Depois de um mês em que tem sido alvo de ataque pela sua atividade profissional, o candidato presidencial Luís Marques Mendes decidiu divulgar uma lista com 22 clientes da sua empresa familiar, a LsMM2. Em entrevista ao Observador, Marques Mendes tinha prometido revelar essa lista e agora cumpriu, no mesmo dia em que a Procuradoria-Geral da República decidiu não abrir uma investigação à sua atividade profissional após analisar uma denúncia anónima.

A vida profissional de Marques Mendes divide-se em duas frentes: a Abreu Advogados e a título pessoal/empresa familiar. Sobre a primeira dessas frentes — as centenas de milhares de euros que recebeu no escritório de advogados — Mendes não vai revelar os clientes, alegando que legalmente está impedido de o fazer pela natureza desses serviços e o respetivo sigilo profissional. Já relativamente à segunda via da sua atividade profissional, a empresa familiar, o antigo líder do PSD garante que está a revelar todos os clientes, em serviços que vão desde a consultoria à participação em conferências.

Na lista revelada está a construtora de Famalicão que originou denúncias na PGR, estão várias empresas no setor da energia, mas também estão, em particular, no mercado das conferências, empresas muito conhecidas como a McDonalds. Ou a menos surpreendente de todas: a SIC, estação televisiva onde fez ao longo de anos o comentário nacional ao domingo. Embora não sejam predominantes, há, aqui e ali, algumas ligações ao universo PSD, seja pelo histórico de Braga Amândio de Oliveira, seja pelo ex-vice-presidente e ex-homem do aparelho do PSD, Marco António Costa.

Na revelação desta sexta-feira, Marques Mendes revelou o nome das empresas, mas não a data da relação contratual, o tipo de serviços que prestou nem os valores que lhe foram pagos. Afinal, que empresas são essas?

A construtora de Famalicão, a consultora de histórico do PSD/Braga, a Atrys na Saúde e o setor da Energia

O ex-líder do PSD revelou as cinco empresas às quais prestou consultoria, que passam pelo setores da construção, saúde e energia. Uma dessas quatro entidades, uma construtora de Famalicão, já era conhecida, devido a várias notícias nos últimos dias sobre o assunto. A relação contratual de Marques Mendes com a Alberto Couto Alves é precisamente a que motivou uma denúncia anónima para a Procuradoria-Geral da República e para a Autoridade Tributária. O agora candidato presidencial trabalhou para a empresa durante seis anos (entre 2010 e 2016), recebendo 60 mil euros anuais (o que totalizou, nos seis anos, 300 mil a título individual e 60 mil através da LsMM2).

Após receber a denúncia anónima – que alegava irregularidades nesses recebimentos – a Procuradoria-Geral da República analisou-a e decidiu não abrir nenhuma investigação (nem em forma de inquérito, nem averiguação preventiva) por considerar que não existia matéria que pudesse constituir crime. Decidiu, no entanto, por serem levantadas “questões de natureza fiscal”, enviar a denúncia para a Autoridade Tributária.

Outra das áreas em que teve atividade profissional foi, precisamente, no setor da energia. Mendes revela que um dos clientes aos quais prestou consultoria foi, precisamente, a Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética, que representa um conjunto de empresas com um volume de negócios na ordem dos 1500 milhões de euros e que emprega. Há muito que Marques Mendes tem ligações ao setor energético. Ao longo da sua vida profissional, como consta do livro Negócios da China, já passou pela Biobeiraner, a NRW energias, Euroeventos Atlantic, Eneraatlantica Energias. Também esteve, por exemplo, Associação dos Produtores de Energia e Biomassa. Foi ainda sócio de Joaquim Coimbra, um dos maiores acionistas do BPN, na Isohidra-Sistemas de Energia Renovável.

Além da associação, outra das empresas que estão na lista divulgada esta sexta-feira é a Painhas, SA, para a qual Mendes também prestou consultoria e que tem entre o seu objeto a “comercialização e manutenção de equipamentos e sistemas de energia e de telecomunicações”.

Há ainda uma empresa no setor da Saúde. Mendes prestou consultoria, não se sabe exatamente em que operações, para o centro que a Atrys Portugal Centro Médico do Porto.  A atividade deste player na área da Saúde intensificou-se nos últimos anos. A empresa-mãe Atrys é uma multinacional que comprou em 2020 a Lenitudes – um grupo de saúde especializado em tratamento oncológicos – à MCH Private Equity. Nessa operação, que teve o valor de 17 milhões de euros, a Atrys passou a controlar cinco centros  de oncologia e radioterapia (Braga, Porto, Santa Maria da Feira e Évora).

A quinta e última das empresas para as quais Marques Mendes prestou consultoria é a Denominador Comum, que  é propriedade do histórico do PSD do distrito de Braga, em particular do concelho da Póvoa do Lanhoso, Amândio Oliveira, e da mulher. Amândio foi o primeiro autarca daquele concelho após o 25 de Abril, foi deputado várias vezes desde a I Legislatura, tendo feito o último mandato numa legislatura (VII) que Mendes praticamente começou como líder parlamentar.

