Entrar, sentar, fechar a cortina, colocar as moedas e esperar pelo inesperado flash — seguido de mais três. Depois, basta esperar aqueles que tantas vezes parecem os quatro minutos mais longos de sempre para finalmente sermos surpreendidos — ou não — com o resultado final: uma tira de fotografias a preto e branco que congelaram, para sempre, aqueles quatro momentos. São como um confessionário. Quem entra naquela caixa de madeira está protegido de tudo aquilo que se possa estar a passar cá fora, podendo, por isso mesmo, ser a sua versão mais autêntica, sem olhares julgadores. Um momento sincero e franco onde se pode ser quem se quiser ser. É essa a essência das photobooths. Aquela cabine fotográfica, que em Portugal sempre esteve associada a algo utilitário — para tirar fotografias para documentos de identificação, por exemplo —, celebrou em 2025 o seu centenário. Dez décadas depois está de volta, desta vez como forma de entretenimento, enquanto uma arte e tendência que apenas sobrevive graças à paixão que poucos aficionados sentem por ela. Atualmente, no mundo inteiro, há menos de 300 photobooths analógicas. Em Portugal existe apenas uma — que compete com versões digitais.
Foram criadas em 1925 nos Estados Unidos da América por Anatol Marco Josepho, um imigrante judeu de Tomsk, na Rússia, que, obcecado por fotografia, teve a ideia de criar uma “máquina que, após receber uma moeda, fotografasse automaticamente a pessoa, revelasse as fotografias, as secasse e as entregasse”, como uma máquina de venda automática: insere-se o dinheiro (na época 25 cêntimos) e sai o produto. Anatol Josepho construiu e patenteou assim a primeira cabine fotográfica Photomaton há 100 anos, instalou um modelo na Broadway, em Nova Iorque, e o sucesso foi instantâneo: só nos primeiros seis meses, mais de 280 mil pessoas já a tinham utilizado. Dois anos após o lançamento, Josepho vendeu a sua participação na Photomaton Company a um grupo de empresários, liderado por Henry Morganthau Sr., por 1 milhão de dólares e garantiu royalties futuros pela sua invenção. Em meados do século XXI, havia 30 mil cabines fotográficas registadas nos EUA: estavam em todo o lado, desde parques de diversões a estações de comboios, passando por restaurantes.
Assim como a Photomaton de Josepho, as photobooths que ainda hoje sobrevivem têm a mesma mecânica: é utilizada uma câmara automática para captar a imagem positiva diretamente em papel fotográfico sensibilizado, mergulhado depois num método químico que processa a fotografia dentro da cabide e entregue, por fim, ao utilizador depois de cerca de quatro minutos de espera. As multidões que se desvaneceram com as décadas e com a vinda da era digital começam agora a formar-se gradualmente pelas poucas cabines analógicas que ainda estão espalhadas pelo mundo. Apesar de ter sido criada nos EUA, é na Europa que se encontra o maior monopólio das photobooths. Berlim é a cidade no mundo inteiro com mais cabines fotográficas — são já 48 —, todas geridas pelos mesmos dois sócios, Ole Kretschman e Asger Doenst, que trouxeram a primeira para a capital alemã em 2004, laçando o mote para que se tornassem populares na Europa. São eles mesmos quem tem os direitos de distribuição do papel da norte-americana Harman para as cabines fotográficas na Europa, o que leva a alguns dos aficionados a recorrerem àquela dupla quando precisam de alimentar as respetivas photobooths.
É o que acontece com Hannah Roddam-Kitt. A norte-americana natural de Chicago é a dona da única cabine fotográfica analógica que se conhece em funcionamento em Portugal: um Modelo 21 de 1970 que “ainda revela fotografias usando luz real, química e tempo”. Batizada de “Rhonda”, esta photobooth foi resgatada da Eslovénia depois de sete anos de busca por uma. “São incrivelmente raras. A certa altura, existiam dezenas de milhares em todo o mundo. Agora conhecem-se menos de 300 e não há um mercado onde se pode comprar uma. Não se pode entrar na internet e comprar uma cabine fotográfica analógica”, explica a artista e fotógrafa ao Observador, acrescentando que, para conseguir finalmente adquirir uma, teve de se inserir na pequena comunidade e provar ao longo dos anos que é uma “verdadeira obcecada”. “Alguém estava a restaurar uma, a livrar-se de uma. Uma senhora idosa lembrou-se que tinha uma no seu celeiro há 20 anos. É assim que elas são encontradas agora”, acrescenta.
