Desenhos de tanques e arame farpado: a inocência perdida na fuga à guerra

08 Setembro 2015112

Murat já sabe fazer bolas de sabão, mas ainda tem pesadelos com arame farpado. Há muitas crianças a fugir à guerra. Foi nessa fuga que Olussom concebeu um filho que, quando nascer, nascerá europeu.

João de Almeida Dias, em Budapeste

Murat, um menino sírio de cinco anos, nem sabe bem o que lhe espera. Mustafá, o irmão mais velho de 12 anos, molha cuidadosamente um aro de plástico vermelho dentro de uma pequena garrafa cheia com água e sabão. Depois, mete-o à frente da boca de Murat e diz-lhe:

— Agora sopra!

A primeira tentativa sai-lhe gorada. Sopra, é verdade, mas não fechou os lábios num círculo apertado, para que assim o ar passe certeiramente por entre os aros. Mustafá mostra-lhe como tem de pôr a boca, como se fosse um assobio. Murat ensaia o gesto e, pouco depois, já com o aro em frente à boca, sopra como o irmão manda. E, para seu espanto, sem que estivesse a contar com isso, o ar deste acesso à estação de Keleti, em Budapeste, enche-se de bolhas de sabão. As duas mulheres húngaras que trouxeram uma montanha de brinquedos e livros para colorir — “somos mães e achámos que devíamos vir cá brincar com eles, porque precisam muito”, diz-nos uma — aplaudem-no e ele ri alto.

mustafa e murat

Mustafá ensina o irmão mais novo, Murat, a fazer bolhas de sabão.

Aprender a fazer bolhas de sabão está longe de ser a maior prova pela qual estes dois rapazes, irmãos de Rana, de 8 anos, e filhos de Raaman, antiga doméstica, e de Mujab, antigo professor de escola primária, passaram ou irão passar.

Foi em 2013 que tiveram de mudar de vida. A guerra na Síria começou um ano antes, mas não demorou muito a chegar à pequena cidade onde esta família vivia, no Norte do país. Naquela altura, a decisão que tinham de tomar era simples e as opções claras: ou ficavam na Síria e arriscavam a morte, ou deixavam tudo para trás e fugiam para a Turquia.

No verão de 2013, instalaram-se em Istambul, a maior cidade da Turquia. “Não quisemos ir para mais longe porque queríamos ficar perto do nosso país, queríamos voltar para lá. Pensámos que dava para ficarmos algum tempo na Turquia e que depois podíamos regressar a salvo à nossa terra”, conta-nos Raaman, a matriarca. O pai de Mujab, esperançado de que a guerra não ia durar muito tempo, ficou para trás a tomar conta da casa que esta família de cinco deixou quase vazia.

A vida em Istambul não foi como a vida que perderam com o início da guerra na Síria. O facto de estarem sem documentos na Turquia levou-os a terem de escolher entre os poucos caminhos que tinham à frente. Para Mujab, era impensável voltar a dar aulas na primária. Porém, tinha experiência de padeiro — profissão que exercia na Síria sempre que precisava de mais algum dinheiro no final do mês. Assim, aceitaram-no numa padaria. E Raaman, também ela clandestina, começou a trabalhar numa fábrica têxtil.

“Mataram o nosso pai!”

Poucos meses depois de chegarem, já no início de 2014, o dinheiro deixou ser suficiente e Mustafá, que na altura tinha 11 anos, começou a ajudar a mãe na fábrica a troco de um pouco de dinheiro. Enquanto a mãe cosia uma nova peça de roupa, o filho dobrava as que iam ficando prontas. Murat e Rana, então com 4 e 7 anos, não iam à escola ou à creche. Durante o dia, o pai tomava conta deles. Quando a padaria o chamava, de madrugada, Raaman assumia essa responsabilidade.

Quando a família começou a ficar sem dinheiro na Turquia, Mustafá começou a trabalhar com a mãe de forma clandestina numa fábrica têxtil em Istambul. Tinha 11 anos.

Enquanto a vida da família na Turquia piorava, a certeza de que ela não seria melhor na Síria veio por telefone. “Mataram o nosso pai!”, ouviu Mujab do seu irmão, que lhe ligara para dar a notícia. Morreu com um tiro na cabeça, em circunstâncias até agora desconhecidas, dentro da casa a que Raaman e Mujab esperavam voltar.

