Oitenta mil pombas brancas vão ser lançadas para o céu durante a parada militar que vai decorrer nesta quarta-feira em Pequim, um dos mais simbólicos momentos diplomáticos e militares dos últimos anos. O anfitrião, Xi Jinping, vai ter ao seu lado o “velho amigo” Vladimir Putin e Kim Jong-Un, que também já chegou à China a bordo do seu icónico comboio blindado. Mas também há líderes europeus na lista de confirmados, com o primeiro ministro eslovaco a causar algum desconforto à União Europeia.
“Temos de continuar a assumir uma oposição clara ao hegemonismo e aos que fazem política pelo poder“. O repto foi lançado na segunda-feira por Xi Jinping na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que ocorreu nos últimos dias, também na China, e foi uma crítica implícita – mas pouco disfarçada – à administração Trump, em Washington.
O que é a Organização de Cooperação de Xangai?
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A Organização de Cooperação de Xangai, fundada em 2001, integra China, Rússia, Índia, Paquistão, Irão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, e abrange cerca de 40% da população mundial.
O grupo não tem cláusulas de defesa mútua, ao contrário da NATO, e apresenta-se como um fórum para a cooperação política, económica e de segurança.
Muitos dos participantes (mas não todos) nessa cimeira vão, agora, assistir a um desfile ao qual não irá faltar pompa e circunstância. Nas últimas semanas, Pequim tem estado sujeita a duras restrições no trânsito, alterações no funcionamento dos transportes públicos e reforço da presença policial, enquanto as autoridades finalizam os preparativos para o evento que vai decorrer na Praça Tiananmen.
A parada militar, que comemora o 80º aniversário da vitória sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial, começa às 9h00 locais (2h00 em Lisboa) de quarta-feira e deverá durar cerca de uma hora e dez minutos, com a participação de 45 formações militares, demonstração de “armas de nova geração” e um sobrevoo de mais de 100 aeronaves.
Grande parte do arsenal— incluindo armas estratégicas terrestres, marítimas e aéreas, equipamento de guerra de precisão avançado e drones — será mostrado ao público pela primeira vez. No entanto, o forte dispositivo de segurança vai impedir a maioria da população de assistir presencialmente ao desfile, que se limitará a acompanhar a transmissão por televisão ou online. Vão ser, a dada altura, lançadas 80 mil pombas brancas para os céus.
Sentado perto de Xi Jinping, a ver a libertação destas “pombas pela paz”, estará Vladimir Putin – convidado de honra que, aliás, passou a última noite na residência oficial do Presidente chinês. O rosto do Kremlin é um “velho amigo” da China, afirmou nos últimos dias Xi Jinping, que garante ter uma posição “neutral” na guerra na Ucrânia mas continua a ajudar Moscovo, desde logo colaborando com as tentativas russas de mostrar união e força.
Se, nos meses após o início da guerra, Vladimir Putin tinha dificuldades em ser visto ao lado de qualquer líder poderoso – exceção feita a Kim Jong-Un, que sempre manifestou o apoio da Coreia do Norte – o Presidente russo surge, agora, como convidado de honra de uma importante celebração com o regime que domina a segunda maior economia do mundo. Se muito mudou desde então, aquilo que é constante é que Kim Jong-Un não recusou o convite e, assim, será o terceiro rosto mais relevante a observar durante o evento.
▲ Robert Fico, primeiro-ministro eslovaco, reuniu-se esta quarta-feira em Pequim com Putin
POOL/AFP via Getty Images
Além do fornecimento de milhões de munições e dezenas de mísseis balísticos, Pyongyang já enviou milhares de soldados para apoiar as tropas russas, sobretudo na região de Kursk – onde as baixas norte-coreanas se contam às centenas. O pacto de defesa assinado em junho de 2024 entre Moscovo e Pyongyang marca uma mudança histórica: a Coreia do Norte, antes alvo de sanções apoiadas pela Rússia e pela China, surge agora como aliado militar declarado.
Para Kim, o simples facto de partilhar palco com Xi e Putin corresponde a uma legitimação tácita do seu programa nuclear, algo que o regime norte-coreano procura há décadas. Esta é a primeira deslocação de Kim à China desde 2019 e a primeira vez em que surge num contexto encontros multilaterais.
Kim Jong-un entra na China de comboio para assistir a desfile militar com Xi e Putin
Por outro lado, para o Governo chinês, o desfile militar — o primeiro de grande dimensão desde 2019, quando se assinalaram os 70 anos da fundação da República Popular — serve para marcar uma data altamente simbólica — reforça a narrativa histórica do Partido Comunista de que foi o principal vencedor e libertador do país na guerra contra o Japão. Mas é também uma oportunidade para mostrar poder militar, projetar unidade com aliados e afirmar a sua visão de “nova ordem mundial”, marcada pelo que designa como “verdadeiro multilateralismo”, um “mundo multipolar”.
A fotografia conjunta é, em si mesma, um recado: a consolidação de um eixo – já chamado de “Eixo da Revolta“ – que se opõe frontalmente à ordem internacional dominada pelo Ocidente. (O termo nasceu em 2024, cunhado por analistas de política externa do think tank norte-americano Center for a New American Security (CNAS), num artigo publicado na revista ForeignAffairs, e engloba também o Irão.