O que Hannah sabe sobre o passado de Rhonda é que foi criada na década de 1970 e que foi usada durante cerca de três décadas numa sala de jogos na Eslovénia. No entanto, acredita que foi construída na Alemanha e levada depois para a Eslovénia. A partir de 2000, o seu paradeiro é desconhecido, até ter sido transferida para Itália na década de 2010, onde a artista a mandou restaurar pelo colega e mentor Matteo Sani, proprietário da Fotoautomatica, que possui todas as cabines fotográficas analógicas de Itália. Na sua posse desde o verão de 2024, não foi fácil para a norte-americana que veio viver para Portugal durante a pandemia encontrar uma casa que quisesse acolher e usufruir da diversão que a Rhonda tem para oferecer.
▲ Todos os dias, Hannah Roddam-Kitt, dona e técnica da photobooth do Machimbombo, entra na cabine para tirar fotografias-teste
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Eu estava a tentar colocar a Rhonda em locais públicos, museus, bares, destinos turísticos populares e ninguém se lembrava das cabines fotográficas. E as pessoas que se lembravam não tinham a mesma associação que muitos norte-americanos e outros europeus têm”, começa por revelar, explicando que, enquanto na Europa as photobooths eram vistas para necessidades burocráticas, nos EUA foram feitas para diversão: “Então, quando eu estava a tentar colocar a minha cabine fotográfica, ninguém sabia do que eu estava a falar. E quando alguém se lembrava, dizia-me: ‘Quer colocar uma máquina de passaportes no meu espaço?’. Não entendiam.”
Foi só em maio de 2025 que acabaria por inaugurá-la no espaço que ainda hoje é a sua casa. É no Machimbombo, o bar da Calçada do Combro, em Lisboa, que se encontra a única cabine fotográfica analógica de Portugal — e que rapidamente viralizou: “Por dia, no verão, eram tiradas mais de cem fotografias. Agora no inverno é menos mas em média são duas tiras por pessoa”. À porta do bar encontramos uma placa que avisa o que se pode encontrar naquele mesmo espaço: quatro fotos, cinco minutos, seis euros. “Se numa estação de metro as cabines fotográficas digitais cobram cinco euros e não são fotografias reais, então eu achei que seis era o ponto ideal, porque ainda é bastante acessível”, afirmou Hannah justificando a escolha de preço por cada tira de fotografia que a Rhonda cria, e que pode ser paga a cartão.
A ajudar está Mauro Belem. O fotógrafo moçambicano juntou-se à norte-americana logo desde início, tornando-se no atual braço direito e segundo técnico da cabine. Tudo aquilo que sabe foi passado por Hannah, que aprendeu o ofício de boca em boca: “Por se tratar de um nicho de mercado praticamente extinto, é uma forma de arte em extinção. Para qualquer outra coisa no mundo, é possível ver um vídeo no YouTube e procurar um manual ou um tutorial. Isso não existe para cabines fotográficas. Não há livros, manuais, podcasts ou vídeos no YouTube. Tudo é transmitido por outros técnicos”, realça, explicando que os dois não são engenheiros mas que se estão a tornar “muito bons técnicos muito rápido” ao ter o cuidado de todos os dias “ver o que se passa com a Rhonda” e fazer testes de imagem e de luz. “Nós personificámo-la e, na verdade, ajuda a nossa relação quando a máquina é tão complicada e tão frustrante às vezes”, afirma, acrescentando que, para a manterem, parecem cientistas: “Usamos luvas, óculos e mascaras por causa dos produtos químicos”, descreve, ressalvando que estes químicos de fotografia são tóxicos apenas para eles e não para quem vem utilizar a máquina.
