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Depois de um resultado ainda pior que o esperado, Jorge Pinto volta à casa de partida

A noite de Jorge Pinto foi ainda pior do que esperava: não só ficou abaixo de Catarina Martins e de António Filipe, como também de Manuel João Viera. Ainda assim, não assumiu a derrota.

Ainda a noite eleitoral estava a começar e já Jorge Pinto subia ao púlpito, na sala do cineteatro de Amarante, para fazer as primeiras declarações da noite. Foi o primeiro candidato a discursar, quase numa tentativa de dar a noite por terminado o mais rápido possível, até porque nenhuma das projeções davam um cenário remotamente positivo. Num discurso curto, o candidato do Livre foi direto: anunciou o apoio a António José Seguro e disse esperar que o partido que o apoia faça o mesmo. Reforçou ainda que a sua candidatura nunca se focou em obter um bom resultado e no final disse mesmo ter sido “a boa surpresa” desta corrida a Belém.

Jorge Pinto marcou o arranque da noite eleitoral. Na sala escolhida para o momento estava preenchida com cerca de 50 apoiantes e o ambiente tranquilo — não houve uma única reação às projeções que foram surgindo nas televisões. O candidato entrou, acompanhado dos deputados Isabel Mendes Lopes, Patrícia Gonçalves, Filipa Pinto e Paulo Muacho, e disse estar “de consciência tranquila” com a campanha que fez e com a decisão de se candidatar. Colocou na agenda o tema da regionalização, do acesso à habitação, da qualidade do SNS e da revisão constitucional, pelo que tinha agora a sensação de “missão cumprida”, disse.

“Obrigámos os candidatos a vir a jogo [ao se posicionarem sobre estes temas]. Este marcar de agenda vai continuar. Que ninguém ache que vamos sair da arena política; cá continuaremos com a mesma força e energia. A República é demasiado importante.” E, sem perder tempo, foi direto à questão que todos os presentes na sala tinham.

Se no debate com todos, na televisão, disse que não seria impedimento a uma vitória de António José Seguro, este domingo Jorge Pinto quis dizer “algo diferente”: “Será por mim que António José Seguro será Presidente da República. Ao que tudo indica, e as sondagens são bastante claras, teremos duas escolhas: alguém que se revê na Constituição e alguém que se opõe a ela”, afirmou, referindo-se ao candidato apoiado pelo PS e a André Ventura.

“Aqueles que, como nós, a querem defender, têm apenas uma decisão a tomar e é estar ao lado daqueles que se revêm na Constituição”, continuou, apelando ao voto a Seguro. No entanto, sublinhou que é necessário que o socialista seja firme na sua defesa, algo que, segundo Jorge Pinto já tinha dito anteriormente, está em falta no socialista.

Pelas 23 horas, quando já estavam apurados mais de metade dos votos, Jorge Pinto consolidava cada vez mais o seu lugar na nona posição, ficando abaixo de Catarina Martins, António Filipe e Manuel João Vieira. E se o candidato inicialmente admitia como “derrota pessoal” ter um resultado pior do que o alcançado pelo Livre nas eleições legislativas (4%), nunca, em momento algum, tinha sido colocado como cenário ficar abaixo de Vieira.

Ainda assim, esta noite, no entanto, a palavra “derrota” não saiu da boca de Jorge Pinto. “O que disse a 1 de novembro [aquando da apresentação da candidatura] foi que vinha para marcar agenda e fazer política de forma séria e ouvir os portugueses. Cumpri perfeitamente. E voltarei a sair à rua para falar com as pessoas”, afirmou, tentando esquivar-se quando foi questionado se este resultado era uma derrota pessoal.

E, perante insistência dos jornalistas, o candidato apoiado pelo Livre declarou que foi “mesmo a surpresa destas eleições”, por ter sido “alguém que passou de um perfeito desconhecido” a alguém que já é reconhecido na rua. Ao longo desta campanha eleitoral, o candidato a Belém destacou várias vezes este aspeto como uma meta que queria atingir — e que conseguiu. “Como é que alguém que, há menos de três meses, conseguiu provar que há novas vozes na política e novas formas de fazer política?”, questionou.

Presidential candidate Jorge Pinto casts his vote at parish council of Cepelos, in Amarante, Portugal, 18 January 2026. More than 11 million voters are called upon to elect the new President of the Portuguese Republic, who will succeed Marcelo Rebelo de Sousa, who has reached the limit of his terms in office. There are 11 accepted candidates, a record number. ESTELA SILVA/LUSA

▲ Jorge Pinto votou na freguesia de Cepelos, em Amarante

ESTELA SILVA/LUSA

Desperdiçar capital político? Jorge Pinto não é Marques Mendes, diz Tavares

Sublinhando que o seu “objetivo nunca foi ter o melhor resultado do mundo”, mas sim marcar a agenda política, Jorge Pinto disse mesmo estar “muito convencido que, daqui para a frente, esta boa surpresa se vai afirmar, independentemente dos resultados desta noite”. O candidato abria aqui a porta ao seu futuro político no Livre, que, segundo o mesmo, não passará pela liderança do partido (pelo menos para já).

