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epa11343934 Russian President Vladimir Putin (C) attends a welcome ceremony with Chinese President Xi Jinping outside the Great Hall of the People in Beijing, China, 16 May 2024. The Russian president is on an official visit to China on 16 and 17 May.  EPA/SERGEY BOBYLEV / SPUTNIK / KREMLIN POOL MANDATORY CREDIT
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▲Trata-se da primeira grande parada militar organizada pela China desde 2019

SERGEY BOBYLEV / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA

▲Trata-se da primeira grande parada militar organizada pela China desde 2019

SERGEY BOBYLEV / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA

Ao lado de Kim Jong-Un e do "velho amigo" Putin, Xi Jinping lança 80 mil pombas brancas para o céu e envia um sinal de força para Washington

Parada militar em Pequim junta Xi Jinping, Putin e Kim Jong-un, principais rostos do chamado "Eixo da Revolta" numa semana em que a China mostra o seu poder político e desafia o Ocidente.

Oitenta mil pombas brancas vão ser lançadas para o céu durante a parada militar que vai decorrer nesta quarta-feira em Pequim, um dos mais simbólicos momentos diplomáticos e militares dos últimos anos. O anfitrião, Xi Jinping, vai ter ao seu lado o “velho amigo” Vladimir Putin e Kim Jong-Un, que também já chegou à China a bordo do seu icónico comboio blindado. Mas também há líderes europeus na lista de confirmados, com o primeiro ministro eslovaco a causar algum desconforto à União Europeia.

“Temos de continuar a assumir uma oposição clara ao hegemonismo e aos que fazem política pelo poder“. O repto foi lançado na segunda-feira por Xi Jinping na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que ocorreu nos últimos dias, também na China, e foi uma crítica implícita – mas pouco disfarçada – à administração Trump, em Washington.

O que é a Organização de Cooperação de Xangai?

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A Organização de Cooperação de Xangai, fundada em 2001, integra China, Rússia, Índia, Paquistão, Irão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, e abrange cerca de 40% da população mundial.

O grupo não tem cláusulas de defesa mútua, ao contrário da NATO, e apresenta-se como um fórum para a cooperação política, económica e de segurança.

Muitos dos participantes (mas não todos) nessa cimeira vão, agora, assistir a um desfile ao qual não irá faltar pompa e circunstância. Nas últimas semanas, Pequim tem estado sujeita a duras restrições no trânsito, alterações no funcionamento dos transportes públicos e reforço da presença policial, enquanto as autoridades finalizam os preparativos para o evento que vai decorrer na Praça Tiananmen.

A parada militar, que comemora o 80º aniversário da vitória sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial, começa às 9h00 locais (2h00 em Lisboa) de quarta-feira e deverá durar cerca de uma hora e dez minutos, com a participação de 45 formações militares, demonstração de “armas de nova geração” e um sobrevoo de mais de 100 aeronaves.

China exibe armamento em desfile militar rigidamente controlado com presença de vários líderes europeus

Grande parte do arsenal— incluindo armas estratégicas terrestres, marítimas e aéreas, equipamento de guerra de precisão avançado e drones — será mostrado ao público pela primeira vez. No entanto, o forte dispositivo de segurança vai impedir a maioria da população de assistir presencialmente ao desfile, que se limitará a acompanhar a transmissão por televisão ou online. Vão ser, a dada altura, lançadas 80 mil pombas brancas para os céus.

China exibe armamento em desfile militar rigidamente controlado com presença de vários líderes europeus

A fotografia conjunta é, em si mesma, um recado: a consolidação de um eixo – já chamado de "Eixo da Revolta" – que se opõe frontalmente à ordem internacional dominada pelo Ocidente.

Sentado perto de Xi Jinping, a ver a libertação destas “pombas pela paz”, estará Vladimir Putin – convidado de honra que, aliás, passou a última noite na residência oficial do Presidente chinês. O rosto do Kremlin é um “velho amigo” da China, afirmou nos últimos dias Xi Jinping, que garante ter uma posição “neutral” na guerra na Ucrânia mas continua a ajudar Moscovo, desde logo colaborando com as tentativas russas de mostrar união e força.

Se, nos meses após o início da guerra, Vladimir Putin tinha dificuldades em ser visto ao lado de qualquer líder poderoso – exceção feita a Kim Jong-Un, que sempre manifestou o apoio da Coreia do Norte – o Presidente russo surge, agora, como convidado de honra de uma importante celebração com o regime que domina a segunda maior economia do mundo. Se muito mudou desde então, aquilo que é constante é que Kim Jong-Un não recusou o convite e, assim, será o terceiro rosto mais relevante a observar durante o evento.

