade, a secundarização de circunstâncias atenuantes que existiam naquela contexto e a falta de menções formais na decisão; depois, existiam os tais “acrescentos” – Vieira, responsável pelas contas, estava numa fase decisiva numa reestruturação financeira que seria fundamental para o futuro a breve e médio prazo do clube e da SAD (as negociações serão agora retomadas pelo atual elenco, com ou sem compra dos VMOC como estava a ser conversado há seis meses); José Quintela estava afastado das decisões desde dia 21 de maio por questões de saúde, além de ter apenas o pelouro das plataformas de comunicação; Rui Caeiro, que era vogal para as modalidades, ressalvou os pareceres que validavam a Comissão Transitória.

Por fim, e numa espécie de terceiro grupo nesta questão da defesa às sanções, Elsa Judas e Trindade Barros, que entretanto deixaram de ter relação depois de um episódio na altura da preparação de listas para as eleições de 8 de setembro (uma lista que chegou a ser apresentada mas não avançou por ter sido chumbada), podem estar em sintonias diferentes mas alegam o mesmo –pedem a nulidade do processo e da decisão perante factos que não corresponderão à verdade.

Bruno de Carvalho não deverá ir à Assembleia Geral, ao contrário de ex-vice Carlos Vieira que explicar todos os factos

Salvo alterações de última hora, como aconteceu na Assembleia Geral destitutiva quando Bruno de Carvalho decidiu aparecer de surpresa no Altice Arena quando já faltava pouco para fechar a votação, o antigo presidente não marcará presença no Pavilhão João Rocha mas mantém em aberto a possibilidade de enviar um representante que leia um discurso por si preparado. Também Alexandre Godinho não irá à reunião magna, desconhecendo-se se terá alguém a falar por si. Já outros antigos vices e vogais, como Carlos Vieira, Rui Caeiro, José Quintela ou Luís Gestas, ponderam aparecer para usarem dos 15 minutos de palavra e poderem explicar de viva voz o que se passou naquelas duas semanas mais conturbadas que levaram à suspensão, admitindo inclusive poderem falar e abandonar depois a sala, caso considerem ser o mais indicado para o bom funcionamentos dos trabalhos. Não se sabe ainda quais serão as posições de Elsa Judas e Trindade Barros.

As “lições” da última AG e as decisões paralelas que sairão do resultado final

A última Assembleia Geral do Sporting, que foi em paralelo a primeira do novo elenco, fez soar alguns alarmes em Alvalade. Por um lado, e apesar de se esperar alguma contestação por parte de associados apoiantes de Bruno de Carvalho, a mesma superou o que se prognosticava, sobretudo tendo em conta a presença de mais de 550 associados – o que também não era propriamente esperado, numa altura em que a equipa de futebol estabilizou e vai conciliando boas exibições com resultados e tratando-se de um ato numa sexta-feira à noite. Aliás, algumas fontes contactadas pelo Observador consideram mesmo que, no caso de haver um voto por pessoa, o Orçamento para o exercício 2018/19 corria o sério risco de ser chumbado. Os 26% de diferença entre esse resultado e a aprovação do Relatório e Contas que dizia respeito ao anterior elenco (passou com 82%) mostraram que, apesar de tudo o que se passou nos últimos três meses, a clivagem é mais acentuada do que se poderia pensar.

O clima de tensão que se sentiu em alguns momentos da reunião magna, e que por uma vez não resvalou por pouco para as agressões físicas (nesse momento, Rogério Alves pediu mesmo à segurança que pudesse intervir para acalmar os ânimos, num momento em que se preparava para exercer a palavra o pai do antigo presidente, Rui de Carvalho), bem como os assobios ao atual líder, Frederico Varandas, na única vez em que foi ao palco e quando se encaminhava para a zona de votação, deixaram os responsáveis leoninos incomodados e com a certeza de que a Assembleia Geral deste sábado teria de ser diferente. Também entre os associados, ao longo das últimas duas semanas, houve trocas de mensagens mais azedas e ameaças caso o “circo não acabe”. “A bem ou a mal, têm de perceber que isto vai chegar ao fim. Vamos estar preparados”, dizia uma delas, entre outras considerações. No lançamento da Assembleia Geral, e percebendo as discrepâncias que o último encontro acentuou, Rogério Alves destacou por mais do que uma vez em conferência que a segurança vai estar preparada e será reforçada.

Última Assembleia Geral ditou diferença de 26% entre a aprovação do Orçamento (56%) e do Relatório e Contas (82%)