“Amanhã peço-vos um sorriso na cara. Este não é o funeral da República. Voltemos a sair à rua, a estar disponíveis e dispostos a lutar pelo país e pela democracia. Os tempos são sombrios, os desafios são grandes e, do outro lado [do antidemocrático], são muitos, mas nós somos os democratas que não desistem. Somos mais”, afirmou, originando vários aplausos na rua. Jorge Pinto, que diz que terça-feira estará de volta ao trabalho parlamentar, definiu aqui que a prioridade, na 2.ª volta destas eleições, será combater André Ventura.

Mas se este será o futuro imediato de Jorge Pinto, o futuro a longo prazo também parece sorridente. O candidato diz estar “disponível” para o partido e o co-porta-voz, Rui Tavares, parece ter ali um trunfo que não quer perder, depois de, na sexta-feira, afirmar que Jorge Pinto “sabe o que está a cultivar para colher a partir estas eleições”.  Jorge Pinto tem “muito para dar”, afirmou Rui Tavares à época.  E “certamente, nestas eleições e nas próximas, estará aqui presente”.

Jorge Pinto ambicionava liderar entre os três candidatos de esquerda e, num cenário melhor ainda, conseguir superar os 4% de Rui Tavares nas legislativas. Tudo menos o que aconteceu este domingo. Mas mesmo perante os resultados que ficaram muito aquém do desejado, Isabel Mendes Lopes mostrou estar em concordância com Rui Tavares. “Temos muito orgulho na candidatura do Jorge, que reflete, em tudo, a postura do Livre. O Livre sai reforçado porque apoiou um candidato que reforça tudo o que defende o Livre e a forma como se revê nesta democracia”, vincou a também co-porta-voz.

E questionados se o partido perdeu capital político com este resultado, tanto Isabel Mendes Lopes como Rui Tavares, afastam esse cenário. “O espaço político do Livre existe e sai reforçado nestas eleições pela consciência e grau de responsabilidade que esta candidatura representou. Claramente o espaço político do Livre continua a existir”, garantiu a primeira.

“O que é que acham que desperdiça capital político? Um jovem de 38 anos a apresentar-se sendo o único que não era líder ou ex-líder político?”, questionou depois Rui Tavares. E logo se virou para o candidato apoiado pelo PSD: “Quem desperdiçou capital político é, neste momento, Luís Marques Mendes e outros políticos que ficam calados e não assumem posições [como Cotrim Figueiredo]. Hoje, esses têm muito menos capital político. Neste momento, a direita pode estar a cometer uma espécie de harakiri político.”

Um mau resultado devido ao voto útil e um apoio a Seguro (ainda não oficial)

Frisando, uma vez mais, que a sua prioridade “é o país” e não obter um bom resultado político, Jorge Pinto não reconheceu ter obtido um mau resultado esta noite. Antes pelo contrário: afirmou que o seu “objetivo foi cumprido” por ter marcado agenda.

Mas logo numa tentativa de justificação reconheceu que é “evidente que o voto útil existiu, e as projeções assim o mostram”. “O medo [de quem ia passar à 2.ª volta] faz parte. Se hoje foi medo, que amanhã o medo se transforme em esperança.”

“Há eleitorado que foi mobilizado [e por isso votou em Seguro]”, reconheceu também Rui Tavares, elogiando a capacidade de “falar à inteligência das pessoas” de Jorge Pinto e fez os possíveis para impedir que passassem à 2.ª volta dois candidatos “anti-Constituição”.

No final desta noite, Jorge Pinto voltou ao ponto de partida: ficou ao lado de António José Seguro. No fundo, foi isso que Jorge Pinto quis fazer desde o início, após propor um pacto republicano entre as esquerdas no dia da apresentação da sua candidatura. E depois também, no debate com todos os candidatos na televisão.

Esta sexta-feira, não só deixou claro que irá “votar em António José Seguro na 2.ª volta”, como lançou o repto ao partido para que siga a sua deixa, apelando que o Livre “faça a mesma coisa”. Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes, no entanto, lembraram que o partido tem “processos internos relativamente às suas escolhas” e só depois poderá assumir uma posição oficialmente. No entanto, o apoio é quase certo, já que “o Livre estará sempre do lado da democracia e da Constituição”, garantiu.

O apoio a António José Seguro surge após uma campanha conturbada marcada por duas tentativas de pacto entre as esquerdas, por um apelo ao voto a Seguro na última semana (que depois foi desmentido por Jorge Pinto) e ainda pelas críticas duras e diretas feitas por Rui Tavares nos comícios do candidato apoiado pelo Livre. O líder e também deputado do Livre salientou que Seguro não tem o que é necessário para defender a democracia do avanço da direita radical, que pretende rever a Constituição.

Alegou também que Seguro se limita a fazer a “política do costume” com os resultados de sempre e que não se afirma nem assume posições claras relativamente a uma revisão constitucional feita exclusivamente pela direita — algo que considera “perigoso”. Este domingo, quase que em resposta a todos estes receios de Rui Tavares e partilhados por Jorge Pinto, o candidato socialista convidou “todos os democratas, progressistas e humanistas” para se unirem e “derrotarem os extremismos”.

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