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Quem ligasse para a Clínica E’Sensia, no Porto, em busca de ajuda para perder peso, ouviria naquele instante que, caso quisesse agendar uma consulta, não seria com a médica Graça Vargas. A primeira consulta era sempre com outra médica (da sua confiança) de nome I.R., mas era igualmente garantido o acesso à medicação necessária para emagrecer, quer fosse Ozempic, Trulicity ou Victoza.
O pagamento da consulta, explicavam logo por telefone, seria feito em dinheiro ou cheque — nem existia multibanco, perceberam as autoridades através de escutas. A primeira teria o custo de 160 euros, valor que descia para 140 euros nas seguintes, lê-se no despacho de indiciação do Ministério Público a que o Observador teve acesso. Assim funcionava o esquema que operou entre 2014 e 2025 e que roubou aos cofres do Estado mais de 3 milhões de euros. Foi esta quarta-feira desmantelado pela Polícia Judiciária, numa operação coordenada por inspetores da PJ e da Autoridade Tributária.
Foi em 2020, após um alerta da Unidade de Auditoria e Prevenção da Fraude dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, que se iniciou a investigação a Graça Vargas e ao esquema que criou e desenvolveu na clínica da cidade do Porto. Nas redes sociais, a Clínica E’sensia apresenta-se como uma “referência nacional no estudo e tratamento de doenças endócrinas e metabólicas”, disponibilizando consultas e acompanhamento nas áreas da Pediatria, Imunoterapia, Neurologia e Endocrinologia. No relatório apresentado por esta unidade dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, o “receituário prescrito pela médica Graça Vargas indicava um ‘score de risco’” no que toca à avaliação da probabilidade de ocorrência de fraude ou outra irregularidade.
Esta quarta-feira, a PJ “efetuou cumprimento de mandado de busca numa situação que será tipificada como burla qualificada e fraude informática”, anunciou Rui Paulo Zilhão, coordenador de investigação da Diretoria do Norte da Judiciária, em conferência de imprensa. Em causa estava a prescrição de três medicamentos indicados apenas para tratamento da diabetes mellitus tipo 2 — Victoza, Ozempic e Trulicity — para a perda de peso. As suspeitas que recaem sobre a médica Graça Vargas eram de que indicava que o utente em questão tinha diabetes, mesmo sem ser o caso.
“Analisando o top 10 de [médicos] prescritores destes três medicamentos, a suspeita, Graça Vargas, é a maior prescritora a nível nacional, de todos os médicos”, lê-se no despacho a que o Observador teve acesso. “Entre o ano de 2014 e fevereiro de 2025, pela suspeita Graça Vargas, enquanto médica endocrinologista, referentes aos medicamentos Victoza, Trulicity e Ozempic, verifica-se que o valor comparticipado pelo Serviço Nacional de Saúde, apenas quanto a estes três fármacos prescritos, ascendeu ao valor total de 6.433.836,84€”, sendo que terão sido prescritas 65.944 embalagens a 1.914 utentes.
Em 14 meses, utente teve 44 receitas comparticipadas
Segundo o despacho de indiciação a cargo do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) Regional do Porto, o total de comparticipação destes medicamentos ultrapassou os 6 milhões de euros, mas mais de metade dos doentes de Graça Vargas não aparentam ser diabéticos: “57% dos utentes analisados não possuem, para além dos medicamentos Ozempic, Victoza e/ou Trulicity, outra medicação nem outros produtos para a diabetes prescritos pela médica Graça Vargas.” Assim sendo, a investigação ainda em curso estima que o Estado terá sido defraudado em pelo menos 3 milhões de euros entre 2014 e 2025.
Nos 11 anos que a médica nascida em Almada fez o seu alegado esquema funcionar, o de 2022 foi aquele em que o Serviço Nacional de Saúde comparticipou mais receitas prescritas por Graça Vargas, atingindo um valor superior a 804 mil euros. E só nos dois primeiros meses de 2025, o “valor de comparticipação pelo SNS atingiu o montante de 72.856€”, indica o despacho de indiciação.
De acordo com a análise feita, entre janeiro de 2012 e fevereiro de 2023, o doente que comprou mais embalagens destes medicamentos para emagrecer adquiriu, no total, 1.653. Além disto, se nos focarmos apenas entre o início do ano de 2024 e fevereiro de 2025, há 27 utentes com comparticipações do SNS acima de 2 mil euros originárias em prescrições feitas pela médica Graça Vargas.
Mas há um paciente que se destaca. O utente com maior valor de comparticipação atinge os 3.246€, “resultante do aviamento de 16 embalagens de Ozempic, 20 embalagens de Trulicity e 8 embalagens de Victoza”. Ou seja, no espaço de um ano e dois meses, este paciente recebeu 44 embalagens.
As consultas de segunda a quinta-feira e o “passa a palavra”
Entre 2014 e 2025, a Clínica E’Sensia ganhou fama por conseguir obter “ótimos resultados a nível do emagrecimento”, explicou o coordenador de investigação da Diretoria do Norte da PJ. A partir daí, os utentes “foram passando a palavra” e a clínica ganhou cada vez mais clientes.
