Pedro e António, qual é o melhor decisor?

02 Outubro 2015

As maiores conquistas, a personalidade e irritações, a experiência política, capacidade de negociar e de fazer equipas. Passos e Costa vistos à lupa.

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António Costa – As primeiras eleições a que concorreu, e que não ganhou, foram para a Câmara de Loures em 1993. Mas no palmarés de Costa entram várias vitórias eleitorais: nas europeias de 2004, era o número dois da lista do PS atrás de Sousa Franco, que faleceu em plena campanha eleitoral; depois ganhou as eleições intercalares de Lisboa em 2007 com maioria relativa e alcançou duas maiorias absolutas para a autarquia em 2009 e 2013. Na lapela conta com a última vitória: nas eleições primárias do partido o ano passado (as primeiras do PS) com quase 70% dos votos.

Passos Coelho – O líder do PSD teve três vitórias: a eleição para o PSD em 2010, manter Paulo Portas no Governo depois da sua demissão, conseguindo assim evitar uma crise política que podia ter conduzido a eleições antecipadas e cumprir o resgate com a troika. Para trás, ficam as derrotas quando concorreu à Câmara da Amadora em 1997 e quando perdeu a liderança do PSD para Manuela Ferreira Leite em 2008. Enquanto líder da JSD, foi um dos principais opositores ao aumento das propinas de um governo da sua cor política.

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Passos Coelho – Dizem que em campanha, Passos Coelho é igual a si próprio, sem criação ou encenação de uma personagem político. E isso faz com que, ao contrário por exemplo de Paulo Portas (o especialista em feiras), não se sinta como peixe na água quando está nas ruas em contacto com a população. Cumprimenta as pessoas, faz conversa de circunstância sobre o tempo ou sobre o voto, se houver oportunidade para isso, mas “passa-se” com os encontrões e puxões inevitáveis em zonas de grandes enchentes. Especialmente se esses mesmos encontrões partirem, não do cidadão que se lança para o ver, mas sim de dentro da comitiva que o acompanha e protege. Prefere a liberdade. Mesmo durante estes quatro anos em que foi primeiro-ministro, evitou tanto quanto possível os seguranças e raras não foram as vezes em que, para preocupação da mulher Laura Ferreira, se esgueirava da casa onde vive em Massamá para ir com a filha ao parque (segundo contou a própria na biografia ‘Somos o que queremos ser’).

Tem fama de palavroso e, quando na rua o abordam para falar do estado do país, ele fala. Muitas vezes para desespero da sua comitiva que fica a segurar o barco durante os 10, 15 ou 20 minutos em que Passos explica, pacientemente, a sua visão política e económica ao jovem anónimo ou ao reformado que o abordou. “Ele é mesmo assim”, dizem. Humildade, mas também teimosia e persistência, são alguns dos adjetivos que a ele veem associados. “Resiliente, bem educado, um homem que nunca insulta nem precisa de recorrer aos truques mais baixos para se fazer ouvir. Aberto ao diálogo e que gosta de conversar”, nas palavras de Pinto Balsemão.

António Costa – São conhecidas as irritações de António Costa, essas ficam-lhe agarradas à imagem. Na rua, é mais calado. Ouve mais do que fala. Agarra-se a ideias base, sorri e agradece. Na maior parte das vezes a aproximação que fez às pessoas é assim como quem vai bater à porta, devagarinho para não incomodar. Com quem conhece é diferente, menos austero, reconhece qualidades nos outros e isso nota-se em Lisboa. Na cidade que liderou fala com todos na rua de modo menos tenso. Duro no trato, muitos o descreveram como honesto. Como chegou a fazer Francisco Assis que lembrou a ficha limpa sem casos e sem suspeitas e esse é um ativo que empunha. São-lhe ainda reconhecidas capacidades como bom negociador, duro, mas capaz de ceder.