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▲ Robert Fico, primeiro-ministro eslovaco, reuniu-se esta quarta-feira em Pequim com Putin

POOL/AFP via Getty Images

Além do fornecimento de milhões de munições e dezenas de mísseis balísticos, Pyongyang já enviou milhares de soldados para apoiar as tropas russas, sobretudo na região de Kursk – onde as baixas norte-coreanas se contam às centenas. O pacto de defesa assinado em junho de 2024 entre Moscovo e Pyongyang marca uma mudança histórica: a Coreia do Norte, antes alvo de sanções apoiadas pela Rússia e pela China, surge agora como aliado militar declarado.

"Até há alguns anos, a China e a Rússia eram parceiras importantes na imposição de sanções internacionais à Coreia do Norte pelos seus testes nucleares e de mísseis... Mas agora são potenciais parceiras militares da República Popular Democrática da Coreia durante uma crise na Península Coreana"
Youngjun Kim, do instituto norte-americano Bureau of Asian Research

Para Kim, o simples facto de partilhar palco com Xi e Putin corresponde a uma legitimação tácita do seu programa nuclear, algo que o regime norte-coreano procura há décadas. Esta é a primeira deslocação de Kim à China desde 2019 e a primeira vez em que surge num contexto encontros multilaterais.

Kim Jong-un entra na China de comboio para assistir a desfile militar com Xi e Putin

Por outro lado, para o Governo chinês, o desfile militar — o primeiro de grande dimensão desde 2019, quando se assinalaram os 70 anos da fundação da República Popular — serve para marcar uma data altamente simbólica — reforça a narrativa histórica do Partido Comunista de que foi o principal vencedor e libertador do país na guerra contra o Japão. Mas é também uma oportunidade para mostrar poder militar, projetar unidade com aliados e afirmar a sua visão de “nova ordem mundial”, marcada pelo que designa como “verdadeiro multilateralismo”, um “mundo multipolar”.

A fotografia conjunta é, em si mesma, um recado: a consolidação de um eixo – já chamado de “Eixo da Revolta“ – que se opõe frontalmente à ordem internacional dominada pelo Ocidente. (O termo nasceu em 2024, cunhado por analistas de política externa do think tank norte-americano Center for a New American Security (CNAS), num artigo publicado na revista ForeignAffairs, e engloba também o Irão.

Especialistas como Youngjun Kim, do instituto norte-americano Bureau of Asian Research, consideram “quase inevitável” a realização de manobras militares conjuntas entre os três países, um cenário que poderia alterar o equilíbrio estratégico no Indo-Pacífico e aumentar a pressão sobre os EUA e os seus aliados regionais, como o Japão e a Coreia do Sul.

Um chá com Putin e Xi Jinping

Citado pela Reuters, o especialista afirmou que “até há alguns anos, a China e a Rússia eram parceiras importantes na imposição de sanções internacionais à Coreia do Norte pelos seus testes nucleares e de mísseis… Mas agora são potenciais parceiras militares da República Popular Democrática da Coreia durante uma crise na Península Coreana”.

Donald Trump não fez ainda qualquer declaração sobre o desfile, nem sobre o comentário de Xi Jinping que claramente lhe foi dirigido. Mas o seu secretário do Tesouro de Trump, Scott Bessent, considerou a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) “performativa” e acusou a China e a Índia, os maiores compradores de crude russo, de serem “maus atores” por alimentarem a guerra da Rússia na Ucrânia.

Modi diz a Putin que paz é “clamor de toda a humanidade”

O indiano Narendra Modi foi uma das principais figuras da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que decorreu nos últimos dias em Tianjin. Mas Modi e a sua delegação já abandonaram a China, uma decisão que pode estar relacionada com um desejo de não magoar o Japão. Não deixa, no entanto, de ser relevante, a presença do líder indiano em Pequim —a primeira em sete anos — num momento em que as relações entre a Índia e os EUA se têm deteriorado depois de Trump ter duplicado as tarifas sobre as exportações indianas para 50%, face à recusa de Nova Deli em parar de comprar petróleo russo.

