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As passadeiras vermelhas que acabaram de ser levantadas em Pequim já estão a ser estendidas novamente. Quatro dias depois de Xi Jinping ter recebido Donald Trump, é agora a vez de Vladimir Putin visitar a China, esta terça e quarta-feira. As visitas dos Presidentes norte-americano e russo são o culminar de um desfile de líderes internacionais que levou à capital chinesa, durante os últimos meses, os chefes do Executivo de França, Reino Unido, Espanha, de vários Estados menores da Europa (depois de anos sem viajarem para a China), da Coreia do Sul e que incluiu até uma receção ao Rei de Espanha.
As danças tradicionais, as lições de história de Xi Jinping e as visitas aos monumentos centenários marcam a visita de cada um dos nomes na longa lista de dignitários internacionais. Mas não é o facto de Pequim ser um bom anfitrião que justifica o ritmo frenético destas visitas. A abertura de portas (e a pompa e circunstância com que essa abertura é feita) são, em si mesmas, uma projeção do poder da China na ordem internacional. Isso é particularmente evidente nas visitas consecutivas daquelas que já foram as duas maiores potências mundiais — e os analistas chineses fazem questão de destacar isso mesmo.
“Apesar de os EUA e a Rússia, enquanto grandes potências, há muito estarem em desacordo sobre questões como a crise na Ucrânia e a segurança europeia, ambos escolheram, ainda assim, Pequim como uma ‘visita obrigatória’”, argumentou Li Haidong, professor na China Foreign Affairs University, em Pequim, ao Global Times, um jornal próximo do regime de Pequim. “Na história da diplomacia, o facto de um país ser em simultâneo um destino para duas grandes potências é, em si mesmo, um momento muito simbólico“, elaborou.
▲ Putin regressa a Pequim menos de um ano depois da última visita, em setembro de 2025
POOL/AFP via Getty Images
Esta está longe de ser a primeira visita de Putin a Pequim, mas pode ser, ainda assim, uma viagem relevante, uma vez que o Presidente russo chega à China com várias oportunidades, políticas e económicas. Nos últimos anos, a relação sino-russa aprofundou-se, mas num ângulo de dependência da Rússia em relação à China. Contudo, a guerra no Irão pode fazer com que Xi esteja agora mais aberto do que nunca a negociar com Putin de igual para igual.
Rússia e China: o retrato de uma relação forte, a realidade de um alinhamento pragmático
Os encontros de Xi com líderes ocidentais foram muito frequentes nos últimos meses. Mas a contagem é, ainda assim, tímida, quando comparada com a frequência dos seus encontros com Vladimir Putin: ao todo, os dois Presidentes já se encontraram mais de 40 vezes, tendo a última sido também em Pequim, por ocasião das celebrações dos 80 anos do fim da II Guerra Mundial. A proximidade entre os dois é caracterizada na imprensa de Pequim como uma relação harmoniosa.
“O panorama internacional está a sofrer profundas transformações”, argumentou Feng Shaolei, diretor do centro de estudos sobre a Rússia na East China Normal University, em Xangai, ao tabloide estatal Global Times, apontando desafios como a Inteligência Artificial e a reformulação da política externa das grandes potências. Neste cenário, o analista chinês ressalvou a necessidade da cooperação entre Rússia e China. “A reunião Xi-Putin provavelmente irá retratar a parceria sino-russa como uma força chave da estabilidade global“, aponta, por sua vez, Elizabeth Wishnick, investigadora do Weatherhead East Asian Institute, da Universidade de Columbia, num artigo de análise na The Diplomat.
A palavra-chave na análise desta especialista é, contudo, “retratar”. Da mesma forma que a receção aos líderes europeus e norte-americanos é facilmente interpretada como uma projeção da influência chinesa no Ocidente, a mais recente visita de Putin procura “retratar” uma aliança, onde, na verdade, existe apenas uma parceria pragmática. “O contexto estratégico da guerra de Israel e EUA no Irão é uma oportunidade bem-vinda para Xi e Putin destacarem os seus pontos de convergência e minimizarem as divergências entre ambos relativamente ao Irão, à Coreia do Norte e a muitas outras questões”, continua Elizabeth Wishnick.