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António Costa – O líder socialista passou por vários patamares de cargos políticos. No partido, começou como dirigente da Juventude Socialista, a qual nunca chegou a liderar, foi membro do secretariado nacional do PS nas lideranças de Jorge Sampaio e de António Guterres e conseguiu a liderança do PS desde 2014. Como político, foi ainda deputado, líder parlamentar (nos anos da liderança de Ferro Rodrigues), secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares no primeiro Governo de António Guterres e depois subiu a ministro com a mesma pasta. Terminou a volta pelos governos de Guterres como ministro da Justiça. Foi depois eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu e regressou a Lisboa para ser Ministro da Administração Interna no Governo de José Sócrates. De lá saiu para ser presidente da Câmara de Lisboa.

Passos Coelho – Chegou ao Governo sem qualquer experiência governativa e isso foi-lhe apontando desde o início, há quatro anos. Antes de chegar a primeiro-ministro nunca tinha sido secretário de Estado ou ministro, nem nunca tinha desempenhado funções executivas em nenhuma câmara. No debate televisivo que travou contra José Sócrates em 2011, no auge da campanha eleitoral, essa foi a primeira pergunta que lhe fizeram, mas o líder do PSD ia munido com o exemplo de David Cameron, no Reino Unido, ou até de Tony Blair.

Antes de chegar ao Governo e de ter governado num dos mandatos que é tido como um dos mais difíceis da história, a sua experiência política fez-se sobretudo na Juventude Social Democrata, onde esteve desde os 14 anos e onde aprendeu a dominar a máquina partidária. Foi presidente da JSD de 1990 a 1995, tendo sido eleito com o desígnio da “mudança” num altura em que a juventude partidária era quase um partido dentro do partido. Foi deputado durante nove anos e vice-presidente do PSD durante a liderança de Marques Mendes. Sairia a meio, contudo, por querer uma “renovação” que o líder acabaria por não fazer. Foi ainda vereador na Câmara Municipal da Amadora, depois de ter concorrido pelo concelho em 1997 mas perdido para o socialista Joaquim Raposo.

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António Costa – Neste ponto, o líder do PS distribui jogo, que é como quem diz, já fez negociações de todos os estilos para dar e para vender, incluindo com o atual Governo. Aliás, é a cartada que joga desde que chegou à liderança do partido. Enquanto ministro dos governos de maioria relativa de António Guterres esteve à cabeceira da mesa nas negociações para fazer passar os orçamentos do Estado. E, alguns à direita outros à esquerda os orçamentos foram sempre aprovados. Além da experiência de negociador no Executivo, Costa tem ainda na manga os acordos que conseguiu na Câmara de Lisboa: no primeiro mandato na Câmara de Lisboa conseguiu acordos com José Sá Fernandes, ainda vereador do BE e que nas eleições de 2009 já concorreram coligados, o mesmo com Helena Roseta. Já nas maiorias absolutas conseguiu outros acordos, mas à direita: a reforma fiscal e a reforma administrativa, que negociou com o atual Governo. Não foi aliás a única medida a negociar com o Governo de Passos Coelho. Quanto o interlocutor ainda era Miguel Relvas, Câmara e Governo chegaram a um acordo para a venda dos terrenos do aeroporto, que permitiram um encaixe à Câmara, que usou parte para abater na dívida, e ao Governo permitiu privatizar a ANA, a empresa gestora dos aeroportos.

Passos Coelho – A bem ou a mal, teve de ter muita capacidade de negociar nestes últimos quatro anos de governação. O apelo ao diálogo e ao compromisso com os vários partidos e setores da sociedade é, de resto, uma das suas maiores bandeiras, tendo ocupado grande parte do discurso da campanha eleitoral. O acordo de concertação social é uma das suas principais glórias, que não se cansa de repetir, assim como a tentativa de acordo com o PS sobre a reforma do IRC, que acabou por cair com a mudança de líder no Partido Socialista.