Modi “esteve na China num momento em que as relações Índia-China estão a estabilizar e as relações Índia-EUA pioraram. É uma imagem poderosa”, disse Michael Kugelman, analista do Sul da Ásia, em declarações ao The Guardian. “Não tenho a certeza que os responsáveis norte-americanos compreendem plenamente a confiança que desperdiçaram em tão pouco tempo”, sublinhou o especialista.

epa12344642 A photo released by the official North Korean Central News Agency (KCNA) shows North Korean leader Kim Jong Un (L) standing by his private train before departing for Beijing in Pyongyang, North Korea, 01 September 2025 (issued 02 September 2025). The North Korean leader departed on 01 September on his private train to Beijing to attend celebrations marking the 80th anniversary of the victory of the Chinese People’s War of Resistance Against Japanese Aggression and the World Anti-Fascist War, according to Kim Chon Il, director of the DPRK Foreign Ministry’s Department of Press and Information.  EPA/KCNA  EDITORIAL USE ONLY

▲ Kim Yong-un na chegada a Pequin

KCNA/EPA

Para Lim Chuan-Tiong, investigador do Instituto de Estudos Avançados sobre a Ásia, da Universidade de Tóquio, o principal objetivo do “espetáculo temporário” é reforçar o poder de Xi e a força do Partido Comunista Chinês (PCC).

“A maioria dos [líderes] presentes, os convidados, não está lá para apoiar a comemoração chinesa do 80.º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial”, sublinhou Lim ao The Guardian. “Estão lá para dar ‘face’ à China, para dar prestígio aos líderes chineses e para evitar prejudicar as relações bilaterais. Muito simples.”

Dois europeus. Sérvio Vučić e eslovaco Fico presentes em Pequim

Do lado europeu, o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, já chegou a Pequim e o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, também, representando o governo que lidera e que é considerado muito mais pró-russo do que o executivo no poder até 2023.

A Eslováquia, membro da União Europeia desde 2004, estava inicialmente entre os países que apoiavam a Ucrânia no início da invasão russa. Em 2022 e 2023, prestou ajuda militar, incluindo caças MiG-29, e o parlamento designou oficialmente a Rússia como estado patrocinador do terrorismo.

Porém, o cenário mudou drasticamente quando o nacionalista Robert Fico foi eleito no final de 2023. O governo suspendeu, imediatamente, a ajuda militar à Ucrânia e adotou uma postura abertamente pró-Rússia – bloqueando ou enfraquecendo as sanções da UE contra Moscovo.

Fico tornou-se, aliás, o primeiro primeiro-ministro da UE a dar uma entrevista à televisão estatal russa e, em maio de 2025, visitou Moscovo para as comemorações do Dia da Vitória.

epa12344683 President of Serbia Aleksandar Vucic (2-R) arrives at the Beijing Capital International Airport in Beijing, China, 02 September 2025. At the invitation of Chinese President Xi Jinping, 26 foreign heads of state and government will attend a military parade commemorating the 80th anniversary of the end of World War II and Japan's surrender.  EPA/Lintao Zhang / POOL

▲ Aleksandar Vučić está em Pequim para reforçar a ideia de que a Sérvia se quer posicionar como um parceiro fiável da China nos Balcãs.

Lintao Zhang / POOL/EPA

Já a Sérvia, que não é membro da União Europeia (é candidato à adesão desde 2012), decidiu estar presente por várias razões ligadas a questões de diplomacia estratégica, simbolismo histórico e cálculo político interno.

O país tem vindo a estreitar laços com Pequim, sobretudo no âmbito da chamada “Nova Rota da Seda”. Pequim tornou-se um dos maiores investidores estrangeiros no país, em setores como energia, infraestruturas e telecomunicações e Belgrado vê Pequim como um contrapeso à União Europeia, com quem mantém negociações de adesão tensas.

Por outro lado, a presença de Aleksandar Vučić em Pequim reforça a ideia de que a Sérvia se quer posicionar como um parceiro fiável da China nos Balcãs. Existem laços profundos com Moscovo — culturais, históricos e religiosos — e o país não aderiu às sanções europeias contra a Rússia.

Desta forma, Vučić, criticado internamente por estar a pôr o país “entre dois mundos”, tenta mostrar ao eleitorado sérvio — maioritariamente pró-russo e cético em relação à UE — que não cede à pressão ocidental.

A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, reagiu com indignação, destacando que “quem verdadeiramente apoia a paz não deveria estar ao lado de Putin”. A responsável advertiu que estas decisões “não serão esquecidas” nas futuras negociações sobre a política de alargamento da União Europeia.

E nesta terça-feira a Comissão Europeia deixou bem claro que Roberto Fico, que se encontrou com Putin da parte da manhã, não representa a União Europeia.

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