Graça Vargas dava consultas neste estabelecimento no Porto quatro dias por semana: de segunda a quinta-feira. A primeira consulta de novos clientes era com I.R, mas esta agia “com os mesmos pressupostos de Graça Vargas, prescrevendo os mesmos medicamentos”, sendo “da confiança desta, uma vez que já trabalha na Clínica há vários anos”, lê-se na indiciação.
Mais: Graça Vargas exigia ainda que o pagamento dessas consultas fosse feito em numerário ou por cheque, “tendo em vista furtarem-se ao controlo das autoridades no cruzamento da informação referente aos valores recebidos pela referida empresa provenientes das consultas realizadas diariamente”.
Porquê recorrer a medicação para pessoas com diabetes?
Medicamentos para a diabetes como o Ozempic “fazem com que o pâncreas produza mais insulina e isso trata a diabetes”, mas, adicionalmente, “promovem a perda de peso porque reduzem o apetite e aumentam a saciedade”. Quem o explica é a médica e presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, Paula Freitas.
Para a diabetes, explica a especialista, há uma dose especifica a administrar, que é mais reduzida quando comparada com a que se toma em caso de obesidade. Neste caso, estes fármacos têm de ser aplicados em maiores doses. “No caso da obesidade, falamos de uma dose superior. Em doentes com obesidade e sem diabetes, há uma redução da morte cardiovascular em 20%. Reduz a insuficiência cardíaca”, explica a médica.
“Este fármaco [o Ozempic] ficou na moda porque as pessoas não olharam para a obesidade como uma doença, mas sim como fator estético. Não é isso que se pretende. A obesidade é uma doença e queremos tratar a doença”, diz, salientando que o foco deve ser “reduzir as comorbilidades”. “As pessoas com obesidade têm mais de 200 doenças associadas e mais de 13 tipos de cancro”.
Segundo a especialista Paula Freitas, atualmente, em Portugal, só há cinco fármacos destinados ao combate à obesidade, sendo que “em Portugal 60% da população está em obesidade ou pré-obesidade”. E o problema principal é o custo associado a estes medicamentos — que não são comparticipados pelo Estado.
O mais barato, detalha, é o Mysimba (com o custo médio associado de 124 euros por mês); seguindo-se o Xenical (175,94 euros por mês); o Mounjaro e o Wegovy (com um preço médio de 244 euros) e por último o Saxxenda (244,34 euros). Por oposição, o Ozempic, custa 106,85 euros, preço que cai para 10,6 euros quando comparticipado pelo Estado.
Contudo, “a prescrição e utilização de Ozempic para o controlo do peso, incluindo perda de peso e manutenção de peso, em doentes sem diabetes é uma prescrição “off-label” e não racional, que não deve ocorrer. É ‘off-label’, porque Ozempic não tem essa indicação. É não racional, porque o racional farmacodinâmico não é de todo suficiente para fazer prova da existência de um favorável balanço benefício/risco de Ozempic no controlo do peso em doentes não diabéticos. Tal apenas pode ser avaliado em ensaios clínicos, que ainda não estão disponíveis”, assinalam os procuradores, citando a Ordem dos Médicos. “A prescrição médica não deve, nem pode, do ponto de vista ético, esquecer a repercussão na comunidade e na Sociedade como um todo, independentemente das questões de responsabilidade civil.”
Como é que um utente sem diabetes passava por diabético?
Segundo a indiciação lavrada pelo Ministério Público, o esquema explorado por Graça Vargas dependia do software de prescrição médica utilizado. Em causa estava a plataforma desenvolvida pela sociedade MedicineOne, S.A., cujos esclarecimentos prestados surgem no documento.
Esta sociedade detalhou que, antes de 2024, os três medicamentos em questão surgiam na base de dados com “indicação de comparticipação a 90%”, sendo que essa comparticipação era automaticamente “aplicada, desde que o utente tivesse o sistema de saúde SNS associado à sua ficha administrativa”. Não era, por isso, “exigida qualquer ação adicional do médico” que estivesse a prescrever a medicação.
Comparticipar fármacos para a obesidade custaria mais do que despesa total com farmácias
O médico podia, no entanto, desativar a comparticipação, algo que era feito numa janela especifica da plataforma — com o nome “Custos”. “Esta alteração, ao ser aplicada pelo médico prescritor, eliminaria a comparticipação do medicamento em 90% e a receita seria emitida com custo total para o utente”, explicou a sociedade MedicinaOne. A partir de 2024, no entanto, houve uma alteração no sistema: os médicos passaram a ser obrigados a selecionar a opção “SIM” caso quisessem emitir uma receita com comparticipação.
Ou seja, Graça Vargas, antes de 2024, “não introduzia quaisquer dados no software de prescrição médica, dando origem a prescrições médicas que determinavam a comparticipação” e depois desse ano “decidiu selecionar a opção sim”, indicando que o paciente tinha direito a comparticipação do SNS por ser diabético.