“Nessa altura tive a maior certeza que já tinha tido na vida. Tínhamos de sair de Istambul, deixar a guerra para trás, fugir para o mais longe possível. Em Istambul não há guerra mas também não há vida para nós. Como é que eu posso educar os meus filhos se eu tenho de obrigá-los a trabalhar para podermos comer? Como é que eles vão estudar, para serem alguém nesta vida? Não podia deixar que lhes tirassem o futuro das mãos”, afirmou Mujab.

O Google deu Holanda

O patriarca começou a fazer contas. Por um lado, tinha algum dinheiro de reserva, para uma emergência. Depois, pediu outro tanto emprestado. A seguir, tratou que tudo o que tinha deixado na Síria, inclusive a casa onde lhe mataram o pai, fosse vendido e que o dinheiro lhe fosse transferido. Por fim, foi ao Google com a mulher e procurou saber qual era o melhor sítio na Europa para poderem retomar as suas vidas. A pesquisa deu-lhes a Holanda — e foi em direção à Holanda que partiram.

“A viagem correu bem”, relativiza Mujab, que já viu as fotografias de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que deu à costa já cadáver depois de se ter afogado na travessia do mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia. “Felizmente não fomos pelo mar, é muito perigoso. À exceção de um rio que tivemos de atravessar de uma margem à outra, fizemos o caminho todo por terra.”

Enquanto atravessam os Balcãs de Sul para Norte, em direção à Hungria, Raaman e Mujab não quiseram que os filhos reparassem que os pais estavam preocupados. "Tentámos esconder isso deles, mas eles não são parvos, eles entendem o que está à volta deles."

Turquia, Grécia, Macedónia, Sérvia e Hungria. Uma trajetória pouco original — de uma maneira ou de outra, a grande parte daqueles que aguarda na estação os comboios em Budapeste, que partem em direção à Áustria, fez este percurso — mas que mesmo assim custou 10 mil euros à família. “Não tínhamos escolha”, diz Mujab.

Quando chegaram à fronteira com a Sérvia e Hungria, depararam-se com a barreira de arame farpado. “Nessa altura estávamos todos muito assustados”, conta Mujab. Até então, os relatos que lhes chegavam da Hungria e da sua guarda fronteiriça eram tudo menos positivos. Por isso, Mujab e Raaman, até aí otimistas, tiveram medo. E pior: os seus três filhos entenderam que não estavam serenos. “Tentámos esconder isso deles, mas eles não são parvos, eles entendem o que está à volta deles.”

Raaman com o seu filho mais novo, Murat, às portas da estação de Keleti, em Budapeste.

Raaman com o seu filho mais novo, Murat, às portas da estação de Keleti, em Budapeste.

Era de noite e não se via nada além da pouca luz que os ecrãs de telemóvel espalhavam. Alguém lhes disse que se andassem para a esquerda, ao longo daquela cortina de ferro, havia uma falha por onde podiam entrar sem problemas. Enquanto caminhavam para lá, Murat tropeçou na terra e caiu diretamente com a cara no chão. Quando os pais o levantaram, tinha o sobrolho esquerdo a escorrer sangue da queda. Mujab pegou num lenço para estancar a hemorragia e pegou no filho ao colo pedindo-lhe que não fizesse barulho. Pouco depois, atravessaram a fronteira através da falha no arame farpado que lhes prometeram. Chegaram à Hungria.

“Nós estamos bem, a sério”, garante Mujab. “Só o Murat é que de vez em quando tem pesadelos, porque ficou muito assustado depois de ter caído. Foi como se naquela altura ele soubesse o que se passa aqui. Mas já passou.”

Não é por acaso que o pai de Murat garante que o seu filho está bem. Afinal de contas, enquanto ele nos conta esta história por intermédio de uma tradutora, o rapaz de cinco anos continua a dar os primeiros passos na arte de fazer bolhas de sabão. Mesmo ali ao lado. Tanto que, uma delas, por pouco não rebenta nos cabelos grisalhos de Mujab.

Os gémeos que nasceram em fuga

Por perto, Parvis passeia-se com a sua filha de dois meses nos braços, envolta numa manta cor-de-rosa. “É a Mahdiz”, diz-nos enquanto a rapariga dorme. “E também há o Mahdia!”, diz-nos, apontando para a tenda onde os refugiados recebem comida dos voluntários que se juntam na estação. É lá que está a sua mulher Mahdia, com o irmão gémeo de Madhiz, nos braços. Em tudo igual, à excepção da manta que, em vez de cor-de-rosa, é azul.