As negociações com a troika foram a prova de fogo da governação PSD/CDS, que esteve mais do que uma vez presa por um fio, tenho sempre sobrevivido. Muitos atribuem essa superação à capacidade de Passos negociar e ter sangue-frio nas decisões. Foi o que aconteceu na muito quente crise política de julho de 2013 quando Portas anunciou a sua demissão irrevogável e, num espaço de poucas horas, o primeiro-ministro saiu de um Conselho de Ministros perplexo, falou com o Presidente da República, que empossou Maria Luís Albuquerque, falou aos portugueses a dizer que não se demitia e aguentava o barco e, horas depois, Portas regressava, com mais poderes mas com o Governo à tona. Antes, quando era oposição, negociou o Orçamento do Estado de 2011 com Sócrates, e ainda hoje se vangloria por nunca ter feito “política do bota-abaixo” e ter sempre viabilizado os documentos para o governo da altura governar – excepto no PEC IV, que levou à queda do socialista.

De resto, ainda nos tempos de líder da JSD, são conhecidas as lutas que travou contra o primeiro-ministro de então, Cavaco Silva, em torno dos direitos dos estudantes, nomeadamente sobre as propinas e a prova geral de acesso. E o dia em que Cavaco foi obrigado a negociar com ele, Passos, no próprio Parlamento através de uma troca de bilhetes.

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António Costa – “O PS tem uma equipa renovada”. Esta é uma das frases mais utilizadas pelo líder socialista. Vangloria-se por chamar jovens para as suas equipas, seja na Câmara Municipal seja no partido. Na câmara deu palco a uma nova geração e políticos como Duarte Cordeiro (que chamou para seu diretor de campanha) e Fernando Medina (que subiu a presidente com a sua saída). No núcleo mais próximo, chamou Ana Catarina Mendes, João Galamba, João Tiago Silveira e Pedro Nuno Santos.

Passos Coelho Distinguiu-se por ter iniciado um Governo com menos ministérios, mais pequeno e menos dispendioso. A meio teve de voltar para trás, remodelar, partir alguns em dois, mas apesar de todas as ameaças de crise política nunca fez uma remodelação de raiz. Saiu Miguel Relvas e Miguel Macedo, entrou Poiares Maduro, Rui Machete e Pires de Lima. Segurou sempre Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, apesar das críticas. Marco António Costa, homem do partido, é uma das figuras mais próximas. Há, no entanto, uma coisa em que todos os que o rodeiam concordam: ouve quem quer ouvir, dependendo dos assuntos aconselha-se junto de pessoas especificas, mas depois fecha-se em copas e “decide sozinho”.

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António Costa – São reações inopinadas ou talvez não. Nesta campanha, por exemplo, Costa mostrou o desagrado com o aparelho mediático sempre à sua volta. Chegou a pedir “deixem-nos trabalhar” ou mesmo  advertir os jornalistas para o deixarem falar com as pessoas. Mas não foi caso único. É conhecida a resposta que deu a uma jornalista da SIC que o questionou à saída de um evento e as sms que trocou com um jornalista do Expresso. De resto, enquanto presidente da Câmara teve discussões acaloradas com alguns vereadores da oposição que ficaram registadas em ata.

Passos Coelho – Viu-se envolvido no caso da Tecnoforma, empresa onde trabalhou quando era deputado em regime de exclusividade. Em causa estavam pagamentos de cinco mil euros mensais não declarados pelo atual primeiro-ministro ao fisco, entre 1995 e 1998, quando Passos era deputado com exclusividade presidia na altura uma organização não governamental, o Centro Português para a Cooperação. Na altura, o primeiro-ministro não desmentiu categoricamente que não recebeu o dinheiro e alegou “falta de memória”, o que fez perdurar as dúvidas apesar de o inquérito ter sido arquivado. Seguiram-se outras irritações, que mancharam a postura de cidadão normal de Passos Coelho no Governo, sendo que a maior delas todas foi o facto de ter sido tornado público que tinha dívidas à Segurança Social, já prescritas mas apenas liquidadas depois de o caso ter saltado para os jornais. Nessa altura, a meio de umas jornadas parlamentares do PSD, Passos fez um dos discursos mais inflamados de todo o seu mandato, alegando que, ao contrário de outros (Sócrates, leia-se), nunca tinha usado o “cargo para enriquecer”, mas que, apenas não era “perfeito”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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