Há um ponto que começa desde já a ser contestado mas que, em paralelo, faz com que Bruno de Carvalho se arrisque a perder pelo próprio “veneno”: a possibilidade que existirá de qualquer sócio passar pelo Pavilhão João Rocha, votar e deixar o local. Por um lado, coloca-se em causa uma situação que não foi esclarecida ao pormenor pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral mas que até poderá vir a acontecer nesses moldes: os antigos dirigentes que recorrem da suspensão têm direito a 15 minutos de uso da palavra, mas esses farão apenas sentido se forem abertos antes da votação; caso contrário, haverá sócios a votar sem ouvir sequer as justificações. Por outro, a fórmula aberta do “chegar-entrar-votar-sair” transforma este ato numa espécie de referendo e não numa Assembleia Geral. A prática é recente e foi inaugurada pelo próprio líder destituído na Assembleia Geral de fevereiro, quando “exigiu” 75% em todos os pontos a sufrágio para não apresentar a demissão, sendo depois utilizada no dia da destituição, na Altice Arena. Muitos entendem que é um modelo que acaba por inquinar a tendência de voto, há também quem argumente que isso evitará um possível adiamento do ato caso haja sobrelotação de presenças. “Nos últimos anos foi-se perdendo o hábito de discutir ideias na Assembleia, já ninguém tem paciência para ouvir as palavras que outros mandam ler por pessoas que muitas vezes nem percebem muito bem o que está em causa”, admite um antigo dirigente.

“Esta vai ser uma Assembleia Geral com características inéditas, porque nunca se realizou uma para avaliar e votar os recursos da suspensão e expulsão dos visados que todos sabem quem são. Estas pessoas decidiram recorrer da decisão, conforme está nos estatutos. A Assembleia Geral foi marcada para debater, trocar pontos de vista e deliberar. Estamos a criar condições para que as pessoas possam vir em segurança à Assembleia Geral, possam participar nos debates se quiserem, possam ouvir as trocas de opiniões se quiserem mas também votar e ir embora, se assim desejarem. Até aí, queremos que seja uma Assembleia Geral livre. Espero que seja uma afirmação de sportinguismo e que seja uma Assembleia conclusiva em relação ao que for votado pelos sócios. E repito: estamos a fazer uma aposta forte na garantia de que a segurança estará presença e que toda a gente pode vir, participar, votar e partir em segurança”, referiu Rogério Alves.

Assembleia Geral vai permitir de novo que os sócios possam entrar, votar e sair, modelo que foi utilizado por Marta Soares na reunião magna de fevereiro que ratificou Bruno de Carvalho como presidente e, mais tarde, no encontro do Altice Arena que deliberou a destituição do Conselho Diretivo.

Trocado por miúdos, o presidente da Mesa da Assembleia Geral quis ressalvar dois pontos: 1) as pessoas interessadas em ir à Assembleia Geral não têm de estar preocupadas com possíveis confusões como as que existiram na Assembleia Geral destitutiva ou de aprovação do Orçamento e devem comparecer para “abafar” esse grupo, tal como aconteceu de forma massiva no Altice Arena; 2) é importante haver uma votação que seja sintomática do atual estado do Sporting para que se perceba em definitivo se a antiga era ainda existe e continuará a ter peso decisório ou se houve um virar de página a 8 de setembro. Foi isso também que os apoiantes de Bruno de Carvalho, intitulados “Leais ao Sporting” perceberam, foi isso também que levou a que emitissem um “comunicado”, que seria depois partilhado pelo antigo líder na sua página oficial do Facebook, esta quinta-feira.

“Não se trata de um mero voto numa suspensão ou não, envolve uma mensagem clara que os sócios queiram deixar para o processo ainda em curso que visa a expulsão de sócio de Bruno de Carvalho. Em segundo, lugar os sócios ao votar a favor da suspensão têm de ter a noção que com esse ato Bruno de Carvalho só poderá recandidatar-se ao clube em 2026! Isto acontece pela regra dos cinco anos ininterruptos de pagamento de quotas. Com um ano de suspensão, Bruno de Carvalho terá de esperar mais quatro para se poder candidatar e como isso termina apenas em 2022/2023, previsivelmente, só poderá concorrer nas eleições seguintes que serão em 2026/2027. Para votar temos que ter a certeza absoluta daquilo em que estamos a votar e nas implicações da votação. Esperamos uma grande AG, elevada, mas que demonstre a gratidão que têm pelo rumo percorrido onde se inclui a aproximação aos sócios; ser tão grandes quanto os maiores do mundo; e recuperar a mística no futebol dos anos 40/50 em que o Sporting era conhecido pelo ‘Crónico’. Dos 18 aos 100 anos todos têm de demonstrar união e militância em torno de um caminho que nos trouxe de volta o respeito de todos e a nossa dignidade e identidade”, argumentaram.

É aqui que se concentra o ponto lateral mas mais importante da Assembleia Geral do Sporting deste sábado: mais do que haver uma votação ou contra a suspensão de Bruno de Carvalho de sócio, haverá uma mensagem e uma nova realidade paralela aos resultados da votação. E das duas uma – ou o antigo presidente ganha um novo fôlego em caso de triunfo, que lhe permitirá ainda ambicionar um regresso ao clube a médio prazo, ou será o início do fim em termos práticos dessa era no clube, seja pela inviabilização de se candidatar à presidência por cinco anos que se podem transformar em oito, seja pela possibilidade de ser expulso de sócio no outro processo disciplinar que está a decorrer e que envolve matérias bem mais delicadas que se passaram depois da Assembleia Geral de destituição e que está agora nas mãos do atual Conselho Fiscal e Disciplinar. Neste caso, e indo ao detalhe, por causa de um comunicado e três emails que violaram o que está regulamentado nos estatutos.

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