“Nasceram na Turquia, enquanto fugíamos do Afeganistão”, conta-nos. “Saímos de lá por causa dos talibãs, lá há muita guerra, não é só na Síria”, diz-nos em voz baixa, para não acordar o filho. O parto fez-se pelo caminho da fuga. “Não havia hospital, não havia médico, nada… Mas agora está tudo bem!”

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Parvis segura a sua filha Mahdiz, de dois meses.

“Não queria acreditar quando vi aqueles desenhos”

David Markus, um estudante de medicina húngaro de 19 anos, tinha à sua frente um grupo de crianças sírias acabadas de chegar à Hungria vindos de um campo de refugiados. Diz-nos o local mas pede para que não escrevamos: “Fui obrigado a assinar um documento legal a dizer que não ia divulgar o que se passou lá dentro. Sendo assim digo-te o que se passou mas não digo onde foi”. Sentado numa cadeira de campismo do posto médico improvisado na estação de Keleti, David olha em volta para falar. A sala não está muito cheia, além de três mulheres que estão sentadas. Entre elas está Olussom, uma síria de 21 anos com um ar nervoso e com os olhos vermelhos, de quem não há muito tempo estava a chorar.

"Mas houve dois desenhos que me deixaram de rastos. Não queria acreditar quando vi aqueles desenhos."
David Markus, estudante de Medicina húngaro

David retoma, então, a sua história. “Eu estava num sítio onde tinham acabado de chegar refugiados. Entre eles, estavam algumas crianças. E como não havia ligaduras nem comprimidos, mas havia uma resma de papel e uma caixa cheia de lápis de cor, decidi entreter as crianças. Fui ter com um grupo de para aí dez miúdos que estavam sem fazer nada e meti-os a desenhar”, conta.

Pouco tempo depois, os desenhos já estavam prontos, e cada uma das crianças queria mostrar, com orgulho, as folhas de papel já coloridas a David. A maior parte dos desenhos eram talvez iguais aos de qualquer outra criança. “Desenhavam a família deles, desenhavam o sol, flores e árvores grandes”, diz. “Mas houve dois desenhos que me deixaram de rastos. Não queria acreditar quando vi aqueles desenhos.” David tirou o telemóvel do bolso, vai ao arquivo de fotografias e finalmente mostra aquilo de que nos falava.

Em cima, uma folha de papel em que a criança só usou um lápis de cor cinza. Ao lado da sua família, feita com traços infantis, estava um emaranhado de riscos confusos que dividiam a página em dois. Enquanto explicava o desenho, a criança, colocando o dedo de cada um dos lados daquelas bolas cinzentas, dizia-lhe. “Here, Serbia. Here, Hungary.

Por baixo, ainda outro desenho, desta vez a cores. Mais precisamente a verde — verde cor de tanque de guerra, que naquela folha de papel estava desenhado em detalhe e com o canhão apontado a uma pessoa.

Um bebé a caminho

“Aquilo que eu mais noto nas crianças são os pés”, conta-nos David com alguma pressa, porque tem aulas na faculdade de medicina dentro de 30 minutos. “Chegam com cortes nas plantas dos pés, com feridas, bolhas… Têm de andar muito e raramente têm cuidados médicos. É horrível.”

David está mesmo com pressa e faz sinal de que vai sair. Mas, quando já se está a preparar para ir porta fora, arreda o passo. Isto porque Olussom, a rapariga síria que ali se sentava com um ar preocupado, acaba de sair da casa de banho. Tem uma notícia para dar, mas as lágrimas de felicidade que lhe caem da cara entopem-lhe a fala. Por isso, mostra à médica responsável pelo posto a razão da sua emoção: um teste de gravidez positivo.

“Vais ter um bebé?! Estás grávida, estás grávida! Aaaah! Parabéns, parabéns!”, diz-lhe a médica, que quase salta para cima de Olussom num abraço.

David, já de mochila às costas, pergunta à jovem mulher que agora sabemos estar grávida se lhe pode tirar uma fotografia. “Quero recordar-me deste momento” diz. Ela acede, antes de sair com um sorriso enorme na cara. Dentro de alguns meses vai ter o primeiro filho e daqui a 30 minutos parte para um comboio com destino a Viena.

grávida

Olussom, 21 anos, chora de felicidade depois de o teste de gravidez dar positivo.

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