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Em redor deste quiosque, junto ao Viaduto de Santa Apolónia, estão seis tendas. Numa delas, vivia a mãe do bebé abandonado

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em redor deste quiosque, junto ao Viaduto de Santa Apolónia, estão seis tendas. Numa delas, vivia a mãe do bebé abandonado

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Contentor serviu de "estufa" para bebé abandonado no lixo. Como a PJ encontrou a mãe e a prendeu /premium

A mulher suspeita de abandonar o filho recém nascido vivia numa tenda junto a Santa Apolónia há cerca de um ano. Justificava a sua barriga com problemas intestinais. A PJ descobriu-a em três dias.

Constantino vai enrolando o cigarro enquanto se tenta lembrar das poucas vezes que viu a mãe do recém-nascido encontrado num caixote do lixo junto a uma discoteca, em Lisboa. Sentando numa espreguiçadeira, ao lado da tenda onde dorme, debaixo do Viaduto de Santa Apolónia e com vista para o Tejo, o romeno de 40 anos — escondidos pela pele enrugada pelo sol e os dentes estragados — vai abanando a cabeça, torcendo o nariz e encolhendo os ombros enquanto sentencia: “Isto já não foi de hoje ou de ontem. Foi de anos. A culpada não é ela. É ele. Ele é inteligente“.

Garante ao Observador que não se apercebeu de que alguém tivesse estado em trabalho de parto naquela zona, nestes dias. “Se me tivesse apercebido, tinha feito o normal: ligar para o 112”. Até porque a zona onde vive é afastada daquela onde tudo terá acontecido: cerca de 200 metros mais à frente, num amontoado de tendas verdes em redor de um antigo quiosque, velho e enferrujado, ao lado do Terminal de Cruzeiros de Lisboa. Frágeis e montadas mesmo à beira de uma estrada por onde passam grandes camiões para descarregar ou carregar mercadorias, as tendas abanam cada vez que um deles passa.

O bebé foi encontrado na tarde de terça-feira por um sem-abrigo que o ouviu a chorar (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Era naquele aglomerado, numa das seis tendas rodeadas de sapatos, cadeiras partidas e peças de roupa velhas, que a mãe do recém-nascido vivia até ser detida e ficar em prisão preventiva na cadeia de Tires, esta sexta-feira. Naquela madrugada de terça-feira, quando sentiu as dores do parto e as ameaças do nascimento do bebé que carregava na barriga, sem ninguém saber, ainda caminhou alguns metros pela estrada, junto à linha do comboio. Ninguém estranhou. Sempre justificou o inchaço na barriga com problemas intestinais. Foi por ali que teve o bebé, que acabaria por deitar num dos seis caixotes do lixo ecopontos localizados mesmo nas traseiras da discoteca Lux Frágil. Escolheu o amarelo, dos plásticos, talvez o menos perigoso para a criança.

O bebé acabaria por despertar a atenção de um outro sem-abrigo que ali passava e que ouviu uns sons que lhe pareceram estranhos. Ele e outro homem, como mostram as imagens recolhidas pelo sistema de videovigilância montado a escassos metros, terão resgatado a criança do ecoponto amarelo ainda com vida, e avisado as autoridades. Mas, na verdade, a polícia acredita que o bebé já estivesse ali há já algumas horas.

Era naquele aglomerado, numa das seis tendas rodeadas de sapatos, cadeiras partidas e peças de roupa velhas, que a mãe do recém-nascido vivia até ser detida. Quando sentiu as dores do parto, ainda caminhou alguns metros pela estrada, junto à linha do comboio. Ninguém estranhou. Sempre justificou o inchaço na barriga com problemas intestinais.

Segundo fonte da PJ, aquela polícia foi alertada para o caso pela PSP pelas 18h00, mas o bebé estaria ali desde a manhã, a avaliar pelas provas recolhidas. “A criança ainda esteve lá algumas horas. Aquele contentor foi servindo de estufa, aqueceu e foi mantendo uma temperatura que manteve a criança quente e minimamente confortável. Só ao final do dia quando começou a ficar frio e o bebé a sentir fome se aperceberam do choro”, adiantou a mesma fonte.

PJ ainda procura pai da criança, apesar de considera mãe a única suspeita do crime

As autoridades não avançam com muitos mais pormenores porque a investigação prossegue para apurar quem será o pai do bebé a quem os meios de socorro puseram o nome de “Salvador” — e que será brevemente entregue a uma instituição que definirá o seu destino e o seu futuro.