Ora, essas mesmas divergências marcam profundamente a relação, económica e política, entre os dois países. Num relatório publicado a 12 de fevereiro, cinco analistas do think tank britânico New Eurasian Strategies Centre caracterizam a relação como “um casamento sem amor“.
Na esfera económica, a relação é marcada por uma dependência russa, que surgiu depois de a maior parte dos países ocidentais ter cortado laços com Moscovo após a invasão da Ucrânia. Desde 2022, a Rússia viu-se obrigada a virar-se para a China como parceiro preferencial: entre 2021 e 2023, a taxa de importação de Pequim de produtos russos subiu de 30% para 66%, com destaque para o petróleo. Não existe uma importação proporcional no sentido contrário. Já na questão política, os especialistas ressalvam como Moscovo e Pequim têm objetivos a longo prazo muito diferentes: enquanto a China procura afirmar-se através de reformas e estabilização, a Rússia procura afirmar-se através da força militar e da desestabilização dos seus adversários.
“A relação entre a Rússia e a China pode ser compreendida melhor não como uma parceria estratégica, mas como um alinhamento pragmático, desenhado pela necessidade, oportunismo e uma oposição partilhada à influência ocidental”, resumem os especialistas do New Eurasian Strategies Centre, que recusam, contudo, reduzir a cooperação a uma posição anti-EUA.
Xi pode estar à procura de uma fonte de combustível que dê margem de manobra em Taiwan
Donald Trump saiu de Pequim na passada sexta-feira com um sorriso no rosto e a garantia de ter tido um encontro “extremamente positivo” com o “amigo” Xi Jinping. Na esfera económica, a avaliação feita pelo chefe de Estado chinês foi igualmente positiva. Porém, na esfera geopolítica, Xi procurou fletir os músculos, deixando ameaças sobre o apoio norte-americano a Taiwan. A pequena ilha do Pacífico volta agora a pairar sobre o encontro de Xi e Putin.
▲ Um encontro positivo entre Trump e Xi é um cenário "preocupante" para Putin
REUTERS/Evan Vucci
Desta vez não está em causa o estatuto político do território, uma vez que a Rússia está totalmente alinhada com a política “Uma China”, que reivindica a soberania de Pequim sobre Taiwan. Antes, “Taiwan pode estar no subtexto do encontro”, escreve Joseph Webster, analista do Atlantic Council, citado pelo The Guardian. Para perceber porquê, é preciso olhar para outra questão geopolítica que gerou discórdia nas leituras norte-americana e chinesa do encontro da semana passada: a guerra no Irão.
O bloqueio no Estreito de Ormuz levou a uma quebra no abastecimento chinês de combustíveis, que teve de se virar para a Rússia, à procura de uma nova fonte de combustível. Esta fonte “reforçaria significativamente a segurança petrolífera de Pequim numa eventual crise em Taiwan”, aponta Joseph Webster. Ou seja, a manutenção do acesso aos combustíveis russos daria à China margem de manobra para agir, se assim desejar, em Taiwan e enfrentar um possível isolamento dos países ocidentais — o facto de o país estar a passar por um período de estabilização das relações com o Ocidente pode tornar este cenário mais improvável, mas Xi e o seu Executivo destacaram repetidas vezes que Taiwan é a “linha vermelha” da política externa chinesa.
Na verdade, a China poderia estabilizar o seu fornecimento de combustíveis por uma outra via — insistindo na reabertura do Estreito de Ormuz. Na teoria, Pequim tem trabalhado neste sentido, tendo-se oferecido para mediar o fim da guerra e declarado a necessidade de reabrir Ormuz. Mas, na prática, os especialistas apontam que Pequim poderia simplesmente aceder ao pedido de Trump, apelando ao Irão que regresse à mesa das negociações e desafiando a Rússia a suspender o apoio militar direto a Teerão, que tem assistido o esforço de guerra iraniano.