Especialistas como Youngjun Kim, do instituto norte-americano Bureau of Asian Research, consideram “quase inevitável” a realização de manobras militares conjuntas entre os três países, um cenário que poderia alterar o equilíbrio estratégico no Indo-Pacífico e aumentar a pressão sobre os EUA e os seus aliados regionais, como o Japão e a Coreia do Sul.
Citado pela Reuters, o especialista afirmou que “até há alguns anos, a China e a Rússia eram parceiras importantes na imposição de sanções internacionais à Coreia do Norte pelos seus testes nucleares e de mísseis… Mas agora são potenciais parceiras militares da República Popular Democrática da Coreia durante uma crise na Península Coreana”.
Donald Trump não fez ainda qualquer declaração sobre o desfile, nem sobre o comentário de Xi Jinping que claramente lhe foi dirigido. Mas o seu secretário do Tesouro de Trump, Scott Bessent, considerou a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) “performativa” e acusou a China e a Índia, os maiores compradores de crude russo, de serem “maus atores” por alimentarem a guerra da Rússia na Ucrânia.
O indiano Narendra Modi foi uma das principais figuras da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que decorreu nos últimos dias em Tianjin. Mas Modi e a sua delegação já abandonaram a China, uma decisão que pode estar relacionada com um desejo de não magoar o Japão. Não deixa, no entanto, de ser relevante, a presença do líder indiano em Pequim —a primeira em sete anos — num momento em que as relações entre a Índia e os EUA se têm deteriorado depois de Trump ter duplicado as tarifas sobre as exportações indianas para 50%, face à recusa de Nova Deli em parar de comprar petróleo russo.
Modi “esteve na China num momento em que as relações Índia-China estão a estabilizar e as relações Índia-EUA pioraram. É uma imagem poderosa”, disse Michael Kugelman, analista do Sul da Ásia, em declarações ao The Guardian. “Não tenho a certeza que os responsáveis norte-americanos compreendem plenamente a confiança que desperdiçaram em tão pouco tempo”, sublinhou o especialista.
▲ Kim Yong-un na chegada a Pequin
KCNA/EPA
Para Lim Chuan-Tiong, investigador do Instituto de Estudos Avançados sobre a Ásia, da Universidade de Tóquio, o principal objetivo do “espetáculo temporário” é reforçar o poder de Xi e a força do Partido Comunista Chinês (PCC).
“A maioria dos [líderes] presentes, os convidados, não está lá para apoiar a comemoração chinesa do 80.º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial”, sublinhou Lim ao The Guardian. “Estão lá para dar ‘face’ à China, para dar prestígio aos líderes chineses e para evitar prejudicar as relações bilaterais. Muito simples.”
Dois europeus. Sérvio Vučić e eslovaco Fico presentes em Pequim
Do lado europeu, o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, já chegou a Pequim e o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, também, representando o governo que lidera e que é considerado muito mais pró-russo do que o executivo no poder até 2023.
A Eslováquia, membro da União Europeia desde 2004, estava inicialmente entre os países que apoiavam a Ucrânia no início da invasão russa. Em 2022 e 2023, prestou ajuda militar, incluindo caças MiG-29, e o parlamento designou oficialmente a Rússia como estado patrocinador do terrorismo.
Porém, o cenário mudou drasticamente quando o nacionalista Robert Fico foi eleito no final de 2023. O governo suspendeu, imediatamente, a ajuda militar à Ucrânia e adotou uma postura abertamente pró-Rússia – bloqueando ou enfraquecendo as sanções da UE contra Moscovo.
Fico tornou-se, aliás, o primeiro primeiro-ministro da UE a dar uma entrevista à televisão estatal russa e, em maio de 2025, visitou Moscovo para as comemorações do Dia da Vitória.
▲ Aleksandar Vučić está em Pequim para reforçar a ideia de que a Sérvia se quer posicionar como um parceiro fiável da China nos Balcãs.
Lintao Zhang / POOL/EPA
Já a Sérvia, que não é membro da União Europeia (é candidato à adesão desde 2012), decidiu estar presente por várias razões ligadas a questões de diplomacia estratégica, simbolismo histórico e cálculo político interno.
O país tem vindo a estreitar laços com Pequim, sobretudo no âmbito da chamada “Nova Rota da Seda”. Pequim tornou-se um dos maiores investidores estrangeiros no país, em setores como energia, infraestruturas e telecomunicações e Belgrado vê Pequim como um contrapeso à União Europeia, com quem mantém negociações de adesão tensas.
Por outro lado, a presença de Aleksandar Vučić em Pequim reforça a ideia de que a Sérvia se quer posicionar como um parceiro fiável da China nos Balcãs. Existem laços profundos com Moscovo — culturais, históricos e religiosos — e o país não aderiu às sanções europeias contra a Rússia.
Desta forma, Vučić, criticado internamente por estar a pôr o país “entre dois mundos”, tenta mostrar ao eleitorado sérvio — maioritariamente pró-russo e cético em relação à UE — que não cede à pressão ocidental.
A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, reagiu com indignação, destacando que “quem verdadeiramente apoia a paz não deveria estar ao lado de Putin”. A responsável advertiu que estas decisões “não serão esquecidas” nas futuras negociações sobre a política de alargamento da União Europeia.
E nesta terça-feira a Comissão Europeia deixou bem claro que Roberto Fico, que se encontrou com Putin da parte da manhã, não representa a União Europeia.