À PJ a mulher que foi entretanto detida e ficou em prisão preventiva terá dito que o pai da criança se encontrava fora de Lisboa e que o homem com quem vivia agora, naquelas tendas, não tinha nenhuma relação com o bebé que trazia na barriga. Mas tudo isso terá que ser investigado, porque na verdade há testemunhas que dizem que a mulher, de apenas 22 anos, se terá envolvido com vários sem-abrigo que ali pernoitam. Em tese, qualquer um deles poderá ter gerado a criança.

Ainda assim, a PJ manteve publicamente a versão da mulher acabada de deter: o pai da criança “não se encontra na cidade nem na região”, segundo revelou o diretor da Diretoria de Lisboa da Polícia Judiciária, Paulo Rebelo, na conferência de imprensa dada na manhã desta sexta-feira. Chegar ao progenitor será o próximo passo da investigação. Já que chegar à mãe foi relativamente fácil. Fonte da PJ fala mesmo na “sorte” que tiveram. Porque se o autor do crime não estivesse ali ao lado, naquela mesma comunidade onde o bebé foi encontrado, a investigação tomava outras proporções, e outra direção.

O homem que acredita ser o progenitor — um português, de 44 ou 45 anos e "inteligente" — terá desaparecido há umas semanas. "Desde a Maratona de Lisboa que ninguém o vê", precisa. A prova de atletismo aconteceu no passado dia 20 de outubro — duas semanas antes de o bebé ter sido encontrado no lixo.

Constantino, o sem-abrigo romeno, não acredita que tenha sido o progenitor — recusa usar a palavra pai: “Pai? Como posso chamar-lhe o pai?” — a deitar a criança no lixo. Até porque, segundo conta sem se levantar da espreguiçadeira, o homem que acredita ser o progenitor — um português, de 44 ou 45 anos e “inteligente” — terá desaparecido há umas semanas. “Desde a Maratona de Lisboa que ninguém o vê”, precisa. A prova de atletismo aconteceu no passado dia 20 de outubro — duas semanas antes de o bebé ter sido encontrado no lixo. O romeno, que conta que chegou a beber um copo ou dois com o alegado pai da criança, acredita que este só estava com a jovem de 22 anos para ter relações sexuais. E que depois a abandonou.

A fonte da PJ contactada pelo Observador fala muitas vezes em “sorte”. É que se a primeira hipótese que a PJ seguiu mal avançou para o terreno se verificou, também podia ter acontecido o contrário. “Como o bebé tinha ainda o cordão umbilical, suspeitamos que tivesse sido alguém da comunidade mais próxima ali do local: os sem-abrigo”.

Junto aos caixotes do lixo encontrava-se uma câmara de videovigilância, que se pode ver na parede laranja (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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O primeiro passo foi pedir as imagens da câmara de videovigilância que se encontra colocada exatamente na direção onde o recém-nascido foi encontrado. Mas estas imagens não eram tão claras quanto se podia desejar ou imaginar, a falta de luz e a qualidade não permitiu logo identificar um suspeito. “Serviu sim para excluir hipóteses”, informou a mesma fonte. Com a fisionomia da pessoa que apareceu naquelas imagens percebeu-se que tinha sido uma mulher que ali deixara a criança.

Nas horas seguintes, a Brigada de Homicídios — o caso é visto como uma tentativa de homicídio qualificado — mal saiu do local, tentando fazer uma investigação discreta apesar da forte presença da comunicação social. Para tentar estreitar cada vez mais as hipóteses em cima da mesa era preciso conhecer a comunidade. Os polícias tiveram que perceber quem ali vivia, quais as relações entre eles, onde iam comer, tomar banho, dormir e como ocupavam o seu dia. Ainda passaram por vários centros de saúde e hospitais à procura de mulheres que pudessem ter pedido assistência com sintomas de um parto recente. Mas nada.

Só depois, entre conversas com vários sem-abrigo, começaram a apontar para uma única suspeita, que acabariam por deter na madrugada desta sexta-feira. Exatamente três dias após o abandono da criança no caixote do lixo.

Os polícias tiveram que perceber quem ali vivia, quais as relações entre eles, onde iam comer, tomar banho, dormir e como ocupavam o seu dia. Só depois, entre conversas com vários sem-abrigo, começaram a apontar para uma única suspeita.