Foram esses químicos que, por outro lado, levaram Rui Teixeira a optar por uma cabine fotográfica digital ao invés da analógica. Natural do Porto, abriu no passado dia 1 de dezembro a Vintage Cameras Lisboa, na Rua Augusta, uma loja de câmaras analógicas que tem por lá uma photbooth que rapidamente ficou viral nas redes sociais, irmã de duas nas lojas com o mesmo nome no Porto e em Coimbra. Fotógrafo de profissão, Rui Teixeira viu um hobby e paixão ser transformado num negócio no momento em que os filhos sugeriram criar um “museu auto-sustentável” com as 900 câmaras que ao longo dos últimos 12 anos colecionou e tinha guardadas na garagem lá de casa. “A cabine fotográfica acabou por ser um atrativo principal para os jovens, pelo estilo dela e pelo design”, revela, em conversa com o Observador, referindo-se à photobooth digital inspirada na original analógica. “Neste momento também não faria muito sentido. O tempo que demora a fotografar, os químicos, o cheiro que os químicos largam e as avarias que são extremamente difíceis de reparar. Há uma série de inconvenientes que nós não queríamos”, justificou, acrescentando que não chegou sequer a procurar uma das menos de 300 analógicas que andam por aí. Inconvenientes esses que Hannah e Mauro vivem com Rhonda, tentando sempre contornar a inevitável verdade de que há peças obsoletas que fazem as photobooths analógicas funcionar.
As câmaras de fotografia e vídeo analógicas que Rui colecionou são agora expostas ou vendidas nas três lojas que abriu em três meses. A primeira abertura foi no Porto, na rua de Santa Catarina, em agosto, e logo na primeira semana tiveram 500 pessoas a visitar a loja por dia. Em Lisboa o número fica-se pelos 40 ou 50, com filas pontuais a formar-se com clientes curiosos por experimentar a photobooth — que cobra cinco euros por uma tira de três fotografias que saem automaticamente. Quanto às vendas, Rui Teixeira explica que trouxeram para Lisboa as câmaras que mais se vendem no Porto — “Isto aqui é uma décima parte do que temos lá em cima” — e que têm como principal cliente ou colecionadores ou jovens que procuram as, também elas tendência, câmaras descartáveis. “As point and shoot, principalmente os mais jovens, são uma boa entrada no analógico. A experiência do analógico é um upgrade grande porque acaba por ser uma experiência fotográfica no sentido de pensar a fotografia antes de a fazer”, explica.
Quanto à photobooth, afirma que a diversão que testemunha de cada cliente que entra “ultrapassa toda a parte comercial e enche-nos muito o coração”. “É isso que nos dá uma alegria enorme. A experiência é super gira, seja se for um casal num momento romântico, ou amigas, que é uma diversão enorme, nós ouvimos os gritos de felicidade vindos da cabine”, continua, afirmando que “a cereja no topo do bolo” é ouvir constantemente e todos os dias “uau, uau, uau” de cada vez que o cliente vê a tira de fotografias.
▲ Rui Teixeira abriu a Vintage Cameras Lisboa na rua Augusta em dezembro. A photobooth digital é o maior atrativo para os jovens
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
Hannah Roddam-Kitt, por sua vez, destaca a adaptação do povo português a um instrumento tão associado a burocracia: “Como os europeus e os portugueses não tinham uma associação divertida com as cabines, é algo novo aqui. Não é a primeira vez que uma cabine fotográfica está aqui, mas é a primeira vez que é uma experiência nova e divertida. E tem sido muito interessante ver os portugueses, principalmente os mais jovens, a entrar. E é como se eles estivessem a experimentar cabines fotográficas pela primeira vez“, explica, acrescentando que, apesar de a maioria dos clientes serem turistas que vão de propósito ao Machimbombo para tirar uma fotografia na Rhonda, há cada vez mais locais a aderir e a olhar para aquela tira a preto e branco como um souvenir daquele momento.
Esse é vivido de forma diferente quer se vá sozinho ou acompanhado. Para Hannah a coragem de entrar sozinha numa cabine de fotografia é maior do que quando se vai com um amigo ou namorado, onde a dinâmica chega a ser performativa, com “caretas e línguas de fora”, uma vez que, a experiência do cliente apenas e só com a máquina é “como uma forma de auto-exploração e documentação, é um ato de intencionalidade”, afirma, sustentada por Mauro que descreve aquele como “o seu espaço íntimo” a partir do momento em que se fecha a cortina: “Quando se está sozinho, sai e a foto é nossa. Não há duplicadas, nada, é só nossa. Acho que é isso que dá às pessoas essa sensação de libertação. Posso ser eu mesmo neste espaço”. “É tão incrível que as pessoas possam fazer isso através desta máquina, deste robô histórico antigo. É louco”, acrescenta Hannah.