Organizadores de eventos, McDonald’s e a empresa de Marco António Costa

Marques Mendes listou também 17 sociedades que contrataram a LS2MM para garantir a participação do antigo líder do PSD em conferências. A primeira é a ARP – Associação Rodoviária de Transportes Pesados de Passageiros, uma associação de transportadores fundada em 2006. Oficialmente, esta associação “visa a prossecução, promoção e defesa dos interesses globais e comuns dos seus associados (empresas licenciadas para a atividade de transporte público pesado de passageiros, nacionais e/ou internacionais), prestando um serviço de excelência na informação e apoio.” Desde 2021, Rui Pinto Lopes, CEO da Pinto Lopes Viagens, é o diretor da ARP.

A Associação de Restaurantes McDonald’s, que dispensa apresentações, também garantiu a presença de Marques Mendes numa conferência. Neste caso, tal como nos restantes, o candidato presidencial não especifica se foi contratado para uma ou várias conferências nem que eventos foram especificamente. A terceira empresa listada é a Brandcom que se especializou na organização de eventos, comunicação e design gráfico. Está no mercado desde o ano 2000, quando foi fundada por Raquel Carvoeiras, que continua a dirigir a empresa.

A quarta empresa é a CBRE – Sociedade de Mediação Imobiliária, Lda. Desde 2012, Francisco Horta e Costa é o diretor-geral desta consultora imobiliária em Portugal, que tem cerca de 280 funcionários. Outra empresa que contratou Marques Mendes foi a Cimpor – Serviços. A cimenteira, que foi comprada este ano pela Taiwan Cement Corporation, apontou Cevat Mert como o novo CEO para Portugal e Cabo Verde, em julho do ano passado.

Outra cliente da empresa familiar de Marques Mendes é a Eixo e Debate, Lda, cujo o CEO é Marco António Costa. Esta sociedade do antigo vice-presidente do PSD afirma ter como especialização “identificar e coordenar estratégias financeiras internacionais especificamente concebidas para projetos nos setores da educação, energias renováveis”. Ao longo da sua carreira no setor privado, Marques Mendes ocupou, como já explicámos em cima, posições de gerência e em conselhos de administração de empresas da área da energia.

Da lista consta também uma empresa espanhola sediada em Madrid, a El Circo del Marketing SL. Esta sociedade descreve-se como sendo especializada na organização de congressos, reuniões e outro tipo de eventos. Marques Mendes também foi contratado pela empresa de eventos Ger Imotion – Lda, fundada em 2006 por Angelina Castel-Branco, Patrícia Gueifão e Rodrigo Cordeiro. Tem clientes como Bial, Sonae, EDP, Meo e Deloitte.

Além destas empresa, a LS2MM também teve como cliente a Associação Portuguesa de Identificação e Codificação de Produtos, que é a entidade de utilidade pública que representa o sistema GS1 em Portugal. Este sistema “promove a colaboração, interoperabilidade e rastreabilidade das cadeias de valor através da identificação, captura e partilha de dados de produtos e serviços de valor acrescentado”. Outra cliente da LS2MM é a agência de marketing digital, publicidade e assessoria de imprensa Marketividade. O presidente do conselho de administração é o empresário Paulo Fidalgo que tem como “partner” António Mocho.

A 11ª empresa listada por Mendes é a empresa Primavera — Business Software Solutions. Esta sociedade anónima tinha originalmente sede no distrito de Braga, mas participou numa fusão com a empresa espanhola Cegid, em 2023. A Cegid Primavera diz que “suporta a gestão de milhares de empresas nacionais de referência”, nomeadamente “com o propósito de acelerar a transição digital das empresas, de todas as dimensões e setores de atividade”.

Outra sociedade que contratou Marques Mendes foi a Rede Global – Gestão e Exploração de Franquias, uma empresa com sede em Porto Salvo, no concelho de Oeiras. Foi fundada em 2000 e desenvolve atividade de “gestão e exploração de franquias”, desenvolve “plataformas tecnológicas de apoio informático” e tem atividades de “intermediário de crédito”, segundo descrição da própria empresa. A 13ª empresa é a Shopitur, uma sociedade anónima que tem igualmente sede em Oeiras. Foi fundada em 2007 e tem como atividade a gestão de centrais hoteleiras de compras.

Marques Mendes também participou em conferências a convite da Tabaqueira II, a subsidiária portuguesa Philip Morris International. Dona de uma fábrica de tabaco localizada no concelho de Sintra produz e comercializa marcas como Chesterfield, L&M, Malboro ou Português. Durante os anos de atividade da empresa familiar de Marques Mendes, foram membros do conselho fiscal da Tabaqueira outros políticos como António Vitorino, António Lobo Xavier, Paulo Núncio ou Paulo Portas. A 15ª empresa que contratou o ex-líder do PSD para participar em conferências foi a Ted Com. Esta sociedade anónima de organização de eventos e de comunicação com sede em Guimarães, foi fundada em 2019 com o nome Xclusivepopeia.

Por fim, Marques Mendes também menciona dois clientes na área dos media, para quem fez comentário político. O candidato presidencial foi comentador da SIC durante cerca de 12 anos até apresentar a sua candidatura presidencial em fevereiro. De acordo com a revista Sábado, em 2019, o ex-líder do PSD recebia cerca de 8 mil euros mensais pelo seu comentário de domingo, que faturava através da empresa familiar. Marques Mendes também faturou receitas da Medipress, empresa que deteve a Visão, revista para a qual o candidato escrevia textos de opinião.