▲ As declarações do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês dão a entender "uma aparente falta de coordenação"
YURI KOCHETKOV/EPA
“Ainda assim, é improvável que Xi concorde em apelar à Rússia para pressionar o Irão a retirar-se da guerra com os Estados Unidos e Israel”, argumenta Elizabeth Wishnick. O facto de Xi Jinping não estar disposto a dar este passo reflete também a natureza superficial da relação sino-russa. Essa mesma superficialidade foi reconhecida em duas ocasiões pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, aponta a especialista; a primeira, depois do eclodir da guerra na Ucrânia, a segunda, no mês passado. Em ambas as ocasiões, a diplomacia chinesa sublinhou a necessidade de “coordenação estratégica mais próxima e mais forte”, “tipicamente um sinal de aparente falta de coordenação“, remata a especialista.
Rússia já foi “disruptiva”. Agora, quer ser “útil”
Se a relação entre Pequim e Moscovo é marcada pelo “oportunismo”, a visita de Vladimir Putin esta terça e quarta-feira terá muitas oportunidades. E o Presidente russo tenciona aproveitá-las, segundo afirmou Dmitry Peskov antes de a viagem começar. “Temos expectativas muito sérias para esta visita. Nós e os nossos amigos chineses referimo-nos a ela como uma parceria particularmente privilegiada e estratégica”, disse o porta-voz do Kremlin, num retrato de exaltação da relação semelhante ao que é feito na imprensa chinesa.
Contudo, Putin não chega a Pequim com a melhor mão. “O resultado [positivo do encontro entre Xi e Trump] é particularmente preocupante”, argumenta Stefan Wolff, professor de segurança internacional na Universidade de Birmingham, num artigo de análise. Isto porque a estabilização da relação entre as duas maiores potências aliena a Rússia da ordem internacional. “As aspirações de Putin de colocar a Rússia como uma grande potência dependem de Moscovo ser estrategicamente útil para Washington e Pequim ou ganhar vantagem junto deles, mostrando a sua capacidade de ser disruptivo“, escreve o académico.
A segunda estratégia é a que Putin escolheu implementar em fevereiro de 2022, quando invadiu a Ucrânia. Contudo, passados mais de quatro anos, a guerra prolonga-se e a Ucrânia resiste, obtendo mesmo algumas vitórias e preparando-se para uma guerra ainda mais prolongada. Agora, em Pequim, Putin tem oportunidade de apostar na segunda via, aprofundando a relação económica com a China através do fornecimento de combustíveis.
O acordo é benéfico para ambas as partes: a China precisa de assegurar uma fonte de combustível alternativa ao Estreito de Ormuz e a Rússia precisa de desbastar a assimetria na sua relação com Pequim. A guerra no Irão continua a funcionar, portanto, como um meio para a Rússia conquistar vitórias e os alvos estão bem definidos.
A lucrar com o petróleo e a Ucrânia esquecida. Pode Putin ser “o grande vencedor” da guerra no Irão?
Nas declarações de antevisão da visita, Peskov salientou que a “agenda económica” será o tema mais discutido, mas destacou um assunto em particular: a construção do Power of Siberia 2. Trata-se de um plano para um gasoduto que liga os terrenos de extração de gás natural na Sibéria às regiões do interior da China, através da Mongólia. A China tem adiado a conclusão do projeto, numa tentativa de evitar criar uma dependência do gás russo. Agora, com a crise energética provocada pela guerra no Irão, a China parece estar mais próxima do que nunca de aceitar esta possibilidade.
Isto não quer dizer, contudo, que a visita de Putin a Pequim possa inverter o equilíbrio de forças entre Rússia e China ou sequer colocar as duas potências em pé de igualdade. “Exercer esta vantagem tem riscos significativos, especialmente em áreas em que os interesses da China e dos EUA estão mais alinhados do que com a Rússia”, alerta Stefan Wolff. Ainda assim, é um risco calculado, que permitirá a Vladimir Putin continuar a ter cartas — mesmo que sem trunfos — na sua mão.