Constantino não se apercebeu de nada. Nem no dia do parto, nem no dia em que encontraram a criança, nem mesmo quando a PJ deteve a mulher. “Soube porque foram passando a palavra”, conta ao Observador, acrescentando que, ali, cada um “faz as suas coisas” e pouco falam sobre a vida uns dos outros, o que também se revelou uma dificuldade para os investigadores. A mãe do recém-nascido, apesar da presença constante da polícia, continuou a viver ali. E quando foi detida não ofereceu qualquer resistência e foi parca nas palavras. Na sua tenda ainda havia roupa com o sangue do parto. Não tinha como negar.

Serão feitos ainda testes de ADN, para comprovar que se trata realmente da mãe e daquela criança. Mas a mulher, que o Observador apurou ser portuguesa apesar da origem africana, nunca disse que nada tinha a ver com o caso. A PJ sabe que estaria a viver na rua há cerca de um ano, mas desconhece, para já, as circunstâncias que a levaram a estar nesta situação com apenas 22 anos.

A mãe da criança vivia numa das tendas verdes junto a um antigo quiosque, perto do Viaduto de Santa Apolónia (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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A mulher foi presente a um juiz para o primeiro interrogatório judicial, por suspeitas de homicídio qualificado na forma tentada. As autoridades acreditam que se deitou o bebé no lixo, era porque queria que morresse. Caso contrário tê-lo-ia deixado à porta de alguém que o pudesse ajudar. A gravidade do crime levou o juiz de instrução a aplicar-lhe a medida de coação mais grave: prisão preventiva. A jovem aguarda agora os próximos passos judiciais no Estabelecimento Prisional de Tires.

Juiz aplicou “medida cautelar de acolhimento” ao bebé. Salvador ainda está no hospital

O fim não foi, por pouco, trágico. É que a estrada, junto à linha de comboio, depois de percorrida pela mãe na manhã de terça-feira, foi percorrida novamente ao fim da tarde por Manuel Xavier, o sem-abrigo que o viria a encontrar o recém-nascido. O homem que o encontrou passava naquela zona quando ouviu “qualquer coisa a gemer, a chorar”, que julgou ser um gato, admitiu em declarações à CMTV. Ao voltar a ouvir gemidos recuou. “Meti a cabeça dentro do ecoponto, vejo o pé de uma criança lá dentro e comecei aos gritos”, recordou.

[Veja o vídeo que mostra o momento em que o sem-abrigo encontro o bebé no caixote do lixo]

O sem-abrigo viu-se obrigado a partir a abertura do ecoponto para conseguir espreitar, primeiro, e fazer entrar os braços, depois. Com as mãos lá dentro, confirmou o pior: “Vi que era mesmo uma criança”. O homem detalhou ainda que o recém-nascido, do sexo masculino, estava nu, sem qualquer agasalho, ainda tinha o cordão umbilical e “estava roxo com frio”.

Apesar de a mãe já ter sido detida e de já ter sido dado destino ao bebé, a investigação da PJ está longe de acabar e segue agora outro caminho: o de descobrir quem é o pai do bebé.

O ato levou até o Presidente da República a querer conhecer Manuel Xavier. Vindo diretamente do palco da Web Summit, o Presidente parou a meio do trajeto para Belém, em Santa Apolónia, para lhe dizer que o que fez “é um exemplo de humildade” e “não tem preço”, convidando-o mais tarde a visitarem ambos a criança e prometendo ajudá-lo.

A criança foi encontrada num estado de hipotermia grave e não sobreviveria muito mais tempo caso não fosse encontrada naquele momento. Foi levada para dentro da discoteca Lux e embrulhada em mantas até chegar o INEM. No local, foram prestados meios de socorro imediatos e o bebé foi encaminhado para o Hospital Dona Estefânia. Doze horas depois, foi transferida para a Maternidade Alfredo da Costa — onde ainda se encontra “clinicamente estável”. O INEM partilhou, horas mais tarde, uma fotografia do bebé a quem chamaram Salvador.

A mulher foi detida na madrugada desta sexta-feira pela Polícia Judiciária (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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A criança ainda não teve alta, mas já se sabe que será entregue a uma instituição ou uma família de acolhimento. Segundo a Procuradoria-Geral da República, “o juiz decidiu aplicar ao bebé a medida cautelar de acolhimento residencial, a designar logo que este tenha alta clínica”, avançou o JN e confirmou o Observador junto da PGR.

Apesar de a mãe já ter sido detida e de já ter sido dado destino ao bebé, a investigação da PJ está longe de acabar e segue agora outro caminho: o de descobrir quem é o pai do bebé.

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