Há, no entanto, quem nem sempre tenha uma boa experiência numa cabine fotográfica, e, neste caso, analógica. “As cabines fotográficas são mais projetadas para pessoas brancas”, começa por dizer Mauro antes de se aventurar pela memória da primeira vez que entrou numa. Estava no Luxemburgo com a namorada quando pensaram em ter um momento romântico de casal numa photobooth. Entraram, fecharam a cortina, pagaram, sorriram e quando foram ver o resultado final, saiu “muito mal” para Mauro: “Basicamente notava-se a minha namorada e a mim não. Estava muito escuro”. Deram uma segunda oportunidade e, quando o resultado foi o mesmo, o técnico e fotógrafo decidiu que não voltaria a entrar numa cabine fotográfica. “Na Rhona procuramos especificamente que as configurações sejam equilibradas, porque nas cabines fotográficas analógicas as configurações são fixas. Não é uma falha humana, é uma falha de design”, revela Hannah, acrescentando que, ao contrário do que muitas vezes vê nas redes sociais, com testemunhos de pessoas negras a acusarem as cabines fotográficas de serem experiências racistas, a Rhonda é já conhecida por ser “uma aliada”. “Há limitações no que podemos fazer, mas eu não me importo que façamos a minha cabine fotográfica para as pessoas brancas parecerem um pouco mais desbotadas e mais brilhantes, se pessoas como o Mauro puderem parecer mais ou menos consigo mesmas”, revelou.
Ao mesmo tempo que as cabines fotográficas podem ser experiências racistas, durante a segregação racial nos EUA, que durou desde meados do século XIX até 1965, eram um local onde qualquer pessoa podia entrar. Colecionadora de tiras vintage, Hannah destaca por isso a rica história que existe em torno de afro-americanos que documentavam os seus penteados através das photobooths. E foi isso que, sem saber, Mauro começou a fazer: de cada vez que vai ao barbeiro, dá a Rhonda a oportunidade de captar o seu novo visual. Todas essas fotos são guardadas e datadas, com notas que especificam pormenores como a luz. “Os técnicos quase sempre guardam as suas tiras, especialmente as irregulares, com flashes de luz ou anomalias químicas, porque são muito únicas“, revela Hannah, lamentando que, tantas vezes, o público não olhe para estas “falhas” da mesma forma que ela e, quando a “fotografia não sai bem”, peçam o reembolso ou uma segunda tentativa por estarem mais habituados a cabines digitais. “De vez em quando alguém fica bastante chateado com uma exposição, algo aconteceu com os produtos químicos, mas às vezes eles têm uma tira perfeita e simplesmente não entendem, então encontramos uma maneira de romantizar as anomalias, porque o analógico nunca é um processo perfeito, e é por isso que é tão especial.”
Afirma, mesmo assim, que à medida que o analógico tem vindo a ressurgir, o público tem vindo a compreender cada vez mais as suas dinâmicas e a perceber como funciona. “Especialmente com a geração Z e a geração Alpha”, acredita, destacando que as modas são cíclicas e que há um ressurgimento a cada 25 anos, dando o exemplo dos vinis, das cassetes e, desde a pandemia, das photobooths. “Uma cabine fotográfica analógica é como comparar um disco de vinil com o Spotify, e uma cabine fotográfica com uma digital”, sugere. Garante por isso que, mesmo sendo uma tendência, e a febre que se sente atualmente vir a passar eventualmente, as cabines fotográficas nunca vão desaparecer completamente graças a este pequeno grupo de aficionados, entre eles Hannah, que consegue fazer com que elas continuem a existir mantendo-as vivas ao longo do último século. “Por muito populares que se tenham tornado, a tendência vai desaparecer mas o amor pelas memórias físicas não desaparece. Poder vê-las, por exemplo, afixadas no frigorífico, e uma memória aleatória, um momento aleatório a ser recordado, e como isso é palpável, é incrível.”