Segundo a indiciação, a médica aproveitava ainda o sistema para passar receitas em nome de familiares. Recorreu a familiares diabéticos para contornar as regras, introduzindo nas receitas o seu nome. Foi o que aconteceu com o utente Luís [nome fictício], “que terá recebido prescrições emitidas em nome do seu cunhado porque este é diabético”.
Graça Vargas aproveitou-se ainda “de uma falha que havia encontrado no software de prescrição médica”, nomeadamente o medicamento Rybelsus (que também é usado na diabetes mellitus tipo 2, apesar de não se injetável). Ao ser selecionado, a plataforma “não perguntava, no momento da prescrição, se o utente era ou não diabético”. Isto terá acontecido este ano, entre os meses de abril e agosto, consta ainda no documento.
▲ Polícia Judiciária conduziu buscas em parceria com a Autoridade Tributária
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Graça Vargas e companheiro suspeitos de levar dinheiro escondido para França
A médica de 59 anos está indiciada dos crimes de burla qualificado e falsidade informática: “são fortíssimos os indícios de que incorre na prática” destes ilícitos. Graça Vargas foi constituída arguida, mas não foi a única. Na lista surge também uma outra médica (cujo nome não foi divulgado), o advogado e companheiro de Graça Vargas, N.R.G, e a empresa que este gere, denominada Esplêndidos e Minuciosos — Medicina no Porto Lda.. É esta sociedade que detém a clínica médica alvo de buscas.
Segundo a indiciação do DIAP Regional do Porto, Graça Vargas e N.R.G vivem em união de facto e têm residência declarada em França, mas “residem efetivamente” na Senhora da Hora, em Matosinhos, num imóvel pertencente à sociedade que, “apesar de ter sede na ilha da Madeira, não exerce aí qualquer atividade, tendo apenas estrutura física e humana para o desenvolvimento da atividade de prestação de serviços médicos na cidade do Porto”, lê-se no documento. Em conferência de imprensa, a PJ detalhou ainda que esta morada “servia única e simplesmente para receber a documentação”.
De acordo com o documento, há “fortes” indícios de que o casal guardava as quantias monetárias das consultas na sua casa em Matosinhos. “E existe a suspeita de que, posteriormente, transportavam e depositavam tais montantes no estrangeiro, nomeadamente em França”. Este indício justifica as buscas também realizadas esta quarta-feira, que incluíram não só “as residências dos arguidos”, mas também o escritório de advogados de N.R.G, a Clínica E’Sensia e “a sede de duas empresas, em Albufeira e no Funchal”, detalhava a PJ.
A indiciação diz ter “especial importância a apreensão de elementos de prova que permitam indiciar, da forma mais cabal” que a médica Graça Vargas dividia tarefas deste plano com N.R.G e “com as demais médicas” da clínica”, que usaram a “sociedade comercial Esplêndidos e Minuciosos — Medicina no Porto, Lda”, através da Clínica E’Sensia, para “prescreverem os medicamentos Ozempic, Victoza e Trulicity a utentes não diabéticos”.
“Face aos fortes indícios de burla ao SNS e por um valor consideravelmente elevado, que, inclusivamente, poderá, para o período sob investigação, estimar-se em montante superior a 3 milhões de euros, existe, inelutavelmente, o fundado receio de que a suspeita Graça Vargas, a partir do conhecimento da existência da presente investigação, se pretenda eximir ao controlo das Autoridades, Policiais e Judiciárias, e perturbar os ulteriores termos processuais”, alerta o Ministério Público.
Utentes podem ter de repor dinheiro
Um advogado da área da Saúde ouvido pelo Observador acredita que os visados deste caso podem não ser apenas os médicos e o advogado, mas também os próprios clientes da Clínica E’Sensia.
“Em bom rigor, os responsáveis são todos, não é apenas o médico, mas também o cidadão que beneficia [da receita]. Normalmente o Ministério Público não o faz [responsabilizar os cidadãos] porque não quer ter trabalho, mas em bom rigor as responsabilidades civis são de ambos”, considera este advogado, que não quis ser identificado. Sublinha que, “se houver ilegalidade, se houver abuso na prescrição, se houver uma situação de ilegitimidade da isenção, são ambos responsáveis”.
“O doente pode alegar desconhecimento”, admite, ressalvando que “a questão da culpa é outro tema”. “Não há dúvida de que [os utentes] são responsáveis. Estas questões não dependem apenas do médico, é também o cidadão que pede ao médico e, às vezes, o médico nem tem coragem de dizer que não”, argumenta. “Tem de haver aqui uma mensagem de responsabilização.”
Além da investigação que está agora a decorrer, a Ordem dos Médicos já abriu um inquérito disciplinar e pediu às autoridades toda a informação considerada relevante para a avaliação interna da conduta da endocrinologista. Esta quinta-feira, a médica Graça Vargas será presente a primeiro interrogatório judicial, com vista à aplicação das medidas de coação.
Nota: Artigo atualizado às 9h10 com correção do número de cancros associados à obesidade.